Correndo atrás do Coelho: temor dos homens e a desordem do coração em Alice no País das Maravilhas

Icônica. É assim que defino aquela cena em que Alice vê o Coelho Branco apressado e aflito, repetindo: “Estou atrasado! Estou atrasado!”. Seja na animação original, seja na adaptação de 2010, é dessa inquietação que toda a narrativa da obra homônima de Lewis Carroll se desenrola. Alice não entra no País das Maravilhas por convicção,…

Icônica. É assim que defino aquela cena em que Alice vê o Coelho Branco apressado e aflito, repetindo: “Estou atrasado! Estou atrasado!”. Seja na animação original, seja na adaptação de 2010, é dessa inquietação que toda a narrativa da obra homônima de Lewis Carroll se desenrola. Alice não entra no País das Maravilhas por convicção, propósito ou missão; ela entra porque decide correr atrás da ansiedade de outro.

Antes de aprofundar essa reflexão, quero registrar algo pessoal: quando mais nova, eu nunca entendia muito bem a história de Alice. Tudo me soava estranho. Apesar de ser extremamente lúdica e visualmente encantadora, eu não conseguia me identificar com o que via. Havia algo desconexo, quase desconfortável.

Só recentemente compreendi o motivo. O enredo, os personagens e até mesmo o cenário são, na verdade, a personificação de temas profundamente presentes e, ouso dizer, dolorosamente comuns, na vida adulta.

O Coelho, por exemplo, não é apenas um personagem excêntrico. Ele encarna a pressa constante, a urgência sufocante e a desordem interior. Vive ansioso. É governado pelo tempo, pelo medo de falhar e pelo receio de desagradar uma autoridade maior — no caso da história, a Rainha.

É precisamente nesse ponto que a narrativa deixa de ser apenas fantasia e passa a dialogar com uma realidade profundamente humana: o temor dos homens. Um temor que, muitas vezes invisível na infância, torna-se cada vez mais perceptível e dominante na vida adulta. Escancarando os ídolos do nosso coração.

Sob uma cosmovisão reformada, entendemos que o coração humano é o centro das motivações, desejos e medos (Pv 4.23). O problema fundamental do homem não é externo, mas interno: trata-se de um coração desordenado pelo pecado, que teme aquilo que não deveria temer e ama aquilo que não deveria amar.

O Coelho Branco vive escravizado pelo medo. Ele não teme a Deus; teme a Rainha. Não é guiado pela verdade, mas pela pressão. Sua identidade é moldada pelo desempenho e pelos prazos. Ele representa a alma governada por expectativas externas. A Escritura é clara: “O temor do homem arma laços” (Pv 29.25). O Coelho vive preso nesses laços.

Mas, afinal, onde Alice entra nisso?

Ao seguir o Coelho, ela é arrastada para um mundo onde tudo é instável: tamanhos mudam, regras se alteram, a lógica se dissolve. O ambiente caótico simboliza o resultado de uma vida orientada por referenciais deslocados. Quando o coração não está ancorado em Deus, a realidade se torna confusa.

Mais uma vez, percebemos como uma obra considerada “infantil” reflete a mente moderna: nada é fixo, nada é plenamente seguro, nada é absoluto. É a arte imitando a vida.

Para mim, é isso que torna Alice no País das Maravilhas muito mais do que uma fantasia literária. A história se torna um retrato da nossa condição caída. Ao rejeitar o Criador, perdemos nossa referência última e passamos a viver em distorção. Mergulhamos em um estado de desorientação e afobação, como o Coelho, em sua eterna corrida contra o tempo, revelando um coração ansioso e temeroso.

Mas o grande conflito do coração humano não é entre coragem e medo, mas entre dois temores: o temor dos homens e o temor de Deus.

O Coelho teme a Rainha. Alice teme o desconhecido. Os demais personagens temem perder posição. Mas nenhum deles demonstra temor reverente diante de uma autoridade justa e santa.

O temor de Deus não é paralisante; é libertador. Quando Deus ocupa o lugar central, os demais temores perdem seu poder. Quem teme ao Senhor não vive escravizado pela aprovação humana. Bem diferente das idolatrias ocultas que a ansiedade que marca nossa geração frequentemente revela: aprovação, produtividade, controle, imagem.

Lewis Carroll talvez não pretendesse escrever uma alegoria espiritual, mas sua obra permite um diálogo profundo com o homem contemporâneo. O País das Maravilhas é um mundo em que a verdade é fluida, a identidade é instável, a autoridade é tirânica e o tempo é opressor. Não soa familiar?

A narrativa expõe, ainda que involuntariamente, a desorientação de uma humanidade que perdeu sua referência.

Talvez a pergunta central não seja por que o Coelho corre, mas por que Alice o segue. Quantas vezes nossa própria ansiedade nasce por corrermos atrás das urgências do mundo? Quantas vezes mergulhamos em realidades caóticas porque adotamos como nossos os medos alheios?

A resposta bíblica não é negar a existência do tempo, das responsabilidades ou das pressões. É reorganizar o coração. O evangelho nos chama a algo radicalmente diferente do Coelho Branco: “Buscai primeiro o Reino de Deus” (Mt 6.33).

Afinal, quando o Reino é prioridade, o relógio perde seu poder. Quando Deus ocupa o centro, a ansiedade perde seu domínio. Quando o temor é redirecionado ao Senhor, o temor dos homens perde seus laços.

Talvez maturidade espiritual seja, em parte, aprender a não correr atrás do Coelho; mas descansar naquele que governa o tempo, o coração e a História.

Gabriela Cesario é produtora e editora de texto do Brasil Presbiteriano e Coordenadora de Marketing da Cultura Cristã

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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