
O Ano Novo não possui, em si mesmo, um significado espiritual especial nas Escrituras. Não há uma narrativa bíblica central que determine celebrações religiosas vinculadas à mudança do calendário. Ainda assim, a Palavra de Deus nos ensina a olhar para o tempo com sabedoria. Moisés orou: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 90.12).
O tempo é um dom gracioso de Deus. Administrá-lo bem faz parte da vocação cristã, pois fomos criados para viver “para a glória de Deus” (Catecismo Menor de Westminster, P/R 1). Assim, embora o Ano Novo não tenha valor espiritual em si mesmo, a virada do ano pode servir como um marco pedagógico, um convite à reflexão, ao arrependimento e ao realinhamento da vida diante do Senhor.
Um novo ano traz consigo a sensação de recomeço. Ele nos oferece a oportunidade de estabelecer hábitos melhores e de concentrar mente e coração na única pessoa sobre quem temos maior responsabilidade: nós mesmos. Mas o estabelecimento de novas decisões implica considerarmos quatro atitudes básicas.
1. Lembrança: gratidão a Deus antes de qualquer plano
Em uma cultura que valoriza desempenho, produtividade e conquistas visíveis, o cristão é chamado, antes de tudo, a lembrar do seu Criador. O simples fato de chegarmos a um novo ano já é evidência da fidelidade preservadora de Deus. Cada respiração é um milagre; cada dia, um presente imerecido.
A própria criação nos dá testemunho contínuo da fidelidade divina. Como afirma a Confissão de Fé, Deus não apenas criou todas as coisas, mas continua a preservá-las e governá-las segundo sua santa providência (CFW, cap. V). Mesmo em um mundo marcado pela Queda, cada nova estação aponta para a graça. Por isso, a resposta cristã ao ano que passou (marcado por alegrias ou tristezas) não deve ser apenas “eu consegui” ou “apenas sobrevivi”, mas uma memória agradecida que confessa: “obrigado, Senhor”.
2. Arrependimento: antes de mudar o mundo, examinar o coração
A gratidão verdadeira conduz ao arrependimento. Quando contemplamos a bondade e a santidade de Deus, nossas falhas e pecados se tornam evidentes e, por isso, devemos nos arrepender.
Vivemos em uma época marcada por discursos inflamados, disputas ideológicas e militâncias barulhentas, inclusive no meio cristão. É fácil nos empolgarmos com grandes causas, batalhas culturais e denúncias públicas, enquanto fazemos pouco esforço para exercer domínio sobre nossos próprios pecados, palavras, impulsos e afetos.
A Escritura, porém, dá prioridade clara à transformação interior, pois “que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Mt 16.26). O arrependimento para a vida é uma graça evangélica, pela qual o pecador, “sentindo e odiando os seus pecados, volta-se para Deus com pleno propósito de andar em novidade de vida” (CFW, cap. XV).
Por isso, antes de desejarmos “consertar” a igreja, a cultura ou a sociedade, somos chamados a deixar que a luz de Cristo ilumine as áreas escuras do nosso próprio coração. Ao fazermos isso, certamente nos arrependeremos de nossos erros.
3. Renovação: compromissos antigos e a guerra esquecida
O início de um novo ano frequentemente desperta o desejo por projetos grandiosos e transformações visíveis. A Escritura, contudo, insiste que a obra mais profunda e necessária ocorre no cotidiano aparentemente comum.
Antes de novas metas, somos chamados a renovar compromissos já assumidos diante de Deus: com o casamento, com a família e com a igreja local. Nosso trabalho mais importante acontece, muitas vezes, dentro de casa e na vida comunitária da igreja, onde aprendemos a viver o evangelho por meio de arrependimento, perdão e perseverança.
A vida cristã não é solitária, mas solidária. Ela é vivida na comunhão dos santos, por meio da qual somos edificados mutuamente (CFW, cap. XXVI). Essa fidelidade perseverante, ainda que pouco valorizada pela cultura, é profundamente contracultural e formadora do caráter cristão.
Há muitas batalhas legítimas a serem travadas neste mundo. Mas a mais necessária, a mais perigosa e a mais constante é a guerra diária contra o pecado, a carne e o diabo.
4. Descanso: identidade antes de desempenho
Por fim, começar um novo ano com Jesus implica aprender a descansar nele. Descansar, primeiramente, na nossa identidade em Cristo. Nossa aceitação diante de Deus não depende do sucesso das nossas resoluções, mas da obra perfeita do nosso Redentor em nosso favor (CFW, cap. XI).
Metas não alcançadas não reduzem o amor de Cristo por nós. Um ano mais “produtivo” não nos torna mais aceitos diante de Deus. Na verdade, é o sussurro do inimigo, e não a voz do Salvador, que tenta nos convencer do contrário.
Ademais, devemos planejar até o descanso físico. Em uma cultura que glorifica o cansaço e a hiperatividade, descansar é um ato de fé. Dormir é confessar que não somos Deus e que o mundo continua sob o seu cuidado soberano que “aos seus amados dá enquanto dormem” (Sl 127.2).
Dessa maneira, ao iniciarmos um novo ano, façamos planos com responsabilidade e humildade. Que algumas de nossas metas estejam diretamente ligadas àquilo que Deus prometeu operar em nós: crescimento em santidade, perseverança na fé e conformidade a Cristo. Confiemos não em agendas, aplicativos ou estratégias humanas, mas no Senhor da aliança, que começou a boa obra em nós e a completará até o Dia de Cristo Jesus (Fp 1.6). Ele se lembra de que somos pó (Sl 103.14) e, ainda assim, nos convida a caminhar em novidade de vida.
O Rev. Valdeci Santos é pastor da IP de Campo Belo, em São Paulo, e Diretor do Andrew Jumper
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