A beleza da Justificação

Em tempos de relativismo e confusão doutrinária, é urgente reafirmar a centralidade de Cristo na justificação. A fé salvadora não é sentimento genérico, mas confiança viva em Jesus Cristo. A justificação é ato da graça divina, por meio da fé em Cristo − único justo que justifica o pecador.
João Calvino (1509-1564) afirma que “o homem não é inerentemente justo, mas o é, pelo contrário, devido à justiça de Cristo que se comunica com ele por imputação” (Institutas, III.11.23). Essa justiça é externa ao ser humano, mas lhe é atribuída pela fé. Herman Bavinck (1854-1921) reforça que a fé não justifica por meio de sua própria essência, mas por seu conteúdo − Cristo (Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 4, p. 21). A fé é o instrumento, não a causa da justificação.
Essa doutrina é o coração do evangelho: Deus declara justo o pecador não por causa de sua moralidade ou religiosidade, mas por causa da justiça perfeita de Cristo, que lhe é imputada. A fé verdadeira repousa nessa obra redentora.
A realidade do pecado e a necessidade da graça
As Escrituras são claras ao descrever a condição humana após a Queda: “Todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Somos, por natureza, filhos da ira (Ef 2.3), inimigos de Deus (Rm 5.10) e espiritualmente mortos (Ef 2.1). Diante da santidade divina, nada em nós pode resistir ao seu juízo. A única resposta possível é a graça.
Essa graça não é uma abstração, mas uma ação concreta de Deus em Cristo. Ele nos vê em seu Filho, e por isso se agrada de nós. A justificação é, portanto, um ato de misericórdia, não de mérito.
O Cordeiro Substituto
Isaías 53 apresenta o Servo Sofredor que “justificará a muitos, porque as iniquidades deles levará sobre si”. Cristo assume voluntariamente a culpa alheia, tornando-se sacrifício expiatório. Sua obediência e sofrimento são creditados àqueles que, por si mesmos, nada têm a oferecer.
Essa substituição é o cerne da redenção: o justo morre pelos injustos, o inocente pelos culpados. Como afirma Pedro: “Cristo morreu, uma única vez, pelos pecados, o justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus” (1Pe 3.18).
A graça que custou um alto preço
Embora gratuita para nós, a graça não é barata. Custou o sangue precioso de Cristo. Como afirma Calvino, Cristo foi o preço do nosso castigo (Commentary on the Book of the Prophet Isaiah,Grand Rapids, MI: Baker, 1996,v. 8/4, [Is 53.5], p. 116). A cruz não fez Deus nos amar; foi seu amor eterno que produziu a cruz. A justiça de Deus é satisfeita na obra de Cristo, que cumpre perfeitamente a Lei e nos reconcilia com o Pai.
Essa graça é escandalosa porque revela que Deus se agrada do desagradável − não por quem somos em nós mesmos, mas por quem somos em Cristo. A justificação é uma dádiva divina, não uma conquista humana.
Justificação e Santificação: uma união indissolúvel
A justificação não é um fim em si mesma, mas o início de uma vida transformada. A fé verdadeira conduz à santificação. Cristo nos justifica e nos santifica: a justificação nunca é um ato solitário. A regeneração e a santificação são frutos determinantes da justificação.
A fé que salva é também a fé que transforma. Ela não apenas nos declara justos, mas nos conforma à imagem do Justo. A santidade não é uma opção, mas uma consequência inevitável da união com Cristo.
A fé que não salva
Há o perigo de uma fé desvinculada da pessoa e obra de Cristo − uma fé genérica, cultural ou emocional que não produz transformação. Essa fé não salva. Como disse Bavinck, “Se a fé justificasse por si mesma, o objeto desta fé (isto é, Cristo) perderia totalmente seu valor” (Dogmática Reformada, v. 4, p. 214).
A fé salvadora é aquela que tem Cristo como seu objeto e conteúdo. Ela reconhece a própria miséria, clama por misericórdia e se apega à cruz como única esperança.
O Messias, nosso refúgio e justiça
Jesus Cristo é o Filho eterno de Deus, o escolhido do Pai, em quem há plena satisfação. Somente ele é descrito nas Escrituras como “O Amado” (Ef 1.6). Somente nele o Pai tem plena satisfação. No batismo de Jesus, ouvimos: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17).
A Igreja é adornada com a justiça de Cristo. Deus se agrada de nós porque nos vê em seu Filho. Essa é a gloriosa realidade da justificação: o pecador é aceito, não por si mesmo, mas por estar unido ao Justo.
Conclusão
A fé cristã repousa inteiramente na obra de Cristo. Ele é o único justo que pode justificar os injustos. A justificação pela fé é o coração do evangelho, o ponto onde duas eternidades se encontram: o decreto eterno de Deus e a glorificação futura dos seus eleitos. Em Cristo, somos revestidos de justiça, reconciliados com Deus e capacitados a viver em novidade de vida.
“[…] vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual se nos tornou, da parte de Deus, sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1Co 1.30).
O Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, colunista do BP, é pastor-auxiliar da 1ª IP São Bernardo do Campo, São Paulo, SP, Coordenador Acadêmico e professor de teologia no JMC; é membro do CECEP e do Conselho Editorial do Brasil Presbiteriano
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