Ler bons livros não é o suficiente para formar homens virtuosos

Nota da edição em português: este artigo traz dados e acontecimentos que estão bastante ligados à realidade norte-americana. Porém, acreditamos que o assunto tratado aqui pode também ser essencial para a realidade do Brasil e de outros países de fala portuguesa. Uma resposta continua vindo à tona, quando nos questionamos sobre as lutas dos homens…

Nota da edição em português: este artigo traz dados e acontecimentos que estão bastante ligados à realidade norte-americana. Porém, acreditamos que o assunto tratado aqui pode também ser essencial para a realidade do Brasil e de outros países de fala portuguesa.

Uma resposta continua vindo à tona, quando nos questionamos sobre as lutas dos homens jovens em nosso mundo moderno: livros.

Em podcasts, ensaios, newsletters no Substack e feeds de redes sociais, muitas pessoas, pertencentes a todo o espectro ideológico, estão cada vez mais apresentando a leitura como forma de reparação silenciosa. Os homens estão inquietos e rasos porque rolam a tela sem parar. Substitua os feeds por romances, diz o argumento — por Homero, em vez de TikTok, por Dostoiévski, em vez de dopamina — e uma mudança significativa acontecerá.

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Essa esperança recentemente ocupou o centro do palco, quando Bari Weiss nos apresentou um novo podcast da The Free Press, comandado por Shilo Brooks. Apresentado como uma resposta à deriva cultural e espiritual dos jovens, o Old School trata a leitura por prazer não como mero enriquecimento, mas como intervenção, uma forma de restaurar a atenção, a seriedade e a profundidade moral em uma era de distrações. A pergunta que define o tom, e que agora paira sobre o debate mais amplo a respeito dos homens jovens de hoje, é simples: “A leitura pode consertar os homens?”.

Há algo de verdadeiro nessa intuição. A leitura por lazer nos Estados Unidos vem diminuindo há décadas. De acordo com pesquisas recentes, a parcela de americanos que leem por prazer em um dia comum caiu drasticamente nos últimos 20 anos. Outra pesquisa descobriu que cerca de 40% dos adultos não leram um único livro em 2021. Esses declínios não são distribuídos uniformemente. Os homens têm menos probabilidade do que as mulheres de ler por prazer, mesmo consumindo mídia digital incessantemente.

Os efeitos dessa mudança aparecem nos hábitos de atenção e na imaginação. A leitura profunda exige paciência, foco sustentado e uma capacidade de lidar com a complexidade sem recompensas imediatas. “Passar o olho” pelas telas, em contrapartida, treina o olhar a se dispersar e a mente a divagar. Com o tempo, esses padrões moldam a maneira como uma pessoa pensa, sente e se relaciona. Eles moldam não apenas o que um homem sabe, mas também como ele o sabe.

Os livros ajudam não apenas a nossa cognição imediata, mas também ajudam o pensamento crítico. Eles podem oferecer modelos de coragem, amizade e tristeza. Podem expandir a imaginação moral de formas que as telas raramente o fazem. E todos esses são bens genuínos, bens pelos quais devemos ansiar.

Então, sim, a leitura pode ajudar os homens jovens. Pode estabilizá-los. Pode orientá-los em direção ao que é significativo. Mas eu realmente preciso discordar da premissa aqui. A leitura não pode consertar os homens.

Parte do apelo do podcast Old School está no próprio nome — que é uma alusão aos bons e velhos tempos, quando os homens eram cultos, sérios e formados por livros, e não por vídeos curtos. Grande parte do incentivo atual à leitura carrega o mesmo tom nostálgico: se pudéssemos recuperar velhos hábitos, textos e ritmos, talvez pudéssemos recuperar os homens bons e virtuosos.

Mas o passado que somos tentados a romantizar não era composto por homens restaurados — nem mesmo os mais letrados. Aquelas gerações liam com profundidade e escreviam com eloquência, e, ainda assim, lutavam contra a crueldade, o vício, a violência, o desespero e o antissemitismo. O amor pelos livros não impediu os homens de odiar seus vizinhos ou de se destruírem. A leitura moldou suas mentes; mas não curou seus corações.

Essa distinção importa porque as crises que os homens jovens enfrentam hoje não são primordialmente de fundo intelectual. O vício em pornografia persiste não porque os homens careçam de histórias ou de imaginação, mas porque o desejo foi condicionado sem restrições. Os jogos de azar prosperam não porque os jovens não entendam as probabilidades, mas porque sua esperança está focada na próxima vitória. O antissemitismo se espalha não porque lhes falta informação, mas porque o ressentimento e o medo encontraram um lar em seus corações.

A leitura pode ajudar um jovem a reconhecer o que é bom com mais clareza. Pode aguçar seu julgamento e ampliar sua empatia. Mas não pode dar a ele o poder de escolher o que é bom quando isso lhe custa algo. Pode guiar seu pensamento; mas não pode curar seu coração. E é por isso que, apesar de todos os seus benefícios reais, somente a leitura nunca será suficiente para consertar o que está quebrado.

As Escrituras contam uma história diferente.

Quando o apóstolo João se dirige aos homens jovens, em 1João 2, ele os descreve como fortes, e, então, explica o porquê: “a palavra de Deus permanece em vós” (v. 14). A força, no relato de João, cresce a partir da verdade que habita no interior. A Palavra de Deus passou a habitar neles. Ela molda a maneira como eles reagem, quando a pressão surge e o desejo se impõe.

Essa afirmação repousa em uma compreensão distintamente cristã das Escrituras. A Bíblia nunca foi simplesmente uma fonte de discernimento ou de instrução. Os cristãos ao longo da história a confessaram como a Palavra de Deus, tornada eficaz pela obra do Espírito Santo. A Escritura não permanece fora do leitor. Ela age sobre o coração, expondo motivos, estabilizando a vontade e formando novos hábitos de amor e de obediência ao longo do tempo.

Jesus exemplifica esse tipo de formação no deserto (Mateus 4). Quando a tentação vem, sua resposta é imediata e fundamentada nas Escrituras que ele já conhece: “Está escrito…”.

Por séculos, a igreja reconheceu a importância dessa formação interior. As pessoas aprendiam a Escritura de cor, recitavam-na em oração e a aplicavam na vida cotidiana.

O salmista descreve a Palavra de Deus como algo escondido no interior, algo que está ao nosso alcance quando mais precisamos de orientação. Agostinho descreveu certa vez as Escrituras como cartas de casa, palavras que vão além da informação para remodelar nossos amores e desejos. Para ele, as Escrituras não eram simplesmente algo a ser compreendido; eram algo que o compreendiam. Através delas, Deus abordava a desordem sob a sua inquietação.

Essa mesma desordem persiste entre os jovens de hoje. E isso explica por que o interesse renovado pela leitura, apesar de tudo o que promete, não resolveu nossos problemas. Os livros preparam a mente e aguçam a consciência moral. As Escrituras abordam a luta mais profunda que está por trás do comportamento — o lugar onde a tentação se instala e os hábitos se formam.

Alguns jovens sentem essa diferença. As vendas de Bíblias aumentaram nos últimos anos, e igrejas por todo o país relatam que mais homens jovens estão aparecendo — muitas vezes inseguros sobre o que acreditam, mas conscientes de que as distrações e o aprimoramento pessoal não lhes forneceram o que eles esperavam. Ler grandes clássicos da literatura ajudou alguns deles a recuperar a atenção e a seriedade. Para outros, revelou uma fome que a leitura sozinha não pode satisfazer.

Compartilho muito da intuição de Shilo Brooks e aprecio a visão por trás do Old School. Quero que os homens jovens leiam mais. Quero que recuperem a profundidade e a paciência, em uma cultura que não recompensa nenhuma dessas duas coisas. Os livros são um presente que vale a pena resgatar.

E, no entanto, algo muito mais vital está em ação nas Escrituras. Deus, através do Seu Espírito, as usa para formar as pessoas de dentro para fora. Com o tempo, elas cultivam uma força que perdura — força que se mantém firme em momentos de tentação, que estabiliza a vontade e que remodela o desejo.

Se os homens jovens vão superar as crises que os pressionam, se vão ser fortes no mundo de hoje, não será porque eles finalmente escolheram a lista de leitura certa. Será porque a Palavra de Deus habita neles.

Luke Simon é codiretor de ministérios estudantis na The Crossing, em Columbia, Missouri, e estudante de Mestrado em Divindade no Covenant Theological Seminary. Ele escreve sobre a Geração Z, tecnologia, masculinidade e a igreja. Você pode segui-lo no X.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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