Sexo, raça e criação não são assuntos desconectados
É desorientador viver em uma comunidade cristã nos Estados Unidos [e em outros tantos países] nos dias de hoje. Pessoas que concordam sobre Jesus, leem as mesmas Escrituras e confessam os mesmos credos divergem de forma acentuada sobre as questões morais de maior peso do nosso tempo, especialmente em torno da sexualidade, da injustiça racial…
É desorientador viver em uma comunidade cristã nos Estados Unidos [e em outros tantos países] nos dias de hoje. Pessoas que concordam sobre Jesus, leem as mesmas Escrituras e confessam os mesmos credos divergem de forma acentuada sobre as questões morais de maior peso do nosso tempo, especialmente em torno da sexualidade, da injustiça racial e do cuidado com o mundo criado. O problema não é apenas que os cristãos chegam a conclusões diferentes entre si, mas que, em geral, parecemos estar navegando pelo mundo com mapas bem diferentes.
O que é particularmente desconcertante é a sensação de que, muitas vezes, as conversas sobre sexualidade, injustiça racial e cuidado com o mundo criado revelam mais a filiação política do que o raciocínio bíblico e teológico de alguém. Por exemplo, o Pew Research Center mostra que as atitudes dos cristãos em relação à mudança climática se alinham mais estreitamente com a identidade partidária deles do que com seus compromissos confessionais. Com o tempo, a identidade partidária (com seu respectivo “pacote” de prioridades) molda cada vez mais não apenas os julgamentos individuais, mas também a nossa percepção de quais conclusões morais naturalmente estão interligadas.
Quero propor um mapa diferente, um mapa que recupere uma compreensão antiga e bíblica do corpo e de sua relação com o mundo. As Escrituras falam consistentemente dos corpos como elementos participativos — tanto formados por aquilo de que compartilham quanto moldados pelos poderes aos quais se submetem. O corpo é a forma como as pessoas estão ligadas umas às outras, ao mundo em que habitam e a qualquer senhor a quem sirvam. Visto desta forma, o corpo fornece uma estrutura unificadora para o raciocínio moral cristão.
Grande parte da nossa confusão moral começa com uma forma de entender o corpo que nos parece óbvia, mas que não se ajusta bem à forma como as Escrituras falam sobre a vida em um corpo. Tendemos a tratar o corpo como algo privado e autossuficiente. O corpo é algo que possuímos, em vez de algo que nos situa dentro de relações que não escolhemos e das quais não podemos escapar.
Essa forma de imaginar o corpo não é natural nem inevitável. A vida ocidental moderna nos condiciona para que nos vejamos como indivíduos autônomos, isolados uns dos outros e do mundo em que habitamos. Nossos instintos sobre liberdade, responsabilidade e dano são moldados por essa herança, de modo que a vida no corpo parece algo fundamentalmente privado.
Paulo pressupõe algo muito diferente. Repetidamente, ele descreve a existência humana como participativa — uma existência vivida em Cristo ou em Adão, dentro da velha criação ou da nova (1Coríntios 15.35-50). O corpo é o meio pelo qual as pessoas se unem umas às outras, são inseridas no mundo criado e se submetem a formas concorrentes de domínio.
No mundo antigo, os corpos se expandiam em escala. Uma pessoa poderia ser um corpo, mas também uma família, uma cidade, um povo, até um planeta — cada um deles um todo vivo, ordenado dentro de uma realidade criada mais ampla. Paulo assume que os corpos humanos estão inseridos nessas redes maiores de relacionamentos — esses outros “corpos”. Os corpos humanos são porosos e conectados, moldados por práticas compartilhadas, vínculos sociais e poderes espirituais. Pertencer a um corpo não é uma metáfora para associação; é uma aceitação do quanto a vida é combinatória e é uma descrição de como a vida realmente funciona.
Assim, Paulo fala sobre práticas comuns — como comer, adorar e reunir-se — de maneiras que rejeitam os pressupostos modernos. Quando ele escreve: “nós, que somos muitos, somos um só corpo, pois todos participamos de um único pão”, ele assume que os corpos reunidos em torno da mesa tornam-se um só corpo através daquilo que compartilham (1Coríntios 10.17). Os cristãos não podem “participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios”, porque entregar o corpo a uma prática significa estar ligado e ser moldado pelo poder que está por trás dela (v. 21). Os corpos, então, não são apenas locais de conexão, mas também o lugar onde a lealdade é formada e exercida.
Dados esses pressupostos antigos, a fala frequente de Paulo sobre “corpos” não soa mais como uma metáfora vaga, mas como uma forma coerente de ver o mundo. Ele pode falar do “corpo de Cristo”, do “corpo do pecado” ou do “corpo da morte” porque os corpos são onde as vidas estão unidas sob um governo comum — Cristo, ou o pecado e a morte (Romanos 6.6, 7.24).
Este é o mundo pressuposto pela declaração contundente de Paulo: “vocês não são de vocês mesmos” (1Coríntios 6.19). A frase é frequentemente ouvida como uma restrição moral. Na verdade, ela nomeia uma realidade bíblica anterior: corpos sempre já pertencem a algum lugar e a alguém. A única questão não é se os nossos corpos são reivindicados, mas por quem são reivindicados. Não existem corpos neutros.
A ressurreição de Jesus dá à visão de Paulo sobre o corpo todo o seu peso ético. Deus ressuscitou Jesus corporalmente dos mortos e uniu os corpos dos crentes ao Seu corpo glorificado, estabelecendo um novo senhorio que alcança a vida encarnada agora (Romanos 6.1-14). O que acontece no corpo e através dele agora dá testemunho de qual poder realmente governa e para onde o próprio mundo está indo.
Essa visão fornece à ética cristã o seu mapa. A questão não é mais simplesmente “O que devo fazer?”. Em vez disso, é: “A que estou sendo unido? Que tipo de vida está me moldando? E que história meu corpo está sendo treinado para contar?”.
Se a visão bíblica do corpo pode parecer abstrata, a prática sexual a torna concreta. Paulo aplica ao sexo a mesma lógica participativa que ele aplica a comer, ao culto e à vida comunitária. Ao abordar a prática de visitar prostitutas nos templos, ele lembra aos crentes que seus “corpos são membros de Cristo” (1Coríntios 6.15). Unir o próprio corpo a outro é tornar-se “uma só carne” (v. 16), ligando o que pertence a Cristo a uma lealdade rival. Da mesma forma, a única razão pela qual um cônjuge crente pode permanecer unido sexualmente a um cônjuge descrente é que o cônjuge descrente foi santificado por meio do casamento (7.14). A união sexual nunca é meramente física ou privada.
Os debates cristãos contemporâneos sobre comportamento sexual muitas vezes deixam de fora este ponto de partida. Em alguns contextos — especialmente naqueles moldados por movimentos de abstinência —, a prática sexual torna-se um marcador visível de santidade pessoal. Em outros, é tratada como uma questão privada de identidade ou desejo, que é mais bem abordada através da afirmação e da discrição pessoal. Apesar das diferenças, ambas as abordagens tendem a pressupor que o sexo diz respeito ao indivíduo — a como o desejo é ordenado, expresso ou afirmado.
Paulo começa por outro ponto. Quando aborda o comportamento sexual, ele não começa pelo desejo, pela identidade ou pelas fronteiras sociais. O ponto de partida de Paulo é o que os corpos são e de quem são. Os atos sexuais não são escolhas isoladas, mas formas de participação que moldam a vida da comunidade.
É por isso que Paulo responde de forma tão contundente ao homem que dormia com a mulher do próprio pai (1Coríntios 5). O que preocupa Paulo não é a gestão de um escândalo, mas a formação comunitária: “um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada” (v. 6). Aquilo em que um corpo participa não permanece no campo privado; espalha-se por todo o conjunto.
A questão, portanto, não é se um ato parece certo ou não, mas sim se ele faz com que a igreja esteja mais perto de Cristo ou se a deixa exposta a poderes que negociam com o pecado e a morte. Na visão de Paulo, a ética sexual não trata de gerenciar o desejo ou de sinalizar virtude. Trata-se de como os corpos participam na vida compartilhada, comum — e a quais poderes essa participação serve.
Uma vez que os corpos sejam compreendidos como realidades participativas, as implicações não podem ser confinadas apenas à ética sexual. Elas se estendem para o mundo em que os corpos habitam e do qual dependem. Falar de vida em um corpo é falar da criação.
A linguagem de Paulo torna essa conexão inevitável. Os corpos que agora pertencem a Cristo — nossos corpos mortais — ainda são formados do pó da terra (1Coríntios 15.47), sujeitos à decadência e sustentados pelas mesmas condições materiais. É por isso que Paulo pode falar da própria criação gemendo junto com corpos humanos, aguardando juntos a libertação (Romanos 8.22-23). O destino da vida humana no corpo e o destino do mundo estão ligados porque, por enquanto, compartilham da mesma condição de corrupção e da mesma esperança.
Se os corpos são realidades participativas inseridas na criação de Deus, então o cuidado com o mundo criado não é uma causa abstrata. É uma questão de como a vida no corpo é sustentada e compartilhada. O que acontece com a terra, o ar e a água molda inevitavelmente os corpos que dependem deles — especialmente os corpos dos pobres, dos vulneráveis e daqueles com menos poder para se protegerem dos danos ambientais.
Visto desta forma, o desrespeito pelo mundo criado não é apenas uma falha de mordomia. É uma contradição da confissão cristã. Afirmar a ressurreição do corpo enquanto trata o mundo material como algo descartável é viver como se a decadência, e não Cristo, tivesse a palavra final sobre a vida no corpo, a vida encarnada.
O cuidado com a criação, portanto, não é uma questão de sinalização moral ou de alinhamento político. É uma questão de lealdade e de testemunho. Tal cuidado questiona se as práticas que adotamos para o corpo entregam o mundo que habitamos ao senhorio de Cristo que dá vida ou se o deixam cativo a padrões de extração e de negligência que pertencem à velha criação. A questão não é se os cristãos devem “se importar com o meio ambiente”, mas se a nossa vida no corpo dá testemunho do senhorio do Cristo ressurreto sobre o mundo que sustenta a todos nós.
As implicações para a raça são imediatas. O racismo não é primeiramente uma ideia, mas sim uma prática que manipula, controla e viola corpos. Ta-Nehisi Coates deixa isso claro, quando enquadra a vida como um homem negro na América do Norte como uma luta sobre como se deve viver dentro de um corpo negro. Em seus escritos, ele retoma o corpo como local de vulnerabilidade e ameaça. O racismo, insiste ele, não é meramente social ou simbólico. É visceral. Ele “desaloja cérebros, bloqueia vias aéreas, rasga músculos, extrai órgãos, quebra ossos”. Independentemente de como a chamemos — justiça, privilégio, relações — a realidade atinge, com força, o corpo.
Coates expõe algo que repercute profundamente a forma como Paulo fala sobre pecado e salvação. Paulo não trata o cativeiro como uma abstração. Ele o localiza na vida em um corpo. O pecado reina nos corpos. A morte opera através dos membros. E a redenção, quando vem, cria raízes no mesmo lugar onde a escravidão foi suportada.
É por isso que Paulo fala com tanta urgência sobre a divisão dentro da igreja. Quando as comunidades se fraturam ao longo de linhas de status, etnia ou poder, o problema não é apenas social ou político. Em Cristo, judeus e gentios foram feitos um só corpo, e sua hostilidade foi morta através da cruz (Efésios 2.14-16). Essa unidade é uma afronta pública aos poderes que prosperam na dominação e na exclusão. Tolerar a divisão dos corpos não é simplesmente falhar na justiça; é negar o senhorio de Cristo sobre o Seu corpo.
A reivindicação de Paulo não para na fronteira da igreja. O reinado de Cristo estende-se a cada corpo humano. A forma como os corpos são tratados — protegidos ou expostos, acolhidos ou restringidos — dá testemunho de quem realmente reina. Desonrar um corpo é, na prática, negar o direito de Cristo sobre ele.
Os cristãos não estão simplesmente presos entre a esquerda e a direita política ou lutando para encontrar um meio-termo sensato. Muitas vezes, nós estamos navegando com o mapa errado em mãos. Paulo não nos pede para refinar nossas posições dentro da ordem presente. Ele anuncia que um novo mundo já foi revelado em Cristo e que nosso corpo está sendo reivindicado por ele agora.
Quando essa visão volta a entrar em foco, as questões sobre sexualidade, raça e criação não aparecem mais como debates desconectados. Elas ganham nitidez como expressões entrelaçadas de uma só vida no corpo. O que fazemos com nossos corpos — como os unimos, os protegemos e os situamos no mundo — dá testemunho de em quem acreditamos que realmente reina.
O trabalho da ética cristã, portanto, consiste em aprender a viver, juntos, como corpos reunidos sob o senhorio do Cristo ressurreto — dando testemunho, das formas mais comuns e físicas, da vida do mundo que já está começando a surgir.
Kyle Wells é pastor titular da Christ Presbyterian Church em Santa Barbara, Califórnia. Ele escreve sobre teologia bíblica e ética cristã tanto para a igreja quanto para a academia.
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