Quando a crítica bater à porta

Ninguém gosta de ser criticado, especialmente na igreja. Independentemente da maturidade espiritual, da experiência de vida ou da posição de liderança, a crítica sempre desagrada. Quando somos confrontados, algo profundo emerge do coração. Alguns reagem com autossatisfação: “Eu sei o que estou fazendo”. Outros se apressam na autodefesa, mobilizando argumentos e justificativas antes mesmo de…

Ninguém gosta de ser criticado, especialmente na igreja. Independentemente da maturidade espiritual, da experiência de vida ou da posição de liderança, a crítica sempre desagrada. Quando somos confrontados, algo profundo emerge do coração. Alguns reagem com autossatisfação: “Eu sei o que estou fazendo”. Outros se apressam na autodefesa, mobilizando argumentos e justificativas antes mesmo de ouvir atentamente. Nossa reação à crítica geralmente expressa uma autoexaltação disfarçada, quando nos defendemos como vítimas ou mártires.

Mais devastadora é a “crítica injusta”, pois seu peso pode ser esmagador e vai muito além de um simples aborrecimento, agindo como uma forma de agressão psicológica que pode afetar a saúde mental e o desempenho da pessoa. Estudos alertam para o fato de esse tipo de crítica abalar a autoestima, resultar em sentimentos de injustiça e raiva, provocar ansiedade e estresse, bem como desânimo e desistência do trabalho. Se isso é verdadeiro no campo profissional, no trabalho da igreja também não é diferente. A crítica injusta nos desconforta, nos expõe e, muitas vezes, nos fere.

O fato é que, injusta ou não, a crítica sempre vem. O que precisa ser analisado é: o que ela revela sobre quem a faz? E também: o que a crítica revela sobre nós?

Antes de refletirmos sobre isso, é necessário compreender que críticas podem ser classificadas naquilo que a Bíblia denomina “espírito faccioso”. Quando somos criticados, tanto o crítico quanto nós mesmos facilmente operamos no modo “meu melhor contra o seu pior”. O crítico geralmente é motivado por uma sensação de superioridade e nós, na maioria das vezes, idealizamos nossas virtudes e ampliamos as falhas do outro. Assim, sem perceber, todos nós, como membros do corpo de Cristo, perdemos a oportunidade de crescer nesse processo.

A crítica revela algo sobre quem a faz e, na maioria das vezes, o que é revelado é o desejo por projeção ou a busca por controle. A crítica injusta reflete mais sobre as carências, dores e frustrações de quem critica do que sobre a pessoa que a recebe. O sentimento é: “eu sou melhor do que você” ou “estou em um estágio superior”. Aquele que critica constantemente revela sua necessidade de diminuir o outro para se sentir superior, buscando o controle — não apenas da situação, mas da pessoa criticada. Talvez por isso Paulo afirmava: “a mim mui pouco se me dá de ser julgado por vós ou por tribunal humano” (1Co 4.3). O apóstolo não queria ser manipulado ou controlado por aqueles que o criticavam por motivos escusos.

Ao mesmo tempo, a crítica revela muito sobre nós. Nesse sentido, ela pode ser uma bênção e não uma maldição. Provérbios declara que o sábio ama a repreensão. As “feridas” de um amigo fiel são instrumento de cura (Pv 27.6). A crítica, mesmo quando imperfeita, costuma conter algum elemento de verdade. E, ainda quando for injusta, ela prova o nosso coração na maneira como reagimos, revelando nossa maturidade ou imaturidade — humildade ou orgulho, mansidão ou agressividade.

Segundo Powlison, diante de uma crítica, três possibilidades existem: ela é equivocada; ela é parcialmente correta; ou ela é profundamente necessária. Em qualquer caso, Deus pode usar a situação para nossa santificação. Assim, a pergunta central não é apenas sobre aquele que faz a crítica, mas sobre quem a recebe. Talvez a pergunta mais profunda não seja “o crítico está certo?”, mas sim “o que Deus quer realizar em mim por meio dessa crítica?” Jesus ensinou que amar os inimigos é o teste decisivo do discipulado. Como falamos sobre aqueles que nos confrontam? Buscamos vindicação pessoal ou a glória de Deus? Defendemos nosso grupo ou edificamos o corpo de Cristo?

A crítica pode ser um remédio amargo, mas saudável. Pode nos conduzir ao arrependimento, purificar nossas motivações e fortalecer convicções que, examinadas à luz das Escrituras, permanecem firmes. Pode também revelar atitudes que precisam ser transformadas. Por essa razão, Paulo afirmava que nem ele mesmo se julgava, pois nossa opinião sobre nós mesmos sempre será tendenciosa e favorável (1Co 4.3).

Ao recebermos uma crítica, o teste ao qual estamos sendo submetidos é este: somos ensináveis? Somos humildes? Somos pastores e líderes que ouvem? Somos membros que aceitam correção? Que o Senhor nos conceda a graça de sermos pessoas que amam a verdade, praticam a humildade e crescem por meio das exortações mútuas. Se a “carapuça não servir”, o melhor não é jogá-la fora, mas ajustá-la à nossa vestimenta diária e caminhar em santidade. Paulo se submetia ao julgamento que vinha do Senhor (1Co 4.4), pois somente Deus possui a análise perfeita sobre nós.

A vida e o ministério de um líder da igreja não são protegidos pela ausência de críticas, mas pela presença da graça. Uma liderança madura não é aquela que nunca é questionada, mas aquela que sabe ouvir, discernir e responder com verdade e amor. Quando a crítica bater à porta, receba-a não com medo ou hostilidade, mas com discernimento e humildade. Talvez o Senhor esteja usando essa voz — mesmo imperfeita — para conduzi-lo a uma obediência mais profunda. No processo de santificação, Deus utiliza muitos instrumentos. E, às vezes, um deles é o crítico.

O Rev. Valdeci Santos, PhD, MDiv e DMin, é Doutor em Teologia e em Aconselhamento Pastoral, dirige o Andrew Jumper, pastoreia a IP de Campo Belo em São Paulo e escreve regularmente para o Brasil Presbiteriano.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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