A Felicidade não se Compra e uma reflexão sobre providência e sofrimento

A primeira vez que me lembro de ter tido algum contato com o filme A Felicidade não se Compra foi assistindo a Friends, uma das minhas séries preferidas. Para quem não se lembra (ou nunca assistiu), em um episódio da segunda temporada, Phoebe, uma das personagens mais positivas da série, descobre que sua mãe costumava…

A primeira vez que me lembro de ter tido algum contato com o filme A Felicidade não se Compra foi assistindo a Friends, uma das minhas séries preferidas. Para quem não se lembra (ou nunca assistiu), em um episódio da segunda temporada, Phoebe, uma das personagens mais positivas da série, descobre que sua mãe costumava desligar filmes com finais tristes antes do término, numa tentativa de poupá-la da dor. Com compaixão pela amiga e tentando restaurar a fé de Pheebs na humanidade, Mônica lhe empresta uma cópia de A Felicidade não se Compra. O que, cá entre nós, não sei se foi exatamente uma boa indicação para a situação.

O filme, dirigido por Frank Capra, é uma das obras cinematográficas mais emblemáticas sobre o valor da vida humana, o sentido do sofrimento e a verdadeira natureza da felicidade. A narrativa acompanha George Bailey, um homem comum que, ao longo da vida, abdica de seus próprios sonhos em favor do bem-estar da comunidade. Em meio a crises financeiras, frustrações pessoais e esgotamento emocional, George chega ao ponto de desejar nunca ter nascido (entende agora por que talvez não tenha sido uma indicação tão acertada para a Phoebe?). É nesse momento de desespero que o filme constrói sua principal pergunta: qual é o valor de uma vida diante do sofrimento?

E, para tentar responder a essa pergunta levantada pelo filme (e entender a indicação de Mônica à Phoebe), quero fazer um paralelo entre A Felicidade não se Compra e a história por trás do hino Aflição e paz (It Is Well with My Soul).

Embora produzido em um contexto cultural amplo, distante de uma confessionalidade explícita, o enredo do filme – no qual uma vida, ainda que marcada por perdas pessoais, pode ser usada como canal de esperança – dialoga profundamente com princípios da nossa fé, especialmente à luz da providência soberana de Deus.

Esse mesmo princípio está presente na história real de Horatio Spafford, advogado presbiteriano norte-americano, profundamente envolvido com a fé cristã e com o ministério da igreja e, além disso, autor do hino Aflição e paz.

Em 1873, dois anos após perder praticamente todos os seus negócios no Grande Incêndio de Chicago, uma das maiores tragédias urbanas do século 19, buscando descanso físico e espiritual para sua família, Spafford decidiu enviar sua esposa, Anna, e suas quatro filhas (Annie, Maggie, Bessie e Tanetta) para a Europa, enquanto ele permaneceria nos Estados Unidos por compromissos profissionais. Durante a travessia do Atlântico, o navio SS Ville du Havre colidiu com outra embarcação e afundou rapidamente. As quatro filhas de Spafford morreram no naufrágio. Sua esposa Anna foi resgatada, chegando à costa com vida.

Ao receber a notícia, Spafford embarcou imediatamente rumo à Europa para encontrar sua esposa. Durante a viagem, ao passar pelo local aproximado onde suas filhas haviam morrido, profundamente abalado, escreveu as palavras que se tornariam um dos hinos mais conhecidos da fé cristã:

When peace like a river, attendeth my way,
When sorrows like sea billows roll;
Whatever my lot, Thou hast taught me to say,
It is well, it is well with my soul.

Na tradução consagrada em português, no hinário Novo Cântico nº 108:

Se paz a mais doce me deres gozar

Se dor a mais forte sofrer

Oh! Seja o que for, tu me fazes saber

Que feliz com Jesus sempre sou!

Aqui, felicidade não é ausência de sofrimento, mas descanso confiante no caráter de Deus, uma compreensão que rejeita uma fé utilitarista ou triunfalista e afirma que a verdadeira alegria está enraizada na justificação em Cristo e na reconciliação com Deus, e não em circunstâncias favoráveis da vida.

A Felicidade não se Compra, assim como o hino, desmonta a noção moderna de felicidade como realização pessoal, sucesso financeiro ou satisfação de desejos individuais. O protagonista George Bailey só reconhece o valor de sua vida quando percebe que sua existência foi significativa não por aquilo que conquistou, mas por aquilo que entregou, uma percepção que nos lembra que fomos criados para a glória de Deus (Soli Deo Gloria), e não para a autopromoção.

Assim, tanto o filme quanto o hino, ainda que por caminhos e intencionalidades diferentes, apontam para a mesma verdade: a vida tem valor porque pertence a Deus, e não porque atende às expectativas humanas. O sofrimento, longe de ser sinal de abandono divino, pode ser instrumento de santificação, humildade e dependência da graça.

A verdadeira felicidade não está em controlar o curso da própria história, mas em confiar naquele que governa todas as coisas com sabedoria perfeita.

Por isso, meu convite é para que você assista ao longa e escute o hino sob uma nova perspectiva, lembrando que a esperança cristã não se fundamenta em um final feliz terreno, mas na certeza de que, em Cristo, tudo vai bem, mesmo quando o mundo ao redor parece desmoronar.

A jornalista Gabriela Cesario é produtora e editora de texto do Brasil Presbiteriano e Coordenadora de Marketing da Cultura Cristã

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  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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