Pare de pressionar as pessoas a terem filhos
Um dos desafios constantes das gerações mais velhas é orientar as gerações mais jovens sem se transformarem em velhos ranzinzas. Um dos desafios constantes das gerações mais jovens é manter a autonomia, mas, ao mesmo tempo, se mostrar abertas à sabedoria dos mais velhos. E talvez nenhum assunto seja mais delicado nesses diálogos entre gerações…
Um dos desafios constantes das gerações mais velhas é orientar as gerações mais jovens sem se transformarem em velhos ranzinzas. Um dos desafios constantes das gerações mais jovens é manter a autonomia, mas, ao mesmo tempo, se mostrar abertas à sabedoria dos mais velhos.
E talvez nenhum assunto seja mais delicado nesses diálogos entre gerações do que aquele que diz respeito a casamento e filhos. Seja quando alertam sobre a perda do sossego e da liberdade que acompanham a vida de casado, seja ao perguntarem quando podem esperar ter netos, a pressão que os mais velhos exercem sobre os jovens para que façam tudo certo pode ser intensa.
Para os cristãos, há ainda pressões adicionais, que vêm das Escrituras e da tradição. A Bíblia ensina claramente que “quem encontra uma esposa encontra algo excelente” (Provérbios 18.22) e que “os filhos são herança do Senhor” (Salmos 127.3). E em muitas igrejas evangélicas, os jovens sentem uma certa expectativa de que eles casem cedo e tenham filhos logo. Mas, ao mesmo tempo, o mundo — e muitas vezes também outros cristãos — pressiona os jovens a serem indivíduos que preservem sua autonomia. Essas pessoas costumam dizer aos jovens: “Aproveitem ao máximo sua liberdade. Reduzam suas responsabilidades e busquem o prazer e o sucesso”.
Diante dessas demandas conflitantes, não é de se admirar que muitos jovens se sintam ansiosos, confusos e em conflito sobre o futuro, principalmente no que diz respeito à família.
As gerações mais velhas não devem deixar de oferecer orientação aos mais jovens, por meio do discipulado e da mentoria intencionais. No entanto, tão vital quanto fazer isso é oferecer a eles a visão do que é uma boa vida no mundo contemporâneo, uma vida plena. Os jovens precisam ver famílias saudáveis. Precisam de um modelo tangível e acessível, ao qual possam imitar em sua própria vida. Precisam aprender em primeira mão que fidelidade e compromisso são alegrias, e não perdas.
Essa é uma necessidade urgente, pois há motivos para acreditar que as gerações mais jovens estão abandonando a instituição básica da sociedade: a família. As taxas de natalidade e de casamento nos Estados Unidos, por exemplo, estão em declínio, e um estudo recente do Pew Research Center mostrou que os adolescentes americanos valorizam mais a carreira, amizades e a riqueza do que casamento e filhos. Aliás, eles consideraram ter muito dinheiro quase duas vezes mais importante do que ter filhos.
É possível que os objetivos desses adolescentes tenham sido distorcidos pelas ansiedades econômicas e sociais geradas pela pandemia de COVID-19. Também é possível que eles simplesmente estejam sendo inspirados por uma cultura individualista expressiva, que valoriza o prazer pessoal acima de tudo. Mas, sejam quais forem suas motivações, esse hiperfoco no sucesso material, em detrimento da família, deve preocupar a igreja.
As muitas advertências bíblicas sobre os perigos da riqueza fazem da intensa busca por ela um objetivo profundamente problemático para a nossa vida. E ainda que seja possível transformar o casamento e os filhos em ídolos também, diferentemente do amor ao dinheiro, o amor pelo cônjuge e pelos filhos nunca foi descrito como “a raiz de todos os males” (1Timóteo 6.10).
Cultivar amizades profundas e encontrar uma carreira gratificante são apresentados como objetivos melhores. Mas o fato de tantos jovens priorizarem essas coisas em detrimento do casamento e dos filhos também sugere uma certa preocupação excessiva com a realização pessoal. Os amigos (em nossa cultura) não impõem as mesmas exigências que um cônjuge ou filho, exigências essas que são para a vida toda; além disso, priorizar a carreira a transforma em um veículo para a realização pessoal, em vez de um chamado para servir a Deus e aos outros, incluindo a família.
Em resumo, a mensagem refletida em toda essa atenção voltada para dinheiro, amigos e carreira, em detrimento da família, é a mensagem do nosso mundo moderno: é responsabilidade sua encontrar significado, propósito, justificativa e prazer nesta vida. Ninguém mais pode fazer isso por você; portanto, faça o que for preciso [para conseguir]!
Se, assim como eu, você considera essa filosofia profundamente perturbadora e nada cristã, pode se sentir tentado a reagir a ela apontando o dedo para a sua incompatibilidade com as Escrituras ou até mesmo para as suas inconsistências internas. Você pode querer destacar como essa visão da vida oferece esperança de justificação e satisfação existenciais, apenas para mantê-las sempre fora de alcance.
Esses argumentos estão corretos e pode ser que consigam persuadir alguns. Mas não creio que sejam o que a maioria dos jovens cristãos realmente precisa ouvir.
Suspeito que eles já entendam, intelectualmente falando, que pertencer a Deus automaticamente exclui certos estilos de vida, como, por exemplo, o que prioriza o dinheiro. O que eles têm dificuldade em compreender é como se faz para viver uma vida equilibrada em uma cultura consumista, ou uma vida humilde em uma cultura que exalta a ascensão na carreira, ou ainda uma vida de compromisso em uma cultura de relacionamentos inconstantes. E é nossa responsabilidade, como cristãos mais experientes, construir essa visão [para que eles a vejam] em nossa própria vida.
Talvez ainda não tenha percebido, mas, pelo simples fato de existir neste mundo, você já exerce uma enorme influência sobre as pessoas à sua volta. As pessoas observam você, para ver como reage diante da adversidade, como resiste às tentações, como se arrepende e pede desculpas, como se mantém humilde e como ama os outros — em resumo, elas querem ver como você ama “ao Senhor, o seu Deus, com todo o seu coração, com toda a sua alma e com todo o seu entendimento” e como ama “ao seu próximo como a você mesmo” (Mateus 22.37, 39).
E as pessoas quase sempre são limitadas por aquilo que conseguem imaginar ser possível. Se a imaginação de uma geração for povoada por exemplos de casamentos terríveis, ela terá dificuldade em acreditar que o casamento pode ser uma dádiva de Deus. Se nunca forem convidadas para a visitar a casa de uma família — quem sabe a sua casa — para ver como é ser uma família saudável e normal, podem duvidar que existam famílias assim. É na comunhão com outros crentes que somos expostos à possibilidade das alegrias do casamento e dos filhos.
Essas alegrias não deixam de fora as dificuldades, evidentemente. Não estou defendendo fazermos propaganda para enganar os jovens, fazendo-os pensar que casamento e filhos são coisas simples, indolores e pura diversão. O nosso exemplo de vida deve ser realista quanto às dificuldades de comunicação no casamento; quanto às dificuldades de criar filhos em comunidades hiperindividualistas e isoladoras; e quanto aos sacrifícios diários e costumeiros que esta vida exige. Convidar um jovem para conhecer a sua casa e ver como é a vida em família não significa esconder toda a bagunça que seus filhos fazem ou, pior ainda, esconder seus próprios filhos. Significa abrir a porta para mostrar como é realmente a vida em família, de modo que essa vida se torne um bem que esse jovem possa sonhar [para si].
Servir de modelo do que é uma amizade próxima, algo que os jovens desejam, também deve fazer parte disso. Os jovens têm razão em querer ter esse tipo de relacionamento, mas, muitas vezes, são levados a acreditar, erroneamente, que casamento e filhos tornarão as amizades impossíveis de manter. Uma reportagem muito lida, que foi publicada em 2023 na New York Magazine, por exemplo, chamou as crianças de “pequenas e adoráveis detonadoras” das amizades dos adultos.
Sim, isso acontece, mas não é algo inevitável. O que os jovens precisam ver são exemplos de pessoas que têm família e também têm boas amizades, saudáveis e próximas. Como pais, não precisamos nos isolar nem negligenciar nossos amigos. Se sacrificarmos tudo pelos nossos filhos, isso comunicará aos que nos observam e aos nossos próprios filhos que optar por ter uma família significa abrir mão dos amigos.
E essa é uma falsa dicotomia. Sim, pode ser difícil cultivar amizades nos dias de hoje. Todos estão muito ocupados e cheios de distrações, e o trabalho invade cada vez mais a nossa vida. Mas os jovens têm toda razão em desejar manter amigos próximos, pois a amizade é uma das dádivas mais preciosas que Deus nos deu. Aqueles de nós que já estão mais avançados na vida adulta podem demonstrar — para si mesmos e para aqueles que os observam — que a intencionalidade necessária para criar e manter essas amizades é algo possível, mesmo para quem é casado e tem filhos.
Com tudo isso em mente, acho que precisamos fazer duas coisas. Primeiro, devemos olhar para o nosso casamento e para a nossa família e reconhecer que nosso modo de agir nesses relacionamentos afeta mais do que apenas nossos entes queridos mais imediatos. Elas afetam nossa comunidade inteira. Isso é bom, mas também é uma enorme responsabilidade. Leve isso a sério.
Em segundo lugar, precisamos convidar pessoas da nossa comunidade para dentro de nossa casa, para que vejam o lado bom do casamento e da família. Visto que o isolamento está se tornando a norma, fazer isso deve ser uma escolha deliberada, e representa uma contranarrativa contundente para o mundo.
Pode ser tentador observar as prioridades dos jovens e repreendê-los por não reconhecerem o valor do casamento e da família, algo que Deus tanto honrou na criação e nas Escrituras. Mas isso seria um erro. O que os jovens precisam não é de repreensão, mas sim de exemplos. Eles precisam ver famílias piedosas e saudáveis vivendo sua fé em comunidade, ao longo de anos, com autenticidade, sem esconder suas lutas, mas genuinamente se esforçando para honrar a Deus em tudo o que fazem.
Os jovens precisam ver famílias em que marido e mulher sejam fiéis um ao outro, se respeitem, sirvam um ao outro e tenham prazer na companhia um do outro. Eles precisam ver famílias em que os filhos sejam nutridos, amados e educados no temor e na admoestação do Senhor. E, mesmo em um mundo que incentiva a liberdade vazia do individualismo radical, os jovens precisam ver famílias movidas pelas alegrias da amizade, da comunidade e comprometidas em servir uns aos outros.
O. Alan Noble é professor associado de inglês na Universidade Batista de Oklahoma e autor de três livros: On Getting Out of Bed: The Burden and Gift of Living [Sobre sair da cama: o fardo e a dádiva de viver], You Are Not Your Own: Belonging to God in an Inhuman World [Você não pertence a si mesmo: o que significa pertencer a Deus em um mundo desumano] e Disruptive Witness: Speaking Truth in a Distracted Age [Testemunho disruptivo: sobre dizer a verdade em uma era de distrações].
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