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Cristo: A promessa viva que se cumpriu | Carlos Valderrama

A experiência humana é profundamente marcada por expectativas. Elas nos acompanham desde a infância — quando aguardamos presentes, surpresas e recompensas — até a vida adulta, quando expectativas assumem formas mais complexas, como o reconhecimento profissional, o êxito acadêmico ou o anseio por estabilidade e realizações futuras. Em períodos festivos, como o Natal, tais expectativas se intensificam e, não raramente, ganham contornos de reflexão espiritual.

Esta dinâmica do esperar revela algo essencial sobre a condição humana: fomos criados para aguardar, desejar e confiar. Assim, ao olhar para a narrativa bíblica, percebemos que a história da salvação é, em sua essência, uma história de promessas feitas por Deus e cumpridas em Cristo.

Este artigo busca apresentar, em perspectiva bíblico-teológica e pastoral, como a encarnação de Jesus Cristo constitui o cumprimento da mais antiga e grandiosa promessa divina, consolidando a esperança messiânica nutrida ao longo de toda a revelação presente no Antigo Testamento.

 

A Grande Narrativa da Escritura e a Expectativa Messiânica

A Bíblia se apresenta como um drama redentivo de amplitude cósmica. O Deus criador estabelece todas as coisas para Sua glória e confere ao ser humano o privilégio singular de refletir Sua imagem e semelhança em um ambiente de comunhão, adoração e obediência.

Contudo, o pecado resulta em ruptura: o homem, ao desejar determinar autonomamente os rumos da própria existência, afasta-se da presença divina e passa a viver em inimizade com seu Criador. Mesmo assim, Deus — rico em misericórdia — anuncia, já no protoevangelho de Gênesis 3.15, que o descendente da mulher viria para esmagar a serpente, ainda que fosse ferido em seu calcanhar.

Essa promessa constitui o ponto central de interpretação que orienta todo o nosso entendimento da história bíblica. Ela se desenvolve ao longo do Antigo Testamento por meio das alianças estabelecidas por Deus, nas quais seus elementos são progressivamente desvelados e permanecem intrinsecamente vinculados à identidade e à missão do Messias prometido. A magnitude dessa promessa abrange aspectos que se cumpriram em sua primeira vinda, bem como outros que ainda se cumprirão em sua segunda vinda.

  • a aliança noética, que garante a preservação da criação;
  • a aliança abraâmica, que anuncia um povo e uma descendência por meio da qual todas as nações seriam abençoadas;
  • a aliança mosaica, que revela o caráter santo de Deus e estabelece o contexto em que o Messias atuaria;
  • a aliança davídica, que promete um Rei eterno;
  • e a nova aliança, anunciada em Jeremias 31, que antecipa a redenção plena mediante um novo coração e perdão definitivo.

Assim, as Escrituras testemunham uma longa jornada de esperança, aguardando o cumprimento do anúncio primordial.

 

A Encarnação como Cumprimento Progressivo da Promessa

É nesse contexto que, “na plenitude dos tempos”, Deus envia Seu Filho (Gl 4.4). O Messias não surge em palácios, mas nasce em uma estrebaria em Belém, em um cenário desprovido de prestígio social, político ou religioso. O relato de Lucas 2.1–18 mostra que o nascimento de Cristo carrega elementos teológicos fundamentais:

1. Humildade como marca do Reino (v. 7)

A ausência de espaço na hospedaria e o repouso do menino em uma manjedoura revelam a lógica invertida do Reino: Deus se faz pequeno para revelar Sua glória.

2. Revelação aos marginalizados (v. 8)

Pastores — figuras marginalizadas no contexto do judaísmo do primeiro século — são os primeiros destinatários da mensagem angelical, indicando que a graça divina alcança os esquecidos da sociedade.

3. Regozijo e adoração como resposta adequada (vv. 13–14)

A multidão celeste celebra o evento redentor, demonstrando que o nascimento do Salvador demanda reverência e louvor.

4. Proclamação como fruto da experiência com Cristo (v. 17)

Após contemplarem o menino, os pastores tornam-se arautos espontâneos. O nascimento de Jesus inaugura uma dinâmica missionária: quem encontra o Cristo, anuncia o Cristo.

 

Reações à Promessa Encarnada: Aceitação e Rejeição

A presença de Jesus exige resposta. A nação que cultivara, durante séculos, a expectativa messiânica agora precisava reconhecer que o cumprimento havia chegado. Contudo, como registrado nos Evangelhos, muitos o rejeitaram — especialmente setores da elite religiosa do judaísmo do segundo templo.

Ainda assim, o testemunho bíblico apresenta homens e mulheres simples que discerniram, pela ação do Espírito, que a antiga promessa se cumprira diante de seus olhos. Entre eles está Simeão, descrito como “homem justo e piedoso, que esperava a consolação de Israel” (Lc 2.25).

Quando Maria e José apresentam o menino no templo, Simeão reconhece a identidade messiânica da criança e entoa um cântico de profunda densidade teológica:

29 “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo, segundo a tua palavra,
30 pois os meus olhos já viram a tua salvação,
31 a qual preparaste diante de todos os povos,
32 luz para revelação aos gentios e para glória do teu povo Israel.” (Lc 2.29–32)

Esse cântico — tradicionalmente chamado Nunc Dimittis — sintetiza a universalidade da salvação e o reconhecimento de que Cristo é a manifestação plena da fidelidade divina.

 

Conclusão: A Promessa que Sustenta a Esperança Cristã

A encarnação de Cristo não é apenas o cumprimento de uma antiga promessa; é a inauguração de uma realidade que redefine a existência humana. Em Jesus, Deus demonstra que Sua fidelidade atravessa séculos, supera a queda e restaura o que foi quebrado.

Assim, o Natal torna-se, para a Igreja, mais do que uma celebração litúrgica: é um convite à esperança, à adoração e à proclamação. É o reconhecimento de que Cristo é, para sempre, a Promessa Viva que se cumpriu — e que continuará a cumprir-se plenamente em Sua segunda vinda. Por isso, devemos viver à luz dessa bendita esperança, proclamando as virtudes daquele que nos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.

 

Carlos Eduardo Morais Borring Valderrama é Mestre em Teologia Bíblica pelo SETECEB. Bacharel em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida (Atibaia-SP) e pela Universidade Metodista. É professor residente do SETECEB (Seminário Teológico Cristão Evangélico do Brasil) onde leciona nas áreas de Novo Testamento, Teologia Sistemática, Teologia Histórica e Hermenêutica. Conselheiro bíblico formado pelo NUTRA (Núcleo de Treinamento e Aconselhamento Bíblico). Pastor desde 2004.

Casado com Janice e pai de Miguel e Ana Laura.

 

 

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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