O que significa ser o “tipo certo” de mãe e pai?

Harold Hill precisou criar um problema para poder vender uma solução. O astuto protagonista da comédia musical The Music Man [conhecido no Brasil como Vendedor de Ilusões] sabia que esse dilema inventado precisava ser um problema com o qual os pais de River City, no estado norte-americano de Iowa, se importassem. Eles precisavam se importar o…

Harold Hill precisou criar um problema para poder vender uma solução. O astuto protagonista da comédia musical The Music Man [conhecido no Brasil como Vendedor de Ilusões] sabia que esse dilema inventado precisava ser um problema com o qual os pais de River City, no estado norte-americano de Iowa, se importassem. Eles precisavam se importar o suficiente não apenas para ouvir, mas também para investir tempo e dinheiro na solução absurda que ele estava prestes a propor: uma banda marcial de rapazes.

“Temos problemas, bem aqui, em River City!”, gritava ele, apontando para o salão de bilhar, onde uma mesa de sinuca recém-instalada ameaçava levar os jovens rapazes pelo caminho da linguagem vulgar, da cerveja e do ragtime [estilo musical norte-americano]. O apelo convincente que Hill usava com seus clientes desavisados era o de que os rapazes corriam o risco de se tornarem arruaceiros, mas ele tinha a solução perfeita para isso.

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Depois de definir bem o inimigo (a nova mesa de sinuca) e o perigo (o vandalismo), ele se voltou para a multidão de mães e pais e disse com toda seriedade: “Ora, eu sei que todos vocês são do tipo certo de pais…”.

O tipo certo de pais. Praticamente todos os pais e mães desejam ser pais do tipo certo. Não querem ser apenas bons pais, mas os melhores pais que puderem ser. E todo pai ou mãe consegue se identificar com a sensação de levar um recém-nascido para casa e, em meio à alegria de trazer uma nova vida ao mundo, sentir o peso esmagador dessa responsabilidade. Essa pressão implacável leva os pais a [buscarem] livros, podcasts, blogs e influenciadores. Certamente, nem todos que se intitulam especialistas na criação de filhos são vigaristas ou golpistas; porém, mesmo aqueles que se dizem os mais bem-intencionados escritores, mentores e professores da área podem, às vezes, tirar algum proveito dos medos dos pais.

Muitos pais de primeira viagem temem que haja um perigo à espreita em cada esquina, que cada dia que passam com seu bebê seja uma oportunidade de acertar ou de cometer falhas. À medida que os filhos crescem, eles se sentem constantemente sob o risco de serem permissivos demais, autoritários demais, envolvidos demais ou ausentes demais. E muitos especialistas, sejam eles cristãos ou não, convencem os leitores de que os pais estão tragicamente despreparados para o que vem pela frente.

As figuras mais poderosas desse nicho do aconselhamento parental há muito tempo constroem sua influência abordando preocupações espirituais, sociais e até políticas [dos pais]. Eles inserem o trabalho cotidiano e relacional da criação de filhos no contexto de um projeto social mais amplo. Disciplina, comportamento e até a rotina do sono tornam-se campos de prova e indicadores que apontam se aquela família está ajudando a mover a sociedade na direção certa ou contribuindo para o seu declínio.

Os riscos parecem especialmente altos para pais e mães cristãos. Podemos não ter sido ensinados abertamente que os filhos — seu comportamento, sua saúde ou sua salvação — são um reflexo direto da nossa própria virtude espiritual; alguns, porém, passaram a acreditar nisso. O medo e um desejo fervoroso de ser o tipo certo de pai e mãe podem deixar as pessoas desesperadas por respostas, por promessas e por uma garantia de que seus filhos ficarão bem.

Medos e anseios também facilitam esse processo de vender certas coisas para os pais. O sucesso estrondoso de Baby Einstein é um exemplo perfeito disso. Em cinco anos, a empresa cresceu de um projeto de vídeo caseiro para um negócio multimilionário, e foi vendida para a Disney por mais de 25 milhões de dólares, em 2002. A promessa da empresa Baby Einstein estava logo ali, no próprio nome: Einstein, um sinônimo de gênio. Embora não tenha sido comprovado que esses produtos eram realmente melhores para o desenvolvimento cerebral dos bebês do que outros brinquedos que havia no mercado, a promessa por si só já era suficiente para fazer os pais comprá-los, somente com base na hipótese de que houvesse alguma verdade naquelas alegações, que eram boas demais para serem verdade.

Quando meu primeiro filho nasceu, eu era uma mãe particularmente suscetível ao marketing de acessórios infantis aesthetic [termo utilizado para se referir a produtos de beleza minimalista e sofisticada]. Como muitas outras mães da geração millennial, eu me sentia atraída por paletas de cores suaves, mordedores e pratos de comida de silicone fosco, musselina e linho em tons de bege e creme, e brinquedos de madeira. O Instagram e seu fluxo interminável de anúncios direcionados eram muito bons em me dizer como a maternidade deveria ser sentida. Essas marcas não estavam me vendendo produtos porque destacavam necessidades práticas. Elas estavam me vendendo um pedacinho de uma maternidade aspiracional, uma espécie de imagem filtrada de como a minha casa deveria parecer.

O marketing voltado para pais e mães quase sempre inclui esse tipo de promessa. Qualquer lista de livros mais vendidos sobre criação de filhos revela as principais preocupações parentais do momento: coisas do tipo o desenvolvimento cerebral do bebê, como ajudar os filhos a se tornarem resilientes, crianças e a cultura da dieta, o trabalho durante a gravidez, dificuldades do sono ou como lidar com o tempo de tela e a saúde mental dos filhos. As famílias cristãs adicionam a essa lista a salvação eterna e a saúde espiritual de seus filhos. Muitos livros cristãos sobre o tema aumentam a ansiedade dos pais, ao sugerir que eles não podem confiar em seus próprios instintos e que precisam navegar cuidadosamente em um oceano de informações, para encontrar a fórmula certa para o sucesso na criação dos filhos.

Em seu best-seller de 1948, Baby and Child Care [Cuidados com o Bebê e a Criança], o Dr. Benjamin Spock escreveu sua hoje famosa advertência para mães ansiosas: “Confie em si mesma, você sabe mais do que acha que sabe”. Contudo, conteúdos cristãos sobre criação de filhos frequentemente passam uma mensagem oposta: Não confie em si mesma. Isso é bem útil para quem quer vender um livro sobre o assunto, embora não seja necessariamente útil para os pais. Tampouco está de acordo com o pleno testemunho bíblico, que ensina que nós e nossos filhos somos pecadores e falíveis — como muitos livros cristãos enfatizam —, mas que também ensina que Deus confia os filhos aos nossos cuidados com a clara expectativa de que somos capazes, com a ajuda dele, de criá-los com fidelidade, paciência e compaixão.

Em consequência disso, muitos pais cristãos passaram a acreditar que não podem confiar nos próprios instintos, em especial os pais e mães evangélicos que diligentemente leram livros como Dare to Discipline [Ouse Disciplinar] de James Dobson ou Shepherding a Child’s Heart [Pastoreando o Coração da Criança] de Tedd Tripp.

A maioria dos pais admitirá que, muitas vezes, precisa sim de dicas sobre como fazer uma criança pequena parar na cama [na hora de dormir]. E eles não têm necessariamente um “instinto” a seguir, quando se trata de lidar com a seletividade alimentar, por exemplo; por isso, procuram ajuda. Mas muitos especialistas cristãos vão além de oferecer sugestões. Eles alegam ter as respostas certas, universalmente válidas e corretas para toda criança em todas as circunstâncias. Dobson dava peso a sua obra assegurando aos pais: “Estou me baseando nas ideias de outra pessoa, e essa pessoa não comete erros”. Autores seculares, por mais confiantes que sejam, não podem fazer reivindicações semelhantes de providência divina para suas rotinas do sono e suas dicas sobre alimentação infantil.

Pegue qualquer livro cristão sobre criação de filhos, recente ou mais antigo, e você provavelmente encontrará este versículo de Provérbios em alguma página: “Ensina a criança no caminho em que deve andar; e até quando envelhecer não se desviará dele” (22.6, ARC). Muitos pais que estão em pleno auge da criação de seus filhos pequenos leem essa passagem como um mandamento. Meu trabalho é treinar meu filho de uma certa maneira, pensam eles. Pais devotos de filhos “pródigos” já mais velhos podem ver nessa promessa um fio de esperança de que seus filhos adultos, que não professam mais a fé cristã, algum dia haverão de voltar ao rebanho.

Os recursos cristãos para aconselhamento parental dependem de promessas feitas aos pais: se você fizer o que é certo agora [na educação de seus filhos], colherá os resultados esperados — se não imediatamente, em algum momento no futuro.

Enquanto minha coautora e eu entrevistávamos fontes para o nosso livro, The Myth of Good Christian Parenting [O Mito da Boa Criação de Filhos Cristã], ficamos impressionadas com quantos pais se arrependiam de ter depositado tanta fé em livros sobre criação de filhos. Eles confiaram em autores que afirmavam que conselhos seculares os levariam ao erro, e que argumentavam que, se não tratassem a autoridade parental como o princípio fundamental do lar, suas famílias mergulhariam no caos. Conversamos com adultos que apanharam muito dos pais para aprenderem a se submeter, a obedecer, e chegavam a ficar até com hematomas. Muitos se sentiam enganados.

Afinal, o que significa ser o tipo certo de pai ou mãe? A resposta difícil, mas talvez libertadora, é esta: nenhum autor poderá lhe dizer isso. Pois nenhum autor, por mais popular que seja, conhece você, conhece seu filho, conhece sua família ou sua comunidade como só você conhece. Aplicar princípios das Escrituras ao dia a dia da criação de filhos é uma prática longa que exige persistência, e não existem muitos atalhos para torná-la mais fácil. E, apesar do que alguns livros levam os pais a acreditarem, não existe uma aplicação correta da sabedoria bíblica que lhes dê controle sobre seus filhos.

É instrutivo, talvez, olhar para alguns dos livros cristãos lançados antes do best-seller Dare to Discipline [Ouse Disciplinar] de Dobson, que classificavam a autoridade parental como um remédio para a agitação social do final dos anos 1960. Por exemplo, Clyde Narramore, psicólogo cristão que fundou a revista e o programa de rádio Psychology for Living [Psicologia para a Vida] e ajudou a fundar a Rosemead School of Psychology, publicou o livro Discipline in the Christian Home [Disciplina no Lar Cristão], em 1961.

Comparado aos livros cristãos mais vendidos das décadas de 1970 e 1980, a obra é um tanto monótona. Narramore não conecta a disciplina à ordem social ou a algum pânico moral. Ele modera seus conselhos e recomenda flexibilidade por parte dos pais. Ao final da obra, o leitor pode se perguntar: Mas é só isso?

No final da década de 1960, muitos pais procuravam conselhos mais contundentes. Eles estavam alarmados com a agitação social e política, e a mensagem da obra Ouse Disciplinar parecia ir ao encontro daquele momento, assim como o best-seller de Larry Christenson, The Christian Family [A Família Cristã] (ambos publicados em 1970).

Em nossa era atual, o sucesso de obras como A Geração Ansiosa, de Jonathan Haidt, é mais uma evidência de que os pais querem ouvir pessoas que abordem suas preocupações e confirmem que algo está errado. Os pais estão compreensivelmente preocupados com os efeitos das telas onipresentes e das redes sociais. E a mensagem de Haidt afirma que isso é algo com que se preocupar. Com isso não quero dizer que todo autor ou todo influenciador que se posiciona dessa forma seja um aproveitador. Haidt e muitos outros oferecem evidências convincentes de que nosso mundo dominado por telas está prejudicando as crianças. Mas o fato é que a urgência que inspira medo é um bom argumento de venda.

Pode parecer pouco generoso de minha parte comparar autores de livros sobre criação de filhos ao charlatão Harold Hill, do musical The Music Man. Mas esse paralelo que tracei destaca como é tolo permitir que o medo e a urgência ditem as decisões na criação dos filhos — e também destaca como alguém que anseia por influência e lucro pode fabricar o pânico. É mais difícil gerar entusiasmo com conselhos como “leve em consideração o ponto de vista do seu filho” ou “trace limites firmes, mas seja flexível, quando parecer razoável”.

Em uma era de conteúdo infinito produzido por influenciadores, livros e artigos de opinião, os pais podem optar por dar mais atenção às necessidades e às peculiaridades específicas de sua família do que às preocupações sociais verbalizadas por comentaristas que, muitas vezes, estão distantes de nossas comunidades.

Podemos olhar primeiro para o exemplo de Cristo — como ele respondia a crianças e adultos, ensinando pacientemente as mesmas lições, mais de uma vez. Podemos nos esforçar para ser mais parecidos com ele a cada dia. Podemos resistir à ideia de ver nossos filhos como peões em uma guerra cultural ou como avatares de algum discurso público transitório qualquer, que fale sobre “as crianças de hoje em dia” e que esteja em alta no momento. Podemos reagir a filhos de carne e osso, que sobem em nossa cama pela manhã; podemos orar por sabedoria e confiar que, com a ajuda de Deus, somos capazes de cultivar relacionamentos autênticos e conectados.

Kelsey Kramer McGinnis é correspondente na área de adoração da Christianity Today. Ela é coautora do livro The Myth of Good Christian Parenting [O Mito da Boa Criação de Filhos Cristã] e escreve amplamente sobre música cristã e a interseção entre o cristianismo americano e a cultura popular. Este ensaio foi adaptado do primeiro capítulo de The Myth of Good Christian Parenting: How False Promises Betrayed a Generationof Evangelical Families [O Mito da Boa Criação de Filhos Cristã: Como Falsas Promessas Traíram uma Geração de Famílias Evangélicas].

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  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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