Como devemos orar? | Kevin DeYoung
De acordo com Jesus, há dois “grandes nãos” quando se trata de como oramos: não seja como os hipócritas, e não seja como os pagãos. Em primeiro lugar, portanto, Jesus não quer que sejamos como os hipócritas ao orar: E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas…
De acordo com Jesus, há dois “grandes nãos” quando se trata de como oramos: não seja como os hipócritas, e não seja como os pagãos. Em primeiro lugar, portanto, Jesus não quer que sejamos como os hipócritas ao orar:
E, quando orardes, não sejais como os hipócritas; pois gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam sua recompensa. Mas tu, quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu Pai que está em secreto; e teu Pai, que vê o que é secreto, te recompensará (Mt 6.5-6).
Vamos deixar claro o que entendemos pelo termo hipócrita. A palavra grega hypocrites significa “ator de teatro”. Com sentido negativo, refere-se a alguém que veste uma máscara e desempenha um papel, alguém que finge ser o que não é. Esse é também basicamente o significado do termo hipócrita em português. Os hipócritas dizem acreditar em uma coisa, mas, na prática, vivem de um modo completamente diferente. É o caso do célebre vegetariano que come bacon toda noite, do inimigo ferrenho da indústria do tabaco que fuma um maço de cigarros por dia, do defensor dos valores da família que dorme com prostitutas — são todos hipócritas. Fingem ser o que não são. Seu fingimento tem como principal objetivo ganhar o aplauso e a estima das pessoas.
Com frequência, os cristãos pensam em hipócritas como pessoas que fazem uma coisa, mas cujos sentimentos não coincidem com a ação. Isso, porém, não é hipocrisia. Os hipócritas ostentam uma série de princípios, mas vivem de acordo com princípios diferentes dos que ostentam. Quando você vai à igreja mesmo sem vontade, isso se aproxima mais da fidelidade. Quando você faz a coisa certa em seu casamento, mesmo sem sentir muito amor, isso é lealdade. Já ouvi muitas vezes: “Pastor, eu seria hipócrita se continuasse casado, porque o amor acabou”. Ou: “Eu seria hipócrita se fosse ao culto, porque não sinto vontade de ir”. Ou: “Eu seria hipócrita se orasse, porque não sei bem em que creio e me sinto distante”. Fazer o que é certo quando não se tem vontade de fazê-lo é maturidade. Professar uma coisa em público, mas viver outra coisa diferente em particular, isso sim é hipocrisia.
Vemos claramente o que Jesus tem em mente em Mateus 6.1: “Cuidado para não praticardes boas obras diante dos homens a fim de serdes vistos por eles; do contrário, não tereis recompensa de vosso Pai, que está no céu”. É isso que fazem os hipócritas. Eles não amam a Deus de fato. Eles não gostam nem um pouco do reino. Não gostam de modo algum de santificar o nome de Deus. Gostam de orar nas sinagogas e nas esquinas das ruas. Gostam de ser vistos pelos outros. Não há nada de errado, obviamente, em orar em público. Jesus não está tentando acabar com o culto público ou a oração comunitária (cf. Mt 18.19-20; At 4.24-30). Quando Jesus chega a 6.9, ele pressupõe um contexto coletivo de oração. Ele faz um alerta contra o que é muito comum em nosso coração — e talvez mais no coração do pastor do que no de qualquer outra pessoa: ser religioso em público mais do que em particular. Nossa vida de oração deveria ser como iceberg no oceano: uma grande massa de espiritualidade sob a superfície e que é invisível aos olhos dos outros, e não como uma alface americana boiando na água, com todo o “conteúdo” visível e nada de substância por baixo. Nossa vida de oração deve ser mais do que aquilo que salta aos olhos.
Jesus faz um alerta a todos nós, mas especialmente aos pastores, presbíteros, diáconos, líderes de estudo bíblico feminino, líderes de pequenos grupos e qualquer um que esteja envolvido com o ministério público. Cuidado com o profissionalismo religioso. Cuidado para não dizer as coisas certas fora de casa e fazer tudo errado dentro de casa. Você talvez consiga enganar as pessoas durante uma hora ou duas uma vez por semana, aos domingos, mas você não está enganando a Deus, e não está enganando as pessoas que estão perto de você. Cuidado com esse tipo de profissionalismo religioso. Não ore para ser visto pelos outros.
Em vez disso, Jesus diz que devemos fechar a porta e orar para sermos vistos por Deus. Está claro para você que a oração é uma questão de fé? Será que acreditamos de fato que Deus nos ouve quando oramos? Acreditamos que Deus nos vê? Acreditamos que ele nos recompensará? Quando oramos em secreto, acreditamos que há um Deus que vê em secreto e nos ouve? Para isso é preciso fé. Se você gosta dos louvores dos homens, é só isso que você terá. Jesus diz: “Não seja tolo. Não viva sua vida à espera do aplauso humano se pode ter o aplauso divino”. Quem se importa se as pessoas o acham incrível se você pode viver sob o sorriso de Deus? Você acha que o Deus em secreto o vê e o recompensa?
Há alguns meses, minha esposa e eu compramos uma babá-eletrônica: um kit que vinha com um monitor e uma câmera de vídeo. Agora sabemos por que nosso filho de dois anos dorme até tarde de manhã. Ele brinca no berço durante duas horas depois de o colocarmos para dormir. É surpreendente ver o que ele faz de fato quando não sabe que o estamos vendo. Imagine agora que você é uma criança de sete anos de idade e que ama seu pai. Você o admira. Você sabe que ele cuida de você. E seu pai tem uma câmera em todos os cômodos para ver o que você está fazendo. Isso, porventura, não faria diferença na forma como você vive sua vida — não apenas no que diz respeito a fazer coisas erradas, mas também ao modo como você faz as coisas certas? A criança não precisa se sentir pressionada a se equiparar a seus amigos. Não precisa dar um show. Não precisa fingir ser o que não é. Ela precisa apenas ser a mesma pessoa onde quer que vá, porque em qualquer lugar, seu Pai a vê — não para castigá-la, neste caso, mas para recompensá-la! Viva para quem você não vê, não para quem vê. Não seja hipócrita.
Em segundo lugar, Jesus não quer que sejamos como os pagãos quando oramos:
E, quando orardes, não useis de repetições inúteis, a exemplo dos gentios; pois eles pensam que serão ouvidos pelo muito falar. Não vos assemelheis a eles; pois vosso Pai conhece de que necessitais, antes de o pedirdes a ele (Mt 6.7-8).
Jesus usa o termo “gentios” no versículo 7, mas não está pensando em etnicidade. Ele está pensando nas pessoas que oram, mas que não conhecem o Deus verdadeiro.
Há alguns anos, eu estava em Nova York com um grupo de cristãos no intuito de me reunir com diversos líderes religiosos da cidade e ouvir o que tinham a dizer. Entre outras coisas, assistimos, com a devida permissão e em um local reservado, a rituais sikhs e hindus. Estou certo de que muita gente ali era sincera em suas crenças, e respeitamos seu direito de adorar como achavam adequado. Cremos que todos têm direito à liberdade religiosa. E, no entanto, da perspectiva cristã, compreendi exatamente o que Jesus disse. Vi jovens executando rituais religiosos para os espectadores. Aqueles jovens pareciam pouco interessados no que faziam. Estavam acendendo velas, espargindo incenso ou orando por outras pessoas. A questão é que o ritual simplesmente foi executado. As palavras foram proferidas e as frases repetidas.
É possível ver esse mesmo fenômeno no mundo todo. Na maior parte dos países muçulmanos, o que importa é tão somente os rituais executados. Basta dizer as palavras certas e olhar para o lado certo na hora certa. Alguns países budistas usam rodas de oração. As pessoas colocam suas orações em um cilindro e o giram várias vezes, de modo que as orações sejam multiplicadas. É um ritual; é mecânico. Para Jesus, isso não é oração de jeito nenhum. Orar não é como aquelas enquetes de internet para eleger o melhor jogador de uma partida ou o vencedor de um reality show, nas quais é possível votar quantas vezes quiser, de modo que quanto mais você apertar o botão, mais chances seu escolhido tem de ganhar.
É verdade que Jesus nos exorta a orar e a jamais desistir (Lc 18.1-8), porém a oração persistente é muito diferente da oração do tagarela. A palavra usada em Mateus 6.7 é battalogeo, que significa: empilhar expressões vazias ou falar demais (NIV). A versão Nova Almeida Atualizada usa a expressão “vãs repetições”. O termo grego é uma espécie de onomatopeia, uma palavra que soa como o som que tenta reproduzir (p. ex., oinc, miau, atchim). Pare com o bat-ta-lo-ge-o, diz Jesus. Não sejam como os pagãos, que acham que o simples pronunciar das palavras agrada a Deus. Na oração, o objetivo não é completar algum ritual mecânico.
Dizer palavras vazias e sem sentido na oração ocorre com mais frequência do que imaginamos. Pode acontecer nas igrejas mais litúrgicas. O pastor lê aquelas fórmulas litúrgicas, recheadas de palavras muito específicas e trabalhadas durante séculos, com a paixão e a intensidade de um funcionário de call center que já leu tudo aquilo milhões de vezes (“Esta chamada poderá ser gravada para fins de qualidade e de treinamento. Tudo bem com o sr. hoje, sr. DeYoung?”). Podemos recitar o Credo dos Apóstolos, ou o Pai-Nosso, ou fazer uma leitura responsiva como se fossem experiências transcendentais. Mas é muito comum que essas palavras se transformem em uma repetição decorada sem vida e árida.
Por outro lado, pode-se orar também com expressões vazias e palavras sem sentido em igrejas informais que não recorrem a liturgias pré-definidas. A oração da liderança do culto pode ser feita sem planejamento empilhando frases sem muito sentido, ou podem ser até mesmo heréticas. “Ó querido Senhor, Deus Pai, nós te louvamos porque o Senhor morreu na cruz pelos nossos pecados. Pedimos apenas, Espírito Santo, que estejas conosco hoje e nos aconchegues sob o manto do teu amor”. Talvez achemos que quanto mais emocionais forem nossas orações, quanto mais empilharmos títulos divinos, tanto mais Deus nos ouvirá. John Stott chamava esse tipo de oração de “palavrório com zero raciocínio e nenhum coração”.[1]
Não precisamos impressionar Deus com nossas fórmulas ou com nossa espontaneidade. Ele sabe do que precisamos antes mesmo de lhe pedirmos (Mt 6.8). Não oramos porque Deus precisa de ajuda para administrar o universo. Não oramos para mudar a mente de Deus. Oramos porque Deus instituiu meios para alcançar seus propósitos. Ele dispôs as coisas de modo que concede mais graça àqueles que lhe pedem. Deus não precisa de oração, mas ele a usa, assim como usa outros meios. Ele usa a chuva para que as lavouras floresçam, o sol para aquecer a terra e o alimento para fortalecer nosso corpo. Da mesma maneira, Deus usa a oração para realizar sua obra soberana. Na oração, não estamos instruindo Deus; instruímos a nós mesmos.
Observe novamente a motivação de 6.9, pois a instrução no versículo 8 se baseia naquele que vê em secreto. Jesus ainda não ensinou seus discípulos pelo que orar, mas já é possível observar como é importante saber para quem estamos orando. Não estamos orando para um treinador impetuosos, ou para um rei distante, ou para um supervisor austero. Estamos orando para nosso Pai celestial. Se você acredita que ele é um bom Pai, então não precisa tentar impressionar outras pessoas. Você sabe que Deus vai cuidar de você. E se você acredita que ele é um Pai magnífico, então sabe também que não precisa empilhar palavras vazias. Você sabe que Deus conhece todas as suas necessidades. Ninguém ganhará crédito extra com o acréscimo de palavras.
Quando passo um trabalho para meus alunos do seminário, tenho de lhes dar o número aproximado de palavras que quero, ou eles não saberão que tipo de trabalho terão de escrever. Mas eu sempre lhes digo: “Não ultrapassem esse número! Não quero ler mais do que tenho de ler! E não enrolem. Digam o que têm a dizer e basta. Vou avaliar o que vocês dizem, não o fato de terem encontrado uma maneira prolixa de dizer”.
Notas
[1] John Stott, The message of the Sermon on the Mount (Downers Grove: IVP Academic, 1978), p. 144 [publicado em português por ABU Editora sob o título A mensagem do Sermão do Monte com John Stott].
Trecho extraído da obra “O Pai-Nosso“, de Kevin DeYoung, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2026, p.16-25. Publicado no site Cruciforme com permissão.
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Foto de Malachi Cowie na Unsplash
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Kevin DeYoung é o pastor principal da University Reformed Church, em East Lansing (Michigan). Obteve sua graduação pelo Hope College e seu mestrado em teologia pelo Gordon-Conwell Teological Seminary. É preletor em conferências teológicas e mantém um blog na página do ministério The Gospel Coalition. Autor dos livros Os Dez Mandamentos, Homens e mulheres na igreja e Cristianismo impossível, publicados por Vida Nova |
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Sabemos da importância da oração, mas, muitas vezes, sua prática gera frustração. Livros que focam incessantemente no dever de orar costumam trazer mais culpa do que segurança. O segredo para mudar essa situação não está em seguir receitas ou repetições vazias, mas em aprender com aquele que melhor conhece o Pai. Com precisão teológica e sensibilidade pastoral, em O Pai-Nosso: aprendendo com Jesus sobre o que, por que e como orar, Kevin DeYoung examina com cuidado a oração ensinada por Cristo. Ele desvenda o contexto de cada petição, mostrando de forma prática como ela equilibra perfeitamente o zelo pela glória de Deus e a nossa total dependência de sua provisão, perdão e proteção. Cada capítulo acompanha um guia de estudo que pode ser usado em grupo, no discipulado de novos convertidos ou para a edificação pessoal. Mergulhe neste guia conciso para descobrir a convicção e a liberdade necessárias para abraçar o maior dos privilégios: a comunhão com o Deus vivo. |
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