Os “povos não alcançados” podem estar mais perto do que pensamos
O termo grupos de povos não alcançados está cada vez mais inadequado para o século 21. Precisamos de uma expressão que seja mais precisa para captar o dinamismo e a fluidez das missões nos dias de hoje. O crescimento das missões no chamado “mundo majoritário” [ou seja, dos também denominados países em desenvolvimento] ressalta a…
O termo grupos de povos não alcançados está cada vez mais inadequado para o século 21. Precisamos de uma expressão que seja mais precisa para captar o dinamismo e a fluidez das missões nos dias de hoje. O crescimento das missões no chamado “mundo majoritário” [ou seja, dos também denominados países em desenvolvimento] ressalta a importância das missões locais, e deve nos lembrar que não devemos mais ver o mundo como simplesmente “alcançado” ou “não alcançado”.
Como professor de missiologia no Sudeste Asiático, tenho dificuldade em usar esse termo em sala de aula, pois ele ignora as complexidades atuais das missões. Os defensores da ideia de povos não alcançados frequentemente lamentam que apenas 1% dos missionários atuem entre os povos menos cristãos do mundo. Mas essa estatística cria uma imagem distorcida do cenário missionário atual. Ela falha, por exemplo, em reconhecer o papel das igrejas autóctones e de seus membros, ao longo da história das missões.
Em muitos seminários e faculdades bíblicas, os cursos sobre esse tema geralmente se concentram nos feitos individuais de missionários ocidentais. Embora jamais devamos menosprezar os esforços e sacrifícios de cada indivíduo, precisamos levar em conta como igrejas, e não indivíduos, sempre foram a principal força impulsionadora das missões, como argumenta a historiadora da igreja Dana Robert, em seu livro Christian Mission: How Christianity Became a World Religion [Missão cristã: como o cristianismo se tornou uma religião mundial].
Muitas igrejas do Mundo Majoritário são minorias em sua respectiva comunidade. Elas frequentemente interpretam a Grande Comissão, em Mateus 28.18-20, e o chamado para serem testemunhas de Deus, em Atos 1.8, como um imperativo para todos os cristãos, e não apenas para uns poucos escolhidos. Aos olhos desses cristãos que constituem uma minoria, alcançar os “não alcançados” não é algo que somente quem é qualificado para pregar ou ensinar faz. Pelo contrário, eles se deparam com os não alcançados diariamente, pois vivem em lares com altares dedicados a outros deuses e são forçados a participar de rituais e costumes não cristãos.
Em 2019, visitei a tribo Santal, em Jharkhand, na Índia. Outrora considerada um “cemitério de missionários”, devido ao seu isolamento e à perseguição aos cristãos por nacionalistas hindus, os Santal agora são vistos como um povo “alcançado”. E isso ocorreu, em grande parte, graças aos missionários enviados pelas igrejas de Kerala, que são da própria Índia, e não por meio de esforços missionários de países ocidentais.
Hoje, a igreja Santal evangeliza tribos vizinhas que são consideradas como não alcançadas, embora não as veja dessa forma. Os Santal veem a evangelização como uma decorrência natural de sua fé.
Tenho testemunhado repetidamente esse tipo de história, em minhas visitas a países como Nepal, Camboja e Tailândia. Igrejas locais, em vez de agências missionárias [ocidentais], estão efetivamente espalhando o evangelho por meio da multiplicação, cuidando de seus próximos e fazendo boas obras (Efésios 2.10). O envio de missionários ocidentais para grupos de povos não alcançados de países em desenvolvimento é, atualmente, uma necessidade bem menos urgente do que foi no passado, visto que as igrejas do século 21 nesses países já possuem os meios, os métodos e a motivação de que precisam para alcançar seus próximos.
A localização dos “não alcançados” também está mudando. No primeiro século, a maioria dos cristãos vivia ao redor da bacia do Mediterrâneo e, por volta de 1900, havia partes do mundo onde os crentes nunca haviam pisado. Hoje, porém, podemos encontrar igrejas e comunidades em quase todas as regiões geográficas, de acordo com o Atlas do Cristianismo Global. Consequentemente, o termo “grupos de povos não alcançados” perdeu seu significado no mundo em que vivemos atualmente.
O cristianismo está crescendo mais rapidamente nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos. As igrejas africanas e asiáticas são as que estão experimentando o crescimento mais rápido da fé, segundo observou o Centro de Estudos do Cristianismo Global, em um relatório de 2024.
Quando não reconhecemos como o locus do crescimento cristão está mudando, criamos uma visão romantizada dos missionários, concentrando-nos em cumprir a parte de Atos 1.8 que diz respeito aos “confins da terra”, enquanto negligenciamos nossas próprias “Jerusaléns”. Essa idealização do trabalho missionário frequentemente resulta na alocação ineficiente, e até prejudicial, de pessoas e de recursos.
Em 2018, o missionário americano John Allen Chau, de 26 anos, foi morto pelos sentineleses, uma das tribos mais isoladas do mundo, após tentar contatá-los. Não duvido do fervor e do zelo de Chau por Cristo, mas gostaria que ele tivesse se associado a cristãos da região, que já representam cerca de 20% da população das Ilhas Andamão, antes de embarcar em sua missão.
Além disso, uma visão tradicional do termo — que, em geral, pressupõe que os “não alcançados” estão apenas nos países em desenvolvimento — deixa de abordar o preconceito ocidental implícito no termo. Afinal, os países desenvolvidos estão se tornando novamente não alcançados, como já alertaram o missiólogo britânico Lesslie Newbigin e o pastor Tim Keller. Fazer missão nos países desenvolvidos, onde a grande maioria dos jovens não tem filiação religiosa ou nunca ouviu a mensagem do Evangelho, é algo tão vital quanto ir alcançar grupos de povos em cantos remotos do planeta.
Para ir além dessa compreensão binária dos povos como “alcançados” e “não alcançados”, bem como para ilustrar com mais clareza uma abordagem multidirecional às missões, eu uso em minhas aulas a metáfora do waffle [panqueca de origem Belga prensada em um utensílio de ferro, que imprime texturas quadriculares sobre a massa] para descrever o conceito de missões.
Essa metáfora é inspirada num processo que encontramos em passagens como Gênesis 1; na conquista de Canaã, em Josué; e no livro de Atos: é o processo de “espalhar e preencher” [as lacunas, os quadradinhos do waffle]. Temos uma rede cristã mundial já estabelecida, uma rede de igrejas que se assemelha ao desenho quadriculado de um waffle, graças ao trabalho incansável de pioneiros missionários como Adoniram e Ann Judson, que se aventuraram em Calcutá, na Índia, e em Mianmar, no século 19.
Hoje, porém, o que mais precisamos é de impulsionar o preenchimento das lacunas dessa rede, isto é, das áreas com pouca ou nenhuma atuação missionária cristã. Essas lacunas representam as pessoas não alcançadas em nossos bairros e cidades, que estão fechadas à mensagem do Evangelho. As igrejas podem preencher essas lacunas proclamando o Evangelho, demonstrando o amor de Cristo e incentivando uns aos outros ao amor e às boas obras (Hebreus 10.24). A Bíblia chama os cristãos constantemente a servir, de forma integral e abrangente, não apenas os perdidos, mas também os humildes e os últimos (Deuteronômio 10.18-19; 1Pedro 2.9-12).
Se entendermos o conceito de missões como um derramar, lento e constante, de tudo aquilo que Deus nos deu — como se fosse uma geleia que se espalha sobre um waffle e preenche todos as lacunas quadriculadas da massa —, então, reconheceremos que falar da misericórdia, do amor e da graça de Deus continua sendo necessário tanto em nossas “Jerusaléns” quanto nos confins da Terra. Até que o Senhor volte, que jamais deixemos de falar às pessoas, próximas e distantes, de como as palavras de Deus são mais doces que o mel para a nossa boca (Salmos 119.103).
Samuel Law é professor associado de estudos interculturais e decano de estudos avançados no Singapore Bible College, além de pastor da Igreja Evangélica Chinesa de Seattle.
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