Atração pelo mesmo sexo como pecado
Atração pelo mesmo sexo como pecado Mark Jones, 13 de março de 2023. Há muita confusão acerca da natureza da tentação e da atração pelo mesmo sexo. Muitos cristãos, e até mesmo pastores e teólogos — sendo alguns deles ostensivamente reformados —, creem que a tentação pelo mesmo sexo não é pecado. Para eles, o…
Atração pelo mesmo sexo como pecado
Mark Jones, 13 de março de 2023.
Há muita confusão acerca da natureza da tentação e da atração pelo mesmo sexo. Muitos cristãos, e até mesmo pastores e teólogos — sendo alguns deles ostensivamente reformados —, creem que a tentação pelo mesmo sexo não é pecado. Para eles, o pecado só ocorre quando o ato propriamente dito é consumado. Outros afirmam que o pecado original nos torna culpados diante de Deus, mas que aquilo que o pecado produz algo não é passível de culpa a menos que a vontade consinta nesse desejo. Portanto, argumentam eles, um pensamento impuro pode surgir na mente, mas, se lutarmos contra ele, não teremos pecado. O que devemos pensar desses argumentos e de outros semelhantes a eles?
A mente
Os atos internos da mente envolvem, como diz Thomas Goodwin em sua obra The Vanity of Thoughts, “todos os raciocínios, consultas, propósitos, resoluções, intenções, fins, desejos e inquietações da mente do homem, em oposição às nossas palavras e ações externas” (Works, 3:510).
O próprio Goodwin reconhece que “os homens geralmente imaginam que os pensamentos são livres” (Ibid.). Contudo, os nossos pensamentos são julgados pela lei (Hb 4.12); eles podem receber perdão (At. 8.22); é possível arrepender-se deles (Is 55.7); pensamentos podem contaminar uma pessoa (Mt 15.18-19); e também podem revelar hipocrisia (Is 29.13) (v. Goodwin, Works, 3:512–13).
Goodwin conclui sua análise dos pensamentos pecaminosos observando que nossos pensamentos “são os primeiros instigadores de todo o mal em nós. Pois eles causam o movimento e também aproximam o coração e o objeto, são alcoviteiros de nossas concupiscências, sustentam o objeto até que o coração tenha cometido adultério com ele e praticado loucura; assim, na impureza especulativa e em outras concupiscências, eles sustentam as imagens dos deuses que criam, diante dos quais o coração se prostra e adora; apresentam crédito, riquezas, beleza, até que o coração os tenha adorado, e isso quando as próprias coisas estão ausentes” (Works, 3:512–13).
As primeiras moções da mente (isto é, os pensamentos), quando discordantes da lei de Deus, são pecaminosas. Como diz a Confissão de fé de Westminster (6.5), a corrupção da natureza permanece nos regenerados; e embora em Cristo os nossos pecados sejam perdoados (justificação) e mortificados (santificação), “todavia ela mesma e todos os seus movimentos são verdadeira e propriamente pecado.”
Devemos também lembrar que Deus sonda os movimentos interiores do coração com mais clareza do que qualquer homem pode observar nossas ações exteriores. Como diz Charnock: “Devemos corar tanto diante do surgimento de pensamentos impuros perante o entendimento de Deus quanto diante da descoberta de ações indignas ao conhecimento dos homens, se vivêssemos sob a consciência de que nem um único pensamento dentre aqueles milhões que esvoaçam em nossa mente pode ser ocultado dele. Quão vigilantes e cuidadosos deveríamos ser com nossos corações e pensamentos” (Existence and Attributes, p. 733).
Por que deveríamos corar diante do surgimento de um pensamento impuro se tal pensamento não fosse pecado?
A licitude de um pensamento deve ser governada pela vontade de Deus, especificamente por sua lei, que fornece a base moral para o que é certo e para o que é errado. Pensamentos e desejos procedem da vontade; mas como devemos compreender o pecado em sua relação com a vontade?
A vontade
Ao procurar compreender se a atração pelo mesmo sexo é pecaminosa ou não, é necessário considerar como falamos do pecado voluntário em relação à vontade. Podemos distinguir entre a vontade considerada de modo estrito (estritamente) e considerada de modo amplo (geralmente). Esta distinção é importante, assim como a distinção entre a imagem de Deus considerada ampla e estritamente. (Perdemos a imagem de Deus, falando estritamente; mas, amplamente, ela não foi perdida e, assim, ainda podemos dizer que somos feitos à imagem de Deus — Gn. 9.6; Tg. 3.9).
Quanto à vontade considerada de modo estrito, ela se refere àquilo que é feito por um movimento deliberado da vontade. Contudo, quanto à vontade considerada de modo amplo, ela se refere a qualquer coisa que afete a vontade ou dependa dela. Todo pecado é voluntário em certo sentido, se falamos da vontade considerada amplamente. Mas, estritamente falando, nem todo pecado é necessariamente voluntário. Um pensamento pode surgir “subitamente” diante da mente sem que haja qualquer desejo deliberado de que ele apareça. Para usar a linguagem de Goodwin, tais pensamentos são como “batidas e interrupções”, que podem irromper no coração de um crente (Works, 3:510). Isso, porém, não significa que um certo pecado “involuntário” possa contornar a vontade.
Alguns na tradição católica romana argumentaram que movimentos involuntários contrários à lei de Deus não são pecados. Francis Turretin observa que “os primeiros movimentos da concupiscência não deixam de ser pecados, embora não sejam inteiramente voluntários nem estejam em nosso poder” (Rm. 7.7) (Institutes, 9.2.5).
Retornando à vontade considerada amplamente, Bavinck explica bem como pecados involuntários simplesmente não podem ocorrer à parte da vontade humana: “Há não somente uma vontade antecedente, mas também uma vontade concomitante, consequente e aprovadora. Mais tarde, em maior ou menor grau, a vontade aprova a pecaminosidade de nossa natureza e se deleita nela… mesmo o pecado que é cometido sem ter sido querido não ocorre totalmente à parte da vontade” (Reformed Dogmatics, 3:144).
Tudo isso significa que jamais podemos desculpar nossos pensamentos ou desejos impuros simplesmente porque não são atos voluntários. A vontade, em certo sentido, está sempre em operação, pois, como seres humanos, nunca deixamos de querer. Ser é querer. Além disso, aqueles desejos pecaminosos “involuntários” que surgem são o resultado de certos padrões de pensamento que cultivamos em nossa vida. Se frequentemente meditamos em pensamentos pecaminosos, não deveríamos nos surpreender com a ocorrência de pensamentos intrusivos pecaminosos “involuntários”. Inversamente, à medida que cultivamos bons pensamentos, não deveríamos nos surpreender com pensamentos justos “involuntários” que emergem da vontade. Em outras palavras, somos responsáveis por tudo o que pensamos, porque nossos pensamentos não estão isolados de quem somos.
Tentação e pecado
Cobiçar no coração aquilo que se opõe à lei de Deus é opor-se àquilo que é bom. Aqui estamos tratando das tentações internas, entendidas como a deliberação para pecar. Assim, o pecado possui diversos estágios, a saber:
- Inclinação e propensão, um ato da vontade considerada ampla ou estritamente (involuntário e voluntário);
- Deliberação (por meio de tentação interior ou exterior, ou ambas);
- A resolução de pecar (sempre voluntária);
- O próprio ato;
- Um certo prazer em praticar o ato;
- Vanglória (ou jactância);
- Repetição deliberada do ato.
Não há estágio algum em que não sejamos culpáveis. Evidentemente, nem todos esses estágios são necessários para que o pecado ocorra. A tentação, interiormente, pode ser pecaminosa, mas um cristão pode arrepender-se de uma tentação interior antes que ela se torne um desejo de consumar o pecado ou de agir de acordo com ele.
O que é tentação? Como observa John Owen: “É o levantar-se no coração, e o propor à mente e às afeições, aquilo que é mau; testando, por assim dizer, se a alma cederá às suas sugestões ou até onde as levará adiante, embora não prevaleça totalmente. Ora, quando tal tentação vem de fora, ela é para a alma uma coisa indiferente, nem boa nem má, a menos que seja consentida; mas a própria proposição vinda de dentro, sendo o próprio ato da alma, é seu pecado” (Works, 6:194).
Se a tentação for entendida dessa maneira, então uma proposição em direção àquilo que é mau (por exemplo, a atração pelo mesmo sexo) é pecaminosa.
Como observa John Davenant: “embora a própria faculdade do desejo não seja pecado, todavia a inclinação e a propensão dela para o mal são pecado; mesmo em alguém adormecido, quando de modo algum se inclina de fato ao pecado” (A Treatise on Justification, 1:127). Como aqueles em quem ainda habita o pecado remanescente, possuímos o hábito do pecado, que pode conduzir a atos pecaminosos. Mortificamos não apenas os atos, mas também o hábito, o que significa que nos arrependemos não somente pelo ato, mas também pelo hábito do pecado (isto é, por sua mera presença). Em outras palavras, arrependemo-nos por aquilo que somos, embora perdoados, porque ainda somos aqueles em cujo próprio ser permanece impureza remanescente. Davi, no Salmo 51, não estava preocupado apenas com seus atos, mas com o próprio fato de sua pecaminosidade.
Cristo tentado em todas as coisas
Diante do que foi exposto acima, sustento que Cristo não era “suscetível a tentações provenientes de seu interior”. Se me for permitido resumir a visão básica dos teólogos reformados, eu argumentaria o seguinte:
Nossas tentações geralmente surgem do nosso interior, à medida que somos atraídos por desejos que dão à luz pecados como a incredulidade e a cobiça pecaminosa (Tg. 1.14-15). Jesus estava livre desses tipos de tentações. Ele não possuía uma inclinação para o mal nem a “inclinação e propensão” do desejo para o mal que procede do interior.
Por exemplo, como o único sem pecado, cheio do Espírito sem medida, ele não experimentou cobiça por uma mulher em seu coração; contudo, isso não significa que não considerasse certas mulheres atraentes. Como homem, ele teria experimentado uma atração natural por uma bela mulher. A beleza é necessariamente atraente. Entretanto, essa “atração” era sempre mantida sob perfeito controle. Em momento algum ela passou para o âmbito da cobiça ou do desejo lascivo. Ele não apenas tratava, mas também pensava nas mulheres com “absoluta pureza” (1Tm. 5.2).
Confiar em si mesmo ou ceder por um momento a um pensamento ou ato concupiscente sempre traz consigo um apelo, mas Jesus não podia e não fez isso. Ele sempre confiou a si mesmo ao seu Pai. Ele sempre respondeu perfeitamente a qualquer situação em que se encontrava tentado.
Não havia, porém, quaisquer impulsos pecaminosos em Cristo que se originassem do interior de sua natureza humana. Como Jesus possuía enfermidades, tinha fraquezas humanas naturais que, por exemplo, o tornavam sujeito à fome. Assim, o diabo o tentou nessa área, na esperança de que Jesus não dependesse de Deus, mas apenas do pão. O desejo de comer quando se está com fome não é pecaminoso, mas tal desejo à custa da fé na provisão de Deus o é.
A cobiça homossexual, mesmo quando não consumada, é pecaminosa. Mesmo a atração homossexual deve ser mortificada, porque não é natural, mas antes antinatural. É uma tentação em direção àquilo que é mau. Portanto, não apenas o próprio ato, mas também a “deliberação” que surge da “inclinação e propensão” é pecaminosa e precisa ser mortificada (Rm. 8.13). As inclinações precisam ser reorientadas para que as propensões sejam reorientadas. Desse modo, o filho justificado de Deus é libertado cada vez mais das resoluções de pecar.
A fé cristã tem, de fato, considerado a orientação homossexual como uma perversão e sua expressão como um pecado grave. Mas, se alguém quiser argumentar que a tentação interior na forma de desejos homossexuais não é inerentemente pecaminosa porque Cristo foi tentado em tudo como nós, terá de fazer algo melhor do que simplesmente fazer essa afirmação.
Resumo
Quanto àqueles que desejam argumentar que o pecado original nos torna culpados diante de Deus, mas que o pecado original produz algo que não é passível de culpa a menos que a vontade consinta com esse desejo, estes devem sustentar uma concepção da vontade bastante diferente da visão reformada clássica da vontade. A atração pelo mesmo sexo é um ato da vontade, mas é um ato desordenado e, portanto, precisa ser mortificado e objeto de arrependimento.
Em Cristo, esses movimentos não apenas são perdoados, mas podem e devem ser mortificados. Na medida em que nos revestimos daquilo que é bom, despimo-nos daquilo que é mau; os movimentos interiores que surgirem serão mais semelhantes a Cristo do que à carne, à medida que continuarmos a pensar em “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, [e] tudo o que é de boa fama…” (Fp. 4.8).
— Mark Jones (Ph.D., Leiden) é ministro da Faith Vancouver Presbyterian Church (PCA), no Canadá, desde 2007.
