O TEXTO NO PÚLPITO, CRISTO NO CENTRO: A glória de Cristo na pregação expositiva

Tudo o que as Escrituras dizem a respeito do homem, e particularmente  tudo o que elas dizem sobre a salvação do homem, é  afinal  de  contas  para  glória  de Deus. Nossa teologia está centralizada em Deus porque nossa vida está centrada em Deus. – Cornelius Van Til (1895-1987).[1] Em sua doxologia, Paulo, tomado de admiração…

Tudo o que as Escrituras dizem a respeito do homem, e particularmente  tudo o que elas dizem sobre a salvação do homem, é  afinal  de  contas  para  glória  de Deus. Nossa teologia está centralizada em Deus porque nossa vida está centrada em Deus. – Cornelius Van Til (1895-1987).[1]

Em sua doxologia, Paulo, tomado de admiração diante da soberania de Deus e da dependência de todas as coisas em relação a ele, proclama: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.36).

A pregação é a exposição da Palavra desse Deus soberano, que, por sua livre e graciosa iniciativa, se revela às suas criaturas e as chama à comunhão consigo. Deus não se deixou sem testemunho: a criação manifesta sua glória e torna os seres humanos indesculpáveis diante dele (Rm 1.19-20; Sl 19.1-4). Portanto, ninguém pode alegar ignorância como justificativa para não reconhecer a Deus. A revelação especial, registrada nas Escrituras, torna conhecida de modo particular a vontade divina e anuncia a salvação em Jesus Cristo. Daí a importância da pregação: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17). A Igreja, portanto, não anuncia uma mensagem de sua própria elaboração, mas proclama a Palavra do Senhor, diante de quem todos são responsáveis e por meio da qual Deus chama pecadores ao arrependimento e à fé em Cristo.

A pregação ocupa um lugar central na vida da Igreja porque Deus confiou a ela o ministério de proclamar sua Palavra (Rm 10.17; 1Co 9.16; Tg 1.18,21; 1Pe 1.23). Não se trata de uma atividade entre outras, nem de um mero recurso para comunicar ideias religiosas, preservar tradições ou transmitir valores. A pregação decorre da própria natureza da revelação divina: Deus falou e confiou à Igreja a responsabilidade de anunciar aquilo que revelou.

Pensar teologicamente sobre a pregação é perguntar o que Deus realiza por meio dela. Qual é a relação entre a Escritura, o Espírito Santo, o pregador, Cristo e a Igreja? De onde procede a autoridade daquele que sobe ao púlpito? E qual é o propósito último do sermão?

 

Uma definição

A pregação expositiva é a proclamação fiel da Palavra de Deus, na qual o conteúdo, a estrutura, a ênfase e a aplicação do sermão são governados pelo texto bíblico. É bíblica, porque se submete à Escritura; teológica, porque relaciona exegese, doutrina e prática; pastoral, porque aplica a verdade revelada à vida da Igreja; e doxológica, porque visa à glória de Deus e conduz o povo à adoração. Sua tarefa não é apenas explicar o texto, mas proclamá-lo fielmente, respeitando seu sentido e seu lugar no propósito redentor de Deus, cujo centro é Jesus Cristo.

 

1. A pregação começa em Deus

Deus, o autor da pregação.  – João Calvino (1509-1564).[2]

A pregação do Evangelho, portanto, é a causa da fé. não por si só, mas sempre que está unida à operação efetiva do Espírito Santo. − Johannes Wollebius (1586-1629). [3]

Antes de pensarmos no pregador, precisamos pensar em Deus. A pregação não começa no púlpito, mas em Deus, que se revelou. Não nasce da eloquência humana, mas da Palavra divina; não da necessidade humana de falar sobre Deus, mas da decisão soberana de Deus de se revelar.

É Deus quem toma a iniciativa: ele age, fala e faz ouvir sua voz. Por toda a Terra, seu testemunho se manifesta, tornando conhecida a sua glória e evidenciando a responsabilidade humana diante dele.

A pregação é, assim, uma expressão da voz de Deus por intermédio de seus servos.[4] A autoridade da mensagem não procede do pregador, mas do próprio Deus, que fala por meio de sua Palavra. O ministro não é o autor da mensagem, mas seu servo, chamado a proclamá-la fielmente, para que o povo ouça não opiniões humanas, mas a Palavra do Senhor.

A pregação cristã não é uma invenção da Igreja. Deus estabeleceu a proclamação de sua Palavra como instrumento para chamar, edificar, corrigir, consolar e santificar seu povo. Paulo pergunta: “Como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” (Rm 10.14). E acrescenta: “E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10.17).

A Igreja não recebeu autorização para inventar sua mensagem, mas a incumbência de anunciar aquilo que Deus revelou. O pregador serve a uma Palavra que o precede, o julga e o governa. Por isso, sua primeira pergunta não deve ser: “O que eu quero dizer?”, mas: “O que Deus disse?”. Essa mudança estabelece toda a teologia do púlpito. A tarefa do ministro não é ocupar o centro da mensagem, mas servir àquele que fala por meio de sua Palavra.

A Reforma compreendeu essa realidade com particular clareza. A recuperação da centralidade das Escrituras não significou apenas devolver a Bíblia ao estudo particular, mas também recolocá-la no centro da vida da Igreja e, consequentemente, do púlpito. A pregação foi, assim, um dos meios pelos quais a Reforma recuperou a centralidade da proclamação do evangelho.

A Palavra não foi dada para satisfazer a mera curiosidade religiosa. Deus se revela para que o conheçamos, o adoremos e aprendamos a servi-lo. O conhecimento de Deus não pode permanecer na esfera da especulação: deve conduzir ao culto, à piedade e à obediência. A verdadeira exposição não se contenta em alcançar o entendimento; visa também ao coração, à vontade e à vida. A pregação não visa apenas formar ouvintes mais informados, mas adoradores conscientes da grandeza de Deus, discípulos firmes na verdade e cristãos dispostos a obedecer.

 

 

2. A Palavra governa o púlpito

A preparação da pregação deve ser o dever primordial do pastor. – Karl Barth (1886-1968).[5]

Se Deus é o autor da Palavra, o pregador não pode ocupar o lugar de seu autor. A pregação expositiva não nasce apenas de uma preferência metodológica, mas da natureza da Escritura e da vocação do ministro.

A Bíblia não deve ser usada como introdução religiosa para aquilo que o pregador já decidiu dizer, nem transformada em pretexto para pensamentos que nasceram em outro lugar. É o texto que deve governar o sermão, determinando seu conteúdo, sua ênfase e sua direção. Não se deve elaborar primeiro a mensagem para depois procurar um texto que lhe sirva de apoio. Como se dizia, em tom de pilhéria, nos meus tempos de estudante: “Já tenho o sermão; só falta o texto”. A brincadeira encerra um grave problema homilético: quando o sermão vem primeiro, a Escritura deixa de governar a mensagem e passa a servi-la.

A responsabilidade do expositor é esclarecer o texto de modo claro, correto e relevante, sem acrescentar-lhe ideias estranhas, subtrair-lhe o que afirma ou distorcer seu sentido. O sermão nasce do texto inspirado e se submete a ele, reconhecendo o lugar da passagem no testemunho bíblico e na história da redenção.

A autoridade do pregador está inseparavelmente ligada à autoridade da Palavra de Deus. Fluência, ritmo, firmeza, fundamentação teológica e reverência contribuem para uma comunicação clara e vigorosa; nenhuma dessas qualidades, porém, constitui a fonte da autoridade do sermão. O pregador não encontra autoridade em sua eloquência, experiência ou carisma, mas na Palavra que anuncia fielmente.

Quando o ministro deixa de submeter a mensagem ao sentido do texto, a autoridade tende a deslocar-se da Palavra para o próprio pregador. Sua experiência, criatividade, percepção cultural e leitura das necessidades humanas podem ocupar o lugar que pertence à Escritura. O estilo pode variar, assim como a personalidade e a experiência do pregador; nada disso, porém, substitui a autoridade da Palavra.[6]

Essa autoridade é derivada, ministerial e subordinada. O pregador não fala em nome próprio nem possui autoridade independente da Escritura. Sua tarefa é colocar-se sob a autoridade da Palavra para proclamar aquilo que ela efetivamente ensina. A legitimidade da pregação não está no pregador, mas na Palavra que anuncia; e essa Palavra conduz o povo de Deus a Cristo, seu único Senhor e Cabeça.

 

3. A Escritura é inspirada: o pregador é iluminado

A inspiração não é um evento isolado. O Espírito Santo, depois do ato de inspiração, não sai da Sagrada Escritura e a abandona à sua própria sorte, mas a sustenta e anima e, de muitas formas, traz seu conteúdo à humanidade, ao seu coração e consciência. − Herman Bavinck (1854-1921).[7]  

Precisamos distinguir duas realidades fundamentais para a teologia da pregação: a Escritura é inspirada; o pregador não é. A inspiração pertence à produção da revelação. O Espírito Santo conduziu os autores bíblicos de tal modo que aquilo que escreveram é verdadeiramente Palavra de Deus.[8] O pregador, porém, não recebe novas Escrituras nem uma revelação particular que possa ser acrescentada ao texto inspirado. Seu chamado é compreender, proclamar e aplicar aquilo que Deus já revelou.

Por isso, o pregador precisa da iluminação do Espírito Santo. O mesmo Espírito que inspirou a Palavra ilumina aqueles que a estudam, pregam e ouvem. Essa iluminação não acrescenta conteúdo à revelação; conduz à compreensão da revelação já concedida. Podemos, assim, resumir a distinção: a inspiração nos deu a Palavra; a iluminação do Espírito nos conduz à sua compreensão. O pregador não recebe nova inspiração para interpretar o texto; depende da iluminação do Espírito para compreendê-lo fielmente.[9]

Deus não se compromete com as nossas interpretações, mas com aquilo que falou por meio de seus servos e registrou em sua Palavra.

Essa distinção protege o púlpito de uma confusão perigosa. O ministro não deve colocar sua interpretação no mesmo nível da Escritura, como se pudesse afirmar: “Deus me revelou que este texto significa…”. Deve trabalhar com humildade, rigor e temor, procurando demonstrar: “É isto que as Escrituras ensinam”. Sua autoridade não está em possuir uma revelação privada, mas em servir fielmente à revelação que Deus entregou à sua Igreja.

A iluminação do Espírito não dispensa o estudo cuidadoso. O pregador deve examinar as palavras, a estrutura, o contexto, a gramática, o argumento e a teologia da passagem, considerando sua relação com o restante da Escritura. Dependência espiritual e diligência intelectual não são concorrentes; são dimensões complementares do ministério da Palavra.

4. O pregador abre o texto; o Espírito abre o coração

 

Lucas 24 oferece uma imagem preciosa para a teologia da pregação. Depois da ressurreição, Jesus encontra os discípulos no caminho de Emaús. Eles conheciam as Escrituras, as promessas e os acontecimentos recentes, mas ainda não compreendiam como tudo se relacionava com Cristo. Então Jesus lhes explica as Escrituras: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27).

Mais tarde, diante dos discípulos reunidos, lemos: “Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras” (Lc 24.45). Devemos respeitar a singularidade desse episódio: é o próprio Cristo ressuscitado quem expõe as Escrituras e abre o entendimento dos discípulos. Ainda assim, o relato nos ajuda a reconhecer duas dimensões que não devem ser confundidas: a exposição da Palavra e a iluminação concedida por Deus.

O pregador deve abrir o texto. Trabalha com as palavras, a estrutura, o contexto, o argumento e a teologia da passagem; procura esclarecer o que ela diz e aplicá-la à vida dos fiéis. Mas não pode, por sua própria capacidade, abrir o coração dos ouvintes. Pode estudar, interpretar, organizar, explicar e falar com clareza; deve também orar, sabendo que permanece dependente da graça de Deus. Sua responsabilidade é real; sua suficiência, não.

Atos 16 confirma essa dependência. Paulo prega em Filipos, Lídia ouve a mensagem, e Lucas registra: “O Senhor lhe abriu o coração para atender às coisas que Paulo dizia” (At 16.14). Paulo fala; Lídia ouve; o Senhor abre o coração. A ação divina não torna desnecessária a proclamação. Pelo contrário, Lídia atende às coisas que Paulo dizia. A Palavra é anunciada por um ministro, ouvida por uma pessoa e aplicada eficazmente ao coração pelo próprio Deus.

Aqui está uma verdade central da teologia da pregação: Deus utiliza meios humanos para realizar sua obra, sem que a eficácia espiritual dependa da capacidade humana. Isso nos guarda de dois erros opostos. O primeiro é confiar excessivamente no pregador, como se a conversão e a santificação dependessem de sua habilidade. O segundo é desprezar os meios estabelecidos por Deus, como se a soberania do Espírito tornasse desnecessária a proclamação.

O pregador é necessário porque Deus estabeleceu a pregação como meio de sua ação; sua capacidade humana, porém, não é suficiente para produzir os resultados espirituais, cuja eficácia depende do Senhor. Por isso, a pregação fiel trabalha e ora. Trabalha com a diligência de quem recebeu uma responsabilidade real; ora com a humildade de quem sabe que somente Deus pode abrir o coração. O ministro prepara o sermão como servo responsável e sobe ao púlpito como homem dependente da graça.

 

5. A Pregação é um ministério da Palavra

A Palavra é central para a própria constituição da Igreja. Ela a recebe, preserva, ensina, confessa e proclama. Por meio da Palavra, mediante a ação do Espírito Santo, Deus reúne, instrui e edifica seu povo.

A pregação expositiva serve ao senhorio de Cristo sobre sua Igreja porque reconhece que Ele a governa por meio de sua Palavra. Como observa MacArthur (1939-2025), “a pregação expositiva exalta o senhorio de Cristo sobre sua Igreja”.[10]  O pregador, portanto, não determina por autoridade própria o que a Igreja deve ouvir. Sua tarefa é receber a mensagem das Escrituras, expor fielmente seu sentido e proclamá-la à congregação. Sua autoridade é ministerial e subordinada: não reside nele mesmo, mas na Palavra que lhe foi confiada. Como ressalta João Calvino, a preeminência dos ministros jamais deve comprometer o governo exclusivo de Cristo sobre sua Igreja, exercido por meio de sua Palavra.[11]

Servir à Palavra é, portanto, reconhecer a autoridade de Cristo, a quem ela dá testemunho. O pregador não deve colocar a si mesmo no centro da mensagem, mas servir fielmente às Escrituras, procurando expor cada texto à luz de seu contexto e de seu lugar no propósito redentor de Deus. Quando esse horizonte é ignorado, a exposição corre o risco de se limitar a uma explicação isolada da passagem, sem explicitar sua relação com o testemunho global das Escrituras e seu cumprimento em Cristo.[12]

 

6. A Escritura conduz a Cristo

A compreensão evangélica do íntimo relacionamento entre Jesus Cristo e a Escritura é tal, que um apelo a Cristo é simultaneamente um apelo à Escritura, assim como um apelo à Escritura é um apelo a Cristo.[…]

A Escritura está literalmente centrada em Cristo e Cristo está nela envolvido. Só por meio da Escritura Ele pode ser conhecido. Quando interpretada corretamente, a Escritura conduz a Cristo, que, só por intermédio da Escritura pode ser apropriadamente conhecido. − Alister E. McGrath.[13]

Por que a Palavra deve governar a pregação? Porque a própria Escritura testemunha de Cristo. Em Lucas 24, Jesus mostra aos discípulos como as Escrituras testificavam a seu respeito (Lc 24.27) e afirma que era necessário cumprir-se tudo o que dele estava escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos (Lc 24.44). Há, portanto, uma unidade profunda e harmoniosa em toda a revelação divina: de Gênesis a Apocalipse, as Escrituras encontram em Cristo seu centro e seu cumprimento.

O Antigo Testamento não é uma coleção de textos religiosos desconectados, assim como a Bíblia não é um conjunto de histórias independentes ou um simples depósito de máximas morais. As Escrituras possuem uma unidade que se desenvolve na história da redenção, cujo propósito converge para Cristo e nele encontra seu cumprimento. Na história de Israel, vemos a manifestação da graça e da fidelidade de Deus, bem como as consequências da desobediência e as bênçãos decorrentes da obediência aos seus mandamentos. Vemos também a persistente necessidade da graça divina, sem a qual o povo não poderia subsistir diante do Senhor.

Isso não significa forçar Cristo em cada detalhe do texto, ignorar seu sentido original ou transformar toda passagem em uma alegoria. Significa interpretar cada texto em seu próprio contexto e à luz do testemunho completo das Escrituras, reconhecendo seu lugar na história da redenção, cujo centro e cumprimento estão em Jesus Cristo. A exposição fiel não concorre com o cristocentrismo; antes, ela o serve.

Cristo, portanto, não deve ser acrescentado ao final do sermão como uma conclusão obrigatória ou um apêndice cristão a uma mensagem essencialmente moral. A pregação não pode reduzir uma passagem a uma lição sobre coragem, liderança, família, sucesso ou superação para, somente depois, concluir: “E, acima de tudo, precisamos de Jesus”. Cristo não é um suplemento da mensagem, mas pertence ao seu coração. Não se trata de introduzi-lo no texto por meio de associações arbitrárias, mas de reconhecer, à luz do testemunho integral das Escrituras, como a passagem se relaciona com a obra redentora de Deus em Cristo.

Quando pregamos Davi, não devemos simplesmente ensinar como ser corajosos diante dos nossos “Golias”; quando pregamos José, não devemos reduzi-lo a um exemplo de perseverança; quando pregamos Moisés, não devemos transformá-lo apenas num modelo de liderança. A Escritura nos conduz para além dos exemplos humanos, ao Redentor. Isso não elimina o valor dos exemplos ou das aplicações morais, mas impede que ocupem o lugar que pertence à obra de Deus em Cristo.

Uma pregação cristocêntrica não é aquela que apenas menciona o nome de Jesus com frequência. É aquela que, respeitando o sentido do texto e sua localização na história da redenção, mostra como a passagem participa do testemunho bíblico acerca da obra de Deus consumada em Cristo. Cristo é glorificado quando a mensagem proclamada corresponde à mensagem das Escrituras, e não quando é imposto ao texto pelo pregador.

 

7. A Pregação visa à compreensão, à fé e à obediência

Alguns estão prontos a converter a pregação do Evangelho da misericórdia de Deus em pretexto para um viver licencioso, enquanto a displicência impede a outros de ponderarem sobre a renovação de sua vida. Mas a revelação da graça de Deus, inevitavelmente, traz consigo exortações para um viver piedoso. – João Calvino.[14]

Compreender o texto não é o fim da pregação. A Palavra deve ser compreendida e recebida com fé, para que transforme a vida, produza obediência e conduza à glória de Deus. Pregamos para que pessoas conheçam a verdade e sejam transformadas por ela; para que pecadores sejam reconciliados com Deus por meio de Cristo e para que os crentes caminhem segundo a orientação da Palavra.

A exposição bíblica não pode ser reduzida a uma aula de exegese. O expositor não está apenas informando o auditório sobre o significado original do texto; está proclamando a Palavra de Deus a pessoas reais, com pecados, sofrimentos, dúvidas, responsabilidades e necessidades concretas. A Escritura não nos foi dada para alimentar a curiosidade religiosa ou o mero intelectualismo bíblico, mas para nos conduzir ao conhecimento de Deus, fortalecer nossa confiança nele, aprofundar nossa adoração e moldar nossa vida em santidade. Como observa Vinet (1797–1847): “A pregação é a explicação da Palavra de Deus, a exposição das verdades cristãs e a aplicação dessas verdades ao nosso rebanho”.[15]

A aplicação não é um acréscimo estranho à exposição; decorre da própria finalidade da Palavra. O conhecimento de Deus conduz ao culto e à piedade. A Palavra explicada deve ser recebida; a Palavra recebida deve orientar a vida. Se Deus falou, devemos ouvi-lo; se ouvimos sua Palavra, somos chamados a crer; e, se cremos, somos chamados a obedecer. Essa obediência, contudo, não é mérito que compra o favor divino, mas fruto da graça recebida pela fé.

A aplicação fiel, entretanto, pressupõe uma interpretação responsável. O pregador precisa compreender a mensagem em seu contexto original, respeitar seu sentido e reconhecer o lugar que ela ocupa no conjunto das Escrituras. Somente então poderá demonstrar como essa mesma Palavra se dirige à congregação contemporânea. Não se trata de adaptar a Escritura às expectativas dos ouvintes, mas de ajudá-los a compreender as implicações da verdade revelada para suas circunstâncias concretas.

Osborne sintetiza essa tarefa ao afirmar que “o verdadeiro objetivo da hermenêutica não é o comentário, mas o sermão”. O sermão estabelece uma ponte entre o mundo do texto bíblico e o mundo da congregação. Cabe ao pregador conduzir os ouvintes à compreensão da mensagem em seu contexto original e, em seguida, demonstrar como ela se relaciona com a realidade em que vivem.[16]

Essa ponte não é construída pela criatividade autônoma do pregador, nem pela adaptação do texto às preocupações de seu tempo. Ela é construída mediante a interpretação fiel da Escritura e a aplicação responsável de sua mensagem. O pregador não modifica o sentido da Palavra para torná-la relevante; demonstra sua relevância porque reconhece sua autoridade permanente.

O pregador não deve contentar-se em levar o ouvinte a dizer: “Agora entendi o texto”. Deve procurar ajudá-lo a compreender o que Deus requer e, pela graça, a responder com fé e obediência. A pregação é transformadora não porque o pregador possua poder para mudar o coração, mas porque Deus opera por sua Palavra e pelo Espírito.

 

8. O Pregador também precisa ser alcançado pela Palavra

Todos os verdadeiros pastores da Igreja devem ser discípulos, para que nada ensinem senão o que houver recebido. − John Calvin.[17]

A  oração é sempre necessária como instrução […] Transmitir  conhecimento não basta. É igualmente essencial que oremos  – que oremos por nós mesmos, para que Deus nos faça receptivos  ao  conhecimento  e  à  instrução; que oremos para sermos  capacitados  a  agasalhar  o conhecimento recebido e aplicá-lo;  que  oremos para que não fique só em nossas mentes,  e sim que se apegue aos nossos corações, dobre as nossas  vontades  e  afete o homem todo. O conhecimento, a instrução  e  a  oração devem andar sempre juntos; jamais devem  estar  separados. − D.  M.  Lloyd-Jones (1899-1981).[18]  

A teologia da pregação não permite que o ministro se coloque fora da mensagem que proclama. Antes de ser mensageiro, ele é ouvinte; antes de aplicar a Palavra aos outros, deve submeter-se a ela. A doutrina não foi dada para deleite intelectual ou reflexão abstrata, mas exige compromisso de vida e obediência.

O pregador não se aproxima da Escritura apenas para encontrar algo a dizer à Igreja. Ele próprio precisa colocar-se diante da Palavra, disposto a ser instruído, corrigido, consolado e conduzido à obediência. Não basta compreender intelectualmente a mensagem; é necessário recebê-la com fé, temor e humildade. O ministro não está acima da Palavra que anuncia, mas debaixo de sua autoridade e, como os demais fiéis, precisa ser pastoreado por ela.

Baxter (1615-1691) insistia nessa relação entre a preparação do sermão e a vida espiritual do pregador. Sua exortação permanece oportuna:

[…] preguem para si mesmos o sermão que têm em mente, antes de pregá-lo aos outros. Quando a sua mente tiver prazer nas coisas celestiais, outros o terão também. Então as suas orações, os seus louvores e as suas doutrinas terão celestial dulçor para o seu povo. Este perceberá quando vocês passaram bastante tempo com Deus.[19]

A advertência de Baxter não significa que a autoridade da pregação dependa da perfeição moral ou da intensidade da experiência espiritual do pregador. A autoridade pertence à Palavra de Deus, e não à piedade do ministro. Significa, porém, que aquele que proclama a verdade não pode tratar com indiferença sua própria submissão a ela. A fidelidade ministerial exige que o pregador anuncie a mensagem com a qual ele próprio precisa confrontar-se e pela qual deve ser continuamente corrigido.

Essa disposição deve estar presente desde a preparação do sermão. O estudo da Escritura não é apenas uma atividade intelectual que, depois de concluída, recebe um complemento devocional. A própria preparação precisa ser realizada diante de Deus, com rigor exegético, dependência do Espírito Santo e disposição para obedecer ao que a Palavra ensina. Nesse sentido, Osborne observa:

A preparação de sermões deve ser um exercício devocional (um encontro em primeira pessoa) antes de se tornar um evento de proclamação (um encontro em segunda pessoa). Os pregadores devem continuamente se colocar diante do texto em vez de meramente se colocar por trás do texto para aplicá-lo a essa ou aquela situação na igreja.[20]

Essa observação não opõe devoção e exegese, nem autoriza o pregador a substituir o sentido objetivo da Escritura por suas impressões pessoais. Ao contrário, a verdadeira devoção à Palavra inclui o esforço diligente para compreendê-la corretamente e a disposição de submeter-se ao que ela efetivamente ensina. O pregador não deve buscar no texto uma confirmação para suas ideias, mas permitir que a Escritura examine e governe seu pensamento, sua vontade e sua conduta.

O pregador que não se deixa pastorear pela Palavra corre o risco de transformar o ministério num exercício de competência. Poderá explicar corretamente o texto e, ainda assim, permanecer distante daquilo que proclama. Não deve falar de arrependimento sem se arrepender, de santidade sem buscá-la, de graça sem depender dela ou de Cristo sem desejar conhecê-lo e amá-lo.

A Palavra precisa atravessar o pregador antes de atravessar sua boca. Isso não significa que a validade da mensagem dependa da perfeição moral do ministro, como se apenas homens sem pecado pudessem pregar. Significa que ele também está debaixo da autoridade da Palavra e precisa viver em arrependimento, fé e dependência da graça.

A piedade não é um complemento da competência ministerial; pertence à própria vocação pastoral. Grandes dons não fazem, por si sós, um grande pregador. Uma estrutura homilética excelente não garante eficácia espiritual, assim como uma oratória admirável não pode produzir o novo nascimento. A capacidade técnica contribui para a clareza da exposição; a eficácia espiritual, porém, depende da ação de Deus.

Por isso, a preparação do sermão deve unir diligência intelectual e dependência espiritual. O pregador estuda porque precisa compreender fielmente o texto; ora porque reconhece que depende da graça de Deus; e se submete à Palavra porque não recebeu autoridade para governá-la, mas a incumbência de servi-la. Antes de proclamar a mensagem à congregação, deve colocar-se diante dela como ouvinte. Assim, sem confundir sua experiência pessoal com a autoridade da Escritura, estará mais bem preparado para anunciar fielmente a verdade que o próprio Deus confiou à sua Igreja.

 

9. A Pregação revela nossa teologia de Deus

A maneira como pregamos revela aquilo que pensamos sobre Deus. Se Deus é santo, sua Palavra não pode ser tratada como entretenimento. Se Deus é verdadeiro, sua Palavra não pode ser manipulada. Se Deus é soberano, o pregador não precisa controlar artificialmente seus ouvintes. Se Deus é o Senhor da Igreja, o ministro não pode tratar o púlpito como propriedade pessoal. Se Deus é o autor da salvação, o pregador não precisa fabricar resultados. Se Deus é glorioso, o ministro não pode ocupar o centro da mensagem.

A santidade de Deus deve fundamentar e orientar toda a pregação. O conhecimento que ele nos comunica é conhecimento do Deus santo. Por isso, nossa mensagem não pode deixar-se governar por modismos, interesses e paixões circunstanciais que se afastam da Escritura. Diante do Deus santo, o púlpito não pode ser lugar de espetáculo, manipulação ou exaltação humana. O pregador deve servir de tal modo que a Palavra seja ouvida e Cristo seja conhecido, amado e glorificado.

Nossa teologia do púlpito será inevitavelmente uma expressão de nossa teologia de Deus e, mais profundamente, de nosso relacionamento com ele. Por isso, uma pergunta deve acompanhar todo pregador: meu sermão manifesta a grandeza de Deus ou faz o pregador parecer grande? A resposta não está apenas no estilo ou nos recursos de comunicação, mas, sobretudo, naquilo que ocupa o centro da mensagem, fundamenta sua autoridade e determina seu propósito.

 

10. O Púlpito não é lugar de espetáculo

É apenas um lugar comum que não haja nada mais importante, mais urgente, mais útil, mais redentor e mais salutar; não há nada, do ponto de vista do céu ou da terra, mais relevante à situação real do que o falar e o ouvir da Palavra de Deus no poder original e regulador de sua verdade, em sua toda erradicante e toda reconciliadora sinceridade, na luz que não lança somente sobre o tempo e sobre confusões do tempo, mas também além, em direção ao brilho da eternidade, revelando o tempo e a eternidade através  de cada um e em cada um – a Palavra, o Logos do Deus vivo. − Karl Barth (1886-1968).[21]

A pregação não deve ser transformada em entretenimento. O problema não é apenas estético; é teológico. Quando o sermão passa a depender fundamentalmente de técnicas destinadas a produzir impacto, o pregador corre o risco de confiar em recursos incapazes de conferir, por si mesmos, poder espiritual à mensagem.

Isso não significa que o pregador deva ser desinteressante, obscuro ou indiferente à comunicação. Ao contrário, deve falar com clareza, propriedade, sabedoria e sensibilidade, tornando compreensível a verdade que recebeu sem diminuir sua autoridade ou diluir sua força. Há, porém, uma diferença entre comunicar bem a Palavra e substituir a Palavra pela comunicação. A primeira serve à mensagem; a segunda desloca a mensagem do centro.

O pregador pode utilizar recursos de comunicação, mas não deve depositar neles sua confiança. É necessário distinguir o Senhor dos meios de que ele se serve. Deus utiliza meios, mas a bênção não procede autonomamente deles; procede do próprio Deus. Por isso, o ministro deve empregar os recursos disponíveis com sabedoria e confiar naquele que realiza sua obra por meio da Palavra e do Espírito.

 

Dimensão apologética da pregação

A pregação também possui uma dimensão apologética e persuasiva. O pregador não se limita a dizer: “Eis o que o texto significa; agora, façam com essa informação o que quiserem”. Ele proclama a verdade, chama à fé, adverte, consola, exorta e persuade. Há, contudo, uma diferença fundamental entre persuasão e manipulação. A persuasão cristã procura alcançar a consciência por meio da verdade; a manipulação procura controlar as pessoas por meio de técnicas. A primeira serve-se da Palavra e confia na ação do Espírito; a segunda deposita sua confiança no poder do comunicador.

A pregação pode ser fervorosa sem ser manipuladora, emotiva sem ser emocionalista e persuasiva sem ser teatral. O pregador chama as pessoas ao arrependimento e à fé, mas reconhece que somente Deus pode transformar o coração. Sua responsabilidade é proclamar fielmente a Palavra, persuadir por meio da verdade e deixar os resultados nas mãos do Senhor.

A conversão, portanto, não se mede simplesmente pelo ato de alguém vir à frente, mas pela fé em Cristo, que se manifesta em arrependimento, confiança nele e uma vida progressivamente transformada. Uma resposta exterior pode acompanhar uma decisão sincera, mas não constitui, por si só, prova suficiente de conversão.

 

11. A Pregação é também ato de culto

Quando o teatro, a música, a comédia e outras atividades têm a permissão de usurpar o lugar da pregação da Palavra, a verdadeira adoração inevitavelmente é prejudicada. E, quando a pregação é subjugada à pompa e à circunstância, ela também obstrui a adoração genuína. Um culto de adoração sem o ministério da Palavra tem um valor questionável. − John MacArthur (1939–2025).[22]

Se o propósito último da Igreja é a glória de Deus, a pregação deve ser compreendida também como parte do culto. O pregador não oferece simplesmente informação religiosa a uma audiência. A Palavra é proclamada diante do Deus que fala e diante do povo chamado a ouvi-lo.

Por isso, o ministro deve aproximar-se do púlpito com temor. Ele não está apenas diante de uma congregação, mas serve diante de Deus. A pergunta decisiva não é somente: “As pessoas gostaram do sermão?”, mas: “Fui fiel à Palavra de Deus?”.

 

Sermão bem-sucedido

O sucesso de um sermão não pode ser medido primordialmente pelo entusiasmo que desperta, pelos elogios que recebe ou pela impressão que causa na congregação. O critério fundamental é outro: Cristo foi fielmente proclamado? A Palavra foi corretamente exposta? Deus foi honrado? O povo foi chamado à fé e à obediência? Os abatidos foram consolados?

Essas perguntas não desprezam a comunicação, a recepção da congregação ou os frutos do ministério. Apenas recusam fazer do entusiasmo e da aprovação humana os critérios supremos de avaliação. A fidelidade à Escritura não pode ser substituída pelo aplauso, assim como a ausência de resultados visíveis imediatos não prova, por si só, infidelidade. O ministro deve trabalhar com diligência, avaliar seu ministério com humildade e deixar os resultados nas mãos do Senhor. Sua alegria maior deve estar em ter sido fiel àquele que o chamou.

 

12. O pregador serve ao texto porque serve a Cristo

O sermão serve ao texto, não o usa. – Walter L. Liefeld,[23]

Se a Escritura é a Palavra de Deus e testemunha de Cristo, servir ao texto é servir ao propósito de Cristo para sua Igreja. O pregador deve submeter à Escritura suas opiniões, criatividade, experiência, cultura, tradição e método. Sua personalidade não pode governar a mensagem. A Igreja é chamada a ser serva, e não senhora, da revelação.

Essa é uma das marcas fundamentais de uma teologia reformada da pregação. O ministro não é dono da Palavra, mas seu servo; e, justamente por servir à Palavra, serve a Cristo. Não recebeu a incumbência de tornar sua própria voz conhecida, mas de fazer ouvir a voz de Deus nas Escrituras.

Seu ministério será verdadeiramente frutífero quando sua presença servir à proclamação da Palavra e quando sua própria voz não impedir que a voz de Cristo seja ouvida.

 

13. O grande paradoxo da pregação

A glória da pregação é que Deus realiza  sua vontade por intermédio dela, mas somos sempre humilhados e ocasionalmente confortados com o conhecimento de que Ele age além das nossas limitações humanas. − Bryan Chapell,[24]

Aqui encontramos um dos grandes paradoxos do ministério: quanto mais o pregador compreende o poder da Palavra, menos precisa confiar em si mesmo; quanto mais compreende a soberania de Deus, mais seriamente trabalha; quanto mais confia no Espírito, mais cuidadosamente estuda; quanto mais deseja glorificar Cristo, menos espaço reserva para a própria glória.

Essa é uma das verdadeiras liberdades do pregador. Ele não precisa produzir aquilo que somente Deus pode produzir. Não pode regenerar ninguém nem abrir, por sua própria capacidade, o coração de seus ouvintes. Sua responsabilidade é outra: ser fiel.

Ele estuda a Palavra, procura compreendê-la, submete-se a ela, expõe seu sentido e a proclama. Depois, entrega os resultados àquele que inspirou a Palavra e que, pelo Espírito, continua operando por meio dela. O pregador trabalha com responsabilidade porque Deus ordenou a pregação; descansa com humildade porque a eficácia pertence a Deus.

 

Considerações finais: O texto no púlpito, Cristo no centro

A alma pode prescindir de todas as coisas, menos da Palavra de Deus, e fora da Palavra de Deus nada mais pode auxiliá-la. Quando, porém, ela possui a Palavra, de nada mais necessitará, pois na Palavra ela encontrará satisfação, alimento, alegria, paz, luz, ciência, justiça, verdade, sabedoria, liberdade e todos os bens em abundância” ‒ Martinho Lutero.[25]

O pregador […] com toda modéstia e seriedade, deve trabalhar, lutar para apresentar corretamente a Palavra, sabendo perfeitamente que o recte docere só pode ser realizado pelo Espirito Santo. − Karl Barth.[26]

Chegamos, assim, ao centro de nossa reflexão. A pregação expositiva glorifica a Cristo porque reconhece que ele governa sua Igreja por meio de sua Palavra. A Escritura é inspirada pelo Espírito; o pregador é ministro, não autor da mensagem; a interpretação deve submeter-se ao sentido do texto; a Palavra testemunha de Cristo e deve alcançar a vida; e somente Deus pode abrir o coração.

Lucas 24 nos oferece uma imagem decisiva: Cristo expõe as Escrituras e abre o entendimento dos discípulos. Atos 16 mostra a continuidade dessa verdade na proclamação apostólica: Paulo fala, mas o Senhor abre o coração de Lídia.

Não somos inspirados; somos iluminados. Não recebemos nova revelação; temos a incumbência de proclamar a revelação já dada. Não abrimos o coração dos ouvintes; expomos, com fidelidade e humildade, o sentido do texto e rogamos que Deus faça aquilo que somente ele pode fazer.

A pregação não termina quando o texto é explicado. Visa que a Palavra seja conhecida, recebida, crida, vivida e celebrada. O conhecimento que não conduz ao culto permanece incompleto; a exposição que não alcança a vida fica aquém de sua finalidade. A Palavra foi dada para que conheçamos a Deus, o adoremos e sejamos conduzidos ao seu serviço.

A teologia da pregação pode, portanto, ser resumida nesta sequência:

 

O Espírito inspira a Palavra.

O Espírito ilumina o pregador.

A Palavra revela Cristo.

O pregador abre o texto.

O Espírito abre o coração.

Cristo é conhecido, recebido, amado e obedecido.

E Deus é glorificado.

Essa é a finalidade do púlpito: não tornar o pregador admirado, o sermão famoso ou a pregação um espetáculo; não satisfazer apenas a curiosidade religiosa nem oferecer simplesmente conselhos para uma vida melhor. O propósito é proclamar fielmente a Palavra de Deus, para que Cristo seja conhecido e glorificado em sua Igreja.

O texto está no púlpito para que Cristo esteja no centro. O pregador cumpre seu ministério quando, ao expor o texto, conduz os ouvintes para além de si mesmo — àquele de quem as Escrituras dão testemunho.

Então, no final, o pregador pode desaparecer.

O texto permanece.

Cristo permanece.

A Palavra permanece.

E a glória pertence a Deus.

Portanto, a pregação só é fiel quando é bíblica, porque somente a Palavra nos conduz a Cristo, o centro da revelação e da nossa fé.

 
Maringá, 9 de outubro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[1]Cornelius  Van  Til, An Introduction to Systematic Theology, Phillipsburg,  New  Jersey: Presbyterian and Reformed Publishing Co. 1974, p. 1.

[2] João Calvino, As Institutas, IV.1.6.

[3] Johannes Wollebius. Compêndio de Teologia Cristã,  Eusébio, CE.: Peregrino, 2020, p. 239.

[4] Herman Bavinck (1854-1921), declara que “Deus, ou o Espírito Santo, é o autor primário que fala na Escritura por meio dos profetas”. (Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 402.

[5]Karl Barth, A proclamación del Evangelio, Salamanca: Ediciones Sigueme, 1969, p. 83.

[6] “Não é a engenhosidade de nossos métodos, nem as técnicas de nosso ministério, nem a perspicácia de nossos sermões que trazem poder ao nosso testemunho. É a obediência a um Deus santo e a fidelidade ao seu justo padrão em nosso viver diário.”  (John F. MacArthur, Jr., Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos, SP: Fiel, 1997, p. 97).

[7] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 1, p. 439.

[8]“Esta doutrina [da inspiração] significa que a Bíblia não é apenas um relato de coisas importantes, mas que o próprio relato é verdadeiro, tendo os escritores sido preservados de erros, a despeito de uma manutenção total de seus hábitos de pensamentos e expressão, que o Livro resultante é a ‘regra infalível de fé e prática’. […]

“A doutrina da inspiração plena não nega a individualidade dos escritores bíblicos; ela não ignora o uso que fizeram de meios ordinários para a aquisição de informação; ela não envolve qualquer falta de interesse nas situações históricas que deram origem aos livros bíblicos. O que ela nega é a presença de erros na Bíblia. Ela supõe que o Espírito Santo informou as mentes dos escritores bíblicos de tal forma que eles foram impedidos de cometerem os erros que danificam todos os outros livros. A Bíblia pode conter um relato de uma revelação genuína de Deus e, mesmo assim, não conter um relato verdadeiro. Mas, de acordo com a doutrina da inspiração, o relato é, na realidade, um relato verdadeiro; a  Bíblia é uma ‘regra infalível de fé e prática’.” (J. Gresham Machen, Cristianismo e Liberalismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 78-79).

[9]“O ensino externo será infrutífero e inútil se não for acompanhado pelo ensino do Espírito Santo. Portanto, Deus tem dois métodos de ensino: primeiro, ele nos faz ouvi-lo pelos lábios humanos; e, segundo, ele nos fala intimamente por seu Espírito; e ele faz isso ou no mesmo instante, ou em momentos distintos, conforme achar oportuno”. (João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2015, v. 2, [Jo 14.25], p. 109).

[10] John MacArthur, Por que ainda prego a Bíblia após quarenta anos de ministério: In: Mark Dever, ed., A Pregação da Cruz, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, [p. 129-150], p. 141. Veja-se também: Martinho Lutero, Uma Prédica Para que se Mandem os Filhos à Escola (1530): In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo; Porto Alegre, RS: Sinodal; Concórdia, 1995, v. 5, [p. 326-363], p. 334.

[11] “Toda a eminência que os mestres porventura possuam entre si não deve impedir a Cristo de ser o único a governar sua Igreja nem de governá-la exclusivamente por meio de sua palavra” (João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2015, v. 1,  [Jo 3.29], p. 144).

[12]Cf. Steven J. Lawson, O tipo de pregação que Deus abençoa, São José dos Campos, SP: Editora Fiel, 2013, p. 25.

[13]Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 44 e 46.

[14]João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, [Tt 2.11], p. 334.

[15] A.R. Vinet, Pastoral Theology: or, The Theory of the Evangelical Ministry,  2. ed. New York: Ivison: Blakeman, Taylor & Co., 1874, p. 189.

[16] Cf. Grant Osborne, A Espiral Hermenêutica: Uma nova abordagem à interpretação bíblica, São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 561.

[17] John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 3, [Ex 31.18], p. 328.

[18] D. Martyn Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 98.

[19] Richard Baxter, O Pastor Aprovado, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1989, p. 128.

[20] Grant Osborne, A Espiral Hermenêutica: Uma nova abordagem à interpretação bíblica, São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 570.

[21] Karl Barth, Parole de Dieu et Parole Humaine, Paris: Société Commerciale d’Edition et de Librairie, 1933, p. 147.

[22]John MacArthur, Como Devemos Cultuar a Deus?: In: Fé para Hoje, São José dos Campos, SP: Fiel, nº 10, 2001, p. 13.

[23] Walter L. Liefeld,  Exposição do Novo Testamento: do texto ao sermão, São Paulo: Vida Nova, 1985, p. 14.

[24] Bryan Chapell,  Pregação Cristocêntrica, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2002, p. 25.

[25]Martinho Lutero, Da Liberdade do Cristão: Prefácios à Bíblia, São Paulo: Fundação Editora da UNESP., 1998, p. 27. (Escreveu em 1520).

[26] Karl Barth,  La Proclamacion del Evangelio, Salamanca: Ediciones Sigueme, 1969, p. 46.

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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