Pastor-cirurgião, ganhador do Nobel da Paz, luta contra a violência sexual no Congo
Aviso sobre conteúdo sensível: O artigo a seguir inclui discussões sobre estupro e violência. Se quiser conhecer o Dr. Denis Mukwege, basta acordar antes de o sol nascer e ir de bicicleta até os arredores de Bukavu, desviando de valas de esgoto e buracos na estrada de terra que leva a um portão de entrada….
Aviso sobre conteúdo sensível: O artigo a seguir inclui discussões sobre estupro e violência.
Se quiser conhecer o Dr. Denis Mukwege, basta acordar antes de o sol nascer e ir de bicicleta até os arredores de Bukavu, desviando de valas de esgoto e buracos na estrada de terra que leva a um portão de entrada.
Uma vez lá dentro, a primeira coisa que se ouve no Hospital Panzi, que fica na República Democrática do Congo, é um coro de mulheres, cujas vozes preenchem o ar da manhã com suas canções, anunciando que o culto na capela já começou.
De adolescentes a idosas, elas se espalham em fileiras por uma área coberta, ao redor de um pátio ladeado por canteiros de flores bem cuidados. Algumas marcam o tempo da canção com chocalhos de lata. Outras carregam bebês adormecidos ou que estão sendo amamentados. Uma paciente, talvez de uns 10 ou 12 anos, enrola um pagne [pano retangular colorido] estampado de flores em torno do seu bebê, para carregá-lo nas costas.
“Escale a montanha”, cantam as mulheres em suaíli [língua bantu falada na África Oriental]. “Chame Jesus, e ele agirá.”
O Dr. Mukwege fundou o Hospital Panzi há 26 anos, depois de ter servido como diretor-médico em um hospital missionário, que foi destruído por rebeldes que lutavam contra o exército congolês. O obstetra e ginecologista construiu o novo hospital para ajudar mães a darem à luz com mais segurança. Mas sua primeira paciente foi uma mulher que havia sido estuprada. E muitas outras sobreviventes de estupro vieram em seguida. Diante disso, o médico percebeu que seu chamado havia mudado.
Ao nascer do sol deste dia específico, com as forças rebeldes novamente se aproximando, as mulheres cantavam sobre fé e esperança. Elas estão entre as vítimas mais recentes do que é indiscutivelmente o conflito armado mais mortal desde a Segunda Guerra Mundial. A violência concentra-se nas províncias que ficam no leste do Congo, perto da fronteira com Ruanda. O Hospital Panzi fica nos arredores de Bukavu, uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes e capital da província de Kivu do Sul.
Após quase uma hora de louvor, um pastor local compartilha uma mensagem sobre os imperativos “não temas”, de Isaías 41, alternando entre o francês e o suaíli. E conclui: “Não tenham medo. Somente Deus e ninguém mais tem a última palavra na vida de vocês. Andem com Deus.”
Por mais de 30 anos, a guerra tem devastado a população de Kivu do Sul. Forças estrangeiras, entre elas, as forças de Ruanda e de Uganda, apoiam grupos rebeldes em uma batalha campal que visa, principalmente, o monopólio das reservas de minerais brutos do Congo, uma matéria-prima essencial para a tecnologia mundial.
A China controla grande parte da mineração e do comércio, e os Estados Unidos prometeram milhões para um novo corredor de exportação, que vai do leste da África até o Oceano Atlântico. A sede por novas tecnologias de chips, impulsionada pela IA, depende do cobalto — e o maior produtor mundial de cobalto é o Congo.
Embora outros conflitos ganham mais as manchetes de jornal, a guerra no Congo tem fortes vínculos com os interesses globais e dos EUA, ainda que medíssemos esses interesses apenas em termos de smartphones. No entanto, nos países desenvolvidos muitos sabem pouco sobre este conflito que já causou mais de 5 milhões de mortes e atrocidades incalculáveis — entre elas, a violência sexual generalizada. Naquele dia, o Dr. Mukwege estava em alerta máximo, pois a região parece prestes a entrar em outra espiral [de violência] sombria.
Em uma visita recente ao Hospital Panzi, 185 de suas 450 pacientes estavam recebendo tratamento para casos de violência sexual. Ao longo dos anos, os médicos e enfermeiros do hospital trataram mais de 70 mil mulheres com ferimentos resultantes de estupro.
“Bonjour, maman”, disse o Dr. Mukwege, sorrindo e parando para conversar com uma mãe, enquanto a ajuda a atravessar a calçada.
Ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2018, por seu trabalho no hospital e por chamar a atenção global para a brutalidade no Congo. O Dr. Mukwege, que completou 70 anos em 2025, realiza operações dois dias por semana e ainda trabalha em estreita colaboração com uma equipe de 50 médicos e mais de 100 enfermeiras.
Ele nasceu em Bukavu, uma cidade montanhosa que fica às margens do Lago Kivu, ao sul da linha do Equador. Seu pai foi o primeiro pastor protestante congolês da cidade, e o Dr. Mukwege é pastor na igreja de sua paróquia. O terceiro de nove filhos, ele quase morreu ao nascer, depois que um vizinho cortou seu cordão umbilical com uma faca suja. O Dr. Mukwege dedicou a vida a melhorar o atendimento médico para mulheres e crianças do Congo.
Ele trabalhou por muito tempo sob a sombra da guerra. Em 1996, o Dr. Mukwege era o diretor-médico do Hospital Lemera, quando este foi atacado por rebeldes congoleses e pelo exército ruandês, no início da Primeira Guerra do Congo. Ele havia saído do hospital, que fica a 80 quilômetros ao sul de Bukavu, para buscar suprimentos e, ao retornar, descobriu que os rebeldes haviam executado três enfermeiras e matado 30 pacientes em seus leitos. Os soldados saquearam o hospital, que fora construído pela missão pentecostal sueca, na década de 1950, e administrado por médicos missionários que haviam sido os mentores do Dr. Mukwege, até que ele tomou posse como diretor, em 1991. A guerra deixou o hospital em ruínas.
Ilustração de James Lee ChiahanQuando começou a planejar um novo hospital para melhorar o atendimento materno, ele comprou de sua denominação pentecostal um terreno no bairro de Panzi. Quando a primeira paciente chegou, em 1999, ela não era uma gestante, mas sim uma mulher que havia sido baleada e estuprada por cinco homens. Nos primeiros três meses de operação, 45 mulheres chegaram com ferimentos decorrentes de estupro. “Não houve tempo para pensar, muito menos para comemorar a inauguração oficial do hospital”, relembra o Dr. Mukwege em seu livro de 2021, The Power of Women: A Doctor’s Journey of Hope and Healing [O poder das mulheres: a jornada de esperança e cura de um médico].
O Dr. Mukwege inicialmente delegava as cirurgias a um médico finlandês mais experiente. Com o tempo, e contra a sua vontade, Mukwege acabou se tornando especialista em cuidados para sobreviventes de estupro. Aprendeu a reparar cirurgicamente bexigas, órgãos genitais, retos e outros órgãos danificados não apenas pela penetração masculina, mas também por estacas de madeira, armas de fogo ou outros objetos. Ele aprendeu a tratar fístulas — lacerações que se formam entre a vagina, a bexiga e o reto, que não cicatrizam e causam dores incapacitantes e secreções, muitas vezes fazendo com que as mulheres sofram rejeição e isolamento. Aprendeu a salvar órgãos de mulheres que foram baleadas na região pélvica. E se tornou especialista em identificar as regiões geográficas onde mulheres eram atacadas apenas de olhar para seus ferimentos. As milícias de uma área específica queimavam as mulheres; em outra área, atiravam nelas; e em outras ainda, usavam baionetas [arma de formato pontiagudo] no que pareciam ser rituais de estupros.
Mukwege relembrou o horror daqueles primeiros anos em seu discurso, na entrega do Nobel da Paz, em 2018. Ele descreveu o caso de uma criança de 18 meses, que chegou de ambulância ao Hospital Panzi, após ser estuprada. Ao chegar ao local, o Dr. Mukwege encontrou as enfermeiras chorando. Ele disse às pessoas reunidas na cerimônia em Oslo: “Fizemos uma oração silenciosa: ‘Meu Deus, diga-nos que o que estamos vendo não é verdade’”.
O Prêmio Nobel trouxe fama global ao médico, mas suas profundas raízes locais o tornam uma figura muito estimada em Bukavu também, onde sua foto aparece em ônibus e outdoors. No hospital, ele se destaca com seu jaleco e suas calças brancas, sendo uns 20 centímetros mais alto do que a maioria dos pacientes.
As mulheres o chamam de “Papai” e param para compartilhar seus problemas com ele. Nesse dia especificamente, sua agenda incluía consultas com pacientes, cirurgias e reuniões com os embaixadores da Alemanha e da Suécia.
O Dr. Mukwege e o Hospital Panzi continuam a chamar a atenção internacional para a violência sexual. Esse horror se espalha durante conflitos prolongados, e não apenas na África. Estupros e torturas sexuais foram características proeminentes dos ataques do Hamas contra Israel, em 7 de outubro de 2023. Soldados russos na região de Kherson, na Ucrânia, abusaram sexualmente de mulheres com idades entre 19 e 83 anos, de acordo com um inquérito da ONU.
Ao longo da última década, observadores de direitos humanos documentaram dezenas de casos de estupro cometidos por rebeldes do M23 [Movimento 23 de Março, também conhecido como Exército Revolucionário Congolês. É um grupo paramilitar rebelde do Congo que é apoiado por Ruanda], que agora controlam a maior parte do leste do Congo, e por soldados do exército congolês. Um relatório da ONU afirmou que o estupro é “uma realidade cotidiana da qual as mulheres congolesas não têm trégua”.
O estupro como marca de conquista é um mal antigo. Casos desse tipo estão registrados em Gênesis e são proibidos no livro de Deuteronômio, com instruções para que as vítimas femininas sejam protegidas (Deuteronômio 22.22-29).
Sobreviventes de estupro também podem experimentar uma espécie de morte em vida, que as atormenta por anos após o crime inicial ter sido cometido. O trauma físico é frequentemente seguido por um estigma que isola as sobreviventes de seus maridos, famílias e comunidades. Além disso, o estupro pode tornar o parto impossível ou extremamente doloroso. E quando os soldados não são punidos, a violência sexual se torna epidêmica.
Os rebeldes do M23 que estão cometendo muitos desses crimes fazem parte de um movimento liderado por tutsis [grupo étnico que existe principalmente em Ruanda e em Burundi], que é apoiado por Ruanda. Eles têm avançado este ano [2025], combatendo as forças congolesas e deixando milhares de mortos e mais de meio milhão de refugiados.
Os rebeldes capturaram Bukavu em fevereiro de 2025. Nas semanas seguintes, o hospital continuou em funcionamento, tratando pessoas feridas e atingidas por balas, e realizando o parto de 110 bebês — um sinal de que a vida continua.
Viver sob constante ameaça é insustentável, diz o Dr. Mukwege. E ele não tem medo de confrontar a verdade devastadora: as poderosas entidades que saqueiam os recursos naturais do nosso país são as culpadas por essa epidemia de estupros. Um topógrafo belga, no final do século 19, chamou esta região de “um escândalo geológico”, por ser extremamente rica em minerais valiosos como cobalto, ouro, diamantes e estanho.
Bukavu fica a 1.600 quilômetros da capital, Kinshasa, e muitas de suas áreas periféricas são inacessíveis por estrada. Isso, somado à geografia exuberante, permite que o comércio ilegal de minerais prospere. Entre os cúmplices desse comércio ilegal estão os países vizinhos e o apetite global insaciável por tecnologia.
O cobalto e outros minerais do Congo são essenciais para carregar carros elétricos, celulares e notebooks. Quando provenientes diretamente do Congo, recebem o rótulo de “minerais de conflito”, e estão sujeitos à divulgação (nos EUA, as empresas de tecnologia devem registrar essas informações na Comissão de Valores Mobiliários do país, por exemplo). No entanto, a maioria desses minerais é exportada via Ruanda para a China, o principal consumidor de cobalto. Os chineses possuem minas no Congo, e os rebeldes do M23 controlam áreas-chave ao redor dessas minas.
A China — e as empresas de tecnologia sediadas nos Estados Unidos que dependem de fábricas chinesas — contornam a exigência do rótulo de “minerais de conflito” usando Ruanda como ponto de trânsito para os minerais contrabandeados do Congo. Grande parte do ouro de Ruanda, seu maior produto da lista de exportações, também é contrabandeado do Congo.
As forças ruandesas, sob o comando do atual presidente Paul Kagame, entraram no Congo após o genocídio de Ruanda, em 1994, para eliminar os genocidas hutus [grupo étnico nativo da região dos grandes lagos africanos], que buscavam escapar da justiça. Mas, por causa do comércio lucrativo, Ruanda permaneceu no país, com cerca de 4.000 soldados ruandeses apoiando os rebeldes do M23, na mais recente ofensiva.
“O Congo é, literalmente falando, uma mina de ouro para as empresas ruandesas”, escreve Jason Stearns, pesquisador sênior e fundador do Congo Research Group [Grupo de Pesquisa do Congo]. “Essa exploração é possibilitada pelo M23, que mantém o Estado congolês fraco demais para impedir o roubo.”
A guerra no Congo se tornou um esquema criminoso, diz o Dr. Mukwege, “uma espécie de organização de mafiosos de nível internacional. Nossos recursos naturais enriquecem outros, enquanto as pessoas aqui podem ser mortas a qualquer momento. Podem morrer de fome. Temos cidades sem água, sem lei e sem segurança. Isso não é obra do acaso; é algo feito para colocar as pessoas em uma situação em que elas não têm escolha.”
O Dr. Mukwege concorreu à presidência em 2023, mas perdeu. Depois de ficar famoso promovendo o que ele chama de cuidado holístico, ele agora quer promover uma justiça holística. Ele quer ver estupradores e seus apoiadores levados a julgamento. E quer acreditar que o mundo vai prestar atenção no que tem acontecido em seu país.
Todo esse fardo pesa sobre o Dr. Mukwege, quando ele se senta em seu escritório, depois do culto, ladeado por uma Bíblia e um modelo do sistema reprodutor feminino. “Aqui, o sentimento de responsabilidade é palpável. Nunca desaparece. Se você ficar em silêncio e não fizer nada para apoiar as pessoas, estará sendo cúmplice do que está acontecendo. E as coisas não estão melhorando.”
No ano passado, o Dr. Mukwege viajou para o Vale do Silício, para se encontrar com líderes de empresas de tecnologia dos EUA. Ele conta que fez a eles a seguinte pergunta: “Por que vocês preferem obter os minerais de que precisam de grupos armados que estão estuprando e matando pessoas?”
O Dr. Mukwege não está interessado em boicotar a tecnologia. Ele diz que seu objetivo é limpar a cadeia de suprimento e eliminar as milícias que são apoiadas por estrangeiros. Ele quer que aqueles que estão na cadeia de suprimento compreendam a conexão entre o consumismo e tudo o que seus pacientes sofrem.
“Podemos construir pontes, encontrar oportunidades de pacificação e legalizar os minerais e a mineração. Neste exato momento, este ainda é um negócio sujo”, diz ele. “Precisamos encontrar novas alavancagens para pressionar nossos políticos”. O Dr. Mukwege bate na mesa enquanto fala, frustrado por viver de perto o problema, todos os dias, e perceber que esse horror continua, enquanto se torna cada vez mais banal para o resto do mundo.
Em 2018, ele dividiu o Prêmio Nobel da Paz com Nadia Murad, a ativista yazidi que sobreviveu à escravidão sexual nas mãos de sequestradores do ISIS, no Iraque. Naquele momento, o Dr. Mukwege pensou que o prêmio significaria um novo reconhecimento do problema da violência sexual. Porém, “nada mudou, e você tem a impressão de que, em nível internacional, ninguém se importa”. Quase dez anos depois, ele se pergunta se a ordem mundial simplesmente se acostumou a colocar o dinheiro acima da humanidade. Mas Mukwege diz que os cristãos têm a responsabilidade de se importar, porque “isso é algo que destrói famílias, que destrói igrejas”.
“Eu sei que Deus é Deus, e que Deus está presente, mesmo que você esteja passando por coisas terríveis. Mas como posso falar aqui sobre a igreja, enquanto mulheres estão desprotegidas e podem ser estupradas a qualquer momento?”
Sobreviventes de estupro no hospital — que deveriam estar se concentrando em sua recuperação — enfrentam diariamente o medo de sofrer mais violência nas mãos do M23. Em um comunicado, o hospital declarou que, à medida que os conflitos chegaram a Bukavu, no início deste ano, eles têm enfrentado uma nova onda de violência “devastadora”, e o número de casos de violência sexual triplicou em alguns dias. Construído como uma unidade com capacidade para 125 leitos, o hospital frequentemente está lotado, muito além de sua capacidade. A expansão do campus está em andamento, em um projeto ambicioso que transformará o local em um centro médico regional e hospital-escola.
Além de cuidar de sobreviventes de estupro, o Panzi é um hospital de referência com cirurgia geral, uma ala de emergência, clínicas de tratamento para HIV e uma maternidade movimentada. O hospital realiza cerca de 3.000 partos por ano — e atinge uma taxa de 99% de bebês nascidos com vida, em um país com uma das taxas de mortalidade infantil mais altas do mundo.
O Hospital Panzi é frequentemente a única esperança para as sobreviventes de estupro da região. “Mukwege é o único cirurgião em um raio de milhares de quilômetros que tem a capacidade de oferecer tratamento”, disse a Dra. Deborah Rhodes, renomada especialista em câncer de mama dos EUA que treinou médicos no Panzi. Muitas vezes, disse ela, “não há outro lugar para ir. As pacientes às vezes caminham por 5, 10, 15 dias para chegar ao hospital”.
O Dr. Mukwege sabe que ele e sua equipe não têm capacidade para dar uma solução para o problema do estupro, mas eles podem dar esperança às sobreviventes — e razões para viver. A resistência da própria equipe é testada repetidamente pela prevalência de pacientes muito novas. Nos últimos meses, Mukwege e outros médicos trataram uma sobrevivente de estupro de oito anos de idade, e outra que era apenas um bebê de seis meses. A bebê foi estuprada enquanto sua mãe estendia roupa. A mãe ouviu seus gritos e encontrou a filha enrolada em cobertores ensanguentados. Os médicos do Panzi tiveram que anestesiar a bebê para poder examiná-la. A Dra. Neema Rukunghu, vice-diretora médica do Panzi, estava de plantão naquele dia.
Os pais da bebê ficaram “profundamente traumatizados”, disse a Dra. Rukunghu. O hospital providenciou terapia e aconselhamento para eles. Os médicos trabalharam em conjunto com a polícia, que identificou o agressor, um soldado que havia acabado de deixar o exército congolês. Sempre que possível, o Hospital Panzi fornece amostras de DNA e outras evidências [para a polícia]. Neste caso, como em muitos outros, disse a Dra. Rukunghu, o suspeito desapareceu.
Uma criança tão nova pode se recuperar dessa violência? “Por enquanto, sim, ela tem se recuperado bem”, disse a Dra. Rukunghu, que também é mãe de crianças pequenas. “Mas ela é muito nova, e com esse tipo de cirurgia… Quando ela for adolescente, será que ela menstruará normalmente? O que diremos a ela sobre o que aconteceu? E como isso a afetará psicologicamente? Essas são coisas que ainda não sabemos responder. O que já sabemos é que, em todos os casos, o trauma continua.”
Algumas sobreviventes se recuperam ao lado de outras pacientes, nas enfermarias gerais do hospital, como forma de evitar mais estigma. Mesmo assim, uma ala dedicada a quem precisa de cuidados especiais costuma estar sempre lotada, e às vezes é preciso colocar duas pacientes na mesma cama. Janelas largas, cobertas por cortinas transparentes bordadas com flores delicadas, inundam de luz o quarto amplo. A maioria das mulheres que estão nos 40 leitos está recebendo cuidados ou dormindo. Um quadro branco, perto do posto de enfermagem, tem uma lista das pacientes. Duas delas têm 14 anos e outras três, 16 anos. Uma das meninas está com febre; ela está sangrando e anêmica. Também está grávida.
Essa adolescente faz parte de um número crescente de sobreviventes de estupro que pertencem à segunda geração, explica a Dra. Rukunghu. A mãe da menina está esperando do lado de fora da entrada da enfermaria. A Dra. Rukunghu se lembra de tê-la tratado também, e fala com ela em voz baixa, suave.
Cerca de um terço das sobreviventes de agressão sexual do Hospital Panzi são menores de idade — o que, no Congo, significa que são menores de 18 anos. No entanto, no hospital, meninas menores de 18 anos também representam três quartos dos casos de gravidez decorrente de estupro. Lá dentro, uma das adolescentes sobreviventes de estupro se levanta lentamente da cama para cumprimentar a Dra. Rukunghu, ou “Doutora Nene”. Ela sorri, com seu vestido estampado de flores azuis e verdes em tons vibrantes.
“Ela chegou aqui com um ferimento bem grande e estava totalmente traumatizada”, diz a Dra. Rukunghu. Um mês após a cirurgia, “é incrível vê-la usando esse vestido, ver seu sorriso”.
Além de cirurgia e do tratamento para os ferimentos, as pacientes recebem uma profilaxia posterior à exposição, que consiste em medicamentos para prevenir a transmissão do HIV e de outras infecções sexualmente transmissíveis.
O campus do hospital é adjacente a instalações administradas pela Fundação Panzi, que oferece aconselhamento psicossocial, assistência jurídica, capacitação para o desenvolvimento de habilidades e artesanato, uma escola e creche, além de casas de recuperação para pacientes que não podem voltar para seus lares. Pacientes de longa permanência recebem uma maman chérie — uma voluntária que lhes oferece companhia e contato físico seguro, um passo importante para a cura do trauma sexual. Ao ar livre, essas voluntárias trabalham com mulheres em volta de mesas de piquenique, sob um pátio coberto, tecendo cestas e assistindo a filmes após o almoço. As pacientes em recuperação também fazem refeições nesse local. Áreas comuns e atividades comunitárias, diz a Dra. Rukunghu, são essenciais para o processo de recuperação.
Quando a Dra. Rhodes soube, pela primeira vez, sobre o predomínio da violência sexual no Congo e sobre o trabalho do Hospital Panzi, ela estava trabalhando na Clínica Mayo. Ela e uma equipe da Mayo, composta de três cirurgiões e uma enfermeira que era instrumentadora cirúrgica, tiraram férias para visitar o hospital, e levaram novos equipamentos para apoiar cirurgiões como a Dra. Rukunghu. “Eu não diria que apenas meu trabalho mudou com o tempo que passei no Hospital Panzi”, disse a Dra. Rhodes. “Eu diria que a minha vida mudou. Todos que foram lá diriam isso.”
A Dra. Rhodes trabalhou ao lado do Dr. Mukwege, do amanhecer até a meia-noite, e afirma que “o que eles conseguem fazer praticamente sem água encanada é algo simplesmente extraordinário. É um teste de extrema inovação, adaptação e dedicação.”
Ela disse que saiu de lá consciente de que o Dr. Mukwege é, com toda certeza, um dos grandes cirurgiões do mundo. Mas pouquíssimos cirurgiões fariam o sacrifício que ele faz para fornecer atendimentos que seriam completamente inexistentes, se não fosse por ele.
O Dr. Mukwege confessa prontamente que a força que o faz prosseguir é a sua fé e as suas pacientes. “Posso dizer que as mulheres do Congo são muito fortes”, diz ele. “Não consigo imaginar como elas conseguem passar por essas coisas terríveis e, ainda assim, se levantar a cada manhã e dizer: ‘Quero seguir em frente e cuidar da minha família. Quero um futuro para a minha família, mesmo que o meu pareça acabado.’”
Para o Dr. Mukwege, o trabalho nunca termina, ele só muda de turno. No final da tarde, ele veste um terno escuro, uma camisa branca e sapatos sociais para participar de um culto em sua igreja pentecostal, que fica do outro lado da cidade. Ele faz isso na maioria dos dias da semana, e também aos domingos, quando não está viajando, segundo confirmam seus assessores e visitantes como a Dra. Rhodes.
Na noite desta quarta-feira, o Dr. Mukwege falou para uma congregação de cerca de 500 pessoas. Ele leu as Escrituras e liderou orações em que as pessoas falavam em línguas. Ele permaneceu no púlpito durante as três horas de culto, participou dos cânticos e apresentou um pastor belga, visitante, que pregou naquela noite. Depois, o médico cumprimentou amigos, antes de retornar ao complexo do hospital, já de noite. [Naquele dia] Ele era um dos vários médicos de plantão para emergências noturnas.
O Dr. Mukwege e sua esposa, Madeleine, mudaram-se de sua casa, que ficava do outro lado da cidade, para morar no condomínio fechado do Hospital Panzi, depois que o médico escapou de uma tentativa de assassinato, em 2012. Homens armados aguardavam sua chegada, do lado de fora de sua casa, enquanto outros mantinham duas de suas filhas sob a mira de armas. Eles o tiraram do carro à força e pareciam prontos a atirar, quando seu guarda-costas de longa data surgiu, vindo de trás da casa, para detê-los. Em vez de atirar no médico, eles atiraram e mataram o guarda-costas; este caiu sobre o Dr. Mukwege, que afirma ter desmaiado em seguida. Ele acordou coberto de sangue e pensou que havia sido baleado. Os homens armados, talvez por acreditar que haviam matado o médico, libertaram suas filhas e fugiram.
O Dr. Mukwege também fez outros inimigos. Por ter denunciado líderes ruandeses e congoleses, ele já recebeu inúmeras ameaças de morte. No entanto, cada vez que essas mensagens ou conspirações contra ele se tornam públicas, seus vizinhos congoleses saem às ruas para apoiá-lo.
Mesmo depois de todos esses anos lutando em prol de sobreviventes da violência sexual, esse médico não perdeu sua capacidade de ficar horrorizado nem a urgência com que ora. Mesmo durante uma simples caminhada pelo campus do hospital, ele interrompe a conversa para observar os portões, sempre cauteloso com a aproximação de rebeldes e soldados do exército.
No final do dia, sua voz falha e some, enquanto fala: “Quando as pessoas ligam ou batem à nossa porta para dizer: ‘Temos uma emergência’, e a gente vê que é um bebê, você não tem ideia [de como é possível] que essa criança possa ser estuprada, com todas as entranhas para fora. Tudo o que a gente consegue dizer é: ‘Senhor, me ajude’. É inacreditável. Como isso pode acontecer?”. No minuto seguinte, a expressão do seu rosto se suaviza e seus olhos brilham, porque amanhã é outro dia. “Quando chego de manhã, e as mulheres dizem ‘Olá, papai’, elas querem me trazer seus problemas e questões. Isso é uma bênção para mim.”
Ele implora à igreja global para que ore e aja. E promete continuar lutando contra o mal que tomou conta de sua terra natal e lotou seu hospital de pacientes. “Perder a esperança? [Se isso acontecer] Eu simplesmente deixo esse trabalho e vou embora. Mas não estou pronto para isso. Eu conheço este país e as pessoas aqui… Temos pessoas que acreditam em Deus, que acreditam que as coisas podem mudar.”
Mindy Belz é escritora freelancer e editora da edição de 2024 do Globe da Christianity Today.
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