2. A natureza de nossa adoção: Filhos do Pai da Glória
2.1. Resultado da graça de Deus
A nossa adoção, como todas as demais bênçãos que temos é por meio de Jesus Cristo, segundo a vontade prazerosa do Pai (Ef 1.5). Deus por inteira graça nos escolheu para nos tornar seus filhos em Cristo. Percebam então, que a obra sacrificial de Cristo, como um dos fundamentos da adoção, sempre esteve inserida no propósito eterno de Deus. A adoção é uma bênção que faz parte essencial da manifestação da graça.[1]
Após a ressurreição, Jesus diz a Maria Madalena: “….Vai ter com os meus irmãos, e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus” (Jo 20.17).
Devemos ressaltar, portanto, que se a nossa filiação é por adoção, a de Jesus Cristo é de natureza eterna: Ele é eterna e necessariamente Filho de Deus. Nós, diferentemente, o somos pela graça. Por isso, Jesus não usava a expressão inclusiva “nosso Pai”, mas, sim “meu Pai e vosso Pai”. Todos somos filhos de Deus, contudo, a nossa relação é diferente em comparação à filiação do Verbo eterno.[2]
Com exceção da ideia de criação de todas as coisas (At 17.24-29), a Bíblia em nenhum momento ensina a paternidade universal de Deus. Por outro lado, o Senhor fala dos filhos éticos e espirituais de Satanás, que são influenciados por Ele e, por isso odeiam a Jesus Cristo e a sua Palavra (Jo 8.41,44).[3]
Deus é Pai apenas do seu povo; esta é a doutrina bíblica.
Os homens são filhos de Deus não simplesmente por nascimento natural, mas, sim, por um novo nascimento concedido por Deus, tornando-se, assim, seus filhos adotivos.
A nossa filiação, olhando por que ângulo for, é um ato da livre graça de Deus (Jo 3.3,5; Rm 8.15; Gl 4.3-6; Ef 1.5,6). “Entre todos os dons da graça, a adoção é o maior”, resume Packer (1926-2020).[4] Todas as demais bênçãos que recebemos decorrem da “graciosa adoção divina como sua causa primeira”, comenta Calvino.[5]
A adoção é o clímax da predestinação, tendo passado necessariamente pelo caminho da regeneração[6] e justificação[7] Aqueles aos quais Deus predestinou na eternidade, Ele os redime e os adota, tornando-os seus filhos, por intermédio de Jesus Cristo, o nosso irmão primogênito.
Como filhos de Deus e irmãos de Cristo, temos acesso às bênçãos decorrentes do Pacto da Graça: “Por meio da fé, Cristo nos é comunicado, através de quem chegamos a Deus, e através de quem usufruímos os benefícios da adoção”, escreve Calvino.[8]
A Confissão de Westminster (1647)declaradeformacorreta:“Atodososquesãojustificados,Deussedignafazerparticipantesdagraçadaadoção….”(XII.1).
Do mesmo modo, o Catecismo Menor, em resposta à pergunta 34, – “O que é adoção?” – diz: “Adoção é um ato da livre graça de Deus, pelo qual somos recebidos no número dos filhos de Deus, e temosdireitoatodososseusprivilégios(1Jo3.1;Jo1.12;Rm8.14-17)”.
A graça é o favor de Deus manifestado livremente para com os homens que estavam numa situação desfavorável, resultante do seu pecado. O pecado tornou-nos – já que todos pecamos – inimigos de Deus, contrários aos seus mandamentos e propósitos.
A redenção é que torna possível a adoção. Deus nos liberta da escravidão, tornando-nos seus filhos. Fomos transferidos de uma família estranha à aliança, sendo governada pelo curso deste mundo, para a família de Deus (Ef 2.1-22). Temos agora, pelo Espírito, um novo roteiro, com “novas falas” e um novo papel e propósito.[9]
A Palavra nos diz que “Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar (e)cagora/zw)[10] os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos (ui(oqesi/a)” (Gl 4.4,5).
Jesus Cristo cumpriu a Lei em nosso lugar − pois era impossível a nós fazê-lo − para que, justificados por Deus, pudéssemos ser feitos filhos seus.[11]
Deus não apenas nos liberta do pecado e da escravidão que dele decorre; Ele nos liberta para nos tornar seus filhos.
A libertação, por si só, não implica automaticamente em adoção. No entanto, a adoção pressupõe tanto a regeneração quanto a justificação. É por meio dessa obra completa − regeneradora, justificadora e adotiva − que somos recebidos na família de Deus, não apenas como servos libertos, mas como filhos amados.
Vemos aqui aspectos do poderoso e vitorioso amor de Deus por nós, conforme comenta Calvino com profundo senso de admiração: “O espantoso poder de Deus se exibe quando somos trazidos da morte para a vida; e quanto, sendo nós filhos do inferno, somos transformados em filhos de Deus e herdeiros da vida eterna”.[12]
Deus não tem filhos escravizados, dominados pelo pecado. Deus nos liberta para si mesmo. “A justificação é a bênção básica, sobre a qual a adoção se fundamenta; a adoção é a bênção do coroamento, para a qual a justificação abre o caminho”, conclui Packer.[13]
As Escrituras nos ensinam que este ato histórico se amparou no decreto eterno, livre, soberano e bondoso de Deus: “Nos predestinou para Ele, para adoção de filhos (ui(oqesi/a), por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de Sua vontade” (Ef 1.5).
Deus na eternidade já nos olhava como filhos aos quais, no tempo determinado por Ele mesmo, por intermédio de seu Filho, Jesus Cristo, nos adotaria, integrando-nos à família de Deus; à família da fé, dos eleitos pela graça.
Portanto, quando falamos de nossa filiação, devemos ter em mente que ela é um dom de Deus; “é o próprio Deus agindo graciosamente para conosco”, conclui Stott.[14]
O Catecismo de Heidelberg (1563), à pergunta 33 – “Por que é Ele chamado Filho UNIGÊNITO DE DEUS, se nós também somos filhos de Deus?” – responde: “Porque só Cristo é o Filho eterno de Deus, ao passo que nós, por sua causa, e pela graça, somos recebidos como filhos de Deus”.
2.2. Resultado do seu amor eterno
Apaternidadedivinaéentendidacomoumatodeintensoamorparacomoshomensqueseencontravamnumestadoderebelião,totaldepravaçãoemiséria(Jo3.16;1Jo3.1).
A nossa filiação revela parte do amor inefável e eterno de Deus. Temos aqui “a mais elevada expressão do próprio amor de Deus”, afirma Lloyd-Jones.[15]
Ao considerarmos a graça da adoção, vemos nesta doutrina estampada o amor invencível de Deus, que nos tira da condenação do pecado para a suaherançaeterna.
Aos nossos olhos, na eternidade, a santidade e o amor serão sempre dois dos maiores atributos de Deus a serem realçados. Nós participaremos da eternidade como filhos e isto é pelo santo amor de Deus: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus; e, de fato, somos filhos de Deus….” (1Jo 3.1).
3. Critérios para a nossa adoção
3.1. Nascer de novo
A Palavra de Deus nos diz que os filhos de Deus são gerados outra vez, são nascidos do Espírito Santo.
O Espírito é o doador da vida (Rm 8.2).[16] Por meio do Espírito fomos recriados para que possamos responder com fé à Palavra reivindicatória de Deus (Jo 3.5,6,8/Tt 3.5).
Conforme já tratamos, sem a regeneração não haveria a fé. Jamais atenderíamos ao chamado de Deus. É o Espírito quem nos capacita a receber a graça[17] iniciando uma nova vida em nossos corações, na qual temos os nossos olhos abertos e os corações voltados para a Palavra de Deus.
Jesus Cristo ensina: “Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus (…). Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3.3-5).
Do mesmo modo, Paulo:
Segundo sua misericórdia, Ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna (Tt 3.5-7).
Somos reconhecidos como filhos de Deus unicamente porque Deus, livre e soberanamente, fundamentado em seu eterno amor, nos gerou espiritualmente.[18]
Resumindo: Os filhos de Deus procedem de Deus: São gerados por Ele mesmo e, por isso, tornam a Deus com fé (Jo 1.12-13).
3.2.ReceberaCristo
A nossa filiação está condicionada à recepção de Cristo como nosso Salvador, tornando-nos assim seus irmãos. Ninguém pode ter Deus como Pai sem a Cristo como Salvador pessoal.
João relata: “Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; a saber; aos que creem no seu nome” (Jo 1.11-12).
3.3. Fé em Jesus Cristo
ReceberaCristosignificaconfiarunicamenteneleparaanossaaceitaçãodiantedeDeus. Fé salvífica consiste em confiarsomentenosseusmerecimentosparaasalvação;lançar-se,semreservas,confiadamentenasuaPalavradevida.
É neste sentido que Paulo escreve: “Pois todos vós sois filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus” (Gl 3.26).
4. Evidências da nossa filiação
4.1. Guiados pelo Espírito
OsfilhosdeDeussãoaquelesqueprocuramsempreaorientaçãodeDeusparaasuavida,seusplanosedecisões.EmnossasubmissãoaDeus,peloEspírito,revelamosanossafiliaçãodivina.
Paulo retrata: “Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” (Rm 8.14).
E é este mesmo Espírito quem nos conduz à conformidade da imagem de Cristo, que é o nosso modelo por excelência, a meta definitiva de todo povo de Deus. Pela direção do Espírito somos educados a viver como filhos.[19]
Na descrição sumária que Paulo faz da salvação de eternidade a eternidade, escreve: “Aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm8.29).
Este é o sentido da santidade! Explica Lloyd-Jones: “A santificação significa sermos feitos semelhantes ao Senhor Jesus Cristo, e, portanto, todos os que estão sendo santificados devem ter uma similaridade fundamental, pois todos estão se tornando cada vez mais semelhantes a Ele”.[20]
Cristo nos libertou da condenação eterna, do pecado e do domínio de Satanás para si mesmo. Ele nos libertou daquilo que nos era acidental para que sejamos aquilo que de fato somos, a imagem de Deus. Em Cristo temos o verdadeiro sentido da nossa existência; vivemos agora pela vida de Cristo, sob a direção do Espírito Santo (Jo 3.3; 10.10; At 10.18,19; 20.22-24; 2Co 5.15-17; Fp 3.7-8; Cl 3.1-3).
4.2. O testemunho interno do Espírito
Deus não simplesmente nos torna seus filhos, Ele quer que saibamos disto. E mais: Ele deseja que sintamos a alegria e a responsabilidade de sê-lo. Para este propósito o Espírito também foi-nos concedido.
O Espírito Santo que habita em nós e nos guia, dá testemunho em nossos corações, por meio da Palavra de Deus, que somos filhos de Deus. Este testemunho se constitui num grande conforto para cada um de nós. Deus mesmo em Pessoa nos garante a nossa filiação, nos concedendo esta certeza de que pertencemos a Ele. Isto Ele o faz de modo contínuo: “O próprio Espírito testifica (summarture/w) com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.16).
É pelo testemunho do Espírito que a graça de Deus é-nos conscientizada. “Nossa mente, por iniciativa própria, jamais nos comunicaria tal segurança se o testemunho do Espírito não a precedesse”, comenta Calvino.[21] O filho de Deus tem, pelo Espírito, esta convicção e consolo: sou filho de Deus!.
Calvino exulta: “Deus guarda para si o conhecimento de nossa eleição, como um príncipe faria o registro principal e original. No entanto, ele nos dá cópias suficientemente autênticas ou comprovantes dela, imprimindo em nossos corações, por seu Espírito Santo, que somos filhos dele”.[22]
4.3. Fruto do Espírito
SeoEspíritodoPaiedoFilho(Mt10.20;Gl4.6)habitaemnós,osfrutosdesuapresençaedireçãodevemseevidenciaremnossavida.
O fruto do Espírito é o grande atestado de nossa filiação divina e de nossa progressiva santificação.[23] Paulo assim descreve este fruto: “…. amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22,23/Mt 5.9; 1Jo 3.10).
Essa é a conclusão lógica de Calvino: “Visto, então que ele nos elegeu para sermos santos e andarmos em pureza de vida, nossa eleição deve ser como uma raiz que produz frutos bons”.[24]
Jesus Cristo diz: “Bem-aventurados os pacificadores (ei)rhnopoio/j), porque serão chamados filhos (ui(oi) de Deus” (Mt 5.9). Aqui temos uma declaração do mais alto privilégio que poderemos ter: sermos chamados filhos de Deus. Aqueles que promovem a paz se parecem com o seu Filho, Jesus Cristo, o Deus da paz (Jo 14.27; Cl 3.15). Pela graça nos parecemos com Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Esta semelhança não é meramente incidental ou física, antes, faz parte de nossa constituição genética: nascemos de novo por obra do Espírito do Pai e do Filho (Jo 3.3,5; Tt 3.5);[25] temos o Espírito de Deus em nós (Rm 8.9) que nos guia e dá testemunho de nossa filiação (Rm 8.14,16).[26]
Portanto, é natural que nos pareçamos com Jesus Cristo, o nosso irmão mais velho, o primogênito que possibilitou e efetivou a nossa adoção e se constitui no modelo para o qual devemos caminhar conforme o propósito de Deus (Rm 8.29).[27]
Jesus Cristo é o modelo de pacificador, sendo Ele mesmo aquele que nos pacificou com Deus, nos conduziu ao Pai (2Co 5.18-19).
Os filhos de Deus por já usufruírem da paz, podem, de fato, promover a paz. A pregação do Evangelho é o primeiro e mais eficaz meio para fazê-lo. A paz genuína deverá sempre começar pela reconciliação com Deus. Esta mensagem reivindicatória de Deus é confiada exclusivamente aos filhos de Deus.
Os evangelistas, portanto, são os grandes pacificadores porque levam a mensagem, o evangelho da paz, promovem a reconciliação dos filhos rebeldes com o seu Pai Celestial.
Devemos nos esforçar por viver em paz com o nosso próximo. No entanto, o desejo pela paz nunca deve justificar atos de injustiça ou conivência com o mal. A paz verdadeira só ocorre dentro dos padrões justos, verdadeiros e santos de Deus. “Os únicos verdadeiros pacificadores no mundo são aqueles que levam as pessoas à justiça, aos padrões de Deus”, conclui MacArthur Jr.[28]
Lutero, portanto, estava certo: era impossível conscientemente negar os ensinos das Escrituras: o justo viverá pela fé!
Paulo escreve aos coríntios:
18 Ora, tudo provém de Deus que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, 19 a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. 20 De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. (2Co 5.18-20).
João escreve com ternura: “Amados, agora, somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque haveremos de vê-lo como ele é”(1Jo 3.2).
Bonhoeffer (1906-1945), comenta com sensibilidade: “Os pacificadores hão de carregar a cruz com seu Senhor, pois foi na cruz que se fez a paz. Estando assim envolvidos na obra pacificadora de Cristo, chamados para a obra do Filho de Deus, por isso serão chamados também eles filhos de Deus”.[29]
4.4. Obediência
Jesus Cristo diz que aqueles, e somente aqueles, que obedecem ao Pai são seus irmãos, portanto, somente eles são filhos de Deus: “Qualquer que fizer a vontade de meu Pai celeste, esse é meu irmão, irmã e mãe” (Mt 12.50).
4.5. Comunhão integral
A adoção envolve uma mudança relacional com Deus e com o nosso próximo: Somos filhos de Deus e irmãos em Cristo (Hb 2.17).[30] Essa irmandade espiritual traz consigo implicações de amor e serviço.
O conceito de Igreja como família de Deus é muito forte. Paulo se refere à igreja desta forma (Ef 2.19).[31] O tratamento comum entre os crentes envolvia o reconhecimento de sua irmandade.[32]
É reveladora a forma como Paulo instrui a Timóteo a respeito do tratamento que deveria conceder à igreja: “Não repreendas ao homem idoso; antes, exorta-o como a pai; aos moços, como a irmãos; 2 às mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza” (1Tm 5.1-2).[33]
OsfilhosdeDeustêmobviamenteaDeuscomoPai,aJesusCristocomoseuirmãoprimogênito(Rm8.29)e,também,atodosaquelesquecreememCristo,comoirmãosnafé.
Os filhos, portanto, na consciência da sua irmandade, procuram sempre a comunhão fraterna na verdade de Cristo, considerando que todos os que creem têm somente um pai: “O que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós igualmente mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (1Jo 1.3).
Daí todo o esforço da Igreja em preservar esta unidade fraterna, que é produzida pelo Espírito, mas, que, concomitantemente, é exercitada e desenvolvida por todos nós (Ef 4.3,5,6,11-16).
4.6. O Exercício da disciplina paternal de Deus
A disciplina divina revela que pecamos, o amor de Deus Pai para com os seus filhos e, também, o seu propósito santo e glorioso para com os seus amados.
Jesus disse: “Eu repreendo (e)le/gxw) e disciplino (paideu/w) a quantos amo. Sê, pois, zeloso, e arrepende-te” (Ap 3.19). “A disciplina é bênção de Deus e um testemunho do Seu amor, como diz a Escritura”, exulta Calvino.[34] A ausência da disciplina de Deus quando pecamos, significaria a nossa não filiação. Observem o que diz o escritor de Hebreus:
5Filho meu, não menosprezes a correção (paidei/a) que vem do Senhor, nem desmaies quando por ele és reprovado (e)le/gxw = “repreendido”, “refutado”); 6 porque o Senhor corrige (paideu/w) a quem ama (a)gapa/w) e açoita (mastigo/w)[35] a todo filho a quem recebe (parade/xomai).[36]7É para disciplina (paidei/a) que perseverais (Deus vos trata como filhos); pois que filho há que o pai não corrige (paideu/w)? 8 Mas, se estais sem correção (paidei/a), de que todos se têm tornado participantes, logo, sois bastardos (*no/qoj = ilegítimo) e não filhos. (Hb 12.5-8).
A educação significa também “disciplina”. Deus muitas vezes usa desse recurso para nos educar, a fim de que sejamos salvos. A disciplina de Deus tem como meta o nosso futuro.[37] Paulo diz: “Mas, quando julgados, somos disciplinados (paideu/w) pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo” (1Co 11.32). (Tratei deste assunto quando falei do arrependimento).
Na educação divina (disciplina), vemos estampada a sua graça que atua de forma pedagógica: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos (paideu/w) para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.11-12).
As aflições corretamente compreendidas podem ser instrumentos utilíssimos para a prevenção e correção de nossos desvios espirituais.
O que a Palavra de Deus nos mostra, e por certo temos confirmado isto em nossa experiência, é que buscamos a Deus mais intensamente em meios às aflições: “Estou aflitíssimo (hfnf(), vivifica-me, Senhor, segundo a tua palavra” (Sl 119.107). “Antes de ser afligido (hfnf(), andava errado, mas agora guardo a tua palavra” (Sl 119.67).
O coração contrito – demonstra Moisés – aprende com a disciplina do Senhor e se alegra por Deus tê-lo afligido: “Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido (hfnf(), por tantos anos quantos suportamos a adversidade” (Sl 90.15).
O desejo de Deus é a restauração de seus filhos. Neste sentido, Paulo recomenda ao jovem Timóteo como deveria agir com aqueles que se opunham à mensagem do Evangelho:
Disciplinando (paideu/w = “ensinando”, “instruindo”) com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade. (2Tm 2.25-26).
Os filhos de Deus, quando pecam, são disciplinados pelo próprio Deus, que assim age para que, arrependidos, abandonem a sua prática pecaminosa e se voltem para Ele, a fim de que se tornem “participantes da sua santidade” (Hb 12.10).
A disciplina de Deus é sempre pedagógica nunca vingativa. Nela está embutida a ideia de recuperação, de restauração do filho amado. Deus visa nos conduzir ao crescimento, ao amadurecimento espiritual, à santidade; em outras palavras, à comunhão com Ele mesmo.
Moisés, compreendendo bem a “didática” de Deus, diz ao povo:
Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar (hfnf(),[38] para te provar, para saber o que estava no teu coração (לבב) (lebab), se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou (hfnf(), e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor, disso viverá o homem. (Dt 8.2-3. Do mesmo modo, Dt 8.16) (Vejam-se: Sl 102.23; Is 64.12; Lm 3.33).
O salmista, fazendo o retrospecto da sua vida, pôde, pelo Espírito, narrando a sua experiência, reconhecer: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição (hfnf(), para que aprendesse (למד)(lâmad) os teus decretos” (Sl 119.71).
Calvino aplica: “E assim somos admoestados quanto ao fato de que é um exercício muitíssimo proveitoso evocar amiúde à memória os castigos com que Deus nos aflige em decorrência de nossos pecados”.[39]
Do mesmo modo, Ezequias, após ter se restabelecido de sua doença mortal: “Eis que foi para minha paz que tive eu grande amargura; tu, porém, amaste a minha alma e a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás de ti todos os meus pecados” (Is 38.17).
Calvino corretamente entende que a disciplina divina revela a sua preocupação com a nossa salvação: “Pois embora seja possível que Ele nos castigue, todavia não nos rejeita imediatamente, senão que, ao contrário, dessa forma testifica que nossa salvação é o objeto do seu cuidado”.[40]
Salomão exorta: “O temor do Senhor é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino (LXX: paidei/a)” (Pv 1.7; Vejam-se: Pv. 9.10; 15.33; Sl 111.10). “Ouvi o ensino (LXX: paidei/a), sêde sábios, e não o rejeites” (Pv 8.33).
Calvino conclui:
Os eleitos, tanto quanto os réprobos, estão sujeitos aos castigos temporários que pertencem somente à carne. A diferença entre os dois casos está unicamente no resultado; pois Deus converte aquilo que em si mesmo é um emblema de sua ira em meios de salvação de seus próprios filhos.[41]
Quando ficamos sabendo que os castigos de Deus são açoites paternais, não é nosso dever tornar-nos filhos dóceis, em vez de, resistindo, imitar aqueles para os quais já não há esperança, endurecidos que estão por suas más obras? Estaríamos perdidos, se o Senhor não nos puxasse para Si por meio dos seus corretivos quando caímos.[42]
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
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[1] “A adoção é uma misericórdia proveniente das entranhas da graça” (Thomas Watson, A Fé Cristã: Estudos baseados no breve catecismo de Westminster, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 270).
[2] Vejam-se: John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 153 e 155; John Frame, Teologia Sistemática, São Paulo: Cultura Cristã, 2019, v. 2, p. 330.
[3]“41 Vós fazeis as obras de vosso pai. Disseram-lhe eles: Nós não somos bastardos; temos um pai, que é Deus. 42 Replicou-lhes Jesus: Se Deus fosse, de fato, vosso pai, certamente, me havíeis de amar; porque eu vim de Deus e aqui estou; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou. 43 Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem? É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra. 44 Vós sois do diabo, que é vosso pai, e quereis satisfazer-lhe os desejos. Ele foi homicida desde o princípio e jamais se firmou na verdade, porque nele não há verdade. Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.41-44).
[4] J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo: Mundo Cristão, 1980, p. 197.
[5] J. Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 8.28), p. 294.
[6] “A regeneração é o pré-requisito da adoção” (John Murray, Redenção: Consumada e Aplicada, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1993, p. 149).
[7] “A justificação é maravilhosa, mas a adoção é o ápice, o ponto mais alto, na nossa relação com Deus. Por isso, a doutrina da adoção merece uma ênfase muito maior na nossa pregação e no nosso trabalho teológico do que a que tem recebido” (John Frame, Teologia Sistemática, São Paulo: Cultura Cristã, 2019, v. 2, p. 331. Do mesmo modo, na página 333). Na década de 1940, o Dr. Webb em sua excelente obra sobre adoção, fez uma revisão bibliográfica entre alguns dos maiores autores reformados e Confissões, destacando que lamentavelmente pouco destaque foi dado ao tema adoção (Veja-se: Robert A. Webb, The Reformed Doctrine of Adoption, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1947, p. 17-18).
[8]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.8), p. 30.
[9]Essas figuras foram empregadas por Horton. Veja-se: Michael Horton, Doutrinas da fé cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 676.
[10]E)cagora/zw: Redimir, resgatar (*Gl 3.13; 4.5; Ef 5.16; Cl 4.5). A palavra está relacionada à compra e venda de escravos nas praças, mercado (a)gora/). A forma intensiva usada por Paulo (e)cagora/zw), era também aplicada à redenção de escravos.
[11] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 192.
[12]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 1.19), p. 43.
[13] J.I. Packer, Teologia Concisa, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1999, p. 157.
[14]John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, Miami: Editora Vida, 1991, p. 95.
[15] D.M. Lloyd-Jones, O Supremo Propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996,p. 108.
[16] “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (Rm 8.2).
[17] Confissão de Westminster, X.2.
[18]Veja-se: João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.13), p. 47-48.
[19] Veja-se: A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 37.
[20] David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 59-60.
[21] João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 8.16), p. 279.
[22]João Calvino, Sermões em Efésios, p. 81.
[23] Veja-se: R.C. Sproul, O Ministério do Espírito Santo, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 1997, p. 163ss.
[24] João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 65.
[25] “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).
[26] “14 Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. (…) 16 O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8.14,16).
[27]“Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm 8.29).
[28]John MacArthur Jr., O Caminho da Felicidade, São Paulo: Cultura Cristã, 2001, p. 154.
[29] Dietrich Bonhoeffer, Discipulado, 2. ed. São Leopoldo, RS.: Sinodal, 1984, p. 62.
[30] Veja-se: John Frame, Teologia Sistemática, São Paulo: Cultura Cristã, 2019, v. 2, p. 330.
[31]“Assim, já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus” (Ef2.19).
[32] Vejam-se: Mt 12.50. Rm 1.13; 8.12; Rm 16.1; 1Co 1.11; 6.8; 7.15; Fm 1.2; Tg 1.2; 2.15.
[33] Quem me chamou a atenção para este texto foi Grudem. (Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 620).
[34]A distinção completa feita por Calvino neste contexto é muito interessante: “Vamos aqui referir-nos a todas as punições em geral com a palavra juízo. Este nós dividiremos em duas espécies, quais sejam, o juízo de vingança ou vindicação, e o juízo de correção ou disciplina. Pelo juízo de vindicação o Senhor pune de tal forma os Seus inimigos que demonstra a Sua ira contra eles para pô-los a perder, destruí-los e reduzi-los a nada. Portanto, trata-se de vingança ou vindicação de Deus quando a punição que Ele envia vem junto com a Sua ira. Pelo juízo de correção ou disciplina Ele não pune com fúria e não castiga para pôr a perder ou para humilhar as pessoas. Por isso, se quisermos falar em termos próprios, essa forma de punição não deve ser chamada vingança ou vindicação, mas admoestação e repreensão. Um pertence a um juiz, o outro a um pai. Porque o juiz, ao punir um malfeitor, pune a sua falta e o seu malefício. Já um pai, ao corrigir o seu filho, não tem por objetivo vingar a falta que ele cometeu, mas, antes, procura ensiná-lo e torná-lo mais prudente no futuro” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.5), p. 174). (Veja-se também: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2 (Sl 41.1), p. 240-241). “A disciplina é uma evidência segura da filiação do crente e do amor de Deus” (V.R. Edman, Disciplina: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 476).
[35] Com a única exceção deste texto a palavra é sempre empregada literalmente no Novo Testamento. (MT 10.17; 20.19; 23.34; Mc 10.34; Lc 18.33; Jo 19.1). Aqui (Hb 12.6) a temos de forma figurada, indicando a instrução, o treinamento que Deus como Pai aplica aos Seus filhos para educá-los.
[36] A palavra tem o sentido de receber para si mesmo, envolvendo compromisso com o que recebeu (*Mc 4.20; At 15.4; 16.21; 22.18; 1Tm 5.19; Hb 12.6).
[37]Veja-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 2, (II.5), p. 177.
[38] A palavra hebraica (hfnf() (‘ãnãh) tem o sentido de “aflito”, “oprimido”, com o sentimento de impotência, consciente de que o seu resgate depende unicamente da misericórdia de Deus. Esta palavra é contrastada com o orgulho, que se julga poderoso para resolver todos os seus problemas, relegando Deus a uma posição secundária, sendo-lhe indiferente.
hfnf( (‘ãnãh) apresenta também a ideia de ser humilhado por outra pessoa: Gn 16.6; 34.2; Ex 26.6; Dt 22.24,29; Jz 19.24; 20.5.
[39]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 38), p. 176.
[40]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 79.10), p. 259.
[41] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 3, (Sl 79.1), p. 250.
[42]João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.17), p. 204.



