O Evangelho da verdade ilumina tudo | Randy Newman

Se a afirmação de John Stott de que “as pessoas estão à procura de uma visão de mundo integrada, que traga sentido à experiência total delas” é verdadeira, devemos mostrar como o evangelho ilumina todas as áreas da vida. Nossa mensagem promete muito mais do que apenas uma passagem para o céu. Muitas pessoas encaram…

Se a afirmação de John Stott de que “as pessoas estão à procura de uma visão de mundo integrada, que traga sentido à experiência total delas” é verdadeira, devemos mostrar como o evangelho ilumina todas as áreas da vida. Nossa mensagem promete muito mais do que apenas uma passagem para o céu.

Muitas pessoas encaram a cosmovisão bíblica como um drama de quatro partes que se move da criação para a queda, da queda para a redenção, da redenção para a consumação. Mas, muitas vezes, os cristãos apresentam um evangelho truncado, que inclui apenas a segunda e a terceira parte. Então, nosso evangelho soa tão simplista quanto: “Você pecou. Jesus morreu pelos seus pecados. Faça esta oração e você não irá para o inferno pelos seus pecados”. De certa forma, isso é verdade. Mas para muitos ouvidos isso sou superficial ou, como diz Stott, “trivial”. As pessoas o rejeitam porque isso não se conecta com as muitas facetas da vida delas.

Não estou falando de mero pragmatismo. Já existem conexões teológicas entre as experiências de vida das pessoas e o evangelho, e precisamos destacá-las. As áreas da vida delas que muitas vezes deixamos passar conectam-se profundamente com os elementos da criação e da consumação, que fazem parte da nossa mensagem.

Os não-cristãos anseiam por dar sentido à vida deles e se perguntam onde se encaixam neste mundo tão grande, belo, imponente. Isso acontece porque foram criados por um Deus pessoal que os colocou em um mundo criado com as impressões digitais dele por todos os lados. Eles também anseiam por alívio do sofrimento e pela realização da justiça final. Isso acontece porque este mundo destina-se a uma consumação, e Deus colocou a eternidade em seus corações (Ef 3.11).

É por isso que Paulo citou os poetas atenienses – não só porque eles fossem seus poetas e facilmente reconhecíveis. Isso certamente é verdade. Muito mais poderia ser dito sobre nossa necessidade de citar poetas de hoje (ou melhor ainda, compositores e cineastas) e de mostrar como eles nos direcionam para o evangelho. Mas perceba quais verdades específicas Paulo escolheu citar: “pois nele vivemos, nos movemos e existimos” e “pois, dele também somos geração” (At 17.28).

Paulo mostrou como o evangelho se relaciona a uma gama maior de temas do que apenas ir para o céu – tudo o que está dentro da categoria de viver, mover-se e existir. O evangelho se relaciona e satisfaz nossos questionamentos sobre por que estamos aqui, como damos sentido à vida e para onde estamos indo. Especialmente com familiares que já devem ter ouvido nosso discurso sobre céu e inferno, poderíamos ganhar mais força falando sobre uma série de outros temas, de acordo com uma visão de mundo baseado no evangelho. Quer chamemos isso de “entrada pela porta lateral”, ou qualquer outro nome que dermos, mostrar como o evangelho faz sentido em todas as áreas da vida pode ter sucesso onde outras tentativas frontais falharam.

Durante anos, até décadas, Ralph tentou pregar o evangelho a seu irmão Ed. Nada deu certo. Na verdade, Ed deixou perfeitamente claro que não estava interessado. Então, um dia, em um longo passeio de carro juntos, Ralph sentiu que deveria agir de uma maneira diferente. (Por falar nisso, muitas pessoas me contaram que suas melhores conversas aconteceram em um carro – onde as duas pessoas olhavam para a frente, em vez de olharem uma para a outra. Talvez o contato indireto dos olhos tenha parecido uma ameaça menor).

Ed tinha acabado de contar à Ralph sobre os problemas em seu casamento. Ele e sua esposa chegaram a se separar por um tempo e se perguntavam se conseguiriam voltar a ficar juntos. Ralph chocou o irmão ao contar-lhe das dificuldades em seu casamento também. Ed achava que seu irmão e sua cunhada nunca enfrentavam tais problemas, e, de fato, a aparência de um casamento perfeito havia tornado Ed menos propenso a abordar esse assunto.

Ralph contou a seu irmão algo assim:

  • Você sabe, quando nosso casamento está bom, não há nada melhor no mundo todo. É como se fôssemos feitos um para o outro e para o tipo de intimidade que o casamento proporciona. Mas, quando estamos em desacordo um com outro, é a coisa mais dolorosa do mundo. Tratamos um ao outro pior do que trataríamos nossos inimigos. Acho que a única coisa que nos manteve juntos todos esses anos é o fato de termos aprendido algumas coisas sobre como perdoar um ao outro.

Depois de conversarem mais um pouco, ele acrescentou:

  • Acho que nossa fé realmente nos ajuda muito nisso. Saber como Deus nos perdoa nos ajuda a perdoar um ao outro. Sem isso, teríamos nos separado há muito tempo.

Ralph me contou que sua vulnerabilidade em relação ao pecado e sua apreciação pelo perdão de Deus lhe permitiram apresentar mais do Evangelho a seu irmão do que qualquer abordagem direta que ele já tinha tentado antes. Também acrescentou: “o fato de eu não condená-lo por se separar-se de sua esposa também ajudou. Em vez disso, eu me identifiquei com a sua luta pelo casamento. Compartilho das mesmas lutas. Só tenho um recurso que ele não encontrou ainda”.

Mostrar como evangelho abrangente ilumina todas as áreas da vida pode ser a chave que abre a porta para parentes que rejeitaram nossa mensagem antes.

Nelson certamente descobriu o quanto isso é verdadeiro. Seu sobrinho Drew o admirava por seu intelecto aguçado e por sua atuação como professor em uma grande universidade. Drew fazia perguntas ao tio sobre questões acadêmicas e sobre acontecimentos atuais porque respeitava suas percepções. Chegou até a procurá-lo para aconselhar-se sobre namoro.

-Parece que eu não consigo sossegar com apenas uma mulher – contou-lhe com certo desespero. – Namoro uma mulher por seis meses e depois perco o interesse por ela. No começo é um desafio e uma conquista. Mas, depois que isso acontece, eu começo outras buscas.

Agora que Drew estava com mais de 30 anos e querendo se aquietar, ele percebeu que seu estilo de namoro estava lhe provocando um profundo desânimo.

  • Parece que você está me dizendo que dorme com essas mulheres – observou Nelson incisivamente.

Depois do choque, Drew reconheceu que sim, de fato, ele teve relações sexuais com as mulheres com quem namorou.

  • Você poderia tentar não ter relações sexuais com uma mulher e ver o que acontece – sugeriu Nelson.

Tal sugestão provocou uma discussão bastante longa sobre a natureza do sexo e como pode ter dois efeitos opostos nos relacionamentos. No compromisso de vida do casamento, explicou Nelson, o sexo serve como uma espécie de cola que une um homem e uma mulher de maneiras misteriosas. Promove intimidade confiança. Para pessoas solteiras que não assumiram tal compromisso, o sexo faz simplesmente o oposto. Ele compartimento, fragmenta e cria um abismo entre as pessoas, em vez de uni-las.

Nelson disse abertamente ao sobrinho que decidir esperar até encontrar uma mulher com quem pudesse compartilhar todas as áreas de sua vida (e não apenas a cama) antes de ter relações sexuais poderia ser abordagem alternativa que ele estava procurando.

Por mais difícil que seja imaginar que alguém como Drew escolhesse a abstinência até o casamento, foi exatamente isso o que ele fez. E, precisamente como tio Nelson disse, uma relação de confiança e de intimidade surgiu. Ele encontrou uma mulher que pôde realmente conhecer e apreciar fora de seu quarto. E se casou com então, começou a perguntar ao tio de onde ele havia tirado essas alternativas malucas. Drew descreve o processo, contando que suas conversas passaram de namoro e sexo a Bíblia e evangelho. Ele raciocinou que, se a Bíblia e seu tio podiam estar certos sobre algo como sexo, também poderiam estar certos sobre Deus. O primeiro livro da Bíblia que Drew leu foi cântico dos cânticos. O segundo livro foi o Evangelho de João. Foi depois de ler esse segundo livro que Drew se tornou cristão.

Precisamos demonstrar como Evangelho se relaciona a todas as áreas da vida. Isso exige alguma reflexão prévia, mas esse esforço mental irá motivar admiração e adoração de sua parte e trazer a visão que pode levar seus entes queridos à salvação. Pois se de fato Deus é aquele “que fez o mundo e tudo que nele há” (At 17.24), então tudo pode levar-nos a ele e a sua salvação. Não é de admirar que C. S Lewis tenha dito: “acredito no cristianismo como acredito que o Sol raiou, não apenas porque eu vejo, mas porque por ele vejo tudo o mais”[1].

Notas

[1] LEWIS, C. S. Peso da glória. Rio de Janeiro: Thomas Nelson.

 

Trecho extraído da obra “Como evangelizar sua família“, traduzida por Edições Vida Nova e publicado no site Cruciforme com permissão.

 

É professor de Apologética e Evangelização no C. S. Lewis Institute, em Washington, D. C., além de lecionar em outros seminários. Depois de servir por trinta anos na Cruzada Estudantil para Cristo (atual Cru) dos Estados Unidos, fundou o ministério Connection Points. Newman também é palestrante e autor de vários livros, entre eles Como evangelizar sua família e Evangelização e apologética por meio de perguntas, publicados por Vida Nova.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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