Dívida e Gratidão

Aquele homem, fariseu e religioso, ficou perplexo. Como Jesus poderia ser tão clemente e misericordioso, oferecendo de maneira tão abundante àquela mulher algo que ninguém mais oferecia e para muitos era indigno? Jesus concedia o perdão! A gratidão nasce desse reconhecimento: o recebimento de algo que não se pode obter por mérito, mas por graça….

Aquele homem, fariseu e religioso, ficou perplexo. Como Jesus poderia ser tão clemente e misericordioso, oferecendo de maneira tão abundante àquela mulher algo que ninguém mais oferecia e para muitos era indigno? Jesus concedia o perdão! A gratidão nasce desse reconhecimento: o recebimento de algo que não se pode obter por mérito, mas por graça.

Diante do estranhamento do fariseu, Jesus recorre a uma parábola simples, mas profunda, para ilustrar a essência do perdão e o amor que transborda quando a gratidão é genuína. Dois homens deviam a um credor: um devia uma pequena quantia, o outro uma dívida imensa. Nenhum dos dois podia pagar, mas o credor, generosamente, perdoou a ambos.

“Quem será mais grato?”, perguntou Jesus. O fariseu, sem alternativas, respondeu: “Aquele que foi perdoado da maior dívida”. Neste ponto, Jesus estabelece uma verdade que ecoa até hoje: quanto mais nos reconhecemos pecadores, mais gratos nos tornamos. Quanto maior a nossa dívida e mais abundante o perdão recebido, maior será nossa expressão de amor a Deus.

Por que tantas vezes somos ingratos? Simplesmente, porque nos achamos autossuficientes. A ingratidão é a filha bastarda do orgulho. Ela nasce quando nos convencemos de que somos grandes, invencíveis, a “última bolacha do pacote”, como se diz. Porém, a vida, sob o controle de Deus, tem maneiras peculiares de nos ensinar.

Você já parou para pensar por que, às vezes, sentimos que a vida nos dá uma rasteira? Certamente, não é porque Deus seja sádico, mas porque ele sabe que, em meio às nossas crises, descobrimos a fragilidade de nossa autossuficiência. Quando a morte visita um amigo, a doença nos acomete, ou problemas nos atingem, toda a infraestrutura de controle que achávamos ter, simplesmente desmorona. É como se Deus estivesse nos sacudindo, gritando para nos acordar e nos fazer enxergar o quanto somos devedores a ele.

E aqui entra o “Serasa do céu” – uma metáfora que de vez em quando lembro em meu cotidiano. Todos os dias verifico meu saldo devedor diante de Deus e agradeço, porque sei que, por mim mesmo, sou inadimplente. Minha dívida é o pecado. Assim como na parábola, a única solução para minha insolvência espiritual é o perdão generoso de Deus.

Quando reconhecemos o tamanho de nossa dívida, somos levados à verdadeira gratidão – aquela que não é meramente verbal, mas concreta, que se expressa em atos de amor e devoção. Jesus, ao trazer a parábola à realidade do fariseu, também nos desafia a olhar para nossa própria condição.

A mulher pecadora, aos pés de Jesus, demonstrou a gratidão mais pura e sincera. Sua humildade contrastava com a presunção do fariseu. Enquanto ele achava que podia medir a dignidade de outros – e até de Jesus –, ela tinha consciência de que estava diante da única fonte de perdão.

Se hoje você sente que a vida o tem sacudido, talvez seja Deus tentando lembrar do quanto você depende dele. Não como um ato de crueldade, mas como um gesto de amor, para que você possa redescobrir o tamanho da sua dívida e o valor imensurável do perdão que ele oferece.

Quanto mais entendemos a profundidade da graça de Deus, mais profundamente o amamos. E quanto mais o amamos, mais concretizamos essa gratidão em nossas ações. Assim como Jesus trouxe o caso da parábola para o real, ele também nos convida a trazer essa lição para nossa vida: reconhecer, agradecer e viver em resposta à graça que nos alcança diariamente.

O Rev. Dr. Robinson Grangeiro Monteiro é o Chanceler do Mackenzie

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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