Nasci mulher, passei seis anos vivendo como homem, até que Deus me mostrou minha verdadeira identidade.

Nasci e fui criada em um lar cristão, em British Columbia, no Canadá, nos anos 80. Sempre amei Jesus e o segui com a fé pura de uma criança. Lembro-me de, aos 3 ou 4 anos, ter sido abusada por um membro idoso da família. Graças à reação rápida da minha mãe, isso nunca mais…

Nasci e fui criada em um lar cristão, em British Columbia, no Canadá, nos anos 80. Sempre amei Jesus e o segui com a fé pura de uma criança.

Lembro-me de, aos 3 ou 4 anos, ter sido abusada por um membro idoso da família. Graças à reação rápida da minha mãe, isso nunca mais aconteceu. Mas minhas dificuldades não haviam terminado. Comecei a me sentir confusa sobre meu gênero. Ainda consigo ouvir a voz da minha mãe: “Você não é um menino, Kyla. Você é uma menina. Está me entendendo?”

Certa vez, eu estava sentada perto da quadra de hóquei no gelo, onde meu time treinava. Eu não tinha mais do que 5 anos. Meus pais tinham acabado de ser informados de que eu não teria mais permissão para me trocar no vestiário geral com os meninos. Como a única menina do time, eu precisaria me trocar no vestiário feminino. Minha mente infantil não conseguia absorver aquilo.

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Desde que me entendo por gente, eu amava tudo o que meu irmão amasse — corridas de BMX, G.I. Joe, explorar a floresta, pescar, acampar e hóquei no gelo. Eu queria me vestir e falar como meu irmão. Essa luta com a minha identidade intensificou-se durante a adolescência e transformou-se em uma disforia de gênero declarada. Comecei a sentir atração por outras mulheres, o que me enchia de culpa e vergonha.

Nessa mesma época, meus pais se divorciaram repentinamente, e minha família foi dilacerada. Ambos se casaram novamente, e fui forçada a dividir meu tempo entre eles.

Aos 16 ou 17 anos, tornou-se evidente que eu já não era bem-vinda na casa do meu pai, com sua nova esposa e filhos. Minha madrasta não queria que eu fizesse parte daquela família tão unida, e comecei a pisar em ovos naquela casa que outrora fora o meu lar. Eu dividia com alegria o quarto com a minha nova meia-irmã, mas, de um fim de semana para outro, meus pertences pessoais começaram a desaparecer.

Certa sexta-feira à noite, ao chegar na casa do meu pai, olhei para o meu quarto e vi apenas a minha cama. Para onde tinha ido tudo o que era meu? Procurei freneticamente pela casa e, por fim, me aventurei a ir até o porão. E lá encontrei tudo. Cada uma das minhas coisas havia sido guardada em caixas de armazenamento. Nenhuma palavra de explicação veio do meu pai naquele fim de semana. Lágrimas de tristeza me dominaram, enquanto eu perguntava à minha mãe se poderia morar com ela em tempo integral. Depois disso, não fiquei mais na casa do meu pai.

Daquele ponto em diante, o hóquei no gelo tornou-se minha paixão, minha força motriz. Joguei em competições e cheguei até um time profissional.

Comecei a afogar meu estresse no álcool, aos 19 anos. Seguiram-se apagões, festas, jogos de azar e um rastro de relacionamentos homoafetivos fracassados. Em pouco tempo, minha fé era quase inexistente. Coloquei a vida que eu achava querer acima do meu relacionamento com Deus. Mas, quando o álcool alimentou uma perigosa espiral descendente, decidi internar-me em um centro de recuperação cristão.

Lá, consegui ficar sóbria, mas minhas batalhas contra a atração pelo mesmo sexo e a disforia de gênero continuaram. Para tentar vencer a guerra que eu travava dentro de mim, decidi fazer a transição de sexo (de mulher para homem). Dois anos depois, após terapia hormonal, cirurgias e mudanças radicais no estilo de vida, eu finalmente conseguia passar despercebida no mundo como homem.

Mudei meu nome de Kyla para Brycen. Eu havia chegado lá. A cada passo do processo, eu aguardava ansiosamente pela satisfação e pelo alívio que certamente viriam. Mas eles nunca vieram. Alterar meu corpo não havia curado meu interior quebrado.

Através de minhas conexões com a comunidade de recuperação, eu mantive alguns laços frouxos com uma igreja local, embora minha fé tivesse se desfeito. Depois de viver como Brycen por mais de cinco anos, lembro-me de estar sentada em um culto, em uma noite de verão, pensando na vida. Só Deus sabe por que eu estava lá. Sim, eu amava Jesus quando criança, mas após os eventos devastadores da década anterior, eu estava farta de Deus e farta de pessoas difíceis. Eu queria o que eu queria, sem qualquer resistência por parte dos cristãos.

Naquela noite, eu estava prestes a sair da igreja para nunca mais voltar, quando notei uma mulher — que se movia como uma força da natureza — vindo direto em minha direção. Eu quis fugir, mas permaneci onde estava. Jess, a esposa do novo pastor, apresentou-se, e logo me senti à vontade perto dela. Eu me senti aceita. Vista. Aquela conversa inicial tornou-se o catalisador para a mudança de uma vida inteira.

Jess me apresentou ao seu marido, BJ, e a um grupo nuclear de cristãos que se tornaram meus amigos. Essas pessoas eram diferentes de quaisquer frequentadores de igreja que eu já conhecera. Elas eram mais parecidas com Jesus. Aproximar-me delas me fez repensar a minha vida. Mas eu ainda acreditava que poderia passar despercebida como Brycen, um homem cristão.

Não muito tempo depois, vi-me contando a Jess que havia nascido Kyla — uma mulher — e que fizera a transição para Brycen anos antes. Jess ficou em silêncio, enquanto me ouvia atentamente, solidarizando-se com cada palavra sobre a minha luta de uma vida inteira com questões de sexualidade e gênero. Eu nunca me sentira tão segura nas mãos de outra pessoa. Isso fortaleceu nosso vínculo, e comecei a compartilhar plenamente meus segredos mais profundos, um por um.

Depois disso, minha trajetória seguiu ao ritmo de passos de bebê. Verdades banhadas em amor. Perguntas feitas — perguntas sobre fé, amor, verdade e identidade — e respondidas com total honestidade, mas também com bondade e cuidado. Meses depois, Jess me disse que, se algum dia eu quisesse fazer a destransição [a reversão da transição de gênero], ela e BJ adorariam que eu ficasse na casa deles. Destransição? Eu apenas sorri e agradeci pela oferta generosa, mas recusei educadamente.

Enquanto isso, eu tinha adquirido um interesse renovado pela Palavra de Deus, e estudava as Escrituras com voracidade. E Deus falava comigo, através de suas palavras e de meus amigos. Li versículos como Gênesis 1.27: “Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. O design divino.

Foi uma experiência transcendente, quando Deus rompeu as barreiras e começou a me mostrar verdades íntimas que eu nunca conseguira ver antes. E aos poucos foi ficando dolorosamente claro que eu tinha de escolher qual vida queria viver: a dele ou a minha. Eu abraçaria o design que Ele me dera ou me agarraria à identidade que eu mesma criara?

Deus estava me pedindo para confiar nele, para deixar que Ele fosse minha rede de segurança. Eu não tinha certeza se conseguiria ser fisicamente uma mulher de novo. No entanto, se eu continuasse em pecado impenitente, sempre dizendo a Deus que eu sabia mais do que Ele o que era melhor, será que eu poderia verdadeiramente ser dele para sempre?

Certa noite, fui dominada pela escuridão, soluçando na cama. Precisando conhecer a vontade de Deus, levantei-me da cama e desabei no chão, clamando por alívio, por clareza. Não era um clamor tímido como tanto outros que eu tivera antes, sem estar disposta a mudar ou a me render; era um clamor profundo, um clamor que vinha da alma, que vinha de um lugar de abandono — um clamor para que Ele me resgatasse.

Depois de seis anos vivendo como Brycen, clamei: “O que queres de mim?”. E ali, no chão do meu quarto, ouvi Ele falar ao meu coração com tanta clareza que jamais esquecerei: Volte para mim, Kyla.

Kyla. Eu não usava esse nome há quase uma década. Ele estava ligado a tanta dor e a tanto desconforto. Mas, desta vez, quando Deus o usou, esse nome soou como lar. Como se eu estivesse segura. Perguntei a Ele: “Não posso continuar como Brycen e te seguir?”. Ele falou profundamente à minha alma: Não.

Eu argumentei: “Mas Deus, eu não sei como isso seria, ou se algum dia poderei ser mulher de novo.” Ele falou ao meu coração: Seja como for, você está disposta a confiar em mim? Tudo o que pude fazer foi clamar: “Sim!”.

Naquela noite, sentei-me no chão, na presença do Deus vivo por horas, pelo que me lembro. E, quando me levantei, soube que nunca mais seria a mesma. O próprio Deus me encontrara e me refizera — de forma clara e vívida. Tudo finalmente se encaixava. Eu sabia disso sem a menor sombra de dúvida.

Mudei-me para a casa de Jess e BJ para um ano poderoso de transformação. A reconstrução da minha mente, do meu corpo e da minha alma foi, por vezes, dolorosa e triste, repleta de lutas monumentais que quase excederam minha capacidade de suportar. Mas Deus me sustentou. E meus amigos caminharam comigo, riram comigo e choraram comigo, a cada passo do caminho. Eu estava me tornando íntegra, inteira.

Toda a minha vida eu buscara por congruência, por algum tipo de paz profunda e duradoura. E só a encontrei em Jesus, aquele que salva.

Posso dizer que [depois disso] minhas lutas acabaram? Não, não posso. Alguns dias são nublados e escuros. Mas outros são dias de tanta luz que ela inunda a minha alma. E tem valido a pena? Sem dúvida alguma. O Deus vivo encontrou-se comigo de forma profunda e poderosa, e eu jamais olharei para trás.

Eu sou Kyla, restaurada.

Kyla Gillespie é a fundadora do Renewed & Transformed, um ministério dedicado a compartilhar ensinamentos cristãos sobre fé, sexualidade, gênero e identidade; também é autora de TransFormed.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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