Os benefícios do tédio estão desaparecendo
Embora qualquer momento seja bom para “deixar o velho para trás e abraçar o novo”, o início de um novo ano oferece uma página de calendário fresca, na qual podemos traçar as mudanças que esperamos implementar em nossa vida. Pesquisas relatam que a maioria dos norte-americanos foca em resoluções de Ano Novo voltadas para mudanças…
Embora qualquer momento seja bom para “deixar o velho para trás e abraçar o novo”, o início de um novo ano oferece uma página de calendário fresca, na qual podemos traçar as mudanças que esperamos implementar em nossa vida. Pesquisas relatam que a maioria dos norte-americanos foca em resoluções de Ano Novo voltadas para mudanças na vida que têm a ver com o físico, com o corpo — comer melhor, fazer mais exercícios, comprar menos e socializar mais —, mas as onipresentes tecnologias digitais são obstáculos ao nosso sucesso, desde o primeiro dia.
Mike Cosper, do The Bulletin, podcast da Christianity Today, sentou-se com a historiadora e autora Christine Rosen para conversar sobre essa tensão entre a vida da qual necessitamos e a vida para a qual a tecnologia nos atrai. Também falaram sobre disciplinas como a necessidade de desacelerar, de praticar a paciência e de optar por relacionamentos encarnados, em vez de virtuais. A seguir estão trechos editados dessa conversa do episódio 138.
O que você, como historiadora, acha que está entrando em extinção em nossa cultura, e como esse desaparecimento tem acontecido?
Quando meus filhos estavam treinando a escrita e a caligrafia, nos primeiros anos escolares, notei quão pouco tempo era gasto ensinando-lhes a escrita cursiva. Eu sempre lutei com a caligrafia, por ser canhota, e me perguntei: Será que esse esforço [para ter uma letra legível] é uma habilidade valiosa para os meus filhos?
Minha geração costumava aceitar algumas experiências como algo inevitável, coisas como interagir com as pessoas face a face, esperar com paciência sem precisar ser entretido, ter capacidade de fazer coisas com as próprias mãos. Não havia muitas alternativas para isso. Hoje, uma vasta gama de experiências digitais está suplantando as antigas formas que fazíamos as coisas.
Da infância até a idade adulta, nós formamos hábitos. Alguns deles são individuais, mas muitos deles são culturais e sociais. As perguntas que me movem são: “Como a retirada da experiência tátil e corpórea muda a forma como entendemos o mundo ao nosso redor?”; “Como a tecnologia mudou a maneira como desenvolvemos nossos hábitos mentais?”; “Como ela mudou a maneira como resolvemos problemas e as perguntas que fazemos?”. E, à luz dessas questões, o que vale a pena preservar? Quais coisas podemos estar abraçando rápido demais, sem nos fazer perguntas importantes sobre os custos de oportunidade envolvidos?
Carregamos dispositivos junto conosco para onde quer que vamos. Eles são parte íntima de nossa vida diária, de uma forma que as tecnologias anteriores nunca foram. Temos que fazer perguntas mais difíceis sobre isso e estabelecer limites mais rígidos, pois toda tecnologia é feita para se infiltrar na vida diária.
Porque somos humanos e gostamos de confiar nesses objetos e em todas as informações neles contidas, começamos a buscar por sabedoria neles, e não só por informação. Olhamos para eles para que façam julgamentos por nós, e não só para que nos forneçam opções ou conveniência. Essas são questões sobre valor e virtude. Não é isso que a tecnologia deveria fazer por nós ou para nós, mas acho que é algo que, muitas vezes, permitimos que ela fizesse. E isso não é bom para nós.
Qual é o apelo dessa mediação de um dispositivo para nós?
Há tanto a conveniência e as facilidades proporcionadas pela tecnologia quanto a presunção de que toda a informação do mundo está disponível na ponta dos nossos dedos. Essas tecnologias surgiram ao mesmo tempo em que a sociedade estava se tornando mais desconfiada, solitária e secular. Nossa desconfiança nas instituições nos faz sair à procura de respostas fáceis, mas os desafios de fato giram em torno da natureza humana.
Hoje, quer estejamos cercados por estranhos no ônibus, quer estejamos sentados em uma reunião de trabalho ou com nossos entes queridos ao redor de uma mesa, quando começamos a nos sentir desconfortáveis, podemos nos distanciar mental e emocionalmente. E isso tem consequências.
Quando não tínhamos essa opção, tínhamos que aprender aquelas habilidades humanas de “como lidar” [com essas situações], como as crianças costumavam dizer. Não podíamos escapar disso. Agora que podemos escapar, nos vemos fazendo isso o tempo todo. Todos somos propensos a fazer isso.
Como a internet e os mecanismos de busca são governados pela receita publicitária, uma coisa resta clara: agora, somos nós o produto. Os dispositivos são projetados por pessoas que sabem como a mente humana funciona e o que deve ser feito para que queiramos sempre mais. Monetizar nossa atenção é o objetivo. Não importa se essa atenção é positiva, negativa, odiosa ou feliz. Como somos criaturas falhas, tendemos a sentir impaciência, raiva, medo, ansiedade — coisas que realmente alimentam respostas comportamentais desagradáveis online. Isso vale para toda a internet? Claro que não. Mas, com o tempo, por meio da passividade, nos deixamos entregar demais a esse tipo de coisa.
Teóricos e tecnólogos do Vale do Silício já estão tentando implementar uma utopia tecnológica que sobrepõe um mundo virtual ao mundo real. O argumento deles é que a realidade virtual é algo maravilhoso, visto que o mundo real é difícil demais para muitas pessoas. Assim, um mundo virtual dá mais controle a essas pessoas.
No entanto, tentar escapar de nossa realidade física cultiva certas antivirtudes. O controle é uma ilusão: ele é criado pelas pessoas que criam as plataformas. Essa visão do futuro é profundamente doentia e desumana, e também protototalitária, pois dá muito poder a um grupo pequeno, formado por indivíduos que criam um mundo no qual muitos devem viver com pouco controle.
Muitos teóricos argumentam que podemos reconstruir de maneira diferente os caminhos que nos conectam, sem que haja tantos efeitos colaterais negativos. Estou otimista de que podemos entrar em uma nova era, na qual questões estruturais e de design possam passar para o primeiro plano, e atender às necessidades e às experiências humanas.
Mas ainda vivemos em um corpo físico e, um dia, esse corpo ficará fraco ou doente. Os corpos das pessoas que amamos também ficarão fracos ou doentes. Então, o que devemos às outras pessoas? Não podemos viver guiados por nossos caprichos. Temos que viver pautados em compromissos e na confiança. Temos dívidas uns para com os outros, se formos uma comunidade saudável.
Como poderíamos encarar de forma diferente a questão da espera em nossa vida cotidiana?
Alguns anos atrás, percebi que, sempre que eu tinha um momento livre, enquanto estava esperando o ônibus ou em alguma fila — ou apenas um tempo entre uma atividade e outra —, eu pegava meu celular e olhava para ele. Então, entrava na internet e perdia tempo com isso. Esses minutos vão se acumulando ao longo de um dia, de uma semana e de uma vida inteira.
O tempo entre uma atividade e outra, ou seja, esse intervalo, na verdade, é um tempo bastante valioso. Ele permite que seu cérebro descanse do excesso de estímulos. Ele permite que sua mente divague e, quem sabe, encontre uma ideia nova. E também nos ensina alguma forma de paciência.
Quando você escala isso para centenas de milhões de pessoas que preenchem cada momento de inatividade ou de tédio com entretenimento, você está cultivando uma população que tem uma vasta impaciência cultural — e não apenas de uns com os outros, mas também uma impaciência para resolver questões difíceis na política ou na vida comunitária. Você pode perceber como isso ganha escala.
Será que o que eu quero é que as pessoas fiquem sentadas e entediadas o tempo todo? Não, mas o tédio de fato nos ensina algumas coisas. Ele ensina uma espécie de disciplina mental. Ensina uma aceitação de que você nem sempre pode controlar o ambiente à sua volta e permite que sua mente tenha o tempo de repouso de que precisa, em um mundo onde você é constantemente bombardeado com estímulos e informação.
A disponibilidade da tecnologia também cria uma mentalidade em que se espera que sejamos produtivos em momentos de nossa vida em que talvez não devêssemos ser. Nosso tempo de lazer tornou-se agora algo que medimos e gerenciamos, e no qual queremos nos sentir produtivos. O movimento de automonitoramento [self-tracking, ou seja, a prática de usar medições e coleta de dados realizadas pela própria pessoa sobre si mesma] foi o pontapé inicial disso para muita gente. É claro que isso pode ser útil para quem está tentando atingir certos objetivos físicos ou alcançar metas de condicionamento físico ou algo do gênero.
Essa ideia de que deveríamos nos tornar mais parecidos com máquinas em nosso comportamento — “tenho 15 minutos; tenho que fazer aquele aplicativo, aquela postagem; tenho que responder a todos os meus e-mails” — nos dá uma sensação de eficiência, porque conseguimos fazer o que devemos. Em alguns países, no entanto, os trabalhadores se rebelaram contra seus empregadores, dizendo que não se pode enviar um e-mail depois das 18h, porque estavam completamente sobrecarregados e esgotados, sofrendo de burnout, e não tinham mais uma separação clara entre seu mundo de trabalho e seu mundo privado.
Todos nós precisamos de limites. Precisamos desse tempo nos “bastidores” em que podemos relaxar, estar com as pessoas, com nossa família e não ter que nos preocupar em ser produtivos. Esse impulso por produtividade também é algo que não permite a contemplação e o descanso. E essas são coisas que os seres humanos precisam também. Precisamos de tempo para essas coisas.
Em que aspectos você se sente encorajada pelo fato de as pessoas reconhecerem suas necessidades como seres encarnados?
O que mais me encoraja é que as pessoas estão simplesmente dispostas a serem mais céticas e a fazerem mais perguntas, antes de adotarem novas tecnologias. Digo isso com toda sinceridade: devemos defender ativamente aquilo que faz parte da existência humana.
Por exemplo, pode ser que um dia queiram introduzir um sensor embutido nos smartphones, que monitore nossa frequência cardíaca e a resposta galvânica da pele [método para medir a condutividade elétrica da pele em resposta a certos estímulos], para que isso nos dê informações sobre o nível da nossa ansiedade. Agora, imagine que você estivesse conversando com alguém e o smartphone começasse a avisar que você está ansioso; ora, isso poderia levar você a eliminar essa pessoa da sua vida, por causa desse feedback.
E se essa pessoa com quem você estava conversando fosse seu melhor amigo? Amigos às vezes são irritantes mesmo. Mas será que precisamos terceirizar e externalizar nossas próprias intuições, nossas próprias experiências emocionais, para máquinas, para algoritmos, para o nosso smarthphone? É neste ponto que devemos parar e avaliar.
O mesmo acontece com as crianças e os idosos, pessoas nos estágios mais vulneráveis da vida, onde há uma grande pressão para terceirizarmos seus cuidados e sua alimentação para a tecnologia. Será mesmo que os idosos precisam ser monitorados por robôs, câmeras e sensores, para que cuidadores ausentes possam ser alertados em caso de queda? Não, esse trabalho é nosso como seres humanos. Devemos isso uns aos outros.
Meus maravilhosos amigos libertários me repreendem por ser pessimista em relação ao rumo que alguns desses horizontes tecnológicos estão tomando. Eles dizem: “Você está sendo ranzinza. Está sendo reacionária demais”.
Mas eu sempre digo para eles: olhem para o que os teóricos do Vale do Silício pensam sobre os seres humanos. Os seres humanos são frequentemente descritos como obstáculos para o maior projeto deles. Eles falam sobre a humanidade, mas raramente falam sobre pessoas. Eu me importo com pessoas. Acho que devemos nos importar com pessoas. Nossa regra de ouro deveria ser a interação humana, pois é isso que a maioria das pessoas realmente deseja e precisa.
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