A iluminadora graça de Deus na escuridão diária dos cuidadores de pessoas com demência

Alguém que amo está morrendo! Essa é uma frase simples, curta, mas carregada de um peso que palavras dificilmente conseguem expressar. Quando olho para trás, percebo que a demência que hoje prevalece começou a se manifestar há anos. Pequenos esquecimentos, mudanças sutis de comportamento, lapsos aparentemente inofensivos: pequenas evidências de um processo longo e devastador….

Alguém que amo está morrendo! Essa é uma frase simples, curta, mas carregada de um peso que palavras dificilmente conseguem expressar. Quando olho para trás, percebo que a demência que hoje prevalece começou a se manifestar há anos. Pequenos esquecimentos, mudanças sutis de comportamento, lapsos aparentemente inofensivos: pequenas evidências de um processo longo e devastador. A demência é uma doença cruel e irreversível.

Milhões de pessoas convivem com Alzheimer e outras formas de demência. À medida que a população envelhece, cresce também o número de famílias que enfrentam essa realidade. No entanto, trata-se de um sofrimento pouco compreendido. Ele não se limita ao corpo, nem se expressa apenas em diagnósticos médicos. A demência corrói vínculos, histórias compartilhadas, memórias afetivas e a própria identidade relacional.

Há muitas enfermidades dolorosas, mas poucas produzem uma sensação de perda tão contínua quanto a demência. Ela não chega de uma vez; vai levando embora, aos poucos. Primeiro, a memória recente. Depois, lembranças antigas. Em seguida, habilidades simples, como vestir-se, alimentar-se ou reconhecer rostos familiares. Pessoas antes independentes e ativas tornam-se dependentes. Para os que amam e cuidam de quem sofre com demência, esse processo é como viver uma sucessão de despedidas sem funeral.

O sofrimento de quem cuida

É um sofrimento prolongado, não uma crise pontual, mas uma dor que se renova diariamente. Quando parece que uma perda foi assimilada, outra se impõe.

Essa dinâmica afeta o corpo e a alma do cuidador. O cansaço físico se soma ao desgaste emocional e espiritual. Muitos relatam viver em estado constante de alerta, tristeza e impotência. O sofrimento exige presença contínua no cuidado da pessoa enferma.

Além disso, à medida que a doença avança, surgem mudanças de personalidade que ferem; palavras duras, atitudes agressivas. O ente querido passa a agir de modo estranho. É uma dor que mistura luto, confusão, amor e exaustão.

Não é raro cuidadores sentir-se sozinhos. Mesmo cercados por pessoas bem-intencionadas, conselhos e orientações, carregam a sensação de que ninguém realmente compreende o que estão vivendo. Trata-se de um sofrimento silencioso, muitas vezes invisível.

A alma cansada e os salmos bíblicos

A Escritura não ignora o sofrimento daqueles que são afligidos pela dor crônica. Ao contrário, ela o reconhece e o apresenta na forma de oração. É aqui que alguns salmos se tornam um presente precioso para o povo de Deus, especialmente os salmos de lamento. Esses salmos ensinam que o sofrimento pode ser levado diante do Senhor, que perguntas difíceis não são sinal de incredulidade e que lágrimas e fé podem coexistir no mesmo coração.

Os salmos nos mostram que Deus não exige uma espiritualidade artificial em tempos de dor. No caso dos salmos de lamento, eles revelam uma trajetória espiritual. Geralmente começam com dor intensa, confusão e perguntas difíceis. Não terminam com uma solução imediata. No entanto, quase sempre há um movimento em direção à confiança renovada na fidelidade de Deus.

É importante que cuidadores, familiares e comunidades cristãs que lidam com esse tipo de sofrimento redescubram o valor bíblico do lamento, da comunhão e da esperança cristã em meio ao sofrimento prolongado. Quatro lições podem ser destacadas:

1. Aprendendo a “entrar” no sofrimento do outro

Os salmos de lamento usam linguagem intensa, concreta e honesta. Eles nos permitem compreender dores que talvez nunca tenhamos vivido pessoalmente. Isso nos ensina a ouvir melhor, a não minimizar o sofrimento alheio e a oferecer presença, não apenas respostas. A intimidade com Deus e a percepção do cuidado divino conosco nos permitem perceber o sofrimento dos outros.

2. Clamando juntos ao Senhor

O sofrimento compartilhado em oração muda a experiência da dor. Ele rompe o isolamento e transforma o lamento em um clamor coletivo. Alguns salmos apresentam comunidades inteiras clamando a Deus: “Desperta! Por que dormes, Senhor? Levanta-te! Socorre-nos!” (Sl 44.23-26). Um dos aspectos mais ricos desses salmos é seu caráter comunitário. O crente não foi chamado a sofrer sozinho.

3. Uma liturgia para a peregrinação

Dor crônica é uma longa jornada. Os salmos também nos orientam nessa peregrinação, especialmente os chamados “salmos de romagem” que eram cantados enquanto o povo caminhava rumo a Jerusalém. Eles lembravam os peregrinos de que havia um destino, um propósito e um Pastor atento em todo o tempo. Também hoje precisamos dessa instrução litúrgica para lembrar que a jornada tem sentido.

4. Tornando-se voz de esperança para outros

Muitos salmos de lamento terminam com uma confissão renovada de esperança: “Ó Israel, espera no Senhor, pois no Senhor há misericórdia” (Sl 130.7). Aqueles que foram sustentados pelo Senhor em meio à dor tornam-se instrumentos de encorajamento para outros que ainda caminham pelo vale. O salmista não convida o povo a esperar porque a dor terminou, mas porque, no meio dela, descobriu algo mais profundo: a graça de Deus.

A esperança que ultrapassa a perda

Mesmo quando a demência rouba memórias e identidade, uma verdade permanece inabalável: ninguém jamais está fora do alcance de Deus. O Senhor alcança o coração humano em profundidades que nenhuma limitação cognitiva pode impedir.

Alguém que amo está morrendo! Mas mesmo nos vales mais escuros, o amor fiel de Deus continua sendo luz suficiente para essa caminhada.

O Rev. Valdeci Santos, PhD, MDiv e DMin, é Doutor em Teologia e em Aconselhamento Pastoral, dirige o Andrew Jumper, pastoreia a IP de Campo Belo em São Paulo e escreve regularmente para o Brasil Presbiteriano.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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