E a Igreja iraniana persevera
Peço licença para lhes contar um pouco sobre o testemunho de alguns cristãos no Irã. O primeiro deles é Yahya, cujo nome real estou omitindo por segurança. Ele é líder do movimento de igrejas domésticas do Irã, um cristão de origem muçulmana, marido e pai de uma família jovem. Como muitos outros cristãos iranianos, Yahya…
Peço licença para lhes contar um pouco sobre o testemunho de alguns cristãos no Irã. O primeiro deles é Yahya, cujo nome real estou omitindo por segurança. Ele é líder do movimento de igrejas domésticas do Irã, um cristão de origem muçulmana, marido e pai de uma família jovem. Como muitos outros cristãos iranianos, Yahya pagou o preço por ser um crente vivendo sob o regime islâmico. Ele foi interrogado, detido, sofreu abusos e pode em breve ser obrigado a cumprir uma longa pena de prisão, tudo por causa de seu ministério cristão. E agora, como o restante dos 93 milhões de habitantes do Irã, ele é cidadão de uma nação em guerra.
“A vida está difícil”, disse-nos Yahya recentemente, quando minha equipe e eu falamos brevemente com ele, por meio de mensagens de voz que eram constantemente interrompidas devido à conexão de internet muito fraca. “Mas continuamos em frente. E o Senhor está revelando sua glória.”
Essas não são meras palavras vazias. Em um momento em que muitos iranianos têm medo de viajar até mesmo dentro do próprio país, Yahya acabara de retornar de uma viagem a vários vilarejos remotos, onde tinha ido para servir aos pobres, compartilhar o evangelho e entregar exemplares do Novo Testamento em persa a moradores curiosos. Cinco pessoas entregaram a vida a Cristo, ao longo de uns poucos dias.
E há muitos outros crentes que também estão optando por fazer a luz de Cristo brilhar em meio à guerra. Ouço as histórias desses crentes no trabalho que realizo todos os dias no Elam Ministries, uma organização que visa fortalecer igrejas no Irã e região. Mesmo nesta temporada de medo, turbulência e incertezas, os cristãos iranianos continuam a ser resilientes, corajosos e esperançosos. E cada história que ouço me traz aos lábios uma prece de agradecimento.
A igreja iraniana está preparada para este momento por já ter suportado muitas provações. Desde a Revolução Iraniana, em 1979, a apostasia de muçulmanos tem sido um anátema para o clero que governa o país. Eles insistem que os iranianos de origem muçulmana não devem ser expostos ao ensino cristão. O regime permite que as antigas comunidades cristãs do Irã — os armênios e assírios — prestem culto em suas línguas minoritárias. Mas as igrejas de língua persa têm sido cada vez mais perseguidas, particularmente porque muitos de seus membros são convertidos que abandonaram o Islã.
Nas primeiras décadas após a Revolução Iraniana, as autoridades martirizaram oito líderes cristãos fundamentais. Eles ameaçaram e acabaram por fechar igrejas que celebravam cultos em persa. Nos anos 90, o regime baniu a Sociedade Bíblica do Irã. E hoje, é contra a lei vender ou usar a tradução da Bíblia em persa.
Empurrados para a clandestinidade, os cristãos de língua persa agora se reúnem apenas em igrejas domésticas, enfrentando ameaças constantes de batidas policiais, prisões, interrogatórios, tortura e processos na justiça que frequentemente terminam em prisão. No entanto, muitos ainda escolhem seguir a Cristo.
Coragem como a de Yahya — que continua seu ministério, apesar de uma sentença de prisão pendente — é algo comum de encontrar. Inúmeros irmãos e irmãs cristãos permaneceram inabaláveis sob perseguição, enquanto oram por seus perseguidores e lhes dão testemunho. Quando perguntei a um casal por que eles estão prontos para sofrer por Cristo, eles disseram: “Porque provamos e vimos” [uma alusão a Salmos 34.8: “Provai e vede que o Senhor é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia”].
Muitos cristãos iranianos deram mostras desse legado de coragem, durante outras dificuldades recentes. Primeiro, veio a guerra breve, porém intensa, com Israel (e os EUA), em junho de 2025. Durante esse período, a igreja clandestina sentiu o mesmo choque e o mesmo medo que a população em geral. Ainda assim, ouvimos que muitos continuaram se reunindo para adorar a Deus. Alguns abriram suas casas para pessoas que fugiam das grandes cidades. Outros caminharam pelas ruas para orar, mesmo sob as bombas que caíam. E alguns encontraram a fé, durante esses 12 dias de guerra.
Então, no início deste ano, o Irã enfrentou novos dias sombrios, quando as forças governamentais mataram milhares de iranianos desarmados. A repressão deixou inúmeras pessoas feridas e traumatizadas. Os cristãos foram aos hospitais orar pelos feridos. Visitaram vizinhos em luto. Ofereceram consolo e compartilharam a mensagem de Jesus, sempre que possível.
Agora, em meio à guerra, vemos o mesmo padrão se repetir. Por meio de brechas no bloqueio à Internet, ouvi dizer que muitas igrejas domésticas ainda estão se reunindo, apesar dos postos de controle do governo terem aumentado o risco de buscas e prisões. Recentemente, um membro da minha equipe contou sobre um grupo de 9 cristãos que continuou a se reunir em meio ao caos e à violência. Amigos e familiares notaram a paz que os cristãos demonstravam e se interessaram. E então se juntaram ao grupo, que cresceu para 21 pessoas, numa clara demonstração do trabalho evangelístico que fez da igreja iraniana um dos movimentos cristãos que mais crescem hoje no mundo.
A coragem muitas vezes encontra expressão na ação, e a generosidade que nossa organização vê em campo é exemplo disso. Nas primeiras semanas desta guerra, um convertido relativamente novo contatou seu pastor e disse que queria entregar seu dízimo para cristãos pobres de outras cidades. O pastor sugeriu-lhe que enviasse o dinheiro para uma família pobre, de uma cidade distante, que cuidava de um avô com deficiência.
Dias depois, membros de outra igreja doméstica viajaram por conta própria para essa mesma cidade, para compartilhar o evangelho, e coincidentemente acabaram visitando a casa dessa família. Os membros da igreja contaram que a família lhes disse: “Tínhamos ficado completamente sem dinheiro, mas, então, exatamente no momento em que mais precisávamos, a ajuda chegou”.
Vemos esse mesmo foco voltado para os de fora, e que é inspirado pelo Espírito, em líderes de igrejas domésticas como Parvin e seu marido, Amir (novamente usei nomes fictícios). O casal vive em uma área que foi severamente bombardeada. Mas quando nossa equipe sugeriu que se mudassem para um lugar mais seguro, eles gentilmente recusaram. “Queremos ficar e ajudar as pessoas”, explicou Parvin. “E, se a situação permitir, também queremos compartilhar o evangelho.”
Desde o início da guerra, Parvin tem preparado cestas básicas para famílias de seu bairro. Os preços têm subido rapidamente em meio a uma economia já devastada, e muitos estão lutando para sobreviver. Uma cesta foi para uma mãe solteira que cria um filho com deficiência. A mulher vinha se perguntando ansiosamente como faria seu dinheiro durar até o fim do mês. “Quando ela viu como Deus havia provido para ela, começou a chorar”, disse Parvin.
A igreja iraniana é corajosa, generosa e cresce por meio de um compromisso com o testemunho. Isso não significa que a igreja seja perfeita, nem que cada cristão iraniano seja perfeitamente ou consistentemente corajoso, generoso ou ousado. Os crentes no Irã são como nós, seres humanos caídos que devem depender diariamente da graça de Deus para serem conformados à imagem de seu Filho. Além disso, a igreja enfrenta os mesmos desafios de qualquer movimento cristão de crescimento rápido, questões como garantir a boa ordem, a prestação de contas e a ortodoxia. O desafio adicional da perseguição também pode, às vezes, resultar na dispersão e no isolamento dos crentes.
Dias mais difíceis podem estar chegando para o Irã, e mais do que nunca o povo do país precisará que a igreja brilhe como um testemunho encarnado do amor de Cristo. Muitas incertezas pairam à frente: embora o povo iraniano possa conquistar mais liberdades, também existem muitas possibilidades sombrias.
O regime, ainda que ferido, pode se apegar ao poder e tornar-se mais repressivo. Uma perseguição mortal contra cristãos e outras minorias poderia acontecer. Nas últimas décadas, o Irã tem perseguido a igreja clandestina, mas evitou execuções em massa por apostasia, em parte devido ao escrutínio internacional. Mas isso pode mudar.
Se a república islâmica permanecer no poder, ela pode ir atrás daqueles que vê como inimigos internos. Cristãos de igrejas domésticas — aos quais o regime já rotula erroneamente como “sionistas” — seriam alvos fáceis. Alguns líderes proeminentes da diáspora cristã aliaram-se abertamente a opositores do regime, como Reza Pahlavi, o que poderia fazer com que os cristãos parecessem inimigos perigosos. A história mostra que crentes foram executados como inimigos do Estado durante momentos de convulsão social, inclusive nas revoluções Francesa, Russa e Comunista Chinesa. O Irã poderia seguir por um caminho semelhante.
A igreja global deve orar contra esse possível cenário e estar pronta para apoiar nossos irmãos e irmãs naquele país. Eis como podemos ajudar:
Primeiro, acredito que devamos tirar nosso foco da geopolítica e olhar para a igreja. É fácil ficar preocupado com Washington, Teerã e as dinâmicas de poder em mutação. No entanto, as Escrituras consistentemente direcionam nossa atenção para outro lugar. Nos Evangelhos, nas Epístolas e em Apocalipse, é por meio de Cristo e de sua igreja que Deus realiza seus propósitos de forma mais decisiva.
Muitos cristãos dentro do Irã estão mantendo esse foco. Seja qual for o resultado desta guerra, pessoas como Yahya acreditam que aquilo que o Irã mais precisa é do reino de Deus. Suas identidades e lealdades estão ligadas ao reino celestial e eterno, e não a ascensão e queda dos reinos deste mundo. Esses crentes desafiam a nossa própria caminhada com Cristo: Será que nossas próprias identidades e lealdades estão firmemente fundamentadas em nossa cidadania celestial?
Segundo, devemos nos comprometer a orar por eles de forma sustentada e informada. Orar por proteção, coragem, unidade e crescimento contínuo entre os crentes no Irã é uma das maneiras mais significativas de estar ao lado deles, em tudo o que vier pela frente.
Terceiro, devemos apoiar esforços práticos que fortaleçam a igreja iraniana. Isso inclui fornecer Bíblias, treinar liderança e fornecer apoio pastoral — investimentos silenciosos e fiéis que permitem que os crentes persistam e cresçam sob pressão. Mesmo nestes dias difíceis, continua a haver esperança para o Irã porque, como Yahya me disse com uma convicção serena: “A igreja no Irã está viva”.
David Yeghnazar é diretor executivo dos Ministérios Elam. Nascido no Irã, sua família serve à igreja iraniana há três gerações.
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