Quando o ofendido não pode ser esquecido: Dor, perdão e consolo à luz da cruz

Na cena da crucificação, Jesus foi colocado entre dois malfeitores (Lc 23.32-43). Um deles, tomado pela dureza e pelo ambiente hostil, o insultava. O outro, porém, repreendeu o companheiro e reconheceu tanto a justiça de sua própria condenação quanto a inocência de Jesus: “Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos…

Na cena da crucificação, Jesus foi colocado entre dois malfeitores (Lc 23.32-43). Um deles, tomado pela dureza e pelo ambiente hostil, o insultava. O outro, porém, repreendeu o companheiro e reconheceu tanto a justiça de sua própria condenação quanto a inocência de Jesus: “Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez” (Lc 23.41).

Há algo profundamente significativo nessa confissão. Aquele homem não procura justificar-se nem transferir sua culpa. Reconhece que sofria as consequências justamente. Ao mesmo tempo, distingue sua condição da de Jesus: ele merece o que recebe; Jesus, não. O texto não nos permite afirmar que sua intenção fosse consolar Jesus, pois Lucas simplesmente registra suas palavras. Podemos, contudo, perceber a beleza de sua sensibilidade: em meio à própria dor, ele foi capaz de reconhecer a injustiça que recaía sobre outro.

Talvez essa cena nos conduza a uma pergunta que a Igreja precisa ouvir com mais atenção: temos cuidado suficientemente daquele que sofreu o mal ou nossa atenção pastoral tem se concentrado quase exclusivamente naquele que o praticou?

 

Quando o ofendido é esquecido

Quando uma pessoa comete uma falta grave, especialmente quando produz violência, abuso, injustiça ou profunda ruptura de confiança, é natural que a atenção da Igreja se volte para o ofensor. É preciso confrontar o pecado, chamar ao arrependimento, exercer disciplina quando necessária e, havendo arrependimento genuíno, buscar a restauração (Mt 18.15-17;Gl 6.1). Nada disso pode ser negligenciado.

Existe, porém, um perigo pastoral: cuidar do pecador sem cuidar suficientemente daquele contra quem ele pecou.

O ofensor pode ser disciplinado, aconselhado, acompanhado e, depois de algum tempo, restaurado. Enquanto isso, o ofendido pode permanecer sozinho com as consequências do que aconteceu. Quem pergunta como ele está? Quem permanece ao seu lado depois que o processo disciplinar termina? Quem o ajuda a lidar com a dor, a perda da confiança, a tristeza e as marcas deixadas pelo que sofreu?

Há feridas que permanecem mesmo depois de encerrado um processo. Uma decisão eclesiástica pode ser necessária, mas não é capaz, por si só, de restaurar tudo aquilo que foi rompido. O ofensor precisa ser tratado; o ofendido também precisa ser cuidado.

Calvino (1509-1564) conhecia, por experiência própria, a dor provocada por pessoas próximas. Em uma carta a Johannes Wolf, escrita em 1555, lamentou que os conflitos com pessoas próximas lhe fossem, por vezes, mais dolorosos do que as controvérsias com seus adversários mais conhecidos.[1] Sua observação nos lembra de uma realidade profundamente humana: a proximidade não impede a ferida; muitas vezes, torna-a ainda mais dolorosa.

A Escritura, porém, não apresenta o sofrimento do ferido como algo que Deus ignora. “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido” (Sl 34.18). E ainda: “Sara os de coração quebrantado e lhes pensa as feridas” (Sl 147.3).

A Igreja deve refletir esse cuidado do próprio Deus. O abandono pode acrescentar uma segunda ferida à primeira, produzindo consequências ainda mais dolorosas: ressentimento, isolamento e até mesmo afastamento da própria Igreja − justamente daqueles que poderiam ter oferecido cuidado, mas não o fizeram.

 

A dor precisa ser levada a Deus

Uma das respostas mais inadequadas ao sofrimento é a tentativa de encerrá-lo rapidamente com frases religiosas: “Perdoe, esqueça e siga em frente”. A intenção pode ser boa, mas a simplificação pode aprofundar a solidão de quem sofre.

A Bíblia não trata a dor dessa maneira. Os Salmos estão repletos de lágrimas, perplexidade, medo e perguntas. “Até quando, SENHOR?” (Sl 13.1). O lamento bíblico não é incredulidade; é a dor que se recusa a permanecer distante de Deus.

Calvino observa, ao comentar o Salmo 6.7, que “a tristeza que domina a mente facilmente segue sua rota rumo aos olhos, e seguindo essa via concretamente se revela”.[2]  A dor pode aparecer nas lágrimas, no silêncio, nas palavras e, por vezes, na maneira como a pessoa passa a perceber a si mesma, os outros e até mesmo o próprio futuro.

Por isso, antes de tentar explicar tudo, a Igreja precisa aprender a escutar. Há momentos em que a pessoa ferida não precisa de uma resposta rápida, mas de alguém que permaneça ao seu lado enquanto ela reaprende a falar diante de Deus.

O lamento, porém, não termina em si mesmo. Ele é uma forma de esperança. Quem pergunta “Até quando?” ainda está falando com Deus. Quem chora diante do Senhor ainda reconhece que há um Deus a quem pode recorrer.

A Igreja precisa, portanto, ajudar o ofendido a levar sua dor ao Senhor, sem transformar o sofrimento em identidade, mas também sem exigir que ele o esconda. A dor não manifestada não deixa de existir nem se torna menos real. Pode, antes, permanecer silenciosamente presente, aprofundando suas marcas. Expor a dor diante do Senhor não é sinal de fraqueza; é expressão de fé naquele que, em sua misericórdia, ouve, acolhe, trata e cura.

 

O Espírito Santo, o Consolador

É nesse contexto que a promessa de Cristo acerca do Espírito Santo adquire especial significado: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador (Para/klhtoj), a fim de que esteja para sempre convosco” (Jo 14.16).[3]

Ao prometer “outro Consolador”, Jesus indica que o Espírito Santo é uma pessoa distinta dele, mas semelhante a ele em sua obra de assistência, cuidado e consolação.[4] O termo “outro” não significa que o Espírito simplesmente ocupe o lugar de Cristo, como se sua presença tornasse a de Cristo desnecessária. Antes, aponta para a continuidade da presença e da obra de Cristo junto aos seus discípulos por meio do Espírito Santo. É o próprio Jesus quem promete: “Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós outros” (Jo 14.18). Vejam-se também Jo 14.26; 15.26; 16.7.

O Consolador é aquele que conforta, exorta, guia, instrui e defende. Ele assiste os discípulos em suas necessidades e permanece com eles.[5] Essas atividades não podem ser atribuídas a uma mera força ou influência impessoal. O Espírito Santo é uma pessoa divina que conhece, ensina, guia, intercede e age soberanamente na vida dos filhos de Deus.

O termo grego Parakletos carrega a ideia daquele que é chamado para estar ao lado, assistir, ajudar e consolar. A promessa de Jesus, portanto, não significa que seus discípulos seriam poupados de todo sofrimento, mas que jamais enfrentariam suas aflições sozinhos. O Consolador estaria para sempre com eles.

Paulo afirma que Deus “nos conforta em toda a nossa tribulação, para podermos consolar os que estiverem em qualquer angústia” (2Co 1.4). O consolo recebido de Deus não termina em nós. Ele nos torna instrumentos de consolo para outros.

A Igreja, portanto, é chamada a caminhar com o ofendido enquanto ele aprende, pela graça, a lidar com aquilo que aconteceu. Isso pode envolver escuta paciente, presença, aconselhamento bíblico, oração, auxílio prático e, quando necessário, o acompanhamento de profissionais qualificados.

A graça não exclui os meios. Deus consola por sua Palavra, por seu Espírito e também por meio do cuidado de seu povo.

Lambert lembra que “conselheiros podem falar, advogar, orar e até mesmo – às vezes – impor consequências. Nós não podemos abrir os olhos do coração de uma pessoa. Há somente um Conselheiro e Mestre que pode fazer isto, e ele é o Espírito de Deus”.[6]

Nenhum conselheiro pode produzir, por seus próprios recursos, a transformação do coração. Podemos ouvir, aconselhar, exortar e orar; podemos, quando necessário, estabelecer limites e consequências. Mas somente o Espírito Santo pode abrir os olhos do coração e operar a transformação que conduz à semelhança com Cristo.

O conselheiro, portanto, não ocupa o lugar do Consolador. É instrumento nas mãos daquele que age por meio da Palavra, da oração e do cuidado de seu povo.

E uma das formas mais profundas pelas quais a Igreja participa desse ministério de consolação é intercedendo por aqueles que sofrem. Não oramos confiando na força de nossas palavras, mas na ação daquele que conhece perfeitamente as necessidades do coração e nos conduz em nossa fraqueza.

 

Perdoar sem chamar o mal de bem

Falar de perdão ao ofendido exige cuidado. Perdoar não significa declarar que o mal foi insignificante. Não significa apagar artificialmente a memória, restaurar imediatamente a confiança ou retomar uma relação exatamente como era antes.

A Escritura ordena: “Longe de vós, toda amargura, e cólera, e ira, e gritaria, e blasfêmias, e bem assim toda malícia. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou” (Ef 4.31-32).

O perdão cristão nasce da graça recebida em Cristo. Ele significa renunciar à vingança pessoal e entregar a Deus o direito de julgar: “Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu retribuirei, diz o Senhor” (Rm 12.19).

Perdão não é ingenuidade. Graça não é ausência de verdade. Misericórdia não é cumplicidade com o mal.

O cristão pode perdoar e, ao mesmo tempo, reconhecer a gravidade do que aconteceu. Perdão não pode ser sinônimo de barateamento ou apequenamento da ofensa. Pode abandonar o desejo de vingança e, ainda assim, buscar justiça. Pode conceder perdão sem restaurar imediatamente a confiança. Pode amar sem eliminar os limites necessários.

Por isso, é preciso resistir à tentação de usar o perdão como instrumento para silenciar o sofrimento do ofendido.

 

Quando a ferida começa a governar a vida

Existe outro perigo: a pessoa pode ser tão profundamente ferida que, mesmo depois de o acontecimento terminar, continua vivendo sob o domínio daquela experiência. A memória pode alimentar desconfiança, amargura, medo ou desejo de retaliação.

É importante distinguir entre lembrar o que aconteceu e ser governado pelo que aconteceu.

José não chamou o mal de bem. Quando falou aos seus irmãos, reconheceu claramente: “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem” (Gn 50.20). A soberania divina não torna o mal moralmente bom; antes, afirma que o mal não é soberano. O mal não escapa à sábia e bondosa providência de Deus.

O mal sofrido não precisa produzir no coração daquele que foi ferido o mesmo tipo de maldade que ele recebeu. Por isso, Paulo exorta: “Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem” (Rm 12.21).

Isso não é uma tarefa meramente psicológica ou moral. É obra da graça, realizada pelo Espírito Santo. O ofendido precisa, progressivamente, aprender a entregar ao Senhor aquilo que não consegue resolver sozinho, sem negar a realidade do que aconteceu.

A Igreja precisa ajudá-lo nesse processo. Não para apagar sua memória, mas para que aquilo que aconteceu não determine para sempre sua maneira de viver, relacionar-se e esperar.

 

Cristo conhece o sofrimento do injustiçado

O cristão não olha para o sofrimento injusto apenas de fora. Ele olha para Cristo.

Pedro escreve:

 

Pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente. (1Pe 2.21-23).

 

Cristo sofreu sem pecado. Foi injustiçado, humilhado e condenado. E, contudo, não respondeu ao mal com outro mal, mas entregou-se àquele que julga retamente.

Isso não significa legitimar a injustiça nem transformar a passividade em virtude absoluta. Sofrendo injustamente, Cristo confiou-se ao justo Juiz.

A cruz, porém, é mais do que um exemplo moral. Nela, o Filho de Deus sofreu por nós. O Justo morreu pelos injustos. E a ressurreição declara que a violência, a injustiça e a morte não têm a palavra final.

Cristo possui a palavra definitiva.

Por isso, aquele que foi ferido pode olhar para Cristo sem precisar negar sua dor. Pode reconhecer a injustiça sem permanecer escravizado por ela. Pode buscar justiça sem transformar-se em instrumento de vingança. Pode perdoar sem chamar o mal de bem.

 

A Igreja precisa permanecer ao lado do ferido

A Igreja precisa confrontar o pecado, chamar ao arrependimento, exercer disciplina e, quando houver genuína restauração, celebrar a graça de Deus. Mas o cuidado não pode terminar quando o processo do ofensor termina.

É preciso perguntar também: como está aquele que sofreu?

Como está sua fé? Como está seu coração? Como estão seus relacionamentos? Como ele está lidando com aquilo que aconteceu? O que ainda precisa ser processado diante de Deus?

Calvino observa, ao comentar o Salmo 38.11: “É realmente uma provação mui dolorosa, quando uma pessoa, que possuía invejável número de amigos, chega a ser abandonada por todos eles”.[7]  A solidão pode tornar ainda mais pesada uma dor já profunda.

Não basta que a Igreja reconheça que houve uma injustiça; é preciso que permaneça próxima daquele que foi ferido. Uma visita, uma conversa paciente, uma escuta sem pressa e uma presença perseverante podem comunicar algo que muitas explicações não conseguem dizer: “Você não está sozinho”.

Esse cuidado pode assumir formas simples e profundas. Pode significar acompanhar pastoralmente, ouvir sem minimizar, ajudar de maneira prática e oferecer aconselhamento bíblico.

Mas a Igreja precisa fazer algo ainda mais fundamental: orar.

Calvino, atento ao pastoreio e zeloso pelo ensino da sã doutrina, insiste que o ministério pastoral não envolve somente o ensino, mas também a intercessão pelos fiéis. Ele escreve: “Aqueles que pretendem que seu labor seja proveitoso para a edificação da igreja, e aqueles que possuem zelo verdadeiro, não apenas se devem entregar ao ensino; mas, também, paralelamente, orar a Deus para operar com eles pelo poder e pela graça”.[8]

Ao mesmo tempo, o reformador destaca que nenhum cristão é tão maduro que não necessite das orações de seus irmãos: “Mesmo o mais perfeito dos homens, que mereça o mais extremado enaltecimento, necessita de intercessão em seu favor, enquanto viver neste mundo, a fim de que Deus lhe conceda não só a perseverança final, mas também o progresso diário”.[9]

Interceder, portanto, é uma expressão concreta da comunhão dos santos. Quando oramos pela Igreja e por nossos irmãos, inclusive por aqueles que nos perseguem ou nos fazem mal, seguimos o exemplo de nosso Senhor. Cristo intercedeu por seus discípulos e, exaltado à direita do Pai, continua intercedendo por sua Igreja. Nossa intercessão encontra nele seu fundamento e sua segurança. Nossas orações são ouvidas não por causa de nossa própria dignidade, mas porque temos um Mediador que intercede por nós.

Calvino expressa essa verdade com precisão:

 

Não carecemos de nutrir nenhuma preocupação de que Deus rejeite as nossas orações em favor da Igreja, visto que o nosso Rei celestial nos precedeu para fazer intercessão por ela, de modo que, ao orarmos por ela, estamos apenas nos diligenciando por seguir seu exemplo.[10]

 

A prática da intercessão revela, assim, nossa comunhão em Cristo e nosso amor fraternal.[11] Ela também manifesta nossa sensibilidade espiritual, pois nos leva a perceber as necessidades e aflições de nossos irmãos e a apresentá-las diante de Deus. Ao intercedermos, não apenas falamos sobre a dor de nosso irmão; de certo modo, colocamo-nos ao seu lado diante do Senhor e carregamos sua carga em oração.[12]

Foi isso que Paulo pediu aos cristãos de Roma. Sabendo das dificuldades que encontraria em sua viagem a Jerusalém, rogou-lhes que “luteis juntamente comigo nas orações a Deus a meu favor” (Rm 15.30). Para Paulo, a oração dos irmãos não era uma formalidade religiosa, mas uma participação real em sua luta.

Calvino observa que, ao pedir essa ajuda, o apóstolo mostra a sensibilidade que deve inspirar as orações dos crentes: eles deveriam tomar parte nas aflições de seus irmãos como se estivessem nas mesmas circunstâncias. E acrescenta: “O crente que apresenta um irmão ao Senhor proporciona-lhe uma grande medida de apoio ao receber uma porção das aflições dele sobre si mesmo”. Por isso, conclui: “Se porventura nossa força depende das orações dirigidas a Deus, então o caminho mais seguro para fortalecermos nossos irmãos é orando a Deus em favor deles”.[13]

Essa verdade se aplica de modo especial àquele que foi ferido. Há sofrimentos que não conseguimos remover, perguntas para as quais não temos respostas e consequências que não podemos simplesmente desfazer. Mas podemos orar. Podemos colocar diante do Senhor aquilo que o irmão talvez ainda não consiga expressar: consolo quando faltam palavras, perseverança quando as forças diminuem, sabedoria quando é necessário tomar decisões e graça quando o coração luta contra o ressentimento.

Calvino lembra que não existe cristão tão ricamente dotado que não necessite da assistência das orações de seus irmãos enquanto estiver neste mundo.[14] Se isso é verdade para todos os cristãos, quanto mais devemos interceder por aqueles cuja dor conhecemos e que Deus colocou diante de nós.

A oração ocupa, portanto, lugar central no cuidado do ofendido. A Igreja não deve apenas conversar com ele sobre sua dor; deve também levar sua dor diante de Deus. Deve interceder para que o Espírito Santo o console, para que a Palavra sustente seu coração, para que o ressentimento não o governe, para que o desejo de vingança seja entregue a Deus e para que receba sabedoria para estabelecer os limites necessários. Deve orar para que a memória do sofrimento não se transforme em prisão e para que, pela graça, a ferida não se converta em amargura.

Pela oração, a Igreja diz ao ferido: você não está sozinho; estamos levando sua dor ao Senhor.

Interceder pelo ofendido é, portanto, uma expressão de amor. É uma forma de carregar sua carga diante de Deus e de reconhecer que, quando nossas palavras são insuficientes, o Senhor continua sendo suficiente. É colocar aquele que sofre diante daquele que “Sara os de coração quebrantado e lhes pensa as feridas” (Sl 147.3).

Quem foi ferido, muitas vezes, não precisa primeiro de uma explicação. Precisa saber que a Igreja não o abandonou. Precisa perceber que sua dor foi vista, que suas lágrimas foram ouvidas e que há irmãos dispostos a caminhar com ele − inclusive diante do trono da graça.

 

Reconciliação não pode ser imposta

Também aqui é necessário distinguir realidades que frequentemente são confundidas: perdão, reconciliação e confiança.

O cristão é chamado a perdoar. Mas a reconciliação envolve duas pessoas. E a restauração da confiança exige verdade, arrependimento, responsabilidade e tempo. Não se pode exigir do ofendido que volte imediatamente a confiar. Confiança não é uma obrigação que se impõe; é algo que precisa ser reconstruído.

Há situações em que a reconciliação será possível e desejável. Há outras em que ela exigirá tempo. E existem circunstâncias em que limites permanentes serão necessários.

A Igreja precisa ensinar e demonstrar o perdão sem silenciar o ferido. Precisa proclamar a graça sem minimizar o abuso. Precisa buscar reconciliação sem transformar a reconciliação em uma exigência que ignore a verdade.

A graça não exige que chamemos o mal de bem, nem que confundamos reconciliação com ausência de prudência.

Perdoar não significa negar o que aconteceu. Significa, pela graça de Deus, não permitir que o mal recebido determine para sempre nossa relação com Deus, com o próximo e com nós mesmos.

 

O ladrão que reconheceu a verdade

Voltemos à cruz.

O primeiro ladrão permaneceu endurecido. O segundo, porém, reconheceu sua própria culpa, reconheceu a inocência de Cristo e, então, voltou-se para Jesus: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino” (Lc 23.42).

Há uma sequência significativa em suas palavras: ele reconhece a verdade sobre si mesmo, reconhece a verdade sobre Cristo e, então, deposita nele sua esperança.

Aquele homem não podia mudar seu passado. Não podia alterar sua condenação. Não podia reconstruir sua vida. Mas podia olhar para Jesus.

É para isso que a Igreja deve conduzir também aquele que foi ferido: não para negar sua dor, mas para levá-la a Cristo.

É nele que encontramos consolo sem negar o sofrimento, perdão sem relativizar o mal, justiça sem vingança, prudência sem amargura e esperança sem ingenuidade.

 

O centro não é o ofensor. O centro é Cristo

A Igreja deve cuidar do ofensor. Deve confrontar o pecado, chamar ao arrependimento e, quando Deus concede restauração, celebrar a graça. Mas não pode esquecer aquele que sofreu.

O ofendido também precisa de cuidado. Precisa saber que Deus vê sua dor, que suas lágrimas não são ignoradas, que o Senhor está perto dos quebrantados e que o Espírito Santo é verdadeiramente o Consolador.

Precisa aprender, pela graça, a perdoar sem chamar o mal de bem; entregar a vingança a Deus sem abandonar a justiça; lembrar sem permanecer prisioneiro da memória; estabelecer limites sem cultivar amargura; e continuar caminhando sem permitir que aquilo que sofreu determine toda a sua vida.

E precisa saber que não caminha sozinho.

A Igreja pode ouvi-lo. Pode acompanhá-lo. Pode servi-lo. Pode ajudá-lo a discernir. Pode chorar com ele. E pode, sobretudo, levá-lo diante do Senhor em oração.

No fim, o centro não é o ofensor. O centro é Cristo.

É nele que o ferido encontra consolo para sua dor, graça para perdoar, sabedoria para agir, força para perseverar e esperança para continuar.

A Igreja não pode esquecer aquele que foi ferido, porque Cristo não o esquece. Diante da cruz e da ressurreição, sabemos que o mal não terá a última palavra.

Cristo terá.

 

Maringá, 04 de outubro de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

[1]John Calvin, Calvin to Johannes Wolf, 25 December 1555. In: Rudolf   Schwarz, ed. Johannes Calvins Lebenswerk in seinen Briefen. Neukirchener Verlag der Buchhandlung des Erziehungsvereins, 1962, v. 2, p. 819.

[2]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, [Sl 6.7], p. 132-133.

[3] A palavra grega traduzida no Evangelho de João por “Consolador”, (Para/klhtoj)(Jo 14.16,26; 15.26) – que é usada unicamente nos escritos de João no NT. –, é a mesma que é traduzida na Epístola de João, por “Advogado” (1Jo 2.1) (ARA, ARC, ACR, BJ). Para um estudo detalhado desta palavra, Vejam-se: W. Barclay, Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 (reimpressão), p. 153-158; Johannes Behm, Para/klhtoj: In: G. Friedrich; G. Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982, v. 5, p. 800-814.

[4] Vejam-se: Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, 7. ed. revised and enlarged, London: Macmillan and Co., 1871, § xcv, p. 337; Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo e as Sagradas Escrituras: Inerrância e Pneumatologia: In: John F. MacArthur, org.,  A Palavra Inerrante, São Paulo: Cultura Cristã, 2018, [p. 263-281], p. 278; John F. MacArthur, A Obra do Espírito e o Aconselhamento Bíblico: In: John F. MacArthur, et. al., eds.  Introdução ao aconselhamento bíblico: um guia básico dos princípios e prática do aconselhamento, São Paulo: Hagnos, 2004, [p. 159-169], p. 162.

[5] Veja-se: William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires: La Aurora, 1974, v. 15, [1Jo 2.1-2], p. 45-48; idem., Palavras Chaves do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1988 [reimpressão], p. 153-158.

[6] Heath Lambert, Teologia do Aconselhamento Bíblico,  Eusébio, CE.: Peregrino, 2017, p. 184.

[7]João Calvino, O Livro dos Salmos. São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, [Sl 38.11], p. 186.

[8] João Calvino, Sermões em Efésios, Brasília, DF.: Monergismo, 2009, p. 130.

[9] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos,1998, [Fm 4], p. 367.

[10]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, [Sl 21.1], p. 456. Vejam-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 91-139; João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Paracletos, 1997, [Hb 7.26], p. 199.

[11] Vejam-se: João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.9), p. 91-139; João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, [1Tm 2.4], p. 61.

[12]Cf. João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, [Ef 6.18], p. 196.

[13]João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, [Rm 15.30], p. 517-518.

[14] João Calvino, Efésios, [Ef 6.19], p. 196. “Visto, pois, que ser assistido pelas orações dos crentes é uma bênção divina tão rica que mesmo Paulo, o instrumento eleito de Deus, não sonhava em negligenciá-la, seremos muitíssimo remissos se criaturas indignas e miseráveis como nós a desprezarmos” (João Calvino, Romanos, 2. ed. [Rm 15.30], p. 517).

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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