Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (36)
2. Palavra que é a verdadeira verdade A verdade de Deus é única. − João Calvino (1509-1564).[1] A verdade é o que Deus pensa e diz. − Carl F.H. Henry (1913-2003).[2] Ainda que o mundo inteiro fosse incrédulo, a verdade de Deus permaneceria inabalável e intocável − João Calvino.[3] A verdade é o que…
2. Palavra que é a verdadeira verdade
A verdade de Deus é única. − João Calvino (1509-1564).[1]
A verdade é o que Deus pensa e diz. − Carl F.H. Henry (1913-2003).[2]
Ainda que o mundo inteiro fosse incrédulo, a verdade de Deus permaneceria inabalável e intocável − João Calvino.[3]
A verdade é o que é
Ao que me lembre, a primeira vez que me deparei – ou pelo menos tive consciência − com um conceito de verdade foi quando estava no primeiro ano de Seminário. Em uma das matérias de Filosofia, o professor citou as palavras de Agostinho (354-430): “Verum est id quod est”. Não entendi bem; mas achei a definição interessante.
Décadas depois estudando o assunto, esbarrei com a fonte do dito que, em minha tradução está assim: “O verdadeiro é o que é em si […] é o que é”.[4]
Agostinho estava certo. Se a verdade não fosse o que é, não teríamos parâmetros estáveis para avaliar coisa alguma. Onde não há verdade, não há mentira; não há certo nem errado, nem heresia.[5] Onde não há parâmetros, não existe critérios objetivos de avaliação, classificação, qualidade e direcionamento. Sem a substância essencial verdade, não há como categorizar a realidade.
Desse modo, a verdade seria o que determino dentro de minha esfera de poder o que seja. Negar a verdade pressupõe a posse de algo que considere verdade que me fundamente a emitir tal juízo.[6]
Ainda segundo Agostinho, a verdade foi estabelecida por Deus e o seu fundamento está na própria coisa criada: “A verdade fundamenta-se de modo permanente na razão das coisas e foi estabelecida por Deus”.[7]
Essa definição tem implicações decisivas:
- Epistemológicas: todo conhecimento humano só é possível porque participa da verdade divina.
- Morais: sem verdade, não há critérios objetivos para avaliar condutas.
- Teológicas: conhecer a verdade é entrar em contato com o próprio Deus.
Deus é a Verdade
Sem dúvida, as Escrituras têm como certa de que Deus é a Verdade e que toda verdade procede dele.
O salmista canta com alegria a sua fé:
Os juízos (jP’v.mi) (mishpat) do SENHOR são verdadeiros (tm,a/) (‘emeth). (Sl 19.9).
As tuas palavras são em tudo verdade (tm,a/) (‘emeth) desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos dura para sempre. (Sl 119.160).
Após a aliança de Deus com Davi, o salmista canta louvores ao Senhor, reconhecendo a fidelidade e veracidade de Deus expressas em sua Palavra: “Agora, pois, ó SENHOR Deus, tu mesmo és Deus, e as tuas palavras são verdade (tm,a/) (‘emeth), e tens prometido a teu servo este bem” (2Sm 7.28).
Deus inicia o diálogo conosco por meio do “logos” (Gn 1.1; Jo 1.1) que é a sua Palavra verdadeira. Sem uma revelação verdadeira da verdade (logos), não poderia haver um “diá-logo” verdadeiro já que o seu fundamento estaria amparado em uma mentira ou engano. Em contrapartida No entanto, Deus é sempre leal, íntegro, santo e verdadeiro.
Nossa finitude e o conhecimento possível de Deus
Nossa mente finita não pode abarcar plenamente as perfeições de Deus. Ele transcende nossa capacidade racional, mas, como lembra Hodge (1797-1878), toda revelação pressupõe razão: Deus comunica a verdade à mente humana porque nos criou capazes de recebê-la.[8]
Crer não é aceitar o “incrível”, mas confiar no poder e nas promessas de Deus.[9] Dois pressupostos sustentam nossa epistemologia: a realidade existe e pode ser conhecida. Negar isso é suicídio intelectual, com efeitos espirituais, sociais e morais.
Aliás, dois pressupostos fundamentais de nossa epistemologia são a existência da realidade e a capacidade de conhecer este mundo real. Negar qualquer um deles é comprometer a própria possibilidade do saber. O agnosticismo, nesse sentido, revela-se um verdadeiro suicídio intelectual, cujas consequências se estendem para além da esfera cognitiva: atingem a integridade espiritual, social e moral do ser humano. Sem a confiança na realidade e na possibilidade de conhecê-la, não há parâmetros para discernir, não há critérios para avaliar, não há fundamentos para orientar a vida.[10]
Embora não conheçamos a essência de Deus, podemos conhecê-lo na medida em que Ele se revela. Sua revelação nos mostra facetas de sua natureza eterna − bondade, justiça, santidade, graça e amor. [11]
O nosso Deus é grandioso e incomparável; seus pensamentos são inatingíveis e insondáveis;[12] é o Rei da glória.[13]
Um dos fundamentos da doutrina cristã é a certeza de que cremos em um Deus soberano,[14] e Todo-poderoso[15] que nos ama e se dá a conhecer pessoalmente a nós.
A verdade e a sua essencialidade
A verdade é sempre essencial. O Cristianismo não se sustenta amparado em aparências, circunstâncias e ambiguidades, antes, ele acredita que sua fé é verdadeira, que proclama a verdade e se dispõe a ser examinado à luz da verdade.
A fé cristã se fundamenta na convicção de que sua mensagem é verdadeira − ou não há mensagem relevante a ser proclamada. O Cristianismo não se ocupa com conversas vazias ou jogos de cena para mascarar teses desgastadas e caducas.
Mohler resume:
Como sempre, verdade é a questão essencial. Onde uma noção clara da verdade está ausente, o cristianismo torna-se mais uma atitude do que um sistema de crenças. Contudo a crença sempre pressupõe uma verdade que pode e deve ser conhecida.[16]
Sem a historicidade dos fatos narrados nas Escrituras, não há verdade no Cristianismo.
A historicidade e veracidade do Cristianismo
A situação do homem alienado de Deus é grave demais para suportar paliativos, abstrações ou ficções. No entanto, são essas panaceias que tendemos procurar, até que nos frustremos e novamente reiniciemos nossa peregrinação em busca de sentido para a nossa existência.
A Palavra de Deus é verdadeira em seu diagnóstico e tratamento. O propósito eterno de Deus revela seu amor concreto, manifestado na morte e ressurreição de Cristo. Sem esses eventos históricos, permaneceríamos em nossos pecados, fadados à condenação eterna (Rm 6.23). Por isso, a mensagem cristã é verdadeira e urgente.
O Cristianismo demonstra sua coerência lógica e espiritual por seu compromisso com a verdade. Deus é verdadeiro e se revela pessoalmente. As Escrituras enfatizam essa realidade que dá sentido à existência − aqui e na eternidade.
A banalização da verdade
Bloom (1930–1998), ao analisar o ensino universitário nos anos 1980, observou que “quase todos os estudantes acreditam, ou dizem acreditar, que a verdade é relativa”. Para ele, essa relativização não era apenas uma teoria, mas um postulado moral que sustentava a ideia de sociedade livre.[17]
O pós-modernismo radicalizou essa percepção: se a verdade existe, seria inacessível. Daí o abandono da busca por valores objetivos e a multiplicação de “verdades” subjetivas − cada um vivendo sua própria versão da realidade. Spears confirma essa tendência ao notar que já não se treina alunos para chegar à verdade pela razão, pois o acesso à verdade absoluta parece “tolice”.[18]
Nesse contexto, o Cristianismo soa provocativo ao afirmar conhecer e sustentar a verdade. Por isso, muitas igrejas, pressionadas culturalmente, preferem ocultar suas doutrinas e refugiar-se em experiências subjetivas. No entanto, a Escritura insiste: não é a experiência, mas a Palavra, o fundamento da verdade.[19]
Em contraste com a fragmentação pós-moderna — “minha verdade”, “sua verdade”, “verdade de cada época” − o evangelho proclama uma verdade única, objetiva e eterna, enraizada no próprio Deus.
Já observaram como no campo das ciências sociais evita-se emitir juízo de valor? Fala-se de “fenômeno” − como se fosse possível descrever sem valores epistemológicos. Ingenuidade! Como se fosse possível ter percepção sem uma gama enorme de valores que a referenciam dentro de meu universo epistemológico.[20]
Partindo dessa perspectiva, a verdade passou a ser vista como uma construção. Nesse cenário, não há espaço para absolutos. Como observa Veith Jr.: “Os pós-modernistas rejeitam totalmente a verdade objetiva. A verdade não é uma descoberta feita a partir do mundo externo. Antes, a verdade é uma construção.” [21]
Assim, das reflexões patrísticas à crítica cultural contemporânea, vemos que a verdade cristã não é apenas um conceito filosófico, mas um fundamento que atravessa séculos e confronta cada geração.
As Escrituras tratam de verdade absoluta
As Escrituras proclamam uma verdade absoluta − acessível, verificável e vivenciável. A Palavra de Deus nos desafia a conhecer essa verdade e a vivê-la como expressão de fé, certos de que o propósito divino para o ser humano é sempre perfeito. Sua vontade é boa, perfeita e agradável, como escreve o apóstolo Paulo: “E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12.2).
Devemos estar profundamente comprometidos com a verdade. Ela precisa ser defendida e proclamada com amor e humildade[22] − não apenas por meio de palavras, mas sobretudo por meio de uma cosmovisão que se concretize em nossas ações (Jd 3, 22-23).
Portanto, não podemos simplesmente ignorar as influências do meio em que vivemos, como sabiamente nos alerta MacArthur:
A igreja jamais manifestará seu poder na sociedade, se não recuperar um amor ardente pela verdade e aversão à mentira. O verdadeiro crente não pode fechar os olhos ou negligenciar as influências anticristãs em seu meio, esperando desfrutar das bênçãos de Deus.[23]
Nestas anotações refletimos sobre os limites da nossa percepção, os equívocos de nossos juízos e a fragilidade de nossa compreensão diante da complexidade da realidade. Reconhecemos que, mesmo com sinceridade e boas intenções, somos frequentemente enganados por nossas paixões, condicionamentos e limitações sensoriais e cognitivas.
Essa constatação não deve nos conduzir ao ceticismo, mas à humildade epistemológica − à consciência de que precisamos de referenciais sólidos e confiáveis para conhecer e viver. É nesse ponto que a fé cristã se apresenta não como uma fuga da razão, mas como uma resposta fundamentada na verdade revelada por Deus.
O Cristianismo não se sustenta em construções subjetivas ou em experiências isoladas, mas na historicidade dos atos redentores de Deus, especialmente na morte e ressurreição de Cristo. A verdade, para o cristão, não é uma abstração filosófica, mas uma realidade encarnada, acessível e transformadora.
Em tempos de relativismo e desconstrução, reafirmar a centralidade da verdade é um ato de coragem e fidelidade. A igreja, para ser relevante, precisa recuperar seu compromisso ardente com a verdade − proclamando-a com amor, vivendo-a com integridade e defendendo-a com humildade.
É nesse cenário de fragmentação cultural que o chamado cristão à verdade se torna ainda mais urgente e contracultural.
Como discípulos de Cristo, somos chamados de forma irrevogável a discernir, julgar com justiça, resistir às tentações do engano e viver de modo coerente com a verdade que professamos. Que nossas palavras e ações reflitam essa convicção, e que nossa mente seja continuamente renovada pela Palavra, para que possamos experimentar a boa, perfeita e agradável vontade de Deus. Amém.
O mundo de Platão e a verdade revelada em Cristo
A filosofia de Platão (427–347 a.C.) sustentava que o nosso mundo é apenas um mundo de aparências. O mundo sensível é apenas um reflexo de uma realidade superior, imutável e eterna, da qual o mundo visível não passaria de uma cópia imperfeita. Essa concepção influenciou pensadores posteriores, como Cícero (106–43 a.C.) e Fílon de Alexandria (c. 20 a.C.–c. 42 d.C.).[24]
Se Platão via a verdade como uma realidade superior e abstrata, o cristianismo oferece uma resposta diferente e mais concreta: a verdade não está em abstrações, mas se revela de forma encarnada em Cristo. O Novo Testamento afirma claramente que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17.17).
O termo grego (a)lhqino/j) (alēthinós) (verdadeiro, real) deriva da mesma raiz de (a)lh/qeia)[25] (alētheia) (verdade). Isso indica que para os cristãos, a realidade última não está em ideias abstratas, mas na revelação divina. Cristo se autodesigna como o verdadeiro pão do céu (Jo 6.32), a videira verdadeira (Jo 15.1), enviado pelo Deus verdadeiro (Jo 7.28; 1Ts 1.9; 1Jo 5.20).
No Apocalipse, Ele é chamado de “o verdadeiro” (Ap 3.7, 15; 6.10), e suas palavras são “fiéis e verdadeiras” (Ap 15.3; 16.7; 19.2; 21.5; 22.6). O termo contrasta aquilo que é genuíno e eterno com o que é apenas terreno (Hb 8.2; 9.24), e Deus procura os verdadeiros adoradores (Jo 4.23).
Desse modo, a oração de Jesus nos ensina que a Palavra de Deus é real, não apenas aparentemente, mas de forma absoluta. Se me permitem a expressão, a Palavra de Deus é a “verdadeira verdade”, pois Deus é o padrão final e absoluto para todas as afirmações que se dizem verdadeiras.[26]
A Escritura não é mera aparência ou possibilidade de verdade, mas a realidade objetiva diante da qual todas as coisas devem ser avaliadas. Como bem afirma MacArthur: “As Escrituras não são apenas a verdade inteira, elas são também o mais elevado padrão de toda verdade – a regra pela qual todas as alegações de verdade devem ser medidas”.[27]
Ateísmo prático: viver como se a Palavra fosse uma aparente verdade
Apesar dessa clareza bíblica, muitos cristãos vivem como se a Palavra fosse apenas uma verdade distante, sem relevância para o cotidiano. Esse é o ateísmo prático: professar fé na Bíblia, mas negar sua autoridade na prática.
Quando Jesus declara que a Palavra é a verdade, Ele afirma que ela é válida para todas as esferas da vida: casamento, profissão, educação, vocação, lazer, ética, espiritualidade. Schaeffer resume: “A verdadeira espiritualidade abrange toda a realidade”. [28]
Portanto, não basta apenas confessar a Bíblia como verdade; é necessário aplicá-la em cada dimensão da existência. A incoerência entre fé e prática revela que muitas vezes tratamos a Palavra como se fosse apenas uma “aparência de verdade”.
Não há verdade fora de Deus
Scott observa com precisão: “Não há verdade no sentido bíblico do termo, isto é, verdade válida, fora de Deus. Toda verdade procede de Deus e é verdade porque está relacionada com Deus”. [29]
A sua palavra, portanto, como toda a sua comunicação conosco, fundamenta-se nesta realidade. O Deus da verdade se revela verdadeiramente tal como é em sua essência, se mostrando a nós, ainda que não exaustivamente, mas, proporcionalmente, como de fato é.
O salmista chama o Senhor de “Deus da verdade (tm,a/) (’emeth)” (Sl 31.5; Is 65.16). Jeremias declara: “Mas o Senhor é verdadeiramente (tm,a/) (’emeth) Deus; Ele é o Deus vivo e o Rei eterno” (Jr 10.10). A lei de Deus é descrita como “a própria verdade” (Sl 119.142, 151, 160), [30] e seus mandamentos como “fiéis, dignos de crédito (hn”Wma/) (’emunah)” (Sl 119.86).
A palavra mitsvah (mandamentos) é frequentemente associada à Torah e ao temor do Senhor, sendo usada de modo intercambiável com a própria Lei e com o “temor do Senhor”. (Gn 26.5; Ex 16.28; 24.12; Dt 30.10).
Referindo-se ao “corpo geral da Lei de Deus”,[31] enfatiza as exigências naturais da Aliança feita por Deus com o seu povo, e demonstra a sabedoria adquirida em observá-la, sem nada acrescentar ou omitir: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos (hw”c.mi) (mitsvah); porque isto é o dever de todo homem” (Ec 12.13).
Em outro lugar, escreve o salmista: “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade (tm,a/) (‘emeth) para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” (Sl 25.10).
A realidade última não se encontra em construções humanas ou em abstrações filosóficas, mas na própria essência de Deus revelada em Cristo. Ele é a verdade encarnada, e sua Palavra é o padrão absoluto diante do qual todo conhecimento deve ser avaliado.
A verdade não é autônoma nem relativa; ela procede da natureza de Deus e encontra nele seu fundamento definitivo. Esse caráter absoluto estabelece um critério objetivo para toda avaliação da experiência e do pensamento humano.
A revelação progressiva das Escrituras confirma essa certeza: desde Gênesis até o Apocalipse, a verdade de Deus se manifesta de forma consistente e fiel. Por isso, o crente é chamado a rejeitar o ateísmo prático e, a assumir uma vida coerente com a Escritura em todas as áreas da existência.
Deus procura adoradores que o adorem “em espírito e em verdade” (Jo 4.23). A vida cristã, portanto, não pode ser fragmentada; ela deve ser integral, envolvendo todas as dimensões da experiência humana.
Além disso, a Palavra de Deus é suficiente para orientar o povo em tempos de crise, dúvida ou confusão cultural. É nela que encontramos direção segura e esperança firme
A Palavra como base segura e confiável
Deste modo, a Palavra se constitui em base segura e confiável sobre a qual posso dirigir minha vida. Toda a Palavra do Senhor é igualmente verdadeira, não havendo contradição, sendo ela a própria verdade que permanece, não estando circunscrita a tempos e épocas.
A Palavra de Deus não traz meias-verdades. Ela é a verdade absoluta de Deus para toda a realidade.[32] Só permanece na condição de verdadeiro o que é verdade. A verdade, por proceder de Deus, é eterna.
É por meio dela que conhecemos o caminho de Deus. O salmista, alegando a sua integridade, ora: “Pois a tua benignidade, tenho-a perante os olhos e tenho andado na tua verdade (tm,a/) (‘emeth)” (Sl 26.3).
Suplicar a direção de Deus
Devemos suplicar a Deus no sentido de que nos guie, nos concedendo discernimento no caminho da verdade. É neste propósito que o salmista ora:
Ensina-me, SENHOR, o teu caminho, e andarei na tua verdade (tm,a/) (‘emeth); dispõe-me o coração para só temer o teu nome. (Sl 86.11/Sl 26.3).
Guia-me na tua verdade (tm,a/) (‘emeth) e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem eu espero todo o dia. (Sl 25.5).
Instruído pelo Senhor, o salmista, por graça, escolheu o caminho proposto por Deus: “Escolhi o caminho da fidelidade (hn”Wma/) (‘emunah) e decidi-me pelos teus juízos” (Sl 119.30).
Deus nos guarda misericordiosamente por meio da verdade. Nesse sentido, suplica o salmista: “Não retenhas de mim, SENHOR, as tuas misericórdias; guardem-me sempre a tua graça e a tua verdade (tm,a/) (‘emeth)” (Sl 40.11).
A verdade de Deus é iluminadora, discernindo o caminho por onde devemos caminhar: “Envia a tua luz e a tua verdade (tm,a/) (‘emeth), para que me guiem e me levem ao teu santo monte e aos teus tabernáculos” (Sl 43.3).
Deus tem prazer em nossa integridade
O Senhor, que nos guia pela verdade, se agrada de um coração íntegro e sincero: “Eis que te comprazes na verdade (tm,a/) (‘emeth) no íntimo e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria” (Sl 51.6).
Deus deseja que nos relacionemos com Ele com fidelidade do mesmo modo que Ele se relaciona conosco: A nossa resposta deve ser condizente com a santidade e integridade de Deus (Lv 19.2).
Esta é a palavra de Josué ao povo de Israel: “Agora, pois, temei ao SENHOR e servi-o com integridade e com fidelidade (tm,a/) (‘emeth); deitai fora os deuses aos quais serviram vossos pais dalém do Eufrates e no Egito e servi ao SENHOR” (Js 24.14).
De modo semelhante Samuel instrui ao povo que o rejeitara: “Tão-somente, pois, temei ao SENHOR e servi-o fielmente (tm,a/) (‘emeth) de todo o vosso coração; pois vede quão grandiosas coisas vos fez” (1Sm 12.24).
O Senhor em sua misericórdia, é sensível à oração dos fiéis: “Perto está o SENHOR de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade (tm,a/) (‘emeth)” (Sl 145.18).
Deus nos concedeu o conhecimento de sua verdade não para mera apreensão intelectual, mas para que possamos conduzir nossa vida segundo seus santos preceitos.[33]
Oração e meditação amparadas na fidelidade de Deus
A teologia fundamentada na Palavra é indispensável, pois nos concede verdadeiro conhecimento e orienta nossas decisões.[34]
A experiência do fiel é que sua oração se apoia na fidelidade de Deus, cuja natureza e promessas são absolutamente verdadeiras. Sabemos que Ele é verdadeiro em sua natureza e, por isso mesmo, em todos os seus atos e promessas. É nessa certeza que o salmista ora: “Quanto a mim, porém, SENHOR, faço a ti, em tempo favorável, a minha oração. Responde-me, ó Deus, pela riqueza da tua graça; pela tua fidelidade (tm,a/) (‘emeth) em socorrer” (Sl 69.13).
Enquanto aguardamos com perseverante fé a resposta de Deus, devemos nos alimentar da verdade, acalmando o nosso coração, proclamando-a em nosso testemunho, palavra e louvor a Deus:
Confia no SENHOR e faze o bem; habita na terra e alimenta-te da verdade (hn”Wma/) (‘emunah) (Sl 37.3).
Não ocultei no coração a tua justiça; proclamei a tua fidelidade e a tua salvação; não escondi da grande congregação a tua graça e a tua verdade (tm,a/) (‘emeth) (Sl 40.10).
Eu também te louvo com a lira, celebro a tua verdade (tm,a/) (‘emeth), ó meu Deus; cantar-te-ei salmos na harpa, ó Santo de Israel (Sl 71.22).
A santidade de Deus garante que sua verdade não muda; por isso, o louvor é confiante e jubiloso. Devemos magnificar a Deus considerando, inclusive, a sua verdade. Davi o fez com inteireza de coração diante dos “deuses” da terra. A nossa obediência a Deus tomando como princípio diretor a sua Palavra é um indicativo significativo de a quem de fato servimos e honramos. Testemunha o salmista:
1Render-te-ei graças, SENHOR, de todo o meu coração; na presença dos poderosos (~yhil{a/) te cantarei louvores. 2 Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade (tm,a/) (‘emeth), pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra. (Sl 138.1-2).
Quando nos alimentamos da verdade, podemos caminhar em segurança, fortalecemos o nosso coração, nos enchendo de esperança proveniente da Palavra.
Assim procedendo, estamos declarando de forma prática e confiante que o Senhor é o nosso Pastor. Ele nos guia verdadeiramente, por meio da verdade, à Verdade.
Maringá, 21 de Julho de 2026.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
[1] João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos,1998, (1Tm 1.3), p. 28.
[2] Carl F.H. Henry, O Resgate da Fé Cristã, Brasília, DF.: Monergismo, 2014, p. 60.
[3] João Calvino, Gálatas, São Paulo: Paracletos, 1998, (Gl 2.2), p. 48-49.
[4] Sto. Agostinho, Solilóquios, São Paulo, Paulinas, 1993, II.5.8. p. 76-77.
[5] Veja-se: John Sittema, Coração de Pastor, São Paulo: Cultura Cristã, 2004, p. 76.
[6] “Por consequência, quem quer que duvide da existência da verdade, possui em si mesmo, algo verdadeiro, de onde tira todo fundamento para a sua dúvida. Ora todo verdadeiro, só é verdadeiro pela verdade. Não possui, pois, o direito de duvidar da existência da verdade aquele que de um modo ou outro chegou à dúvida […]. Não é o ato de reflexão que cria as verdades. Ele somente as constata. Portanto, antes de serem constatadas, elas permaneciam em si, e uma vez constatadas essas verdades nos renovam” (Sto. Agostinho, A Verdadeira Religião, São Paulo: Paulinas, 1987, XXXIX.73. p. 108).
[7] Sto. Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo: Paulinas, 1991, II.33. p. 140-141.
[8]“A razão é necessariamente pressuposta em toda a revelação. Revelação é a comunicação da verdade à mente. […] A comunicação da verdade pressupõe a capacidade de recebê-la. Não se podem fazer revelações a brutos e irracionais”. (Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 37). Nesse sentido, ensinara Calvino: “Exatamente como se dá com pessoas idosas, ou enfermas dos olhos, e tantos quantos sofram de visão embaçada, se puseres diante delas mesmo um vistoso livro: ainda que reconheçam ser algo escrito, mal poderão juntar duas palavras; ajudadas, porém, pela interposição de lentes, começarão a ler de forma distinta. Assim, a Escritura, coletando-nos na mente conhecimento de Deus que de outro modo seria confuso, dissipada a escuridão, mostra-nos com límpida clareza o Deus verdadeiro.” (João Calvino, As Institutas, [2022], I.6.1).
[9] Veja-se: Charles Hodge, Teologia Sistemática, São Paulo: Hagnos, 2001, p. 39.
[10] “Primária e fundamental, para a epistemologia revelacional, é a afirmação de que o homem pode ter um conhecimento verdadeiro da realidade. Nenhuma forma de agnosticismo é consistente com qualquer forma de cristianismo” (Cornelius Van Til, Epistemologia Reformada, Natal, RN.: Nadere Reformatie Publicações, 2020, v. 1, p. 7).
[11] Vejam-se: John M. Frame, A Doutrina de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 168, 175ss.; João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Edições Paracletos, 1997, (Rm 1.19), p. 64.
[12]“O conselho do SENHOR dura para sempre; os desígnios (hb’v’x]m;) (machashabah) do seu coração, por todas as gerações” (Sl 33.11). “Quão grandes (ld;G”) (gadal), SENHOR, são as tuas obras! Os teus pensamentos (hb’v’x]m;) (machashabah) (desígnios, intentos) que profundos!” (Sl 92.5).
[13] “7Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória. 8Quem é o Rei da Glória (dAbK’) (kabod)? O SENHOR, forte e poderoso, o SENHOR, poderoso nas batalhas. 9Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória (dAbK’) (kabod). 10Quem é esse Rei da Glória (dAbK’) (kabod)? O SENHOR dos Exércitos, ele é o Rei da Glória (dAbK’) (kabod)” (Sl 24.7-10).
[14] “33Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos! 34 Quem, pois, conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? 35 Ou quem primeiro deu a ele para que lhe venha a ser restituído? 36 Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Rm 11.33-36).
[15] “No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada” (Sl 115.3). “Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos” (Sl 135.6). “… O meu conselho permanecerá de pé, farei toda a minha vontade” (Is 46.10). “Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). “Nele (Jesus Cristo), digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Ef 1.11).
[16]Albert Mohler, O desaparecimento de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 11-12.
[17] Alan Bloom, O Declínio da Cultura Ocidental, 3. ed. São Paulo: Best Seller, 1989, p. 29.
[18]Paul Spears, Introdução à Filosofia. In: Paul Spears, et. al. Fundamentos Bíblicos e Filosóficos da Educação, São Paulo: Associação Internacional de Escolas Cristãs-Brasil, 2004, p. 13. “Ao criar uma crise epistemológica, os questionamentos pós-modernistas rejeitam até a possibilidade da verdade, histórica ou qualquer outra” (Clyde P. Greer, Jr. Refletindo honestamente sobre a história: In: John F. MacArthur, Jr. ed. ger. Pense Biblicamente!: recuperando a visão cristã do mundo, São Paulo: Hagnos, 2005, [p. 397-439], p. 411).
[19]Quanto a isso, veja o inquietante livro: David F. Wells, Coragem para ser Protestante, São Paulo: Cultura Cristã, 2010. “Hoje vivemos numa igreja que se incomoda menos com a verdade que com qualquer artigo. O amor à verdade não é nem mesmo uma virtude: é um defeito, porque a verdade divide as pessoas. A verdade causa controvérsia. A verdade causa debate. A verdade causa transtorno aos relacionamentos. A verdade crucifica pessoas. Jesus afirmou: ‘Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz’ (Jo 18.37)” (R.C. Sproul, Oh! Como amo a tua lei. In: Don Kistler, org. Crer e Observar: o cristão e a obediência, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, [p. 11-23], p. 19).
[20]Ver: Hermisten M.P. Costa, Raízes da teologia contemporânea, São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
[21]Gene Edward Veith, Jr. De todo o teu entendimento, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 55-56. “Esta é a verdade que, brutal e insistentemente, é-nos lançada em rosto: “a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração” (Hb 4.12). Poderia alguém argumentar realmente que essa verdade pode ser mantida longe de nós só porque somos pós-modernos?” (David F. Wells, Coragem para ser Protestante, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 81).
[22]Veja-se: Joshua Harris, Ortodoxia humilde: defendendo verdades bíblicas sem ferir as pessoas, São Paulo: Vida Nova, 2013, p. 21.
[23]John F. MacArthur Jr. Introdução do Editor: In: John F. MacArthur Jr. ed. Ouro de Tolo? Discernindo a Verdade em uma Época de Erro, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2006, p. 11.
[24] Veja-se: Platão, A República, 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1993), 382e; 499c; 522a; Platão, Timeu, São Paulo: Hemus, [s.d.], 22d.
[25] Veja-se: A.C. Thiselton, Verdade: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1983, v. 4, p. 708-711.
[26] “O relativismo é uma revolta contra a realidade objetiva de Deus. A existência de Deus cria a possibilidade da verdade. Deus é o padrão essencial e final para todas as afirmações da verdade. Quem Ele é, o que Ele quer, o que Ele diz é o padrão externo e objetivo para medirmos todas as coisas. Quando o relativismo diz que não há qualquer padrão de verdade válido universalmente, fala como um ateísta” (John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 150).
[27]John F. MacArthur, Jr. Princípios para uma Cosmovisão Bíblica: uma mensagem exclusivista para um mundo pluralista, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 49.
[28]Francis A. Schaeffer, Um manifesto cristão. In: Francis A. Schaeffer, A igreja no século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 166. Em outro lugar: “A Verdadeira espiritualidade significa o senhorio de Cristo sobre o homem todo” (Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 17).
[29]Jack B. Scott, Aman: In: R. Laird Harris, et. al. eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 87.
[30]“Tu estás perto, SENHOR, e todos os teus mandamentos são verdade (tm,a/) (‘emeth)” (Sl 119.151). “As tuas palavras são em tudo verdade (tm,a/) (‘emeth) desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos dura para sempre” (Sl 119.160).
[31] E. Calvín Beísner, Psalms of Promise: Celebrating the Majesty and Faithfulness of God, 2. ed. Phillipsburg, NJ.: P. & R. Publishing, 1994, p. 35.
[32] “A verdade é o que corresponde à maneira em que as coisas realmente são” (Verdade, natureza da: Norman Geisler, Enciclopédia de Apologética: respostas aos críticos da fé cristã, São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 863).
[33]“O fim para o qual Deus deu a sua verdade não foi somente para a instrução de nossas mentes, mas muito mais para a transformação de nossas vidas” (Albert N. Martin, As Implicações Práticas do Calvinismo, São Paulo: Os Puritanos, 2001, p. 9-10).
[34] Veja-se: Johannes Wollebius, Compêndio de Teologia Cristã, Eusébio, CE.: Peregrino, 2020, p. 24.
