Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas – 28
Atitudes para com o Senhor perdoador (Continuação) O perdão não nasce de nossas boas obras; é fruto exclusivo da graça de Deus. Contudo, ele nos estimula a viver em consonância com a sua vontade. O pecador perdoado é motivado a harmonizar-se com o propósito divino revelado nas Escrituras. O perdão não nos enaltece, mas revela…
Atitudes para com o Senhor perdoador (Continuação)
O perdão não nasce de nossas boas obras; é fruto exclusivo da graça de Deus. Contudo, ele nos estimula a viver em consonância com a sua vontade. O pecador perdoado é motivado a harmonizar-se com o propósito divino revelado nas Escrituras. O perdão não nos enaltece, mas revela a justiça e a misericórdia de Deus manifestadas na cruz.
Owen (1616-1642) escreveu:
O perdão não é merecido por obras piedosas realizadas antes, porém, é o mais forte motivo para se viver piedosamente depois de recebê-lo (…). Aquele que presume tê-lo recebido, e não se sente obrigado a ser obediente a Deus por causa do perdão que recebeu, na verdade não goza dele![1]
Deus nos diz na sua Palavra, que Ele nos redimiu para si mesmo a fim de vivermos para Ele, em harmonia com a sua vontade, encontrando assim a felicidade decorrente da nossa obediência.
Desfaço as tuas transgressões como a névoa, e os teus pecados como a nuvem; torna-te para mim, porque eu te remi. (Is 44.22).
Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque ele é rico em perdoar. (Is 55.7).
Como temos visto, o perdão não nos torna imunes ao pecado, mas nos conduz a uma batalha confiante contra tudo o que desagrada a Deus. Como afirmou Aulén (1879-1977): “O homem que recebeu o perdão de Deus prossegue numa luta contínua e incessante contra o pecado.”[2]
A Palavra de Deus demonstra, de forma enfática, que a nossa salvação não é um fim em si mesma. Pelo contrário, ela marca o início da vida cristã, na qual somos feitos filhos de Deus e chamados a crescer em santificação, até que se cumpra plenamente o propósito divino em nossa existência.
Devemos estar atentos para o fato de que a salvação (justificação, regeneração, união com Cristo), não é a linha de chegada da vida cristã; antes, é o ponto de partida. Nós não nascemos espiritualmente “acabados”,[3] antes, fomos gerados espiritualmente para o nosso crescimento, amadurecimento completo.
O novo nascimento não é um produto final, mas o início de um novo caminho de vida, moldado pelo Espírito por meio da Palavra. A educação cristã, portanto, é um processo que une o natural ao sobrenatural.[4]
Nesse processo, o perdão recebido em Cristo indica nossa restauração, para que, neste estado de convalescença espiritual, possamos nos alimentar da Palavra e da oração, fortalecendo-nos interiormente. O mesmo Deus que nos regenera é aquele que nos preserva saudáveis nesta nova vida.[5]
Na verdade, a santidade é a marca existencial da nossa nova natureza, revelando quem somos agora em Cristo e apontando para o propósito eterno de Deus em nós.[6]
Lloyd-Jones (1899-1981) exorta-nos quanto a isso:
Cristianismo não é você parar na conversão e no conhecimento de que os seus pecados estão perdoados, e, então, contentar-se com isso pelo resto da vida; cristianismo é ingressar e desenvolver-se rumo à medida da estatura da plenitude de Cristo. Precisamos desenvolver nossas mentes e nossas faculdades, se é que desejamos tomar posse disso. Se nos contentamos com menos que isso, não passamos de crianças em Cristo, e somos indignos deste glorioso evangelho.[7]
Árvores altas com raízes profundas
O nosso crescimento externo precisa ser acompanhado pelo aprofundamento e pela solidificação de nossas raízes. Altura exige profundidade e firmeza. Por isso, todo avanço − seja profissional, social, econômico ou cultural − deve vir necessariamente acompanhado de um alimento espiritual mais sólido, buscado não na superfície, mas na profundidade da Palavra, para que não tenhamos apenas uma aparência espiritual teatral e cosmética, mas uma vida real e verdadeira diante de Deus.
Assim como árvores mais altas necessitam de raízes mais profundas e vigorosas, também nossa projeção na vida costuma vir acompanhada de tentações mais sofisticadas e sutis, que se apresentam de formas diferentes. Se o nosso arsenal espiritual não estiver em constante sintonia com a Palavra, corremos o risco de estar desatualizados para batalhas que já enfrentamos derrotados, simplesmente porque nem sequer as reconhecemos como tais.
Berkhof (1873-1957) usa uma figura para ilustrar a nossa nova condição:
Uma criança recém-nascida é, salvo exceções, perfeita em suas partes, mas não está no grau de desenvolvimento ao qual foi destinada. Justamente assim, o novo homem é perfeito em suas partes, mas, na presente vida, continua imperfeito no grau de desenvolvimento espiritual.[8]
O crente é chamado a uma caminhada constante. O Cristianismo não é apenas uma crença, mas um caminho de vida fundamentado na prática do Evangelho, conforme nos ensinou Jesus Cristo. A santificação é o desafio de perseverar nesse caminho, empenhando-nos em fazer a vontade de Deus.
Ela significa avançar sempre em direção ao alvo estabelecido pelo Senhor, com corações humildes e desejosos de agradá-lo. Mais do que cumprir mandamentos, é viver em obediência sincera e amorosa, buscando refletir a vontade de Deus em cada atitude.
Somos peregrinos e estrangeiros
A vida cristã não é passeio leve de um transeunte em férias, sem rumo ou agenda. É jornada de peregrino, que busca, passo a passo, o caminho mais seguro até o destino eterno. O coração do cristão pulsa em compromisso com o propósito de seu Senhor (Ef 1.4), e cada batida deve estar voltada para essa missão sublime.
É natural que haja tensão em nós: somos frágeis, limitados, e nossos anseios muitas vezes se deixam seduzir pelos convites confortáveis da cultura que nos cerca.[9] Por isso, precisamos do discernimento que ilumina a mente e guarda o coração, para não nos perdermos no labirinto do mundanismo − veneno sutil que silencia nossa voz e apaga nossa influência.
Não podemos permitir que pensamentos e gestos sejam moldados pela lógica fria e pagã, pois assim viveríamos na sombra de um ateísmo prático ou funcional: existir como se Deus não fosse real, ou como se sua presença fosse indiferente.[10]
O cristão, porém, é chamado a andar com olhos erguidos ao céu, deixando que cada passo revele a certeza de que a vida só encontra sentido na luz do Senhor.
O problema é que, muitas vezes, enquanto os padrões de Deus nos parecem distantes e abstratos, estamos profundamente moldados pelos padrões de nossa cultura, que nos cercam continuamente e se tornam tão familiares quanto um personagem de novela que passa a simbolizar determinado tipo de comportamento. Como observa Tchividjian: “Para muitos de nós, os padrões deste mundo decaído se tornaram por demais familiares, ao mesmo tempo em que os caminhos de Deus parecem distantes e estranhos.”[11]
Mas somos peregrinos, estrangeiros e hóspedes neste mundo.[12] Estrangeiros residentes, como diz Tchividjian.[13] Não há destino mais nobre: fomos chamados à glória de Cristo. Isso nos basta − não como prêmio de consolação, mas como a mais alta vocação: o Senhor de todas as coisas nos destina à glória de Seu Filho amado.
Portanto, a santificação não é periférica nem acidental na vida do crente; ao contrário, constitui um propósito central, ao qual devemos consagrar todas as nossas forças espirituais para cumprir o plano de Deus em nós. Em síntese, a santificação é um imperativo divino, claramente revelado na Palavra e dirigido a todos os filhos de Deus.
A vida cristã é, em sua essência, um chamado à santidade conforme o propósito do Senhor. Não há espaço para uma fé estagnada ou acomodada: viver como cristão é abraçar o constante desafio da santidade, em conformidade com o santo e benéfico propósito de Deus.
Na vida dos eleitos, perdoados e justificados, não há lugar para a acomodação no pecado. Deus nos chama à santidade − sábia, soberana, santa e eterna. Assim, a santificação é parte essencial da vida da Igreja, e o caminho do peregrino é sempre conduzido rumo à glória de Cristo.
O intenso combate da fé
Os crentes, mesmo tendo recebido uma nova natureza pela regeneração, precisarão combater o pecado enquanto viverem. Esse combate é árduo, e a Bíblia não economiza imagens vívidas para descrevê-lo. Contudo, a Palavra de Deus nos assegura, com ainda maior ênfase, a vitória que temos em Cristo. Por isso, temos plena convicção de que devemos lutar contra o pecado, certos de que Deus está conosco nessa batalha. Este é o bom combate da fé − bom por sua necessidade e por seu objetivo. Como exorta Paulo a Timóteo: “Combate (a)gwni/zomai) o bom combate (a)gw/n) da fé” (1Tm 6.12).
Este combate (a)gwni/zomai) muitas vezes se manifestará de forma angustiante devido à sua intensidade e gravidade. Por isso a ideia embutida de esforço extremo (Lc 13.24; Cl 1.29; 4.12; 1Tm 4.10), empenho (Jo 18.36), fadiga (Cl 1.29) e, figuradamente, é ilustrada com o esforço de um atleta que compete (1Co 9.25).
Paulo orienta os gálatas evidenciando as duas forças operantes em nós, os regenerados: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).
A Confissão de Westminster diz:
Esta santificação é no homem todo, porém imperfeita nesta vida; ainda persistem em todas as partes dele restos da corrupção, e daí nasce uma guerra contínua e irreconciliável – a carne lutando contra o espírito e o espírito contra a carne (XIII.2). (Rm 7.19,23; Gl 5.17; Fp 3.12; 1Ts 5.23; 1Pe 2.11; 1Jo 1.10).
A santidade perfeita no céu encontra os seus primórdios na vida dos eleitos aqui na terra. Isto indica a nossa responsabilidade presente.
O Apóstolo João, instrui e consola, nos estimulando à esperança gloriosa que teremos no Senhor:
Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando ele se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque havemos de vê-lo como ele é. E a si mesmo se purifica todo o que nele tem esta esperança, assim como ele é puro. (1Jo 3.2-3).
“Como na presente vida não atingiremos pleno e completo vigor, é mister que façamos progresso até à morte”, conclui Calvino.[14]
Cristo morreu por nós para que ele nos apresentasse “a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem cousa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27). Dentro desta perspectiva, a Igreja procura viver de forma santa para se encontrar com Cristo, conforme o seu propósito sacrificial. “Teremos de ser santos antes de morrer, se quisermos ser santos quando estivermos na glória”, exorta-nos Ryle (1816-1900).[15]
O desejo da Igreja deve ser de se encontrar com Cristo de forma íntegra e irrepreensível. Por isso ela é chamada a viver hoje na presença de Deus, estando sempre preparada para o seu encontro final e jubiloso com o Senhor Jesus. Este era o alvo da intercessão de Paulo: “O mesmo Deus da paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1Ts 5.23).
Jesus Cristo se santificou pela Igreja e entregou-se por ela. Ele exerce seu poder para apresentá-la a si mesmo com alegria, como uma Igreja irrepreensível diante do escrutínio da sua glória (Jd 24; Ef 5.25-27).”
O nosso padrão de santidade não consiste em um simples “melhoramento” diante dos padrões humanos, mas em sermos conformes a Cristo. Fomos eleitos para Ele, a fim de sermos moldados à sua imagem. Portanto, devemos imitá-lo, seguindo suas pegadas (cf. Rm 8.28-30; Jo 13.15; 2Co 3.18; Ef 4.32; 5.1-2; Fp 2.5-8; 2Ts 2.13; 1Pe 1.13-16; 2.21). Como nos lembra Lloyd-Jones: “A santidade não é negativa, é positiva; é ser como Deus (…). A santidade não significa simplesmente obter vitória sobre pecados particulares. É ser como Deus, que é santo.”[16]
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
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[1] John Owen, Apud A. Booth, Somente pela Graça, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1986, p. 33.
[2] G. Aulén, A Fé Cristã, São Paulo: ASTE, 1965, p. 252.
[3] “O novo nascimento não produz o produto acabado. A nova coisa nascida de Deus acha-se tão longe de estar completa como o bebê recém-nascido uma hora atrás. Esse novo ser humano, no momento em que nasce, é colocado nas mãos de poderosas forças modeladoras que em grande medida determinarão se ele será um cidadão correto ou um criminoso. A única esperança para ele é poder escolher mais tarde as forças que o modelarão, e, pelo exercício do seu poder de escolha, colocar-se nas mãos certas. Nesse sentido ele se modela a si próprio, e finalmente é responsável pelo resultado” (A.W. Tozer, O Poder de Deus, 2. ed. São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 115).
[4]Perry G. Downs, Introdução à Educação Cristã: Ensino e Crescimento, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 64-65.
[5] Vejam-se algumas boas analogias sobre a justificação e a santificação em Augustus H. Strong, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2003, v. 2, p. 606-607.
[6] Cf. James P. Boyce, Teologia Sistemática: Uma introdução aos pilares da fé, Rio de Janeiro: Pro Nobis Editora, 2020, p. 495.
[7] D.M. Lloyd-Jones, As insondáveis riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 254. Do mesmo modo, Veja-se: J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: FIEL. 1987, p. 39.
[8] L. Berkhof, Teologia Sistemática, Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1990, p. 541.
[9] “A fé cristã não tira os homens do mundo – pelo contrário coloca-os ainda mais em seu meio – mas liberta-os de sua afeição pelo mundo. A lei do mundo e o caminho do mundo não podem mais ser deles depois que passam a pertencer a Deus. A rendição a Deus é simultaneamente uma quebra com os antigos caminhos do mundo. (…) O homem cristão deve agora adotar o estilo arquitetural de Deus e livrar-se do estilo do mundo. Isso requererá ainda trabalho duro até que esta reconstrução seja completada em cada um de seus detalhes!” (Emil Brunner, Romanos, São Paulo: Fonte, 2007, (Rm 12.1-2), p. 169).
[10] “Uma grande porcentagem das pessoas de hoje diria que crê em Deus, mas raramente lhe dedica um pensamento e rotineiramente tomam suas decisões como se Ele não existisse” (John M. Frame, A Doutrina de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 23).
[11] W. G. Tullian Tchividjian, Fora de Moda, p. 39.
[12] “Os filhos de Deus, onde quer que estejam, não passam de hóspedes deste mundo. De fato, no primeiro sentido ele (Pedro), no início da Epístola, os chama de peregrinos, como transparece do contexto; aqui, porém, o que ele diz é comum a todos eles. Pois as concupiscências da carne nos mantêm enredados quando em nossa mente permanecemos no mundo e cremos que o céu não é nossa pátria; mas quando vivemos como forasteiros ao longo desta vida, não vivemos escravizados à carne” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1996 (reprinted), v. 22, (1Pe 2.11), p. 78). “Somos estrangeiros e peregrinos neste mundo, (…) não possuímos morada fixa senão no céu. Portanto, sempre que formos expulsos de algum lugar, ou alguma mudança no suceder, tenhamos em mente, segundo as palavras do apóstolo aqui, que não temos lugar definido sobre a terra, porquanto nossa herança é o céu; e quando formos cada vez mais provados, então nos preparemos para nossa meta final. Os que desfrutam de uma vida tranquila, comumente imaginam que possuem para si um repouso neste mundo. Portanto é bom que nós, que somos inclinados a esse gênero de pândega, que somos constantemente levados de um a outro lado, tão propensos à contemplação das coisas aqui de baixo, aprendamos a volver sempre nossos olhos para o céu” (João Calvino, Exposição de Hebreus, São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Hb 13.14), p. 391-392). “Quanto trazemos ainda conosco de nossa carne é algo que não podemos ignorar, pois ainda que a nossa habitação está no céu, todavia somos ainda peregrinos na terra” (J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 13.14), p. 462). Vejam-se também: João Calvino, As Institutas, II.10.15; João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 3, (III.11), p. 166; D.M. Lloyd-Jones, O supremo propósito de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1996, p. 367.
[13] W. G. Tullian Tchividjian, Fora de Moda, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 93.
[14]João Calvino, Efésios, São Paulo: Paracletos, 1998, (Ef 4.15), p. 130.
[15]J.C. Ryle, Santidade, São José dos Campos, SP.: FIEL. 1987, p. 46.
[16] D. Martyn Lloyd-Jones, O combate cristão, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1991, p. 127. Veja-se também: David M. Lloyd-Jones, A Unidade Cristã, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1994, p. 59-60.
