Um pastor anglicano que prega nas boates do Quênia
Em uma noite de domingo, no mês de março, no Club Touch On, em Kitale, uma cidade do condado de Trans-Nzoia, no Quênia, centenas de jovens dançam ao som do ritmo Afropop, que toca em alto volume, sob a iluminação fraca da boate. Alguns dão goles em garrafas de bebida alcoólica ou tragam cigarros. Grupos…
Em uma noite de domingo, no mês de março, no Club Touch On, em Kitale, uma cidade do condado de Trans-Nzoia, no Quênia, centenas de jovens dançam ao som do ritmo Afropop, que toca em alto volume, sob a iluminação fraca da boate. Alguns dão goles em garrafas de bebida alcoólica ou tragam cigarros. Grupos de amigos sentam-se ao redor de mesas, rindo e bebendo, enquanto outros estão mais interessados em atrair o sexo oposto.
Então, o DJ interrompe a música e anuncia um convidado especial: o pastor Micheal Watenga. Dois seguranças da boate escoltam Watenga, um jovem sacerdote anglicano de batina preta e crucifixo no pescoço, para dentro do salão, enquanto os frequentadores da boate explodem em gritos, assobios e aplausos. Segurando uma Bíblia, Watenga se apresenta e inicia um sermão de exatos seis minutos: “Venho até vocês porque vocês são importantes para Deus”.
Ele exorta os jovens a confiarem em Deus, dizendo-lhes que Jesus amava os pecadores e que a igreja tem espaço suficiente para acomodar a todos. Então, ele ora em voz alta, tendo o seu “amém” interrompido por aplausos. Enquanto deixa a boate, os jovens estendem as mãos para tocar as dele, pedindo uma bênção. Alguns o seguem, solicitando orações para parar de beber ou de fumar, para lidar com fracassos em relacionamentos ou rejeição em casa, ou ainda encontrar emprego. Ele conversa com alguns deles e dá o número do seu celular para aqueles que pedem.
“Este é um grupo importante que precisa de resgate urgente, mas a igreja não tem feito o suficiente para ‘pescá-los’ para Cristo”, disse Watenga à CT.
Embora Watenga reserve as manhãs de domingo para seus deveres paroquiais regulares, ele dedica todas as noites de domingo à pregação em boates. Todo fim de semana, ele visita um local diferente em uma cidade diferente. Em setembro passado, Watenga fundou a Club Mission [Missão em Clubes — boates geralmente são chamadas de night clubs, ou seja, de clubes noturnos], um ministério pioneiro voltado para jovens que abandonaram a igreja e se voltaram para o abuso de drogas ou álcool.
“Estou provando que a igreja não tem medo das trevas”, disse ele. “Eu faço ecoar, através da minha presença, a voz que afirma que vocês não foram esquecidos por Cristo.”
De acordo com Watenga, a dependência de álcool e de drogas é o maior problema que afeta a juventude queniana. Um relatório recente do Ministério da Saúde do Quênia mostrou que o abuso de substâncias — incluindo o uso de drogas ilícitas, medicamentos prescritos, tabaco, maconha e khat (um arbusto cujas folhas são mastigadas por causa de seu efeito estimulante) — afetava quase 10% dos jovens de 15 a 24 anos. Em fevereiro, a Autoridade Nacional para a Campanha contra o Abuso de Álcool e Drogas (NACADA) relatou que o abuso de drogas nas universidades quenianas atingiu níveis de crise.
Watenga, que cresceu em uma família cristã, viu muitos amigos de infância e colegas de escola abandonarem os estudos devido ao consumo excessivo de álcool. Ele disse que a sociedade apenas observava, sem se preocupar em tentar impedi-los.
Muitos dos jovens que ele encontra nas boates estão procurando formas de escapar da realidade. Segundo Watenga, eles se sentem estagnados, com suas vidas e sonhos em suspenso — desempregados ou socialmente isolados — e com o espírito sobrecarregado pela pressão de pais, da igreja e da sociedade para que alcancem sucesso. Muitos desses jovens, que pertencem a famílias ricas, querem se livrar da pressão dos pais para que evitem interagir com pessoas vistas como de classe mais baixa ou para que façam cursos universitários que os submetem a uma alta pressão, como o curso de Direito.
Laura Mwangi, de 24 anos, estudante em Nairóbi, é de uma família religiosa, mas disse que vê hipocrisia em casa e não encontra motivos para ir à igreja: “[Meus] pais estão sempre me julgando. Acho difícil compartilhar meus problemas com eles, então, vou para [uma] boate onde haja paz de espírito”.
Às vezes, alguma mágoa causada pela igreja alimenta o vício. De acordo com Baraka Moses, estudante universitário em Eldoret: “A igreja não é um lugar seguro para muitos de nós. Muitos de nós queremos ser amados e corrigidos com… amor, não rotulados ou julgados pela forma como nos comportamos ou nos vestimos. A igreja grita conosco”.
Moses disse que passou a beber e a frequentar boates após uma experiência ruim na igreja. Pessoas mais velhas criticaram Moses, um aspirante a músico, por usar dreadlocks. Pediram que ele os cortasse ou que parasse de vir à igreja com um penteado tão “demoníaco”. Enquanto isso, disse Moses, o filho do pastor vestia terno e liderava as orações de abertura [do culto], mas frequentemente dormia com garotas da igreja.
Em algumas das boates que Watenga visita, jovens com memórias dolorosas da igreja sentem-se ofendidos só de ver um pastor ali. Às vezes, as boates se recusam a deixá-lo pregar, pensando que ele quer apenas pedir dinheiro.
Watenga também enfrenta resistência de cristãos locais que acham seu trabalho perigoso demais ou acham improvável que realmente produza convertidos.
“Alguns cristãos consideram pecaminoso eu ir a boates para pregar, e rotulam isso de prática não convencional”, disse Watenga. “Alguns dizem que eu bebo. Alguns de meus colegas pastores me veem como alguém que cruza as fronteiras da minha vocação e ultrapassa os limites.”
Watenga disse que se inspira na abordagem encarnacional que Jesus adotava para o evangelismo — ele comia, bebia e sentava-se à mesa com pecadores e pessoas marginalizadas pela sociedade.
“Jesus ia onde as pessoas estavam, não onde se esperava que elas estivessem”, disse Watenga. “Ele disse que os que estão bem não precisam de médico, mas sim os que estão doentes.”
Watenga evita situações perigosas e tentativas daqueles que frequentam as boates de lhe darem dinheiro como oferta — algo que ele não quer —; mantém a duração de seus sermões em seis minutos e sai da boate quase imediatamente depois de pregar.
Ele disse que já ajudou mais de 200 jovens com dependência de drogas e de álcool a iniciarem a recuperação. Ele ouve os jovens falarem sobre o desejo de parar, assegura-lhes que Jesus pode trazer a cura, diz que eles têm valor para a sociedade e, em seguida, os conecta com centros de reabilitação, incluindo um com o qual fez parceria em Nairóbi — o Foundation of Hope Addiction Treatment Centre [Centro de Tratamento de Dependências Fundação da Esperança] — que aceita jovens que não podem pagar pelo tratamento.
Watenga costuma visitar em casa os jovens que conhece através de seu ministério ou liga para orar com eles. Ele também aconselha os pais sobre como ajudar seus filhos.
David Barasa, 25 anos, de Kitale, disse que pediu a Watenga que orasse para que ele parasse de beber. Watenga deu a Barasa o número de seu celular e orou por ele durante as ligações. Com o tempo, Barasa disse que sentiu o desejo de beber diminuir lentamente: “Acabei parando completamente de beber”.
Irine Cherotich, uma estudante universitária de Eldoret, disse que costumava frequentar boates com um grupo de garotas que bebiam e fumavam juntas até o dia amanhecer. Até o dia em que um sermão de Watenga, em uma boate de sua cidade, a tocou. “Eu me converti naquele dia e parei de frequentar boates”, disse ela.
Watenga disse ter orado por mais de 400 jovens, de seis condados diferentes, desde que iniciou o trabalho, em setembro. Ainda assim, ele sente as limitações de seu ministério. Viajar pelo país é difícil e, às vezes, ele trabalha dia e noite para equilibrar os deveres da igreja com as viagens para pregar em boates. Frequentemente, ele luta para encontrar tempo para descansar.
Seu celular está sempre tocando com chamadas, mensagens de texto e notificações de WhatsApp. Watenga disse que precisou configurar seu WhatsApp para excluir mensagens automaticamente a cada 12 horas, para abrir espaço para novas. Além disso, seu serviço de internet instável e a bateria de duas horas de seu celular barato fazem com que ele esteja constantemente correndo para se manter conectado.
“Tenho tantos jovens entrando em contato comigo”, disse Watenga. “Mas a falta de equipamentos mais modernos me impede de acompanhar esses novos convertidos.”
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