Orar é respirar | John Onwuchekwa

Bem, aqui está você lendo mais um texto sobre oração. O último talvez não o tenha feito sentir-se suficientemente culpado, uma vez que você é ávido por punição. Qual a finalidade de um texto sobre a oração que não tenha no início uma citação que traga à tona seus defeitos como fazedor de oração? Indo…

Bem, aqui está você lendo mais um texto sobre oração. O último talvez não o tenha feito sentir-se suficientemente culpado, uma vez que você é ávido por punição. Qual a finalidade de um texto sobre a oração que não tenha no início uma citação que traga à tona seus defeitos como fazedor de oração? Indo direto ao ponto: “Ser Cristão sem oração é tão impossível quanto permanecer vivo sem respiração”.

Brincadeiras à parte, essa declaração pode ser a mais forte e mais desafiadoras que já li a respeito da oração. Como metáfora para a oração cristã, “respirar” nos dá uma boa ideia do que deve ser a oração. Ela nos lembra de que a oração é essencial para a nossa existência. Respirar é necessário para nossa existência. Respirar é necessário para tudo que fazemos. A respiração nos capacita para todas as atividades. Da mesma forma, a oração é indispensável e vital. Está atada tanto à nossa presente existência quanto à nossa continua perseverança. Orar é respirar. Essa é a melhor metáfora sobre o que a oração deve significar para o cristão.

É por isso que a luta de muitos cristãos com a oração é tão intrigante.  Não é estranho que tantos cristãos creiam em tese nessa verdade, mas tão poucas igrejas a validam na prática?

Nosso problema não é como falamos sobre a oração. Falamos sobre a oração com todo fervor e toda a eloquência que ela merece. O problema é como tratamos a oração. Nossa prática de oração não se alinha com nossa pregação, o que é sempre um sinal de que algo está errado (veja Tiago 2).

A ausência total de oração na igreja não é plausível. É possível que em algum lugar por ai haja uma igreja que nunca ore, mas não acho que isso esteja se passando na sua. Não conheço a sua igreja, mas arrisco dizer que vocês se reúnem para orar em algumas ocasiões. Essas reuniões de oração podem ser esparsas e não frequentes, mas ocorrem.

Ai está onde eu acredito ser o maior problema: não a completa falta de oração, mas, sim, pouquíssima oração.  Oura citação que revela mais dessas inseguranças relativas à oração é: “Assim, deparamos com um dos males gritantes do nosso tempo, talvez de todos os tempos – pouco ou nenhuma oração. Desses dois males, talvez orar pouco seja mais pior do que não orar. Orar pouco é um faz de conta, uma desculpa para aliviar a consciência, uma farsa ilusão. O pouco valor que atribuímos à oração é evidente pelo pouco tempo que dedicamos a ela” (E. M. Bounds).

Quando a oração é esparsa e pouco frequente, feita apenas o suficiente para aliviar a consciência e nada mais que isso, temos um problema. Todos nós fazemos parte de igrejas onde a oração está presente, mas esta não é significativa nem poderosa. Infelizmente, muitas vezes as nossas orações na igreja são como a oração antes das refeições: obrigatória e respeitável, mas na verdade ninguém tira muito proveito dela. Nossas orações como igreja se reduzem a ferramentas de transição de uma atividade para outra. Abaixamos a cabeça e fechamos os olhos para que a transição da equipe de louvor – dos que saem do púlpito e dos que ali entram – não fique tão desajeitada.

Percebe o perigo de orar pouco? Onde há oração, ela está dizendo algo – está falando, clamando. Ela ensina à igreja que precisamos verdadeiramente do Senhor. Onde não há oração, reforça-se a hipótese de quem estamos bem sem ele. A oração esporádica ensina à igreja que necessitamos de Deus apenas em situações especiais – em certas circunstâncias, mas não em todas. Ensina à igreja que a ajuda de Deus é necessárias em alguns momentos, não o tempo todo.  Isto faz com que a igreja acredite  que há muitas coisas que podemos fazer sem a ajuda de Deus, e precisamos incomodá-lo só quando deparamos com situações, de fato, difíceis.

Reflita comigo um momento acerca do acontecimento racistas inflamados que bombardearam os Estados Unidos no verão de 2016. Em uma semana, a nação testemunhou a morte de Philando Castile, Alton Sterling e cinco policiais em Dallas. As pessoas tomaram partido de um ou de outro lado, e todos tinham algo para lamentar. Foi nesse cenário que muitas igrejas se reuniram para orar por suas comunidades, suas igrejas, seus líderes e pelo país. Algumas igrejas se reuniram com outras denominações diferentes. Durante um período, nossas orações pareciam poderosas, urgente e determinadas. Nosso clamor era: “Deus, precisamos de sua ajuda”.

Entretanto, uma vez passadas essas crises, as orações coletivas como essas nas congregações praticamente cessaram. Isso é significativo, não é? Revela que tratamos a oração como uma ação especial, destinada a cuidar das coisas que não podemos “controlar” por nossa própria conta. Não tratamos a oração como a nossa respiração. Nós a tratamos como um medicamento destinado a nos curar de uma doença. Tão logo a cura chega, logo também se vão a frequência e o fervor das nossas orações.

 

Trecho extraído com adaptação da obra “Oração“ de John Onwuchekwa, publicada por Vida Nova: São Paulo, 2018, p.21-24

Imagem de Ben White na Unsplash

(MA, Dallas Theological Seminary) é pastor da igreja Cornerstone Church, em Atlanta. Também é membro do conselho da Gospel Coalition e um dos autores de 15 things seminary couldn’t teach me, a ser publicado por Vida Nova.
QUAL A IMPORTÂNCIA DA ORAÇÃO COMUNITÁRIA? Para os cristãos, a oração é tão essencial à vida espiritual quanto a respiração para o corpo humano. Todavia, na maioria das vezes, ela não ocorre naturalmente. Na verdade, a igreja geralmente deixa a oração de lado e sutilmente volta a atenção para atividades pragmáticas que prometem resultados concretos. Este livro tem como foco a necessidade da igreja local de retornar à oração como hábito fundamental e assim nos despertar para a necessidade e a bênção que é a oração coletiva. Neste volume da Série 9Marcas, John Onwuchekwa examina o que Jesus ensinou sobre a oração, como os primeiros cristãos lidaram com ela e como priorizá-la em nossos encontros.

 

O post Orar é respirar | John Onwuchekwa apareceu primeiro em CRUCIFORME.

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

Compartilhe isso:

Posts Similares