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O melhor projeto para o ano novo

A fidelidade que honra o Senhor

Qual é o nosso grande projeto para 2026?

Em seu livro Liderança, publicado no Brasil pela Cultura Cristã, Paul Tripp aborda o desafio que igrejas e seus conselhos frequentemente encontram de equilibrar o desejo de alcançar grandes resultados com a fidelidade ao chamado de Deus.

Tudo bem pensar grande. Nada contra, desde que não percamos de vistas o propósito último de, trabalhando com zelo e dedicação, tudo fazermos para a glória de Deus (1Co 10.31). Não é incomum ver-se o ministério medido apenas por números ou metas alcançadas, mas às custas da piedade e da integridade do coração. Uma grave fraqueza é denunciada nesses casos: permitir que a realização se torne mais importante do que a fidelidade.

O que orienta as reuniões do Conselho de uma igreja? Resultados visíveis? Paul Tripp reconhece que preocupações com finanças, planejamento e crescimento são legítimas, mas podem, sem que se perceba, transformar pastores e presbíteros humildes em administradores inquietos, absorvidos por metas e, muitas vezes, distantes da paixão pelo evangelho. Assim, aquilo que deveria ser ferramenta se torna o foco, e a obra do Senhor passa a ser conduzida como empreendimento humano.

Essa distorção também afeta o modo como se definem líderes. Tripp lembra que as qualificações bíblicas descritas em 1Timóteo 3 enfatizam o caráter — irrepreensibilidade, temperança, hospitalidade, desprendimento. No entanto, quando a lógica dos resultados se impõe, essas virtudes cedem espaço à busca por líderes “eficientes”, capazes de produzir impacto mensurável. Deus é quem opera por meio de seus servos, mas isso fica esquecido: “[…] nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento” (1Co 3.7).

Outro efeito perigoso quando se estabelecem resultados como propósito último para o trabalho e a vida da igreja é a redefinição de sucesso e fracasso. Em um ambiente moldado por metas, muitos líderes fiéis passam a se sentir derrotados por não atingirem os números projetados. A verdade, porém, é que o fracasso verdadeiro não está na ausência de resultados, mas na preguiça, no orgulho, na indisciplina e na infidelidade. Há pastores que cumprem com devoção sua vocação, mas carregam fardos que Deus nunca colocou sobre eles.

Esse clima também sufoca a comunicação honesta. O evangelho deveria libertar os líderes para reconhecerem fraquezas, confessarem pecados e pedirem ajuda. Porém, em igrejas obcecadas por performance, admitir lutas passa a ser visto como sinal de incompetência. Forma-se um ambiente de silêncio, medo e aparências — exatamente o oposto da comunidade de graça retratada no Novo Testamento: “Levai as cargas uns dos outros e, assim, cumprireis a lei de Cristo” (Gl 6.2).

As consequências se estendem ao próprio discipulado. É mais fácil erguer estruturas do que formar pessoas. Nem cogitaremos disso. Quando a atenção se desloca para a construção institucional, membros passam a enxergar a igreja como prestadora de serviços, não como corpo vivo de Cristo. O discipulado enfraquece e líderes esquecem que nenhum método humano pode produzir transformação espiritual: “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15.5).

Nesse processo, pessoas — aquelas pelas quais Cristo morreu — podem ser vistas como obstáculos ao avanço de projetos grandiosos. A “bagunça” do ministério, porém, é parte da pedagogia divina: Deus molda seus servos justamente por meio das fragilidades e necessidades de seu povo. A liderança da igreja e cada crente não podem ignorar isso.

O sucesso, por sua vez, pode ser ainda mais perigoso que o fracasso. Líderes que começam a tomar para si o crédito da obra diminuem sua vida de oração, aumentam sua autoconfiança e tornam-se menos acessíveis. A adoração se esvazia, o coração se exalta e, tragicamente, a dependência de Deus é substituída pela autossuficiência. Não raro, ministérios florescentes revelam colapsos internos que nada têm a ver com produtividade, mas com erosão de caráter.

Esse quadro conduz a outro problema: a produtividade torna-se critério supremo de autoavaliação. Entretanto, frutos duradouros resultam de corações humildes, arrependidos e fortalecidos pela graça. Tempestades, críticas e decepções são enfrentadas não pela força dos resultados, mas pela profundidade da comunhão com Deus.

Por fim, Paul Tripp lembra em seu excelente livro que comunidades centradas em conquistas começam a substituir a vida de oração por reuniões de planejamento. Planejar é necessário, reconhece o autor; mas quando a oração se torna mero protocolo, perde-se o reconhecimento de que “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam” (Sl 127.1). O entusiasmo pelo planejamento supera o fervor pela intercessão — um sinal claro de que o centro foi deslocado e o alvo final se perdeu.

A igreja deve, sim, buscar grandes coisas para Deus. Mas que seja mesmo para Deus. Ela precisa lembrar que a realização, quando colocada no lugar errado, torna-se campo minado espiritual. Pode transformar servos humildes em líderes orgulhosos e controladores, distorcendo a natureza do ministério de Cristo. A boa notícia é que aquele que chama também acompanha, capacita e sustenta: “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (1Ts 5.24).

É nessa dependência que a igreja encontra seu verdadeiro norte — não nos resultados que impressionam, mas na fidelidade que honra o Senhor.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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