Reforma31 – Dia 08 de 31

Reforma31 – Dia 08 de 31

LER A BÍBLIA É REALMENTE OUVIR DEUS FALAR? Imagine Deus falando com você. Não apenas transmitindo uma ideia sobre si mesmo, mas dirigindo-se pessoalmente a você. Você sabe que é Deus quem fala. Ele lhe dá uma informação, faz uma promessa ou ordena alguma coisa. Como você responderia? John Frame começa A doutrina da Palavra…

LER A BÍBLIA É REALMENTE OUVIR DEUS FALAR?

Imagine Deus falando com você. Não apenas transmitindo uma ideia sobre si mesmo, mas dirigindo-se pessoalmente a você. Você sabe que é Deus quem fala. Ele lhe dá uma informação, faz uma promessa ou ordena alguma coisa. Como você responderia?

John Frame começa A doutrina da Palavra de Deus justamente nesse terreno. Sua argumentação fundamental é que o discurso de Deus ao ser humano é real. Deus fala de maneira que podemos entendê-lo e responder adequadamente. Essa resposta pode envolver convicção, obediência, afeição, arrependimento, alegria, dor ou tristeza.

A Palavra de Deus transmite informação, mas não se reduz a isso. Para Frame, em todas as suas qualidades e aspectos, ela é “uma comunicação pessoal de Deus conosco”. É esse ponto de partida que muda a maneira como devemos pensar sobre a Bíblia.

Quando Deus fala

Se soubéssemos que o próprio Deus está falando conosco, não colocaríamos suas palavras diante de nosso julgamento para decidir se são verdadeiras ou se seus mandamentos são justos.

Deus é Deus. Quando ele fala, fala com autoridade absoluta. Suas palavras não estão sujeitas a uma autoridade superior pela qual possam ser avaliadas. Ouvir Deus implica uma resposta. Essa realidade aparece repetidamente nas Escrituras. Deus fala com Adão e Eva, Noé, Abraão e Moisés. Suas palavras não chegam como sugestões para que seus ouvintes decidam se merecem confiança. Elas chegam com a autoridade daquele que fala.

Esse é o modelo da palavra pessoal que orienta a obra de Frame. Contudo, há um passo importante. Deus não fala apenas como alguém que transmite informações. Ele fala como Senhor. E, para Frame, o senhorio de Deus envolve três aspectos inseparáveis: controle, autoridade e presença. Esses três aspectos também caracterizam sua Palavra.

Uma Palavra que realiza

Primeiro, a Palavra de Deus manifesta seu poder controlador. No início de Gênesis, Deus fala, e as coisas acontecem. Ele ordena que haja luz, e a luz passa a existir. Sua Palavra não apenas descreve a realidade; ela realiza os propósitos daquele que fala.

Frame insiste, portanto, que não devemos pensar na Palavra somente como conteúdo linguístico transmitido à nossa mente. Ela é também poder. O que Deus diz, ele é capaz de realizar.

Sua Palavra jamais é impotente. Ela cumpre aquilo para o que Deus a designa. No entanto, poder não é tudo. A Palavra também possui significado.

Uma Palavra que cria obrigações

O segundo aspecto é a autoridade. Frame entende a autoridade da linguagem como sua capacidade de criar obrigações no ouvinte. Quando Deus fala, suas palavras estabelecem aquilo em que devemos crer e aquilo que devemos fazer. E vão além.

A Palavra de Deus também dirige emoções, preocupações, prioridades, alegrias e tristezas. Sua autoridade alcança todas as maneiras pelas quais a linguagem pode nos dirigir. Portanto, não somos ouvintes neutros diante da Palavra. Se é Deus quem fala, sua comunicação requer de nós a resposta apropriada. Devemos ouvir, crer, obedecer e responder conforme suas palavras exigem.

Essa autoridade aparece de modo particular nas palavras de Jesus. Frame mostra que ouvir as palavras de Cristo é ouvir as palavras do Pai. As palavras de Jesus são apresentadas como critério de discipulado e exigem uma resposta daqueles que as recebem. Contudo, Frame acrescenta ainda uma terceira dimensão.

Deus está presente em sua Palavra

A Palavra de Deus não manifesta somente seu poder e sua autoridade. Ela manifesta também sua presença pessoal. Deus não envia uma comunicação que possa ser separada dele, como se recebêssemos uma mensagem enquanto seu autor permanecesse distante.

Frame relaciona a proximidade de Deus com a proximidade de suas palavras. Quando Deus fala, ele está presente com seu povo. É por isso que a comunicação divina é tão profundamente pessoal.

A Palavra não é apenas informação sobre Deus. Por meio dela, Deus se dá a conhecer. Seu discurso traz consigo seu poder controlador, sua autoridade significativa e sua presença pessoal.  Isso nos conduz à pergunta decisiva: como essa Palavra chega até nós?

Eventos, palavras e pessoas

Frame distingue três meios de revelação: eventos, palavras e pessoas.

Deus se revela por seus atos na criação e na história. Revela-se por palavras que explicam seus atos e nos dizem o que eles significam. E revela-se por pessoas.

Essas formas não devem ser separadas. As palavras explicam os eventos; os próprios atos de Deus ajudam a compreender suas palavras; e eventos e palavras envolvem pessoas às quais Deus se revela e por meio das quais se comunica.

Em todos esses meios, porém, é o próprio Senhor que se revela. A revelação continua sendo poderosa, autoritativa e pessoal. E é dentro dessa progressão que Frame chega à Palavra escrita.

E quando a Palavra é escrita?

Ser escrita não torna a Palavra de Deus menos pessoal. Esse ponto é essencial. Segundo Frame, o próprio Deus determinou que a revelação escrita ocupasse um lugar central em sua comunicação com os seres humanos. As palavras escritas preservam a revelação e permitem que ela alcance outras pessoas e gerações.

A Escritura não deve, portanto, ser entendida simplesmente como um registro humano posterior de uma revelação divina que aconteceu no passado. Deus identifica determinadas palavras escritas como suas próprias palavras.

Frame afirma que elas possuem o mesmo poder, autoridade e presença divina encontrados nas demais formas de sua Palavra. A revelação escrita, iluminada pelo Espírito e ministrada pelo ensino da igreja, constitui nosso principal acesso às palavras pessoais de Deus nesta era. É por isso que sua reflexão prossegue para inspiração, inerrância, clareza, necessidade, abrangência e suficiência da Escritura. Essas doutrinas não aparecem isoladamente. Todas pertencem à pergunta maior que percorre o livro: o que significa Deus comunicar-se conosco?

Voltamos, então, à pergunta inicial. Ler a Bíblia é realmente ouvir Deus falar? Na argumentação de Frame, a resposta depende de compreendermos o que a Escritura realmente é. Se as palavras escritas da Bíblia são palavras que Deus identifica como suas, então, diante delas, não estamos simplesmente examinando informações religiosas acerca de Deus. Estamos recebendo a comunicação pessoal do Senhor. E, quando Deus fala, sua Palavra vem com seu poder, sua autoridade e sua presença.

Para continuar a reflexão

Em A doutrina da Palavra de Deus, John Frame desenvolve uma ampla teologia da revelação a partir de uma ideia central: a Palavra de Deus é sua comunicação pessoal conosco. A partir desse “modelo da palavra pessoal”, Frame acompanha a revelação de Deus em eventos, palavras e pessoas e mostra como seu poder, sua autoridade e sua presença caracterizam também as Escrituras. Assim, questões como inspiração, inerrância, clareza e suficiência são tratadas dentro de uma pergunta maior: o que significa reconhecer que, nas Escrituras, Deus realmente se comunica com seu povo?

Livro do Dia 8 — REFORMA 31

A doutrina da Palavra de Deus

Nota editorial: Este artigo foi adaptado a partir da argumentação desenvolvida por John Frame em A doutrina da Palavra de Deus, publicado pela Editora Cultura Cristã.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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