Introdução
O fim de ano é sempre um período de balanço: olhamos para trás, avaliamos conquistas e frustrações, e em oração, suplicando a orientação de Deus, projetamos o futuro.
Nesse processo, duas palavras se destacam: planejamento[1] e urgência. Planejar exige tempo, reflexão e organização; urgência exige decisão imediata, sem espaço para adiamentos. À primeira vista, parecem conceitos opostos. Contudo, a mensagem de Zacarias nos mostra que ambos se encontram na vida espiritual: precisamos planejar nossa caminhada com Deus, mas fazê-lo com urgência, sem procrastinar o arrependimento e a obediência.[2]
Assim como Israel, que retornara do exílio e precisava reconstruir o templo, também nós, ao encerrar mais um ciclo, somos desafiados a reorganizar, reconhecendo Deus o centro motivador e teleológico de todas as coisas.
Contexto
O contexto histórico da profecia é marcante. Após o exílio babilônico, cerca de 50 mil judeus retornaram a Jerusalém sob a liderança de Zorobabel, com a missão de reconstruir o templo destruído em 586 a.C. (Ed 2.64-65).[3]
Apesar da autorização de Ciro, rei da Pérsia, e da clara manifestação da soberania de Deus (Is 44.28; Jr 29.10), o povo enfrentou oposição dos samaritanos, que conseguiram suspender a obra por quase duas décadas (Ed 4.4-24).
Nesse período, os judeus se acomodaram, dedicando-se às próprias casas e negligenciando a do Senhor. Foi nesse cenário que Deus levantou Ageu e Zacarias para reacender a chama da fidelidade e da esperança. Ageu, com mensagens diretas e práticas, provocou uma reação imediata do povo (Ag 1.12-14). Zacarias, por sua vez, trouxe uma mensagem mais ampla, apontando para o futuro messiânico e para a necessidade de conversão.
Zacarias inicia sua profecia lembrando que “o Senhor se irou ao extremo contra vossos pais” (Zc 1.2). A expressão é forte, indicando a indignação divina diante da recusa em ouvir a sua Palavra. Como afirma Lloyd-Jones (1899-1981), “Deus não seria Deus se não odiasse o pecado e manifestasse seu furor contra ele”.[4] A ira de Deus, inseparável de sua santidade, é sempre resposta santa ao mal.[5] Porém, somente os fiéis são sensíveis à sua ira, arrependidos, buscam em Deus o seu perdão.[6]
Memória histórica
O profeta, portanto, convida o povo a refletir sobre o passado, lembrando tanto os atos poderosos de Deus − a chamada de Abraão, o Êxodo, os livramentos − quanto os pecados dos pais, como idolatria, insensibilidade espiritual e rejeição da Palavra. O resultado foi o exílio, descrito por Jeremias como a própria intervenção de Deus contra o seu povo: “Pelejarei eu mesmo contra vós outros com braço estendido e mão poderosa, com ira, com indignação e grande furor” (Jr 21.5).
Essa memória, iluminada pela Palavra, torna-se pedagógica. O fim de ano é ocasião propícia para este exercício: assim como Israel foi chamado a lembrar-se da história (Ag 1.7), também nós somos convidados a revisitar o caminho percorrido.
Toynbee (1889-1975) observou que:
Como não vemos o futuro até que ele chegue a nós, temos que nos voltar para o passado a fim de esclarecê-lo. Nossa experiência do passado dá-nos a única luz a que temos acesso para iluminar o futuro. (…) Não podemos planejar sem olhar para a frente, e não podemos olhar para a frente exceto na medida em que a luz da experiência nos ilumina o futuro.[7]
Assim, o passado nos ensina: olhado pela perspectiva das Escrituras, nele vemos tanto a fidelidade de Deus quanto nossas falhas.
Atentar para a Palavra de Deus
Zacarias prossegue enfatizando a necessidade de atentar para a Palavra de Deus. Ele usa duas expressões: “Palavras” (rfbfD) (dabhar) e “Estatutos” (qx) (choq) (“decretos”), indicando tanto os decretos judiciais quanto as promessas de perdão. A Palavra de Deus é eterna e fiel. Os pais e os profetas passaram, mas a Palavra permanece (Zc 1.5-6). “Como o Senhor dos Exércitos fez tenção de nos tratar, segundo os nossos caminhos, assim Ele nos fez” (Zc 1.6).
Deus nunca quebra suas promessas; cumpre-as fielmente. No fim de ano, quando tantas vozes disputam nossa atenção, precisamos reafirmar que somente a Palavra de Deus é guia seguro. Ela não é um adorno para nossos projetos, mas o fundamento que orienta nossas decisões. Como lembra o salmista: “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos,” (Sl 119.105).
Tornai-vos a Deus
O convite central da profecia é: “Tornai-vos (bWv) (shub) a mim (…), e eu me tornarei para vós” (Zc 1.3). O verbo hebraico shub expressa arrependimento e retorno, combinando desviar-se do mal e voltar-se para o bem.[8] Voltar-se a Deus é reconhecê-lo como Senhor dos projetos de vida (Pv 3.6), abandonar compreensões distorcidas e deixar que Ele mesmo nos revele quem é, prosseguir no conhecimento experimental de Deus (Os 6.3), e confiar unicamente em Cristo para a salvação: “E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3).
Paulo expressa essa prioridade ao dizer: “Considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3.8). O fim de ano é ocasião para reafirmar que nada é mais valioso do que conhecer e seguir ao Senhor.
O povo de Israel vivia um momento de reconstrução. O templo estava em ruínas, a fé enfraquecida, e os inimigos à espreita. Ageu e Zacarias foram levantados para reacender a chama da esperança e da fidelidade em 520 a.C. Baldwin (1921-1995) observa que “nenhum profeta provocou uma reação tão imediata como Ageu”.[9] Zacarias, por sua vez, apresenta uma visão mais longínqua, apontando para o Messias e para a restauração futura.
As nossas reconstruções
Van Groningen (1921-2014) destaca que “Zacarias obedientemente proclamou as suas mensagens de encorajamento, de advertência e de esperança gloriosa a ser cumprida em e por meio do Messias, o prometido Mediador do pacto.”[10] Nós também vivemos tempos de reconstrução. O fim de ano nos lembra que diversas áreas da vida necessitam de restauração: relacionamentos, prioridades e espiritualidade.
Assim como Israel, somos chamados a não nos acomodar, mas a reconhecer Deus como centro deliberativo, normativo e teleológico. A urgência de Zacarias ecoa em nossos dias: não podemos adiar o retorno ao Senhor. A vida é breve, e a Palavra permanece. O convite é para hoje: “Se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (Hb 3.7-8).
Considerações finais
No encerramento de mais um ano, o apelo divino é claro: não devemos adiar o retorno ao Senhor. A urgência de Deus precisa ser a nossa prioridade, pois é Ele quem nos chama a viver em fidelidade e esperança.
Esse tempo de transição é ocasião propícia para um inventário espiritual, perguntando com sinceridade: quais áreas da nossa vida necessitam ser reconstruídas? Onde temos negligenciado a presença de Deus? Quais ruínas ainda precisam ser restauradas pela sua graça?
Nesse exercício, é fundamental trazer à memória os atos de Deus em nossa história. A fidelidade divina, sempre presente, torna-se combustível para a fé. Cada livramento, provisão e resposta de oração nos lembram que o Senhor permanece constante, mesmo diante da nossa inconstância. A gratidão, portanto, não se reduz a um sentimento, mas é graça que se manifesta em obediência e confiança renovada − a obediência é, em si, a expressão concreta da gratidão.
Diante das incertezas do futuro, somos chamados a reafirmar nossa confiança na Palavra de Deus. Diferente das circunstâncias que mudam, ela permanece eterna e fiel. Os homens passam, os projetos se desfazem, mas a promessa do Senhor continua firme, oferecendo direção, consolo e esperança.
Por isso, o apelo de Zacarias continua atual: voltemos a Deus com arrependimento e esperança. Ele nos chama a abandonar os caminhos tortuosos e a retornar ao seu cuidado, assegurando que o Deus da aliança renova, restaura e fortalece o seu povo. Os pais e os profetas morreram, mas a Palavra de Deus permanece. O tempo é breve, e a urgência é real. Considerar o passado, atentar para a Palavra e voltar-se ao Senhor são os três movimentos que estruturam essa mensagem.
Assim, o fim de ano não é apenas um marco no calendário, mas uma oportunidade espiritual de recomeço. Que possamos entrar no novo ano com o coração convertido, sustentados pela memória dos atos de Deus, firmados na sua Palavra e cheios de esperança na renovação que somente Ele pode realizar. Que não adiemos o retorno ao Senhor, mas façamos da urgência de Deus a nossa prioridade. Amém.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
_______________________________________________________________
[1]Costumo falar de “Planejamento” como sendo um plano de ação composto por um conjunto de elementos, que envolva a consciência de onde estamos, os recursos de que dispomos, do tempo que temos e de onde queremos chegar. A “Estratégia” está em saber como utilizar bem tudo isto, considerando as “incertezas” e os “riscos”, usando das variáveis existentes não como um empecilho, mas sim, como meios que possibilitam o alcance das metas e objetivos pretendidos.
[2] “A procrastinação é tão má quanto a precipitação. (…) A oportunidade é uma questão de grande importância. (…) Há um ditado em nosso meio: ‘Aproveito o tempo enquanto é tempo, e também o presente enquanto está presente’.” (Martinho Lutero, Conversas à Mesa, Brasília, DF.: Monergismo, 2017, # 892 p. 462).
[3] Jeremias registra que cerca de 4.600 judeus foram levados cativos para a Babilônia (Jr 52.30). Josefo, (c. 38-100 A.D.) em sua Antiguidades Judaicas (X.9.7), amplia esse quadro ao afirmar que outros grupos foram deportados posteriormente, especialmente quando Nabucodonosor conquistou o Egito, levando consigo os judeus que haviam fugido para lá. Dessa forma, o número de exilados foi maior do que o inicialmente mencionado por Jeremias, evidenciando a amplitude da dispersão e a severidade do juízo divino.
Muitos dos que foram levados, bem como aqueles que nasceram na Babilônia, acabaram por se acomodar à nova realidade, fosse por conveniência ou por desconhecerem outra forma de vida. O retorno à terra prometida não foi a prioridade de todos. O grupo que regressou à Palestina somava cerca de 50 mil pessoas (Ed 2.64-65). Como observa Graaf (1889-1955), “o desejo de servir ao Senhor no templo não foi a preocupação principal de sua vida. Ao permanecerem ali eles depreciavam o pacto da graça do Senhor” (Simon G. de Graaf, El Pueblo de la Promesa, Grand Rapids, Michigan: SLC., 1981, v. 2, p. 396-397).
[4] D.M. Lloyd-Jones, O Caminho de Deus não o nosso, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 2003, p. 61.
[5] Veja-se: John R.W. Stott, A Cruz de Cristo, Florida: Editora Vida, 1991, p. 93.
[6]Veja-se: João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 90.11), p. 439.
[7] Arnold J. Toynbee, O Desafio do Nosso Tempo, 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975, p. 13,14.
[8]“Pois melhor do que qualquer outro verbo ele combina em si os dois requisitos do arrependimento: desviar-se do mal e voltar-se para o bem” (Victor P. Hamilton, Shûb: In: R. Laird Harris, et. al. eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, [p. 1532-1534], p. 1532).
[9]Joyce G. Baldwin, Ageu, Zacarias e Malaquias, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, ã americana, 1972, p. 25. Do mesmo modo, Gleason L. Archer Jr., Merece Confiança o Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1974, p. 480 e Samuel J. Schultz, A História de Israel no Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1977, p. 393.
[10]Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho Testamento, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1995, p. 832.



