Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (32)
1.5. O Santo Senhor Estou convicto de que nenhum cristão duvida da santidade de Deus. Confessamos, com firmeza, que Ele é absolutamente santo. No entanto, um problema recorrente em nossa experiência espiritual é o fato de que premissas teológicas verdadeiras, embora corretamente formuladas, nem sempre encontram ressonância em nossa vida concreta. Muitas vezes,…
1.5. O Santo Senhor
Estou convicto de que nenhum cristão duvida da santidade de Deus. Confessamos, com firmeza, que Ele é absolutamente santo.
No entanto, um problema recorrente em nossa experiência espiritual é o fato de que premissas teológicas verdadeiras, embora corretamente formuladas, nem sempre encontram ressonância em nossa vida concreta. Muitas vezes, permanecem no nível da abstração, distantes da existência cotidiana. Assim, estabelece-se, quase imperceptivelmente, uma espécie de barreira entre a fé que professamos e a fé que vivemos. Como resultado, aquilo que deveria moldar nossa percepção da realidade perde sua força transformadora.
A fé bíblica, porém, não admite tal dicotomia. Ela não apenas nos conduz ao conhecimento do caráter de Deus, conforme Ele graciosamente se revelou, mas nos chama a experimentar essa verdade em todas as dimensões da vida. É uma fé que ilumina o discernimento, sustenta na fraqueza, consola na aflição, encoraja no desânimo e corrige no pecado. Quando a verdade revelada não se encarna na experiência diária, estamos diante de algo aquém da genuína fé cristã.
Por isso, é necessário refletirmos com seriedade sobre as implicações daquilo que cremos. Se afirmamos, com base nas Escrituras, que o Deus a quem servimos é absolutamente santo e que Ele mesmo nos chama à santidade, então essa verdade precisa moldar não apenas nosso pensamento, mas também nossa vida.
À luz disso, faz-se necessário aprofundar, de modo biblicamente fundamentado, a nossa compreensão da santidade de Deus, destacando alguns de seus aspectos e considerando suas implicações diretas para a nossa existência aqui e agora.
Santidade de Deus e louvor
A santidade de Deus nos convoca ao louvor e à adoração. O salmista, contemplando as maravilhas do Senhor, conclama o povo a unir-se a ele nesse reconhecimento reverente: “Exaltai ao SENHOR, nosso Deus, e prostrai-vos ante o escabelo de seus pés, porque ele é santo (vAdq’) (qadosh)” (Sl 99.5). E novamente: “Exaltai ao SENHOR, nosso Deus, e prostrai-vos ante o seu santo monte, porque santo (vd,qo)(qodesh) é o SENHOR, nosso Deus” (Sl 99.9).[1] A santidade divina não apenas define quem Deus é, mas fundamenta e orienta a resposta adequada do seu povo: humilde adoração.
Santidade, majestade e glória
A palavra santo carrega consigo uma riqueza semântica profunda e, em certo sentido, difícil de esgotar. Sua raiz está associada às ideias de “separar” e “cortar”, indicando aquilo que é distinto, elevado, absolutamente outro. Quando aplicada a Deus, essa noção alcança sua máxima expressão: Ele está acima de todas as coisas, não apenas em grau, mas em essência. Deus é santo em si mesmo pelo simples fato de ser Deus. Afirmar sua santidade é reconhecer sua singularidade absoluta.[2]
Diante dessa realidade, não dispomos de categorias adequadas, originadas de nossa própria experiência, que possam descrever, medir ou comparar a santidade divina. Somos inteiramente dependentes da autocomunicação de Deus. É Ele quem, graciosamente, estabelece analogias e relações que nos permitem compreender, ainda que de modo limitado, aspectos de sua glória.
Se a santidade de Deus se manifesta em sua majestade e glória, ela também permeia cada atributo divino. Por isso, a Escritura frequentemente associa santidade e majestade, lembrando-nos de que Deus não se confunde com a criação; Ele a transcende qualitativamente em todos os aspectos. Tudo o que existe depende dele, mas Ele é absolutamente independente de tudo. Sua santidade expressa a perfeição do seu ser, que ultrapassa infinitamente toda criatura. Somente Ele é absolutamente santo; não há, nem haverá, outro semelhante.
Como observa Naude, “a santidade de Deus […] se torna uma expressão da perfeição do seu ser, a qual transcende todas as criaturas”. Somente Ele é absolutamente santo; não há, nem haverá, outro semelhante.[3]
A glória de Deus, por sua vez, pode ser compreendida como a manifestação visível de sua santidade. Deus é santo em sua essência; sua glória é a irradiação visível dessa santidade. Nesse sentido, conforme já citei, Piper sintetiza bem isso:
A glória de Deus é a manifestação de sua santidade. A santidade de Deus é a perfeição incomparável de sua natureza divina. Sua glória é a exibição dessa santidade. […] A santidade de Deus é sua glória oculta. A glória de Deus é a sua santidade revelada.[4]
É importante reconhecer que essa concepção de um Deus absolutamente santo não brota naturalmente da mente humana. Não há, em nosso pensamento caído, categorias que espontaneamente produzam tal ideia. Por isso, pode-se afirmar que jamais seríamos capazes de conceber, por nós mesmos, um Deus verdadeiramente santo. O conceito bíblico da santidade divina é singular na história das religiões e constitui uma das expressões mais elevadas da revelação preservada na tradição judaico-cristã.
De fato, ao examinarmos as religiões e filosofias antigas, constatamos que os deuses frequentemente refletem os vícios humanos. Como observou Leo Strauss (1899-1973), “Não há deus santo para Aristóteles nem para os gregos em geral”.[5] Nesse mesmo espírito crítico, Xenófanes (c. 570-c.460 a.C.) denunciou a tendência humana de projetar nos deuses suas próprias características e paixões, atribuindo-lhes ações moralmente reprováveis. Sua crítica revela uma percepção aguda: o ser humano, em sua pretensa autonomia, não cria um Deus que o transcenda, mas antes um deus moldado à sua própria imagem:
Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses tudo o que para os homens é opróbrio e vergonha: roubo, adultério e fraudes recíprocas.
Como contavam dos deuses muitíssimas ações contrárias às leis: roubo, adultério, e fraudes recíprocas.
Mas os mortais imaginam que os deuses são engendrados, têm vestimentas, voz e forma semelhantes a eles.
Tivessem os bois, os cavalos e os leões mãos, e pudessem, com elas, pintar e produzir obras como os homens, os cavalos pintariam figuras de deuses semelhantes a cavalos, e os bois semelhantes a bois, cada (espécie animal) reproduzindo a sua própria forma
Os etíopes dizem que os seus deuses são negros e de nariz chato, os trácios dizem que têm olhos azuis e cabelos vermelhos.[6]
Essa constatação permanece atual. Sempre que o homem se afasta da revelação divina, perde também a verdadeira compreensão da santidade de Deus. Em lugar do Deus santo e transcendente, surgem “deuses” que legitimam desejos humanos e refletem as limitações da criatura. Contra essa tendência, a Escritura se ergue como testemunho claro e suficiente: o Deus que se revela é absolutamente santo — incomparável, glorioso e digno de toda adoração.
Santidade essencial e em tudo que realiza
Deus é intrinsecamente santo, assim como é justo, bondoso e poderoso. Sua santidade não é contingente, mas necessária e absoluta. Ao mesmo tempo, ela não deve ser compreendida como um atributo entre outros, simplesmente justaposto aos demais. Antes, a santidade permeia, de forma indivisível e essencial, todos os atributos divinos, qualificando todo o ser de Deus.
Nesse sentido, não há nada em Deus que não seja santo. Seu amor é santo; sua justiça é santa; sua misericórdia é santa. Do mesmo modo, até mesmo a sua ira — frequentemente mal compreendida — é santa, pois procede de sua natureza perfeitamente pura e reta.
Assim, em cada um dos atributos divinos contemplamos manifestações da beleza de sua santidade. Como bem resume Pink (1886-1952): “a santidade é o padrão de todas as Suas ações”.[7] Não há qualquer ato divino que não esteja em perfeita conformidade com aquilo que Deus é.
A santidade de Deus consiste, portanto, na perfeita harmonia entre o seu ser e o seu agir. Deus nunca atua de modo incoerente com sua própria natureza.
Diferentemente de nós, em quem frequentemente há tensão entre o ser e o fazer, em Deus há absoluta unidade e consistência: Ele age sempre em total conformidade com a sua essência santa.
Não há, nele, qualquer perda ou diminuição de qualidade entre sua natureza e suas ações. Deus age conforme Ele é — e, sendo Ele plenamente santo, todas as suas obras refletem essa santidade perfeita e gloriosa.
Os homens são indesculpáveis
Evidências da gloriosa majestade de Deus encontram-se disseminadas em toda a criação. Esses vestígios não são acidentais, mas constituem parte do testemunho voluntário do próprio Deus, por meio do qual Ele se dá a conhecer, chamando o ser humano ao reconhecimento e à adoração. Por isso, a Escritura afirma que, apesar de tal revelação, os homens são indesculpáveis em sua recusa.
Contudo, em sua rejeição contumaz da verdade, os homens preferem forjar deuses à sua própria imagem:
19Porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. 20Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22 Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos 23e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis. (Rm 1.19-23).[8]
A recusa humana não se dá por ausência de luz, mas por rebelião contra ela. Como é impossível eliminar completamente a consciência de Deus, o homem passa a substituí-lo por versões distorcidas, moldadas segundo seus próprios desejos − simulacros que refletem suas inclinações e justificam seus caminhos.
Nesse sentido, a idolatria não é mera ignorância, mas uma reconfiguração deliberada da verdade. Sproul observa que ela consiste exatamente nessa substituição da realidade por uma imitação: distorce-se a verdade de Deus e redefine-se a sua identidade segundo preferências humanas, resultando em um “deus” que pode assumir múltiplas formas, mas jamais será verdadeiramente santo.[9]
Nós, como imagem, tentamos imitá-lo de forma subjetiva, visto que somente Deus possui de forma absoluta a objetividade do Belo em suas perfeições.[10]
A santidade de Deus, por sua vez, não é apenas moralmente perfeita; ela é também intrinsecamente bela.[11] A Escritura nos apresenta Deus como a fonte e o padrão de toda beleza. A beleza não possui existência autônoma; ela deriva de Deus e encontra nele sua plenitude. Por isso, há um risco permanente em dissociar a beleza do seu Autor, conduzindo-nos à tentação denunciada por Paulo: adorar a criatura em lugar do Criador (Rm 1.25).[12]
Deus, que nos criou à sua imagem, é o Artista original. Nosso senso estético, ainda que limitado, participa dessa realidade como reflexo derivado. Aquilo que reconhecemos como belo aponta, em última instância, para a perfeição do próprio Deus.[13] Contudo, nossa resposta a essa beleza permanece parcial e subjetiva, pois somente Deus possui, em si mesmo, a objetividade plena do belo em sua perfeição absoluta. [14]
É nesse horizonte que o salmista convoca o povo à adoração:
Tributai ao SENHOR a glória devida ao seu nome, adorai o SENHOR na beleza (hr’d’h]) (hadarah) (= esplendor)[15] da santidade (vd,qo) (qodesh). (Sl 29.2).
E novamente:
Adorai o SENHOR na beleza (hr’d’h]) (hadarah) (= esplendor) da sua santidade (vd,qo) (qodesh); tremei diante dele, todas as terras. (Sl 96.9).
A santidade de Deus não apenas demanda reverência; ela atrai pela sua beleza e esplendor. Há nela uma glória que simultaneamente encanta e humilha, que revela e convoca.
Nesse contexto, todos os atributos divinos devem ser compreendidos à luz dessa santidade. O poder de Deus é santo — não tirânico; sua justiça é perfeita — não cruel; sua misericórdia é coerente com sua justiça — não mero sentimentalismo. Em Deus, tudo é harmoniosamente santo, belo e perfeito.[16]
Assim, contemplar a santidade divina não é apenas um exercício teológico, mas um chamado à adoração reverente, ao discernimento espiritual e à rejeição de toda forma de idolatria que obscureça a glória do Deus verdadeiro.
Repetição como ênfase: Santo, Santo, Santo!
A repetição e a recapitulação são amplamente reconhecidas como instrumentos fundamentais no processo de ensino.[17] Não por acaso, uma das grandes ênfases das Escrituras está na formação do povo de Deus por meio da instrução contínua. O Senhor fala reiteradamente ao seu povo, conclamando-o a preservar a sua Palavra — não apenas guardando-a na memória, mas praticando-a — e a transmiti-la fielmente às gerações seguintes.
Nesse contexto, a literatura hebraica faz uso frequente da repetição como recurso pedagógico e retórico. A própria estrutura da revelação divina incorpora esse método. O verbo hebraico (}n$ = “repetir”) (Shãnâ) (Dt 6.6ss.), expressa essa dinâmica: a verdade deve ser reiteradamente comunicada, internalizada e vivida. Trata-se de um princípio que atravessa toda a pedagogia bíblica.[18]
Dentro desse horizonte, a repetição tripla assume especial relevância, funcionando como um recurso de intensificação máxima, conferindo à declaração um caráter superlativo e completo. É precisamente isso que encontramos na visão do profeta Isaías. No cântico jubiloso — possivelmente antifônico — dos serafins, ecoa a mais elevada declaração acerca do ser de Deus: “E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, santo, santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória” (Is 6.3).
A tripla repetição não é acidental. Como observa Sproul (1939-2017), não encontramos nas Escrituras outros atributos divinos sendo proclamados dessa maneira. Não se diz que Deus é “amor, amor, amor”, nem “justiça, justiça, justiça”. Entretanto, afirma-se que Ele é “santo, santo, santo”. Essa singularidade revela algo essencial: a santidade ocupa lugar central na autorrevelação de Deus.[19]
Motyer (1924-2016), interpretando essa passagem, afirma que a santidade constitui a verdade suprema acerca de Deus e, sendo tão elevada, ultrapassa os limites do pensamento humano, tornando necessária a criação de um “superlativo” para expressá-la. [20] Assim, ao repetirem três vezes o termo, os serafins proclamam que Deus é absolutamente, perfeitamente e incomparavelmente santo.
Dessa realidade decorre uma implicação fundamental: fora de Deus não há santidade em sentido pleno. Toda santidade é necessariamente relacional — isto é, definida em referência a Deus — e derivada dele. Por isso, podemos afirmar que a santidade, tal como apresentada nas Escrituras, é essencialmente teorreferente. Não apenas isso: somente Deus pode santificar, separando para si aquilo que lhe pertence (cf. (Ex 31.13; Lv 20.8; 21.8; 15,23; 22.9,16,32; Ez 20.12; 37.28).
Todavia, essa transcendência absoluta não implica distanciamento impessoal. Como temos enfatizado, Deus é ao mesmo tempo transcendente e pessoal. Ele é o Santo que se relaciona com o seu povo (Os 11.9).[21] Aquele que é santo em si mesmo também se comunica de forma santa e, em sua graça, santifica aqueles que lhe pertencem.
É precisamente por causa dessa santidade imutável que podemos confiar em suas promessas. A santidade de Deus garante a fidelidade de seus atos. Em meio à angústia, Davi encontra fundamento seguro nessa verdade: “Contudo, tu és santo (vAdq’) (qadosh), entronizado entre os louvores de Israel. 4 Nossos pais confiaram em ti; confiaram, e os livraste. 5 A ti clamaram e se livraram; confiaram em ti e não foram confundidos” (Sl 22.3-5).
Da mesma forma, em seu cântico de ação de graças, o salmista expressa a paz e a alegria que procedem dessa confiança: “20 Nossa alma espera no SENHOR, nosso auxílio e escudo. 21 Nele, o nosso coração se alegra, pois confiamos no seu santo (vAdq’) (qadosh) nome” (Sl 33.20-21).
Assim, a santidade de Deus não é uma verdade meramente doutrinária; ela é o fundamento da esperança, da segurança e da alegria do povo de Deus. É nela que encontramos descanso para a alma e direção segura para a vida.
Continuaremos no próximo texto.
Maringá, 01 de julho de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1] O salmista exalta também a Deus considerando a sua salvação: “Vive o SENHOR, e bendita seja a minha rocha! Exaltado seja o Deus da minha salvação” (Sl 18.46/Sl 30.1/Sl 118.28). O salmista sabe que a nossa exaltação ao nome de Deus nada mais é do que o reconhecimento de que Ele é exaltado. Por isso a sua súplica: “Exalta-te, SENHOR, na tua força! Nós cantaremos e louvaremos o teu poder” (Sl 21.13/ Sl 113.4).
[2] Cf. John Piper, Na sala do trono: In: Kathleen B. Nielson; D.A. Carson, orgs. Este é o nosso Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 60-61.
[3] “Sua santidade é sua essência divina totalmente única, transcendente, pura, a qual, em sua singularidade, tem valor infinito. Ela determina tudo quanto ele é e faz e não é determinada por ninguém. A sua santidade é o que ele é como Deus, o que ninguém mais é nem nunca será” (John Piper, Na sala do trono: In: Kathleen B. Nielson; D.A. Carson, orgs. Este é o nosso Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 61).
[4]John Piper, Na sala do trono: In: Kathleen B. Nielson; D.A. Carson, orgs. Este é o nosso Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 61,62.
[5]Leo Strauss, Nicolás Maquiavelo: In: Leo Strauss y Joseph Cropsey, compiladores. Historia de la Filosofia Política, México: Fondo de Cultura Económica, © 1993, 1996 (reimpresión), p. 286.
[6]Xenófanes, Fragmentos, 11-16. In: Gerd A. Bornheim, org. Os Filósofos Pré-Socráticos, 3. ed. São Paulo: Cultrix, 1977, p. 32. Mais tarde, um escritor cristão do segundo século, fazendo uma apologia do Cristianismo – que estava sendo severamente perseguido durante o reinado de Adriano (117-138 AD), a quem destina o seu escrito –, critica o politeísmo grego: “Os gregos, que dizem ser sábios, mostraram-se mais ignorantes do que os caldeus, introduzindo uma multidão de deuses que nasceram, uns varões, outros fêmeas, escravos de todas as paixões e realizadores de toda espécie de iniquidades. Eles mesmos contaram que seus deuses foram adúlteros e assassinos, coléricos, invejosos e rancorosos, parricidas e fratricidas, ladrões e roubadores, coxos e corcundas, feiticeiros e loucos. (…) Daí vemos, ó rei, como são ridículas, insensatas e ímpias as palavras que os gregos introduziram, dando nome de deuses a esses seres que não são tais. Fizeram isso, seguindo seus maus desejos, a fim de que, tendo deuses por advogados de sua maldade, pudessem entregar-se ao adultério, ao roubo, ao assassínio e a todo tipo de vícios. Com efeito, se os deuses fizeram tudo isso, como não o fariam também os homens que lhes prestam culto? (…) Os homens imitaram tudo isso e se tornaram adúlteros e pervertidos e, imitando seu deus, cometeram todo tipo de vícios. Ora, como se pode conceber que deus seja adúltero, pervertido e parricida?” (Aristides de Atenas, Apologia, I.8-9. In: Padres Apologistas, São Paulo: Paulus, 1995, p. 43-45). Para mais detalhes sobre esse assunto, veja-se: Hermisten M.P. Costa, O Pensamento Grego e a Igreja Cristã: Encontros e desencontros, Goiânia, GO.: Cruz, 2022.
[7]A.W. Pink, Os atributos de Deus, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1985, p. 42.
[8]Sproul comentando aspectos de parte dessa passagem, diz: “Deus não plantou indicativos esotéricos ao redor do mundo para que o homem precise de um guru para explicar que Deus existe; em vez disso, a revelação que Deus nos dá a respeito de si mesmo é manifestum – é clara. (…) Vemos claramente, mas não diretamente. (…) O caráter invisível de Deus é revelado por meio das coisas que podem ser vistas. (…) A Bíblia é clara em dizer que a revelação que Deus faz de si mesmo na natureza nos proporciona um verdadeiro conhecimento de seu caráter” (R.C. Sproul, Somos todos teólogos: uma introdução à Teologia Sistemática, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2017, p. 36-37) (Veja-se também: R.C. Sproul, Estudos bíblicos expositivos em Romanos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, p. 36-40).
[9]Cf. R.C. Sproul, A Santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 205. Em outro lugar: “A idolatria representa o insulto máximo a Deus. Reduzir Deus ao nível da criatura é despojá-lo de Sua divindade. Isto Lhe é particularmente odioso em face do fato de todos os homens terem recebido suficiente revelação sobre Ele para saber que não é uma criatura” (R.C. Sproul, Razão para crer, São Paulo: Mundo Cristão, 1986, p. 39).
[10]“…. A beleza não é produto de nossa própria fantasia, nem de nossa percepção subjetiva, mas tem uma existência objetiva, sendo ela mesma a expressão de uma perfeição Divina” (Abraham Kuyper, Calvinismo, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 164). Vejam também: A. Kuyper, Sabedoria e prodígios: graça comum na ciência e na arte, Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 121ss.; 137ss.; Gene Veith, Jr., State of the arts: From Bezalel to Mapplethorpe, Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1991, p. 145-161. É sugestivo o tratamento dado à questão da imitação em Aristóteles, conforme pontua Gilson (E. Gilson, Introdução às artes do Belo – O que é filosofar sobre a arte? São Paulo: É Realizações, 2010, p. 85ss.).
[11]Quando historiadores da arte tratam da arte produzida pelos judeus, é comum a identificação da proibição divina quanto à idolatria (Êx 20.4-6) com uma suposta proibição divina à arte (Como por exemplo, Gombrich: “Na realidade, a Lei judaica proibiu a realização de imagens por temor à idolatria” (E.H. Gombrich, A História da Arte, 16. ed. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos Editora, 1999, p. 127). É possível que a falta de uma maior clareza de interpretação bíblica tenha contribuído para o não desenvolvimento de determinada manifestação artística entre os judeus. Dentro de uma perspectiva mais ampla, devemos entender que a arte na Escritura é proibida apenas como instrumento de idolatria, não como meio de glorificar a Deus por meio do belo: “O fato de que querubins foram bordados no véu interno do Tabernáculo (Êx 26.31), de que as paredes do Templo de Salomão foram esculpidas com figuras de querubins e palmeiras (1Rs 6.29), e de que Tabernáculo e Templo tinham figuras de querubins no propiciatório, dentro do Santos dos Santos, indica que o segundo mandamento não impediu a produção de trabalhos artísticos” (H.G. Stigers, Arte, Artes: In: Merrill C. Tenney, org. ger. Enciclopédia da Bíblia, São Paulo: Cultura Cristã, 2008, v. 1, p. 513). Na mesma linha escreveu Schaeffer: “A Bíblia não proíbe a confecção de arte figurativa e sim sua adoração. Só Deus deve ser adorado. Portanto, o mandamento não é contra a arte, mas contra a adoração a qualquer coisa além de Deus e, especificamente, contra a adoração à arte. Adorar a arte é um erro; produzi-la, não” (Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 20). À frente: “Não é a existência da arte figurativa que é errada, mas o seu uso incorreto” (p. 30).
No Antigo Testamento, encontramos com frequência a ação do Espírito associada à vida intelectual de diversos homens (Vejam-se: Jó 32.8; 35.10,11/Gn 2.7; Êx 31.2-6; 35.31-35; Nm 11.17,25-29; 27.18-21/Dt 34.9). O Espírito é o autor de toda vida intelectual e artística. Nele temos o sentido do belo e sublime como expressão da santa harmonia procedente do Deus Triúno que é perfeitamente Belo em sua Santidade e Majestade. (Vejam-se: Sinclair B. Ferguson, O Espírito Santo, São Paulo: Os Puritanos, 2000, p. 26; C.G. Seerveld, Arte Cristã: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, p. 121).
[12]Veja-se: Henry R. Van Til, O Conceito Calvinista de Cultura, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 127-129.
[13] “…. A beleza não é produto de nossa própria fantasia, nem de nossa percepção subjetiva, mas tem uma existência objetiva, sendo ela mesma a expressão de uma perfeição Divina” (Abraham Kuyper, Calvinismo, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 164). Vejam também: A. Kuyper, Sabedoria e prodígios: graça comum na ciência e na arte, Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 121ss.; 137ss.; Gene E. Veith, Jr. State of the arts: From Bezalel to Mapplethorpe, Wheaton, Illinois: Crossway Books, 1991, p. 145-161. É sugestivo o tratamento dado à questão da imitação em Aristóteles, conforme pontua Gilson (E. Gilson, Introdução às artes do Belo – O que é filosofar sobre a arte? São Paulo: É Realizações, 2010, p. 85ss).
[14]Veja-se: Abraham Kuyper, Sabedoria e prodígios: graça comum na ciência e na arte, Brasília, DF.: Monergismo, 2018, p. 139.
[15] Vejam-se as discussões quanto à origem e melhor tradução da palavra em: C. John Collins, hdr: In: Willem A. VanGemeren, org. Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, v. 1, p. 987-990; Victor P. Hamilton, hadar: In: Laird Harris, et. al. eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 340-342; Derek Kidner, Salmos 1-72: introdução e comentário, São Paulo: Vida Nova; Mundo Cristão, 1980, (Sl 29.2), p. 145.
[16] Veja-se: Joel R. Beeke; Mark Jones, Teologia Puritana: Doutrina para a vida, São Paulo: Vida Nova, 2016, p. 125. “A santidade é, sem dúvida, o mais importante de todos os atributos de Deus” (John MacArthur, Deus: Face a face com sua majestade, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2013, p. 47).
[17] Entre as referências clássicas, destaca-se John Milton Gregory, As sete leis do ensino, 3. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1977, p. 65-72.
Mais recentemente, essa obra recebeu uma edição ampliada, com nova tradução, apêndices e ilustrações: As sete leis do ensino, São Bernardo do Campo, SP: Trinitas, 2025. Esta edição ficou primorosa, oferecendo ao leitor uma apresentação mais completa e enriquecida.
[18]Conforme mencionamos, não deixa de ser elucidativo, que o Shemá (“ouve”) (É a primeira palavra que aparece em Dt 6.4, derivada do verbo ((m$) (Shãma’), “ouvir”, envolvendo normalmente a ideia de ouvir com afeição, entender, obedecer), o “credo judeu” – que consistia na leitura de Dt 6.4-9; 11.13-21 e Nm 15.37-41) –, fosse repetido três vezes ao dia. Lloyd-Jones entende corretamente a importância da repetição, quando diz: “A quintessência do bom ensinar é a repetição” (D. Martyn Lloyd-Jones, As Insondáveis Riquezas de Cristo, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 25). A Lei de Deus envolvia toda a vida do educando; todas as suas necessidades e para sempre; desde a juventude até a velhice: “do berço à sepultura”. Toda a educação cristã começa pela unicidade e essencialidade de Deus. Há somente um Deus; este fato deve ser repetido e assimilado pelos educandos.
[19] R.C. Sproul, A santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 35-36.
[20]Alec J. Motyer, O comentário de Isaías, São Paulo: Shedd, 2016, p. 100.
[21] “Não executarei o furor da minha ira; não tornarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo (vAdq’) (qadosh) no meio de ti; não voltarei em ira” (Os 11.9).
