Jeffrey Epstein e o mito da guerra cultural
Este artigo foi extraído da newsletter de Russell Moore. Para recebê-la, inscreva-se aqui. Muita gente praticamente já desistiu de superar as divisões que racham a nossa sociedade. Políticos de direita e de esquerda não conseguem aprovar nenhuma legislação bipartidária [que seja fruto de consenso entre partidos rivais], sequer conseguem assistir aos mesmos shows no intervalo…
Este artigo foi extraído da newsletter de Russell Moore. Para recebê-la, inscreva-se aqui.
Muita gente praticamente já desistiu de superar as divisões que racham a nossa sociedade. Políticos de direita e de esquerda não conseguem aprovar nenhuma legislação bipartidária [que seja fruto de consenso entre partidos rivais], sequer conseguem assistir aos mesmos shows no intervalo de um evento esportivo como o Super Bowl. No entanto, ao longo das últimas duas décadas de polarização, uma figura parece ter decifrado o segredo para unir os dois lados dessa guerra cultural. Seu nome era Jeffrey Epstein.
Os arquivos do caso Epstein foram substancialmente censurados, pois tiveram partes deles ocultadas de nós; no entanto, vimos o suficiente para saber que Epstein e sua ex-companheira, Ghislaine Maxwell, foram dois dos criminosos sexuais mais corruptos e influentes da história dos Estados Unidos e, talvez, do mundo. Apesar de tudo estar ainda muito confuso [em relação aos fatos], podemos constatar o seguinte: as teorias mais excêntricas estavam certas em pelo menos um ponto importante. De fato existe uma conspiração global de pervertidos sexuais ricos e pertencentes à elite explorando as massas. E muitos deles estavam conquistando seguidores espalhando justamente essa crença, ou seja, de que existe uma conspiração global de pervertidos sexuais ricos e pertencentes à elite explorando as massas.
Quando lemos os nomes de pessoas ligadas a Epstein, fica difícil acreditar na diversidade que encontramos nessa lista. Alguns não surpreendem: por exemplo, o sinistro cineasta Woody Allen ou o homem anteriormente conhecido como Príncipe Andrew. Mas mesmo o alcance da lista é inquietante. Até o Dalai Lama teve que emitir um comunicado declarando que nunca esteve envolvido com Epstein. E o que é ainda mais inacreditável é o fato de que muitas das pessoas que estão na lista estavam participando de festas ao lado daqueles que elas mesmas passam o tempo todo nos dizendo para odiar.
Tanto Donald Trump quanto Bill Clinton aparentemente eram amigos de Epstein. Deepak Chopra, o sincretista da Nova Era, aparece nos documentos do caso por diversas vezes — frequentemente em menções obscuras e enigmáticas —, assim como também aparecem pessoas que acusaram o papa de sincretismo da Nova Era. E, a despeito das tensões que temos no Oriente Médio, os arquivos incluem tanto sheiks árabes quanto israelenses. Os arquivos estão repletos de conexões com Noam Chomsky, provocador populista de esquerda, bem como com Steve Bannon, provocador populista de direita. Epstein zomba de evangélicos, mas recomenda um artigo de James Dobson.
Como isso é possível?
Talvez uma das razões seja porque Jeffrey Epstein descobriu o segredo obscuro do mundo em que vivemos hoje: aqueles que travam a guerra cultural em geral acreditam no seu discurso; aqueles que a lideram, porém, em geral não compram esse discurso.
A herdeira Leona Helmsley, quando foi acusada de fraudar o governo, disse algo notório, num momento digno de Maria Antonieta: “Só os cidadãos comuns pagam impostos”. Talvez essa classe de pessoas que têm algum envolvimento com Epstein esteja nos dizendo: “Só os cidadãos comuns travam guerras culturais”.
Afinal, Noam Chomsky dedicou sua vida a argumentar que a desigualdade de riqueza era uma atrocidade moral, que os bilionários, em seu luxo, estavam se aproveitando da classe trabalhadora. Independentemente do que venha a ser provado posteriormente sobre sua participação pessoal ou sobre a sua não participação nesses crimes do caso Epstein, já sabemos que voar no jato particular de Epstein não representava um grande problema para a consciência solidária de Noam Chomsky com os trabalhadores do mundo.
Uma placa, que aparece em uma estante que fica atrás da cadeira de Steve Bannon, e que pode ser vista nos vídeos de seu podcast no YouTube, diz: “NÃO existem conspirações, mas também NÃO existem coincidências”. No entanto, em e-mails recuperados, Bannon teria dito a Epstein de que modo ele poderia evitar ser responsabilizado e como poderia formar uma coalizão populista, nacionalista, católica e evangélica — com a implicação de que isso poderia acabar com o movimento #MeToo. Ele disse que esse tipo de coalizão poderia “reverter o Alabama”, o que presumivelmente é uma referência à rejeição do candidato ao Senado dos EUA, Roy Moore, devido a alegações de má conduta sexual com meninas.
Referindo-se ao movimento Time’s Up, liderado por Hollywood, que defendia a responsabilização de homens por estupro, assédio e abuso sexual, Bannon escreveu a Epstein — que, na época, já tinha sido condenado por crimes sexuais: “Esta coalizão adia o ‘Time’s Up’ por mais de uma década”. E, ao mesmo tempo em que pessoas cujos nomes aparecem nos arquivos de Epstein buscavam mobilizar religiosos para proteger homens predadores, e-mails supostamente trocados entre Bannon e Epstein discutiam maneiras de desacreditar o Papa Francisco.
A principal prioridade decorrente das revelações sobre Epstein deveria ser fazer justiça a sobreviventes e vítimas desses crimes e responsabilizar todos que participaram deles ou que os acobertaram. Mas, talvez, devêssemos aprender também outra coisa: que todos nós fomos enganados.
Algumas das mesmas pessoas de direita que nos diziam que as guerras culturais são necessárias para a virtude sexual e a proteção das crianças foram capazes de fazer vista grossa, quando esses problemas foram causados por alguém do seu grupo.
O mesmo aconteceu na esquerda. Aqueles que nos diziam que a revolução sexual visava o empoderamento de mulheres e meninas e que os oprimidos deveriam ser libertados, de repente, perderam a coragem, quando o misógino predador compartilhava de suas ideias políticas — e de um iate.
Como essas figuras obscuras — quase todas responsáveis por contribuir com essa cultura de transformar a política em religião — podem se tornar amigas dessa maneira, apesar de suas diferenças políticas e culturais? A Bíblia já diz: “Herodes e Pilatos, que até ali eram inimigos, naquele dia tornaram‑se amigos” (Lucas 23.12). O verdadeiro objetivo deles não eram políticas públicas nem o bem-estar cultural; era poder, dinheiro e a anarquia dos apetites.
Predadores sabem que uma das maneiras mais fáceis de passarem despercebidos é alterar o cálculo ou a métrica moral. Enquanto definirmos virtude e vício por um conjunto de opiniões políticas, culturais ou pautadas em uma “visão de mundo”, em vez de defini-los por coisas como caráter, integridade e comportamento, esses predadores poderão se esquivar da sua responsabilização para sempre.
Afinal, ter opiniões é fácil. Uma vez que uma pessoa escolhe uma tribo, o cérebro se adapta facilmente a qualquer conjunto de slogans e chavões que ela precise repetir. Já a busca pela santidade, ou mesmo a simples decência e a responsabilidade humanas tornam-se algo muito mais difícil. Enquanto pudermos presumir que quem concordar conosco sobre as “questões definidoras” do momento é bom e quem discordar de nós é mau, acabaremos exatamente com este cenário que temos hoje: de caos e ódio, com uma ordem pública fragmentada e a perda de instituições e de normas.
Na sua igreja, há pessoas que deixaram de se seguir nas redes sociais ou que bloquearam umas às outras, por causa da importância “vital” que um conjunto de opiniões políticas parece ter, como se fossem questões de vida e morte. Mas aqueles que nos incentivam a ter essas opiniões não se bloquearam. Eles estão rindo à toa, enquanto caminham juntos até a mesa de massagem à beira de uma piscina.
Achamos que estamos vivendo uma guerra cultural que moldará o futuro, mas os generais dessa guerra estão trocando e-mails nos quais zombam das próprias tropas. As pessoas olham para essas figuras titânicas e as consideram os novos George Washington, Winston Churchill, Napoleão Bonaparte ou Friedrich Nietzsche deste século, quando, na verdade, eles não passam de Calígulas. Eles nos ensinam a nos odiarmos porque usamos camisetas vermelhas ou verde-amarelas, mas estão jogando no mesmo time. Eles nos incitam a gritar uns com os outros, por causa da música que ouvimos ou dos produtos culturais que consumimos, enquanto eles mesmos ouvem e consomem o que bem entendem.
E, o pior de tudo é que eles estão nos discipulando. Estão nos ensinando a avaliar se consideramos a fidelidade algo louvável ou uma fraqueza, ou se o estupro é algo maligno ou insignificante, dependendo de quem o comete. Estão nos ensinando a avaliar quais clamores das crianças merecem ou não ser ouvidos, com base no lado político que seria beneficiado ou prejudicado com isso. O balanço final é que aqueles que bradam sobre as virtudes do seu lado e a maldade do outro lado simplesmente deixaram de acreditar no bem ou no mal. Tudo o que lhes importa é o poder.
Nenhum homem é uma ilha, disse-nos John Donne. Mas uma cultura inteira pode ser uma ilha, e essa ilha é a de Epstein.
Não precisamos viver assim. Podemos escolher outro caminho. Nossa sociedade está pendurada por um fio sobre um grande abismo. E talvez não tenha chegado a essa situação por sua própria culpa.
Russell Moore é editor-chefe e colunista da Christianity Today e lidera seu Projeto de Teologia Pública.
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