Miroslav Volf e Christian Wiman em uma esplêndida conversa sobre fé e dúvida

“No meu escritório ou na sala grande?”, perguntou Miroslav Volf. De botas Blundstone, o teólogo de corpo esguio moveu-se até a cafeteira barulhenta. Antes que Volf terminasse de pronunciar a última palavra, seu amigo Christian Wiman disse: “Na sala grande”. Wiman estava alguns minutos atrasado porque uma meia maratona em New Haven, Connecticut, havia levado…

“No meu escritório ou na sala grande?”, perguntou Miroslav Volf. De botas Blundstone, o teólogo de corpo esguio moveu-se até a cafeteira barulhenta. Antes que Volf terminasse de pronunciar a última palavra, seu amigo Christian Wiman disse: “Na sala grande”. Wiman estava alguns minutos atrasado porque uma meia maratona em New Haven, Connecticut, havia levado ao fechamento de algumas ruas. Seu boné de beisebol, com as palavras “Montana”, estava levemente torto. Ele parecia satisfeito em saber que seu café estava a caminho.

Era um dia cinzento, feriado de Labor Day [Dia do Trabalho], na Universidade de Yale, quando me encontrei com Volf e Wiman, meus ex-professores. As temperaturas amenas anunciavam o fim do verão, e o campus estava silencioso em sua maior parte, exceto por alguns ruídos no corredor, onde estudantes se reuniam em torno de laptops abertos e folheavam livros repletos de marcadores coloridos. O nosso encontro foi em uma sala que estava vazia, no prédio onde Volf comanda o Centro de Fé e Cultura de Yale.

Volf e Wiman são figuras importantes em seus respectivos campos de atuação, e não é à toa. Eles passaram a vida inteira estudando a experiência humana e articulando argumentos a respeito das complexidades da fé — Volf como teólogo e Wiman como poeta.

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Volf passou a vida fazendo perguntas sobre os limites mais extremos do perdão e maneiras pelas quais possamos viver juntos, a despeito de nossas grandes diferenças. Wiman há muito tempo trava um luta, nas páginas de seus escritos, com palavras que falam de fé e de dúvida. A poesia ajudou-o a voltar para a igreja, após uma ausência de 20 anos e um diagnóstico de câncer de sangue incurável.

Ao longo da estrada, esses dois homens construíram uma grande amizade, enquanto enfrentavam diretamente as grandes questões da vida e lidavam juntos com fé e dúvida, sofrimento e alegria.

A escrita deles parece ser algo incapaz de se demorar no supérfluo. Para Volf e Wiman, nenhuma pergunta é grande demais ou difícil demais; nenhuma confissão de dúvida é desestabilizadora demais. Em vez de levá-los ao cinismo ou à descrença, essa disposição que ambos têm para fazer as perguntas difíceis os aproximou um do outro e de Deus.

Recentemente, os dois amigos decidiram dar aos leitores uma visão mais próxima do relacionamento deles, no livro Glimmerings: Letters on Faith Between a Poet and a Theologian [Vislumbres: cartas sobre a fé, trocadas entre um poeta e um teólogo]. Eles falaram mais coisas a respeito dessas cartas, enquanto estávamos ali, sentados ao redor da mesa, naquela sala de aula, em setembro do ano passado. A conversa centrou-se na questão da fé de cada indivíduo, inclusive abordando a batalha contínua de Wiman para se manter longe do desespero e a admissão de Volf de que ele anseia possuir uma fome de Deus que parece lhe escapar.

Por anos, Volf e Wiman fizeram caminhadas juntos, desde os tempos da Yale Divinity School, sempre percorrendo a mesma rota pelas calçadas de New Haven. As caminhadas começaram no início da amizade deles, e essas primeiras conversas tendiam a se concentrar no que cada um estava lendo. [Até o dia de nossa conversa] Nenhum deles tinha lido as obras um do outro. A amizade deles surgiu quando a esposa de Volf, Jessica Dwelle, fez uma matéria com Wiman. Quando os dois casais saíram juntos para jantar, tempos depois, Volf e Wiman sentiram-se atraídos pela mente um do outro. “A certa altura”, disse Volf, “começamos a conversar sobre oração e sobre o anseio por Deus”.

Ocasionalmente, quando um deles estava fora da cidade ou sobrecarregado de trabalho, ou Wiman ficava doente, eles continuavam suas conversas por meio da troca de e-mails.

Os e-mails começaram a ser trocados com mais frequência no outono de 2022. Wiman disse que essa troca de correspondência “veio em um período de grande urgência”. Ele tinha sido diagnosticado, aos 39 anos, com uma forma rara e incurável de câncer chamada macroglobulinemia de Waldenström. Nessa época, ou seja, vinte anos depois, quando começou a se corresponder com Volf, ele “estava realmente morrendo”. Ele disse mais: “Foi literalmente um presente de Deus para mim a maneira como essa troca entre nós aconteceu”.

Os efeitos do câncer no corpo de Wiman vêm em ondas, acalmam-se por alguns anos e depois voltam a aparecer, agudamente virulentos. “Os sintomas começaram em 2022 e tive dificuldade em terminar aquele semestre; o ano de 2023, porém, foi realmente ruim”, disse ele. Ele terminou de escrever um livro chamado Zero at the Bone: Fifty Entries Against Despair [Frio na Espinha: Cinquenta Mensagens Contra o Desespero], mas não tinha certeza se viveria para vê-lo publicado.

Na época, ele estava se debatendo com a questão “do que significa amar a Deus”. Ele disse: “Parece-me uma questão tão abstrata. E, de certa forma, sinto que sei o que ela significa, da mesma maneira que sei quando um poema está começando. É o mesmo tipo de sentimento. Mas há algo muito fugaz e frustrante nisso, quando se está atravessando um período de sofrimento”.

“Achei imensamente útil pensar sobre essas questões com a ajuda de alguém concreto, diante de mim”, disse Volf sobre a troca de e-mails entre eles. Em vez de trabalhar sozinho em uma questão, “falando comigo mesmo ou com um potencial leitor”, ele disse, “eu tinha especificamente o Chris na minha frente, e isso catalisou algo para mim”. As caminhadas deles pelo campus e por New Haven lançaram a base sobre a qual, mais tarde, eles construíram sua troca de e-mails. “Foi realmente útil o fato de eu conhecer bem [Wiman]”, disse Volf. Ele falou sobre “uma certa honra e apreciação do que está vindo do outro lado. E isso para mim foi realmente maravilhoso”.

“Não sei mais o que a fé significa”, Wiman escreveu para Volf, em um e-mail que mais tarde apareceria na primeira página de Glimmerings. “Tenho cinquenta e seis anos, uma pilha de livros atrás de mim e um transplante experimental de medula óssea à minha frente, e não sei o que a fé significa”.

Esse tipo de honestidade brutal é a marca registrada da correspondência entre eles, e que foi publicada, desde a primeira troca, em 28 de fevereiro de 2023, até a última, em 16 de junho de 2024. Enquanto Wiman lutava com uma sensação de ausência de Deus, Volf confessou que não buscava tanto a Deus, mas reconhecia que Deus o estava amparando.

“Minha percepção é que, mesmo quando Chris e Miroslav experimentam Deus de forma diferente”, a esposa de Wiman, a poeta Danielle Chapman me disse, “eles abordam questões teológicas com a mesma urgência”. Ela disse que a amizade com Volf tem sido “um grande presente para o Chris, ter um amigo que vê, mas não se ofende por causa de sua intensidade, cuja própria fé e compreensão são aguçadas o suficiente para lidar com o sofrimento e o desespero reais sem tentar dissipá-los ou descartá-los. Isso tem sido ainda mais verdadeiro quando as perguntas que eles fizeram juntos foram, literalmente, questões de vida ou morte”.

Durante sua correspondência com Volf, Wiman submeteu-se a um tratamento experimental em Boston, chamado terapia de células CAR-T, que salvou sua vida. Quando nos encontramos, ele parecia bem, [parecia] com o Wiman de quem eu me lembrava. 

Tanto Volf quanto Wiman vêm de famílias marcadas por tragédia e luto. Cada um deles carrega na pele as marcas dessa sua origem.

Nascido na Croácia e educado na Alemanha, Volf atingiu a maioridade na década de 1960, um tempo tumultuado na antiga Iugoslávia. Seu pai era um ministro protestante que vivia em uma região predominantemente católica; ele passou um tempo em um campo de trabalho forçado e sua conversão aconteceu durante uma marcha da morte, à qual ele sobreviveu por pouco. A mãe de Volf perdeu quatro filhos.

“O que minha mãe fez logo cedo”, disse Volf, “foi falar conosco sobre a experiência que ela teve com o falecimento dos quatro filhos, do luto. Ela não nos protegeu disso”. Ele disse que essa abertura da mãe não o deixou desorientado. Pelo contrário, “meu amor por minha mãe, por sua luta, e por aquilo que ela se tornou apenas cresceu. O sofrimento estava no meio, estava entre nós”.

Wiman respondeu: “Ela parece ser uma pessoa forte, que conseguia falar de sua dor sem que isso fosse completamente destrutivo. Eu não tive isso. Não havia força para falar do sofrimento; havia apenas uma explosão de sofrimento”.

Wiman cresceu em um trailer, em uma região árida no oeste do Texas. Sua família era propensa a recorrentes avalanches de vício e autodestruição. Seus ensaios sobre seus primeiros anos são entrelaçados por violência e caos, e por algo que ele chama de “poço mal tampado de raiva difusa”. Perguntei a ele certa vez — durante um jantar formal, no qual nossa conversa sobre familiares viciados em drogas e condenados à prisão fazia um franco contraste com os guardanapos de linho impecáveis sobre a mesa —, como ele tinha chegado até aqui. “Por puro desespero”, ele me disse.

Atravessar esse mar de desespero e angústia é algo que está muito distante do tipo de aclamação que esses homens conquistaram em sua profissão. Além de fundar e dirigir o Centro de Fé e Cultura de Yale, Volf há muito tempo é professor de teologia na Yale Divinity School. Wiman é autor, editor, tradutor e professor de arte da comunicação na Yale Divinity e no Instituto de Música Sacra da universidade. Volf participou do comitê de contratação de Wiman, um detalhe que Wiman ignorava, antes desta nossa conversa no ano passado.

Embora possamos ver Volf dando aulas em seminários de pós-graduação ou lecionando nas Gifford Lectures [palestras anuais criadas para promover o estudo teológico], também podemos vê-lo, com a mesma desenvoltura, conversando num palco com Rainn Wilson [ator norte-americano], no Aspen Ideas Festival ou batendo um papo com Maria Shriver [escritora norte-americana] no Today Show. Seus livros estão entre os textos teológicos mais importantes do nosso tempo.

Edgardo Colón-Emeric, deão da Duke Divinity School, recorda-se de ter usado em um seminário sobre a teologia da reconciliação o livro de Volf, The End of Memory: Remembering Rightly in a Violent World [publicado em português com o título O fim da memória: interrompendo o ciclo destrutivo das lembranças dolorosas]. “Um dos meus alunos era um pastor de Burundi que tinha sido recentemente convocado por seu governo para trabalhar em um projeto de reconciliação nacional pós-genocídio”, disse Colón-Emeric. “Fiquei tão comovido pela história dele que lhe dei meu exemplar todo grifado do livro de Volf. Ele agradeceu profusamente e me disse: ‘Este livro salvará vidas’”.

Os escritos de Wiman também deixaram sua própria marca. Ele recebeu o distinto prêmio Wallace Stegner Fellowship, na Universidade de Stanford, e depois passou anos à frente da revista Poetry. Seu trabalho pode ser encontrado nas páginas da The New Yorker [periódico norte-americano] e em seus próprios livros de prosa e poesia. Ele relembra histórias de seus passeios pelas calçadas de Chicago com a falecida poeta Mary Oliver, do pássaro morto no bolso dela, ou do tempo gasto com seu amigo e poeta laureado, o falecido Donald Hall. Wiman também fala pelo país afora, discutindo obras da filósofa francesa Simone Weil ou do teólogo do século 18, Jonathan Edwards, e fazendo sermões na Capela Marquand de Yale.

O seu sofrimento deixa marcas também na arte de outros. A cantora e compositora Sandra McCracken me disse: “O trabalho de Chris Wiman me assombra com a verdade, à medida que ele trava essa luta tão sincera com o sofrimento e a certeza”. Ela disse que ler os escritos de Wiman é “disruptivo — e tanto mais eficaz por ser tão elegante. Tenho certeza de que a poesia de Wiman há anos tem deixado seus resíduos cintilantes em minhas canções”.

Mesmo com todos esses elogios mútuos, o que mais transparece quando Wiman e Volf estão na mesma sala é uma amizade profunda, daquelas que conseguem aguentar um pouco de debate intelectual acirrado. Isso é algo em que ambos são engajados, embora as disputas deles não sejam tanto um com o outro, mas sim internas, consigo mesmos. Nota-se uma leveza: em Glimmerings, os leitores podem sentir a amizade dos dois, mesmo quando estão discordando. Volf escreve: “Eu amo [a forma] como discordar de você parece ser discordar de mim mesmo, algo livre de qualquer inveja e malícia”.

Durante nossa conversa com eles, Volf falou da troca de e-mails com Wiman como algo “sem competição” e disse: “É uma espécie de libertação, na qual a vitória pessoal não estava em jogo”. Wiman respondeu que a comunicação deles, mesmo quando havia algum atrito, “era uma busca genuína. Nós discordamos, sim, mas era uma busca genuína”.

Wiman não tem formação teológica formal e nunca passou um dia sequer na pós-graduação; ainda assim, há uma percepção teológica de clareza penetrante em sua escrita. Ele escreve sobre sentir a ausência de Deus, sobre a necessidade de invocá-lo, concentrando sua atenção nele. Wiman está claramente em busca de algo. Sua fome de Deus é ouvida em sua voz e vista em sua tendência de esfregar a palma da mão no couro cabeludo bem curto, enquanto reflete sobre uma questão.

Volf, que confessa que não busca a Deus tanto quanto reconhece que é amparado por Ele, disse: “Não sinto orgulho disso”. E continuou: “Eu quero ter o que o Chris tem. Eu quero ter esse anseio”.

Wiman pareceu surpreso ao ouvir isso. “Sério?”, ele perguntou.

“Sim, absolutamente, eu quero”.

“E eu quero ter o que você tem”, Wiman respondeu. Eles se voltaram um para o outro, enquanto sorrisos apareciam lentamente. “Você parece seguro em sua fé”, disse Wiman. “Você não parece fraco nem morno. Parece seguro. Eu gostaria de ter essa segurança. Eu vejo isso como uma calma — uma serenidade mais profunda que capacita as pessoas”.

Talvez esse senso de calma se destaque em contraste com algo que o próprio Wiman chama de “impulso de Wiman para a autodestruição, que tem sido uma guerra pessoal ao longo da minha vida”. Ele encontrou um certo refúgio dessa guerra na poesia, através da qual ele veio a Cristo — foi pego pelo pescoço, segundo ele mesmo diz — aos 40 anos, depois de se apaixonar e de receber seu diagnóstico de câncer.

Ele disse que conceitos como graça, , pecado e amor podem parecer impenetravelmente abstratos. “Eu só consigo entender essas abstrações quando elas estão enraizadas na poesia ou em uma metáfora que as revele de alguma forma”, disse ele. A poesia “situa a abstração”, e então, como ele escreve em Glimmerings, “todos os meus instintos me dizem que devo seguir a Deus. Eu simplesmente sei que ele é”.

Volf falou do que chama de uma “característica da modernidade”, particularmente destacada nos Estados Unidos, na qual há uma “expectativa de que a vida deveria estar totalmente sob seu controle, e, se não estiver, então há algo de errado com o mundo, ou algo de errado com você”.

“Fui criado em um ambiente em que essa expectativa não era algo possível”, disse Volf. “A relação com a fé não era uma questão de perguntar como ela poderia me ajudar a estar totalmente no controle de minhas circunstâncias”. Nem era uma questão de “como a fé realmente ajudaria a mudar e transformar” as suas circunstâncias. Nas igrejas de sua juventude, ele disse, “nós orávamos por cura, mas a nossa premissa era que o mundo é de tal forma que você não está e não estará no controle. E Deus vem”.

E de fato Deus vem, mesmo no sofrimento. O tópico do sofrimento foi salpicado ao longo de nossa conversa, assim como na correspondência entre Volf e Wiman. Em uma carta, Volf contou sobre uma pergunta provocativa que surgiu de uma aula que ele ministrou com um colega. A pergunta era “se nós poderíamos imaginar [como seria] deixar Jesus criar nossos filhos”. Volf disse que inicialmente “recuou diante da ideia visceralmente, como se algum dano não especificado, mas significativo, fosse recair sobre eles [nossos filhos], se fossem confiados aos cuidados de [Jesus]”.

Volf tem três filhos; Wiman, dois. Eles discutiram de que modo, como Wiman colocou, Jesus parece chamar pessoas através do sofrimento. Ambos exploraram o experimento mental de imaginar se eles, em última análise, poderiam permitir que seus filhos sofressem, enquanto eles viam isso acontecer, se este fosse o meio pelo qual Deus os chamaria. Volf escreveu sobre sua filha mais nova: “Em algum lugar, bem lá no fundo, eu realmente desejo pegar a mão de Mira e junto com ela seguir o Cristo radical e incômodo”.

Muitos de nós carregamos perguntas que têm o poder de nos dobrar, de tão pesadas que são. Elas podem incitar um desespero que nos torna anêmicos, que torna áridos nosso lugar, nossa vida e nosso futuro. Ou elas podem incitar um desespero, como a resposta que Wiman me deu naquele jantar chique, com capacidade de nos animar e inspirar novidades.

Apesar do sofrimento pelo qual esses dois homens passaram, Volf e Wiman continuam com uma esperança feroz, visceral. Ambos têm um riso fácil, que soa sincero, ainda que conquistado a duras penas.

Os [vislumbres] no título do livro são tirados dos escritos do poeta Seamus Heaney: “Vislumbres são aquilo do que a alma é composta”. Foi Wiman quem primeiro propôs que a troca de e-mails entre eles se tornasse um livro. “Foi uma coisa muito estranha vinda de mim”, disse ele. “Eu não estava procurando por mais trabalho. Foi uma coisa estranha, repentina”. Wiman enviou um e-mail para Volf, que respondeu imediatamente que ele estava “pensando a mesma coisa”. Volf me disse: “Eu senti que havia algo realmente significativo acontecendo, e que isso poderia ter um significado mais amplo, para além de nós dois”.

Muitos dos primeiros leitores do livro parecem concordar. Krista Tippett, que entrevistou tanto Volf quanto Wiman para seu programa On Being, me disse: “O aprendizado por trás dessas trocas de e-mail só encontra correspondente na coragem ardente das palavras de um para o outro”.

Em qualquer das diferenças entre esses amigos, a necessidade de enfrentar com sobriedade e honestidade não apenas o seu próprio sofrimento, mas o sofrimento de Cristo, é um lugar de concordância fervorosa. “Ele realmente fez daqueles que estão em necessidade focos terminais do seu amor”, Volf escreveu em um de seus e-mails. “Ele alimentou os famintos, curou os doentes, ressuscitou os mortos”. Volf continuou mais adiante: “Cristo consola porque suas experiências com Deus estão muito próximas de nossa angústia”.

Apesar de Wiman afirmar que não sabe mais o que a fé significa, a sua vida conta outra história. Conhecê-lo, ler seus escritos e ouvi-lo nesse diálogo [com Volf] comunicam algo bem diferente. Wiman talvez precise sempre trabalhar contra o desespero iminente e os impulsos autodestrutivos. Volf talvez precise sempre, nos melhores e nos piores dias, sentir momentos do que ele chama de “orfandade cósmica”. Sim, esses sintomas da finitude e da fragilidade humanas podem ser crônicos.

Mas Volf e Wiman, simultaneamente e de forma profunda, parecem acreditar que Cristo está presente e os ouve, que cada um deles levará a Deus a solidão, a ausência e a dúvida que sente sobre esse próprio Deus.

Somos menos inclinados a clamar — por anos e décadas — a uma quintessência que acreditamos ser vazia. Parte da fé é acreditar que seremos ouvidos. Volf e Wiman parecem saber que, em última análise, eles serão ouvidos.

À medida que nossa conversa com eles chegava ao fim, pedi a Wiman que lesse em voz alta um dos meus poemas favoritos dele, antes de irmos embora. O poema, intitulado “Eu não quero ser uma loja de especiarias”, é uma ladainha do que ele quer e do não quer ser. Ele não quer vender “sabonete artesanal de Marselha” ou outros luxos, por exemplo.

Metade das lojas aqui não abre antes do meio-dia
e até a livraria exala charme.
Eu quero ser a única loja que fica aberta a noite toda
e que só vende coisas essenciais.
Alguma coisa para acender uma fogueira,
e alguma coisa para apagá-la.

É um dos meus poemas favoritos, por causa das três linhas finais, duas dúzias de palavras que me surpreendem, pela abertura a que aspiram e pela possibilidade de comunhão a que abrem espaço — e até mesmo esperam.

Eu quero cantarolar só um pouquinho, com meu próprio vazio,
às 4 da manhã. Ter sininhos pendurados na minha porta.
Quero ter uma porta.

Nem Wiman nem Volf são uma loja de especiarias. Na vida e no trabalho, esses homens nunca lidaram com trivialidades. As coisas essenciais que eles ofereceram são às vezes reconfortantes, como encontrar Deus em meio a uma doença devastadora, e às vezes desafiadoras, como encontrar maneiras de perdoar aqueles que feriram profundamente a nós e a nossas famílias.

Eles compartilham um senso de urgência característico daqueles que passam a vida fazendo as perguntas mais prementes que os seres humanos podem fazer. À medida que eles se perguntaram como restaurar rupturas — quer seja entre grupos étnicos em guerra, em uma família ou dentro de si mesmos — ambos o fizeram imbuídos de um senso de que Deus os vê e os sustenta, mesmo nos momentos em que eles tiveram que se esforçar para crer nisso.

Como os salmistas bíblicos, Volf e Wiman buscaram refúgio na convicção, na crença de que nenhuma pergunta frenética que é feita no meio da noite, de que nenhum lampejo de honestidade desesperada deixa de ser ouvido por Deus. Eles também buscaram refúgio na amizade um do outro. Cada um deles carrega o que é essencial. Cada um tem uma porta, a porta.

Andrew Hendrixson é artista e escritor; está cursando um doutorado em teologia na Duke Divinity School.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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