Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 63

C. Lutero e o ensino obrigatório Zuínglio e a Prophezei Quando pensamos nos grandes mestres da Reforma, um nome que merece destaque é o de Ulrico Zuínglio (1484–1531), reformador de Zurique. Em certa ocasião, recebeu uma carta de um de seus brilhantes ex-alunos, Valentine Tschudi (1499–1555),[1] na qual este escreveu sobre o mestre: “Você me…

C. Lutero e o ensino obrigatório

Zuínglio e a Prophezei

Quando pensamos nos grandes mestres da Reforma, um nome que merece destaque é o de Ulrico Zuínglio (1484–1531), reformador de Zurique. Em certa ocasião, recebeu uma carta de um de seus brilhantes ex-alunos, Valentine Tschudi (1499–1555),[1] na qual este escreveu sobre o mestre: “Você me ofertou não apenas livros, mas também a si mesmo”.

Tschudi, que havia estudado em Viena e Basileia sob a orientação de renomados eruditos, acrescentou: “Não encontrei ninguém que pudesse explicar os autores clássicos[2] com tanta perspicácia e profundidade como você”.[3] Em outro momento, chegou a designá-lo de “um deus tutelar para nós”.[4]

Zuínglio fundou em Zurique, em 1525, uma escola pública de teologia chamada Prophezei, destinada a preparar os alunos para os estudos bíblicos e ministeriais. Essa instituição tornou-se precursora de escolas semelhantes em Berna e Lausane,[5] consolidando-se como um marco na formação teológica reformada.

Zuínglio além de amplo conhecimento e habilidade de ensino, procurava estar próximo de seus alunos, ouvir, falar, instruir e ser instruído.[6]

 

Lutero e sua constatação

Entre 22 de outubro de 1528 e 9 de janeiro de 1529, durante suas viagens pela Saxônia Eleitoral e por Meissen, Lutero decidiu escrever um Catecismo. Ao explicar a razão dessa decisão, fez observações importantes sobre a situação da Igreja de seu tempo.

Constatou que muitos pastores eram incapazes de ensinar corretamente as verdades da fé, e que o povo, em geral, permanecia em grande ignorância quanto às Escrituras e às doutrinas fundamentais do cristianismo. Diante desse cenário, percebeu a necessidade urgente de oferecer uma instrução clara, simples e acessível.

A lamentável e mísera necessidade experimentada recentemente, quando também eu fui visitador, é que me obrigou e impulsionou a preparar este catecismo ou doutrina cristã nesta forma breve, simples e singela. Meu Deus, quanta miséria não vi! O homem comum simplesmente não sabe nada da doutrina cristã, especialmente nas aldeias. E, infelizmente, muitos pastores são de todo incompetentes e incapazes para a obra do ensino. […] Não sabem nem o Pai-Nosso, nem o Credo, nem os Dez Mandamentos.[7] (grifos meus).

Recuemos um pouco.

 

Lutero e as bases da Escola Pública

Ao contrário do Humanismo, que concentrou suas propostas sobretudo na esfera universitária, a Reforma ampliou seu alcance e promoveu mudanças significativas também na educação fundamental. O objetivo era claro: oferecer às crianças uma formação sólida e verdadeira, capaz de unir conhecimento intelectual e instrução cristã.

Lutero lançou as bases da moderna escola pública e do ensino obrigatório, e sua tradução das Escrituras desempenhou papel decisivo nesse processo. Como observa Giles (1937-2009): “Pode-se afirmar que a Bíblia de Setembro de 1522 é um fato de repercussões incalculáveis na história religiosa dos Estados germânicos, além de servir de base para todo um processo de alfabetização.” [8]

Segundo Luzuriaga (1889-1959), “A Reforma […] organiza a educação pública não apenas no grau médio, ampliando a ação dos colégios humanistas da Renascença, mas também, e pela primeira vez, com a escola primária pública.”[9]

Lutero insistiu junto às autoridades na criação de escolas voltadas tanto para a formação secular quanto para a instrução religiosa. Nesse contexto, destaca-se a atuação de Melanchthon (1497-1560), conhecido como o “preceptor da Germânia”,[10] que desempenhou o papel de verdadeiro Ministro da Educação de Lutero.[11]

Além disso, a Reforma fez amplo uso da imprensa como instrumento de instrução dos fiéis. Fischer observa: “Sempre defendendo a divulgação da palavra impressa, a Alemanha liderou a alfabetização europeia no século XVI.”[12] O fator religioso, portanto, tornou-se decisivo como estímulo à alfabetização e à difusão do conhecimento. [13]

 

Lutero, a criação e modernização das Escolas

Na carta “Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs”, escrita em 1524, Lutero não apenas denuncia o descaso em relação às escolas e o esvaziamento das universidades,[14] mas também ressalta a importância de renovar a educação. Ele defende o estudo do alemão e de outros idiomas,[15]  a adoção de métodos pedagógicos mais eficazes[16] e a criação de boas bibliotecas[17] como instrumentos fundamentais para a formação intelectual e espiritual da sociedade. Sobre esses aspectos, afirma:

Em minha opinião, nenhum pecado exterior pesa tanto sobre o mundo perante Deus e nenhum merece maior castigo do que justamente o pecado que cometemos contra as crianças, quando não as educamos […]. Para ensinar e educar bem as crianças precisa-se de gente especializada.[18]

Por isso vos imploro a todos, meus caros senhores e amigos, por amor de Deus e da pobre juventude, que não considereis esta causa [criação de escolas e verba para educação] de somenos importância, como o fazem muitos que não enxergam a intenção do príncipe do mundo. Pois se trata de uma causa séria e importante, da qual muito depende para Cristo e para o mundo, que ajudemos e aconselhemos a juventude […]. Anualmente é preciso levantar grandes somas para armas, estradas, pontes, diques e inúmeras outras obras semelhantes, para que uma cidade possa viver em paz e segurança temporal. Por que não levantar igual soma para a pobre juventude necessitada, sustentando um ou dois homens competentes como professores?[19]

O progresso de uma cidade não depende apenas do acúmulo de grandes tesouros, da construção de muros de fortificação, de casas bonitas, de muitos canhões e da fabricação de muitas armaduras […]. Muito antes, o melhor e mais rico progresso para uma cidade é quando possui muitos homens bem instruídos, muitos cidadãos ajuizados, honestos e bem educados. Estes então também podem acumular, preservar e usar corretamente riquezas e todo tipo de bens.[20]

Ora, não sou da opinião de que se deva criar escolas iguais às que existiram até agora, onde um menino se ocupa vinte, trinta anos com Donato e Alexandre,[21] sem nada ter aprendido.[22] O mundo hoje é diferente, e as coisas são feitas de outro modo. Minha ideia é a seguinte: Os meninos devem ser enviados a estas escolas diariamente por uma ou duas horas e, não obstante, fazer o serviço em casa, aprender um ofício ou para o que sejam encaminhados, para que as duas coisas andem juntas enquanto são jovens e podem dedicar-se a isso. Do contrário, gastam dez vezes mais tempo com jogos de bolinhas, jogar bola, corridas e lutas.[23]

A ênfase dada por Lutero à educação decorre diretamente de sua visão teológica. Esse aspecto torna-se ainda mais evidente no Prefácio do Catecismo Menor (1529), onde ele reforça a necessidade de instruir as crianças e os fiéis de maneira clara e sistemática. Para Lutero, a educação não era apenas um instrumento de formação intelectual, mas sobretudo um meio de fortalecer a fé e garantir que cada pessoa tivesse acesso ao conhecimento das Escrituras. Assim, o ensino se apresentava como parte integrante da vida cristã, indispensável para a compreensão da Palavra de Deus e para a edificação da comunidade. Lutero insiste que autoridades e pais têm obrigação moral e espiritual:

 Aqui também deves insistir particularmente com as autoridades e os pais, para que governem bem e levem os filhos à escola, mostrando-lhes por que é sua obrigação fazê-lo e que pecado maldito cometem se não o fazem. Pois com isso, derrubam e assolam tanto o reino de Deus como o reino do mundo, como os piores inimigos de Deus e dos homens. E frisa bem que horrível dano causam, se não cooperam na educação de crianças para serem pastores, pregadores, notários, etc., de sorte que por isso Deus lhes há de infligir medonho castigo. Pois é necessário pregar sobre essas coisas. Os pais e governantes pecam nisso agora de maneira indizível. O diabo também leva de mira algo de cruel com isso.[24]

Deste modo, o Evangelho traz também uma implicação essencial para a educação dos filhos. A instrução é valorizada “tanto no reino de Deus como no reino do mundo”.[25]

Em 1530, em um sermão, Lutero reafirmou a importância da educação ao atribuir ao Estado a responsabilidade de assegurar que todas as crianças frequentassem a escola.  Para ele, a instrução não deveria ser apenas iniciativa da Igreja ou das famílias, mas uma tarefa pública, essencial para o fortalecimento da fé e para a formação de cidadãos capazes de compreender e viver de acordo com a Palavra de Deus. Essa perspectiva reforça o caráter inovador da Reforma, que vinculava a educação ao bem comum e à vida comunitária, antecipando princípios que mais tarde se tornariam fundamentais na organização da escola pública moderna.

Em minha opinião, porém, também as autoridades têm o dever de obrigar os súditos a mandarem seus filhos à escola, especialmente aqueles aos quais me referi acima. Pois na verdade é dever dela preservar os ofícios e estados supramencionados, para que no futuro possamos ter pregadores, juristas, pastores, escritores, médicos, professores e outros, pois não podemos prescindir deles. Se podem obrigar os súditos capazes de carregar lanças e arcabuzes, escalar os muros e outras coisas mais que devem ser feitas em caso de guerra, quanto mais podem e devem obrigar os súditos a mandarem os filhos à escola. Porque aqui se trata de uma guerra pior, a guerra contra o enfadonho diabo, cujo propósito é sugar solapadamente cidades e principados, esvaziando-os das pessoas capacitadas, até retirar o cerne, deixando apenas uma casca vazia de pessoas inúteis, as quais pode manipular e usar a seu bel-prazer.[26]

O pedagogo Paul Monroe (1869-1947), ao escrever em 1907 sobre “As Escolas Elementares nos países protestantes”, destacou o impacto da Reforma na organização da educação básica. Em sua análise, Monroe enfatiza que o movimento reformista não apenas transformou a vida religiosa, mas também estabeleceu fundamentos duradouros para a escola primária pública, tornando a instrução elementar uma responsabilidade social e estatal. Sua reflexão evidencia como a Reforma contribuiu para consolidar a alfabetização e ampliar o acesso ao conhecimento, criando um modelo educacional que influenciaria gerações posteriores.

O primeiro Estado a adotar o princípio da educação obrigatória para crianças de todas as classes foi Weimar, em 1619. Determinava que todos os meninos e meninas frequentassem a escola dos 6 aos 12 anos. Deve-se ao Duque Ernesto o Piedoso, de Gotha, mais do que a qualquer outro governante, a fundação do sistema moderno das escolas alemãs. Em 1642 ele adotou, para as escolas do ducado, um regulamento que, substancialmente, é semelhante ao dos Estados alemães atuais. Exigia-se a frequência, desde a idade de 5 anos, de todo menino e menina da província. O ano escolar tinha a duração de 10 meses e as crianças eram obrigadas a frequentar a escola todos os dias úteis da semana. O horário era das 9 às 12 horas e de 1 às 4, todos os dias da semana, exceto as tardes de quarta e sábado, que eram livres. Os pais eram multados pela falta de frequência de seus filhos.[27]

As disciplinas oferecidas nas escolas reformadas incluíam leitura, escrita, religião, música sacra e latim, seguindo adaptações do sistema elaborado por Melanchthon em 1528. Essa organização curricular refletia a preocupação da Reforma em unir formação intelectual e espiritual, garantindo que os alunos tivessem acesso tanto ao saber humanista quanto ao ensino religioso.

Monroe conclui sua análise afirmando: “Nenhum outro povo chegou, mesmo aproximadamente, ao aperfeiçoamento dos Estados alemães em assuntos de educação.”[28] Essa observação evidencia o impacto profundo da Reforma na consolidação de um modelo educacional que se tornaria referência para toda a Europa.

 

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa

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[1] Tschudi, que de certa forma frustrou Zuínglio − pois este acreditava que ele poderia liderar a Reforma na pequena Glarus, próxima a Zurique − nunca aderiu de fato à causa protestante, nem abandonou a Igreja Romana. Era um moderado. Sua teologia e modo de vida refletiam uma síntese à maneira de Erasmo (Cf. Bruce Gordon, The Swiss Reformation, Manchester: Manchester University Press, 2002, p. 98-99).

[2]Não devemos esquecer que Zuínglio foi um admirador dos clássicos. Na juventude, seguiu as ideias de Erasmo, a quem conheceu em 1516 e com quem manteve correspondência (Cf. Ewerton B. Tokashiki, Hulrich Zwingli: A origem intelectual da Reforma Suíça, Eusébio, CE.: Peregrino, 2021, p. 20-21). Contudo, entre 1519 e 1520, abandonou parcialmente essas concepções, descreu do programa humanista e da visão pelagiana de Erasmo, passando a sustentar a total depravação do homem e a convicção de que a salvação só seria possível mediante a transformação operada por Cristo (Cf. Bengt Hägglund, História da Teologia, Porto Alegre, RS.: Casa Publicadora Concórdia, 1973, p. 219; Roger Olson, História da Teologia Cristã, São Paulo: Editora Vida, 2001, p. 409).

Timothy George observa que “o desenvolvimento inicial de Zuínglio foi moldado por dois fatores que continuaram a influenciar seu pensamento por toda a sua carreira: o patriotismo suíço e o humanismo erasmiano” (Teologia dos Reformadores, p. 111). Hägglund complementa: “Apesar de sua perspectiva reformada, Zuínglio nunca abandonou seu ponto de vista humanista” (História da Teologia, p. 220). Quanto à sua relação com Erasmo, veja-se Bruce Gordon, The Swiss Reformation, Manchester: Manchester University Press, 2002, p. 233–255.

Conforme já destacamos, Zuínglio escreveu seus trabalhos em menos de dez anos, raramente tendo tempo de revisar seus sermões antes da publicação (Cf. Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 119ss.). Conhecia profundamente o grego, copiando com destreza as Epístolas de Paulo e a Epístola aos Hebreus a partir da edição do Novo Testamento Grego de Erasmo (1516) (Cf. Philip Schaff, History of the Christian Church, v. 8, p. 31). Bullinger relata que Zuínglio chegou a memorizar em grego todas as Epístolas paulinas (Cf. Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 113).

De fato, Zuínglio foi um humanista profundamente entusiasmado pela literatura grega e latina (Cf. Jean H. Merle D’Aubigné, For God and His People: Ulrich Zwingli and the Swiss Reformation, Greenville, South Carolina: BJU Press, 2000, p. 13-14). Para um estudo mais aprofundado de seu pensamento, com documentos inéditos em português acompanhados de notas esclarecedoras, a obra do Rev. Tokashiki constitui excelente fonte de pesquisa (Hulrich Zwingli: A origem intelectual da Reforma Suíça, Eusébio, CE.: Peregrino, 2021).

[3]Jean H. Merle D’Aubigné, For God and His People: Ulrich Zwingli and the Swiss Reformation, Greenville, South Carolina: BJU PRESS, 2000, p. 13.

[4] J.J. Hottinger, The Life and Times of Ulric Zwingli (Illustrated Edition), Harrisburg: Published By Theo. F. Scheffer, 1856 (E-Book), Local 283 de 6432.

[5]A Prophezei (ou Prophezey) foi fundada em 1525 por Ulrico Zuínglio no Grossmünster (“Grande Mosteiro” de Zurique) como uma escola bíblica pública dedicada ao estudo das Escrituras em hebraico, grego e latim. Aberta ao povo, tornou-se centro de tradução e interpretação, responsável por grande parte da preparação da Bíblia de Zurique (Froschauer Bible, 1531).

Nessa escola, pela manhã, Zuínglio liderava um grupo de teólogos e leigos em um círculo de exegese bíblica que trabalhava na tradução da Bíblia. Esse esforço resultou na chamada Froschauer Bible, impressa em suas várias edições em Zurique por Christoph Froschauer (c. 1490–1564), o primeiro grande impressor da cidade e colaborador próximo de Zuínglio. Publicadas entre 1524 e 1589, essas edições em alemão suíço foram conduzidas por Zuínglio e sua equipe na Prophezei. A tradução utilizava a versão de Lutero sempre que disponível, mas, para os Profetas, recorreu à tradução dos anabatistas Ludwig Haetzer (c. 1500-1529) e Hans Denck (c. 1495-1527). (Veja-se: Bruce Gordon, The Swiss Reformation, Manchester: Manchester University Press, 2002, p. 240-243).

A edição de 1531 é considerada a mais importante, destacando-se pela tipografia clara, decoração pictórica e pela inclusão de mapas. Tornou-se a Bíblia padrão da Reforma em Zurique e em grande parte da Suíça, consolidando a teologia de Zuínglio e contribuindo para a formação da identidade religiosa e cultural suíça.

Após a morte de Zuínglio, Heinrich Bullinger (1504-1575) reorganizou a instituição em 1532, garantindo sua continuidade. A Universidade de Zurique, oficialmente fundada em 1833, reconhece a Prophezei como sua raiz intelectual. Em 2025, comemorou os seus 500 anos de organização. Cf. UNIVERSITÄT ZÜRICH. Von Zwingli bis Einstein – 500 Jahre Wissenschaft in Zürich. UZH News, 2025. Disponível em: https://www.uzh.ch (Consultado em 01.03.2026). A saudação da presidente do Conselho da Igreja, Reverenda Dra. Esther Straub, no auditório da Universidade de Zurique, é significativa. Disponível em: https://www.1525.uzh.ch/de/wirkungen/festakt/grusswort_straub.html (Consultado em 01.03.2026).

[6] Veja-se: Phil A. Newton, Formação de Líderes na Igreja Local, São Paulo: Cultura Cristã, 2023, p. 91-95.

[7]M. Lutero, Catecismo Menor: In: Martinho Lutero, Os Catecismos, Porto Alegre; São Leopoldo, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, p. 363.

[8] T.R. Giles, História da Educação, São Paulo: EPU., 1987, p. 119.

Ainda que não possamos esperar muito em termos históricos já que a perspectiva da autora é sociológica, temos alguns dados relevantes e insights que podem ser úteis a respeito da relação entre pedagogia, tipografia e protestantismo na Alemanha nos séculos XV e XVI.  Carmen Luke, em sua obra de grande impacto (Pedagogy, Printing, and Protestantism: The Discourse on Childhood, New York: State University of New York Press, 1989, 171p.), demonstra como a invenção da imprensa atuou como catalisador cultural, não apenas difundindo ideias religiosas, mas também transformando práticas sociais e pedagógicas, ao criar novas formas de disciplinar e educar crianças. Inspirada em Michel Foucault (1926-1984), Luke argumenta que a infância passou a ser construída discursivamente como um período que exigia vigilância, disciplina e instrução, especialmente dentro da lógica protestante. Nesse contexto, a campanha impressa de Lutero, centrada na leitura da Bíblia, impulsionou a defesa da escolarização pública universal, uma vez que a alfabetização era considerada requisito fundamental para a nova teologia. A pedagogia protestante, por sua vez, vinculava a educação infantil à formação moral e espiritual, reforçando a ideia de que a infância deveria ser moldada para servir à comunidade cristã reformada.

Luke destaca ainda a intersecção entre tecnologia e religião, mostrando como a imprensa e a “ideologia” protestante se entrelaçaram na criação de uma nova cultura pedagógica que redefiniu tanto a infância quanto o papel da escola. Em síntese, a autora sustenta que a infância, tal como entendida na modernidade ocidental, foi em grande parte uma construção discursiva da Reforma Protestante, viabilizada pela imprensa. A alfabetização e a escolarização tornaram-se centrais não apenas para fins religiosos, mas também como instrumentos de disciplina e de formação social das novas gerações.

[9]Lorenzo Luzuriaga, História da Educação e da Pedagogia, 17. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1987, p. 108-109. Franco Cambi não compartilha da ideia de que Lutero foi o iniciador da Escola Pública (Franco Cambi, História da Pedagogia, São Paulo: Editora UNESP., 1999, p. 250). Sem que queiramos tornar este assunto uma bandeira em nossas anotações, chamamos a atenção para o fato de que Van Halsema reivindica o pioneirismo da escola pública primária a Genebra, em 1535. (Veja-se: Thea B. Van Halsema, João Calvino era Assim, p. 69. Consulte também: André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 222). N. Abbagnano; A. Visalberghi, observam: “Também no aspecto pedagógico teve a reforma protestante uma importância decisiva, entre outras razões porque com ela se delineia pela primeira vez, em termos concretos, o problema da instrução universal, volta necessária pela exigência de que todo cristão deve estar em condições de ler as Sagradas Escrituras” (N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía, p. 253).

[10]Esse designativo aplicado a Melanchthon é repetido continuamente por diversos autores. Possivelmente foi criado pelo erudito humanista, discípulo e amigo de Melanchthon, Johann Camerarius, o Velho (1500-1574), que se tornou o primeiro biógrafo do reformador. Sua obra, De vita Philippi Melanchthonis narratio (Hallae: Sumtibus Ioannis Jacobi Gebaveri, originalmente composta em 1560 e difundida mais amplamente pela edição de 1777, é considerada a principal fonte para a consolidação da imagem de Melanchthon como o “Praeceptor Germaniae”.

A expressão aparece, entre outros, em: Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 8, p. 260; Herrlinger; Max Landerer, “Melanchthon”, in: Philip Schaff, ed. Religious Encyclopaedia: or Dictionary of Biblical, Historical, Doctrinal, and Practical Theology, Chicago: Funk Wagnalls, Publishers, 1887 (Revised Edition), v. 2, p. 1461; Paul Monroe, História da Educação, 11. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 179; Lorenzo Luzuriaga, História da Educação Pública, p. 8; Franco Cambi, História da Pedagogia, São Paulo: Editora UNESP, 1999, p. 250.

Monroe destaca que Melanchthon, ao redigir em 1528 os Regulamentos Escolares da Saxônia, “tornou-se o fundador do sistema escolar do Estado moderno” (História da Educação, p. 180). Já na presidência da Universidade de Wittenberg, ele “exigiu que os professores ensinassem de acordo com o Credo Apostólico, o Credo de Niceia, o Credo de Atanásio e a Confissão de Augsburgo” (Hayward Armstrong, Bases da Educação Cristã, Rio de Janeiro: JUERP, 1992, p. 62).

Convém lembrar que a Confissão de Augsburgo foi escrita pelo próprio Melanchthon, com a colaboração de Johann Camerarius, em 1530. Camerarius auxiliou na redação e organização do documento, especialmente na parte linguística e estilística, já que era um filólogo de grande competência. Sua contribuição consistiu sobretudo em apoio intelectual e editorial, ajudando a dar forma ao texto que se tornaria a base da teologia luterana. A presença de Camerarius reforça o caráter humanista da Confissão, que buscava unir clareza teológica e precisão literária.

[11] Cf. Ruy A. da Costa Nunes, História da Educação no Renascimento, São Paulo: EPU; EDUSP., 1980, p. 101.

[12]Steven R. Fischer, História da Leitura, São Paulo: Editora UNESP., 2006, p. 206.

[13] Veja-se: José Andrés-Gallego, História da Gente Pouco Importante: América e Europa até 1789, Lisboa: Editorial Estampa, 1993, p. 101-107.

[14] M. Lutero, Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs: In: Ilson Kayser, ed. ger. Martinho Lutero: Obras Selecionadas, São Leopoldo; Porto Alegre, RS.: Sinodal; Concórdia, 1995, v. 5, [p. 302-325], p. 303.

[15] Idem., Ibidem., p. 310ss.

[16] Idem., Ibidem., p. 322ss.

[17] Idem., Ibidem., p. 322ss.

[18] Idem., Ibidem., p. 307 e 308.

[19] Idem., Ibidem., p. 305.

[20]M. Lutero, Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs: In: Ilson Kayser, ed. ger. Martinho Lutero: Obras Selecionadas, v. 5, [p. 302-325], p. 309.

[21]Nas escolas medievais e renascentistas, algumas obras tornaram-se fundamentais para o ensino. Entre elas destacam-se a Ars Grammatica, de Élio Donato (Aelius Donatus), gramático romano do século IV, e o Doctrinale Puerorum, do franciscano Alexandre de Villedieu, escrito no século XIII. Donato, mestre de São Jerônimo (347−420) − tradutor da Bíblia para o latim, concluída em 405 após 23 anos de trabalho e posteriormente conhecida como Vulgata (Cf. Sylvain Auroux, A Revolução Tecnológica da Gramatização, Campinas: Editora da UNICAMP, 1992, p. 45; Hermisten M.P. Costa, Inspiração e Inerrância das Escrituras, 2. ed., São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 53-55) − exerceu influência duradoura na formação intelectual cristã.

A importância de Donato pode ser medida pelo fato de que sua obra foi utilizada por séculos como manual básico de gramática latina, inclusive na formação de Tomás de Aquino (1225–1274) (Cf. Gerald L. Gutek, Historical and Philosophical Foundations of Education, 3. ed., Columbus, Ohio: Merrill Prentice Hall, 2001, p. 60). Não é irrelevante notar que uma das primeiras obras impressas na Itália, por volta de 1464, foi justamente a de Donato − embora nenhum exemplar tenha sobrevivido −, provavelmente a mesma mencionada por Lutero.

Do mesmo modo, o Doctrinale Puerorum alcançou enorme difusão, com impressionantes 279 edições entre os séculos XV e XVI (Cf. Hipólito Escolar, Historia del Libro, p. 300, 319, 365-366). A obra de Donato, por sua vez, era adotada em “todas as universidades da Europa” (Cf. António José Saraiva, História da Cultura em Portugal, Lisboa: Jornal do Fôro, 1950, v. 2, p. 114). Como testemunho de sua relevância, estima-se que a imprensa de Gutenberg tenha produzido ao menos 16 edições da obra de Donato antes mesmo de imprimir a célebre Bíblia de Gutenberg (Cf. D.C. McMurtrie, O Livro: Impressão e fabrico, 2. ed., Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, [1982], p. 168).

Sem dúvida, a obra de Donato foi decisiva para a educação medieval e renascentista, servindo por séculos como base para o ensino do latim e consolidando-se como um dos pilares da tradição escolar europeia.

[22] Lindsay, certamente aludindo a esta passagem de Lutero, observa que o Reformador tinha em mente um sistema que favorecia a vida dissoluta dos estudantes universitários da época (Cf. T.M. Lindsay, La Reforma en su Contexto Histórico, p. 68-69; de forma mais tênue, ver Jacques Le Goff, Por Amor às Cidades, p. 66-67). Nesse sentido, Lutero antecipa algumas críticas que, séculos mais tarde, Luís Antônio Verney (1713-1792) dirigiria ao sistema pedagógico português do século XVIII.

Verney, padre português de ascendência francesa, formado no Colégio de Santo Antão e nos Estudos Menores oratorianos, bacharel em Artes pela Universidade de Évora (1730) e licenciado em Filosofia (1736), foi profundamente influenciado pelo Iluminismo. Suas obras causaram grande impacto no sistema educacional português, especialmente o célebre Verdadeiro Método de Estudar, no qual se opôs à tradição escolástica e denunciou a decadência do ensino jesuítico.

Uma de suas críticas mais contundentes dizia respeito ao ensino do latim. Para Verney, assim como se aprendia inglês e francês por meio do português, o latim também deveria ser ensinado com explicações na língua vernácula. Essa proposta confrontava diretamente a Gramática Latina do jesuíta Manuel Álvares (1526-1583), escrita integralmente em latim e considerada excessivamente complexa. A polêmica se intensificou porque, desde 1729, os Oratorianos − que vinham ganhando espaço no campo pedagógico português − também criticavam a gramática de Álvares, tendo como principal expoente o padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797). Isso gerou uma disputa com os Jesuítas, já que a Ratio Studiorum recomendava a obra de Álvares.

No fundo, além da praticidade da proposta de Verney, havia uma tentativa de valorizar a língua portuguesa. Como observa Laerte Ramos de Carvalho, “o ensino do latim por intermédio da língua vernácula, que se transformou num dos pontos fundamentais da reforma pombalina dos estudos menores, fora preconizado pelos pedagogos franceses que seguiram os ensinamentos de Comenius” (As Reformas Pombalinas da Instrução Pública, São Paulo: EDUSP; Saraiva, 1978, p. 64).

(Sobre a influência de Verney em Portugal, veja-se um ensaio de minha autoria em: Calameo, consultado em 28.02.2026).

 

[23] M. Lutero, Aos Conselhos de Todas as Cidades da Alemanha para que criem e mantenham escolas cristãs: In: Martinho Lutero: Obras Selecionadas, 1995, v. 5, [p. 302-325], p. 320.

[24]Martinho Lutero, Catecismo Menor, Prefácio, § 19-20: In: M. Lutero, Os Catecismos, Porto Alegre, RS.; São Leopoldo, RS.: Concórdia; Sinodal, 1983, p. 365.

[25]Martinho Lutero, Catecismo Menor, Prefácio, § 20.

[26] Martinho Lutero, Uma Prédica Para que se Mandem os Filhos à Escola (1530): In: Ilson Kayser, ed. ger. Martinho Lutero: Obras Selecionadas, v. 5, [p. 326-363], p. 362.

[27] Paul Monroe, História da Educação, 11. ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1976, p. 190. Veja-se também, N. Abbagnano; A. Visalberghi, Historia de la Pedagogía, p. 261.

[28] Paul Monroe, História da Educação, p. 190.

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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