Para missões, a geografia é mais importante do que pensamos

O conceito de povos não alcançados ainda é relevante, útil e proveitoso para as missões nos dias de hoje. As Escrituras são inequívocas sobre como Deus trabalha através de nós e em nós para contar ao mundo sobre Cristo. Como o mandato e o escopo das missões se originam nas Escrituras, nossa compreensão da tarefa…

O conceito de povos não alcançados ainda é relevante, útil e proveitoso para as missões nos dias de hoje. As Escrituras são inequívocas sobre como Deus trabalha através de nós e em nós para contar ao mundo sobre Cristo.

Como o mandato e o escopo das missões se originam nas Escrituras, nossa compreensão da tarefa deve derivar das Escrituras. Além disso, uma compreensão bíblica de outros conceitos, especialmente o de geografia, deve ser recuperada na busca de uma definição mais completa e robusta de grupos de povos.

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A definição tradicional de grupos de povos é problemática, pois foca apenas em fatores sociais. Sua definição, estabelecida em 1982 pelo Grupo de Trabalho de Estratégia de Lausanne, começa com “um agrupamento sociológico significativamente grande de indivíduos que se percebem como tendo uma afinidade comum entre si”.

Por décadas, etnia e língua têm sido os pontos em comum que missiólogos e missionários enfatizaram, ao avaliar como alcançar os não alcançados. Organizações como o Joshua Project ainda dependem dessa definição de 1982 e apoiam primordialmente a adoção de abordagens etnolinguísticas em estratégias de missão e trabalho de campo.

No entanto, categorias como lugar e ambiente são componentes essenciais para tornar o nome de Deus conhecido, como mostra a própria Bíblia. Em Gênesis 10, as nações têm uma consciência intrínseca de sua geografia. Os descendentes de Jafé, Cam e Sem são separados por seus “clãs, línguas, territórios e nações” (Gênesis 10.20). A Grande Comissão, conforme está descrita em Lucas e Atos, define a propagação do evangelho em termos geográficos (Lucas 24.47; Atos 1.8). Paulo também leva em conta a geografia romana, quando diz que proclamou o evangelho desde Jerusalém e arredores até o Ilírico, que é o nome latino de uma província (Romanos 15.19). Embora Paulo esteja escrevendo em grego, ele usa termos geográficos na língua vernácula, para estabelecer uma conexão com seu público romano.

As Escrituras declaram que toda a criação, incluindo a humanidade, reconhecerá Deus como Senhor sobre tudo. Como diz Salmos 22.27: “Todos os confins da terra se lembrarão e se voltarão para o Senhor, e todas as famílias das nações se prostrarão diante dele”. Expressões como “os confins da terra” não são meramente descritivas ou acidentais. Pelo contrário, elas refletem que o nosso senso de onde Deus nos colocou e o panorama da área em que habitamos são importantes para ele.

A geografia importa para Deus. Ela deve ser parte de como entendemos os grupos de povos e de como devemos alcançar os “não alcançados” hoje. Podemos examinar a conexão dos grupos de povos com a sua terra, como eles cuidam dela e a cultivam, e o que isso pode revelar sobre a perspectiva que eles têm de Deus, da criação e da humanidade.

Não alcançados, como elemento qualificador e descritivo para grupos de povos, também se mantém relevante, porque ainda temos a obrigação de ir até os perdidos. Todos os povos ao redor do mundo são parte integrante da proclamação do salmista, incluindo indivíduos deslocados, refugiados e aqueles que vivem na Índia, Paquistão, Indonésia, Bangladesh e China — os cinco países com o maior número de pessoas não alcançadas.

A interconectividade do nosso mundo não significa que as pessoas estejam mais aptas a receber uma apresentação do evangelho relevante e compreensível e a serem discipuladas. Cerca de dois terços das pessoas em todo o mundo são usuárias ativas de internet, mas isso deixa de lado outro terço que não é tão conectado digitalmente.

Cerca de 3,4 bilhões de pessoas não tiveram a oportunidade de ouvir o evangelho em uma língua ou um método que compreendam. Se seus bairros não possuem igrejas estabelecidas que possam comunicar bem o evangelho e servir como bases para o discipulado, a comunhão e o preparo missional, então ainda existe uma grande lacuna entre o engajamento inicial do grupo de povos e o cumprimento da Grande Comissão.

Como podemos abordar essa lacuna de forma eficaz? Podemos começar reconhecendo que alcançar um grupo de povos exige mais do que falar, seja de forma digital ou física. Podemos aprofundar nossa consciência das armadilhas missionais, como quando ficamos tão focados em alcançar a “todos” que não reservamos tempo para “fazer discípulos”, batizando-os e ensinando-os a obedecer aos mandamentos de Cristo.

Podemos também mudar nossa perspectiva da missão de Deus, passando de uma visão numericamente orientada para uma visão geograficamente enraizada. Deus é responsável por nossa salvação, mas, em sua soberania, ele nos ordena a ir até os povos e lugares perdidos desta terra. Ele nos escolhe como seus instrumentos para fazer discípulos de todas as nações. Como diz Romanos 10.14-15: “Como, então, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não houver quem pregue? E como pregarão se não forem enviados?”.

Ao longo das Escrituras, vemos muitos exemplos de Deus exortando as pessoas a irem, em obediência. Em Deuteronômio 20, Deus explica que, embora as vitórias militares de Israel sejam dele, Israel ainda assim deve lutar contra seus inimigos (v. 4). Israel não está isento de ter que pegar em armas simplesmente porque a vitória pertence ao Senhor.

Em Atos 2, depois que os discípulos ficam cheios do Espírito Santo, Pedro fala à multidão atônita em Jerusalém. Ele declara que eles receberão o dom do Espírito Santo, quando se arrependerem e forem batizados, uma promessa que é “para vocês, para os seus filhos e para todos os que estão longe” (v. 38-39). E Paulo explica à igreja de Corinto que, embora Deus seja o responsável pelo crescimento espiritual deles, Paulo plantou a semente e Apolo a regou, como cooperadores engajados na tarefa que Deus lhes havia dado (1Coríntios 3.6-9).

Como Paulo e Apolo, nós também vamos até os não alcançados porque não há outro método ordenado por Deus pelo qual as pessoas ouvirão o evangelho de maneiras que possam compreendê-lo. À medida que descobrirmos e nos familiarizarmos com as oportunidades e os desafios decorrentes da geografia dos grupos de povos, poderemos ensinar e pregar melhor, de maneiras culturalmente relevantes.

Desde o chamado para que Abrão deixasse sua terra e seu povo, em Gênesis 12, até a grande multidão de pessoas de todas as línguas, tribos, povos e nações louvando a Deus, em Apocalipse 7, a visão que as Escrituras têm de missões é expansiva e exuberante. É uma imagem da graça, da misericórdia e do amor avassaladores de Deus pela humanidade.

Essa imagem é o que deve nos inspirar a ir até os não alcançados — não simplesmente por ser um dever que devemos cumprir como filhos de Deus, mas também porque nós, a igreja, somos participantes ativos no plano de Deus para redimir as nações. Para que os povos não alcançados saibam quem Deus é, eles precisam de crentes em suas terras: precisam de pessoas comuns, falhas, mas também cheias do Espírito, pacientes na tribulação e inabalavelmente esperançosas (Romanos 12.12). Vamos romper com nosso isolamento e nossa apatia e atender ao chamado retumbante de Deus.

Matthew Hirt é professor assistente de estudos interculturais na North Greenville University. Ele é o autor de People and Places: How Geography Impacts Missions Strategy [Povos e Lugares: Como a Geografia Impacta a Estratégia de Missões].

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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