Tentando pensar e viver como um Reformado: Reflexões de um estrangeiro residente – Parte 64
D. Calvino, As Institutas e a Academia de Genebra 1) Calvino, o humanista[1] Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericórdia gratuita de Deus. – João…
D. Calvino, As Institutas e a Academia de Genebra
1) Calvino, o humanista[1]
Os homens jamais encontrarão um antídoto para suas misérias, enquanto, esquecendo-se de seus próprios méritos, diante do fato de que são os únicos a enganar a si próprios, não aprenderem a recorrer à misericórdia gratuita de Deus. – João Calvino.[2]
Antes de se afirmar como teólogo, Calvino percorreu os caminhos do humanismo. Imerso nas letras e nas artes liberais, dedicava-se com afinco ao estudo dos clássicos, encontrando neles a disciplina e o rigor intelectual que moldariam sua escrita futura.[3] Nesse período inicial, mantinha distância dos chamados “agitadores religiosos”, cuja atuação lhe parecia mais turbulenta do que inspiradora.[4] A força que o movia era essencialmente humanista: o cultivo das letras ocupava o centro de suas prioridades, tornando-se o alicerce sobre o qual, mais tarde, ergueria sua teologia essencialmente bíblica.
Desde os primeiros passos de sua obra, Calvino revela o refinamento de um método filológico e literário nutrido pelo humanismo francês. Não era apenas técnica, mas disciplina do espírito: leitura atenta à língua, ao estilo e ao contexto, onde filologia e teologia se entrelaçam como fios de uma mesma trama.
Com esse olhar, Calvino afastava-se das interpretações superficiais, buscando sempre a clareza e a fidelidade às fontes, como quem deseja ouvir a própria voz da Escritura sem interferências. Esse labor, marcado pela seriedade humanista e pela devoção reformada, conferiu às suas obras − dos Comentários Bíblicos às Institutas − uma solidez rara, erigindo um discurso ao mesmo tempo erudito e pastoral.
De Clementia – Primeira obra
Essa postura já se evidencia em sua primeira obra,[5] publicada com recursos próprios:[6] a edição comentada do De Clementia de Sêneca (4 de abril de 1532). McNeill (1885-1975) a descreve como “o principal monumento dos conhecimentos humanísticos do jovem Calvino”;[7] Walker (1860-1922) ressalta “o estilo de singular clareza e brilhantismo”;[8] Boisset (1909-1978) a considera “o sólido trabalho de um humanista muito jovem e já brilhante”;[9] Parker (1916-2016) acrescenta: “um erudito de primeira linha”.[10] Ganoczy resume: “O comentário sobre De Clementia é a epítome de um estudo humanista de um documento antigo.”[11]
Nessa obra − da qual uma cópia, ao que parece, foi enviada a Erasmo − o jovem autor, então com 23 anos, já revelava gosto literário, erudição,[12] amplo conhecimento da literatura grega e romana, além de uma perspectiva sóbria e um estilo próprio de análise. Lapidado pela tradição filológica e literária, esse método tornou-se marca distintiva de seus futuros comentários bíblicos.[13]
Já nesse trabalho pioneiro, Calvino parece desafiar o soberano ao definir o tirano como aquele que governa contra a vontade de seu povo. Inspirando-se em Aristóteles (384–322 a.C.),[14] interpreta a tirania como “uma transgressão dos verdadeiros limites da realeza”,[15] revelando, ainda que de forma embrionária, a ousadia que marcaria sua vida como pregador, escritor e administrador. Essa perspectiva humanista seria determinante em sua abordagem pedagógica.[16]
No sentido mais pleno da palavra, podemos afirmar que Calvino (1509–1564) foi um genuíno humanista, profundamente interessado pelo ser humano.
Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa
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[1]Para uma discussão mais ampla, ver: Hermisten Maia Pereira da Costa, João Calvino: O humanista Subordinado ao Deus da Palavra – a propósito dos 490 anos de seu nascimento, In: Fides Reformata, 4/2 (1999) 155-182.
[2] João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 6.4), p. 128-129.
[3] Veja-se Bernard Cottret, Calvino. La Fuerza y La Fragilidad: Biografía, Madrid: Editorial Complutense, 2002, p. 311.
[4] Vejam-se: W. Walker, John Calvin: The organiser of Reformed Protestantism – 1509-1564, New York: Schocken Books, © 1906, 1969, p. 57-59; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 120-121.
[5]Não consideramos aqui o prefácio de Calvino ao trabalho de seu amigo Nicholas Duchemin, Antapologia (6 de março de 1531). O contexto era de intensas disputas acadêmicas no ambiente universitário francês do final da década de 1520. O jurista italiano Andreas Alciati (1492-1550), recém-chegado à Universidade de Bourges, publicou sob o pseudônimo Aurelius Albucius uma Defensio em que criticava duramente o ensino jurídico francês, em especial o professor Pierre de L’Estoile, mestre respeitado em Orléans.
A crítica de Alciati foi especialmente mordaz porque, em 1527, L’Estoile havia identificado um empréstimo de Alciati às obras de Guillaume Budé (1467-1540), autor que o italiano costumava ridicularizar. Em resposta, o jovem Nicholas Duchemin, discípulo e amigo de L’Estoile, redigiu em julho de 1529 a Antapologia adversus Aurelii Albucii defensionem (“Resposta à defesa de Aurélio Albúcio”), em defesa da honra e do método de seu mestre.
O texto, porém, só foi publicado em 1531, em Paris. Nesse momento, João Calvino, também amigo de Duchemin, aceitou supervisionar a impressão e escrever um prefácio em forma de carta, datado de 6 de março de 1531, dirigido a François de Connan (1508–1551), admirador de Alciati. No prefácio, Calvino se mostra extremamente prudente: explica que o escrito de Duchemin não havia sido concebido para publicação, mas apenas como defesa pontual de L’Estoile contra Albucius.
O texto de Duchemin encontra-se disponível, sem o prefácio de Calvino, em:
Google Books (consultado em 04.03.2026).
[6]Cf. John Calvin, “To Francis Daniel,” John Calvin Collection, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 1998), (23/05/1532), nº 5, p. 37 e John Calvin, “To Francis Daniel,” John Calvin Collection, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 1998), (1532), nº 6, p. 38.
[7]John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 104. “Os Comentários sobre Sêneca foram de certo modo a culminação do humanismo do jovem Calvino” (Quirinus Breen, John Calvin: A Study in French Humanism, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1931, p. 67).
[8] W. Walker, John Calvin: The organiser of Reformed Protestantism – 1509-1564, New York: Schocken Books, © 1906, 1969, p. 59.
[9]Jean Boisset, História do Protestantismo, p. 57.
[10] T.H.L. Parker, Portrait of Calvin, London: SCM Press, 1954, p. 19.
[11]Alexandre Ganoczy, The Young Calvin, Philadelphia: The Westminster Press, 1987, p. 179.
[12]George a denomina de “Obra-prima de erudição” (Timothy George, Teologia dos reformadores, p. 171).
[13]Vejam-se: B.B. Warfield, Calvin and Calvinism, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (The Work’s of Benjamin B. Warfield), 1981, v. 5, p. 4; Timothy George, Teologia dos Reformadores, p. 171; Alister C. McGrath, The Intellectual Origins of The European Reformation, p. 54; Wilson C. Ferreira, Calvino: Vida, Influência e Teologia, p. 141ss.; Ronald S. Wallace, Calvin, Geneva and the Reformation, Grand Rapids, Michigan; Edinburgh, UK.: Baker Book House; Scottish Academic Press, 1990, p. 5; Justo L. Gonzalez, A Era dos Reformadores, p 109; P. Schaff, The Creeds of Christendom, 6. ed. Revised and Enlarged, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, (1931), v. 1, p. 424-425; Philip Schaff, History of the Christian Church, Peabody, Massachusetts: Hendrickson Publishers, 1996, v. 8, p. 308-309; Moisés Silva, Em Favor da Hermenêutica de Calvino: In: Walter C. Kaiser Jr.; Moisés Silva, Introdução à Hermenêutica Bíblica, São Paulo: Cultura Cristã, 2002, p. 246-247.
[14]Aristóteles escrevera que “Na tirania há pouca ou nenhuma amizade. Com efeito, onde nada aproxima o governante dos governados não pode haver amizade, uma vez que não há justiça” (Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, 8, .11, 1160 30. p. 391).
[15]John Calvin, “Commentary on Seneca’s de Clementia,” John Calvin Collection, (CD-ROM), (Albany, OR: Ages Software, 1998), p. 133. “Muitas farpas que disparava tinham em vista a ordem estabelecida, a Igreja e a escolástica” (Daniel-Rops, A Igreja da Renascença e da Reforma: I. A reforma protestante, p. 367-368). Mais tarde, escreveria em lugares diferentes: “Os príncipes e os magistrados devem, pois, recordar de Quem são servidores quando cumprem seu ofício, e não fazer nada que seja indigno de ministros e lugar-tenente de Deus. A primeira de suas preocupações deve ser a de conservar, em sua verdadeira pureza, a forma pública da religião, conduzir a vida do povo com boas leis, e procurar o bem, a tranquilidade pública e doméstica de seus súditos” (Juan Calvino, Breve Instruccion Cristiana, Barcelona: Fundación Editorial de Literatura Reformada, 1966, p. 83). Partindo do princípio que as formas de governo estão sujeitas a falhas, diz: “É verdade que o rei, ou qualquer indivíduo que exerça o poder monárquico, facilmente baixa à condição de tirano. Mas é igualmente fácil, quando elementos de alta posição exercem o governo, eles conspirarem para impor uma dominação iníqua. E ainda é muito mais fácil o surgimento de sedições quando é o povo que exerce a autoridade” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, (IV.16), v. 4. p. 152). Conclui, mostrando que Deus Se digna em manifestar a Sua providência por meio da variedade de governos, aos quais devemos nos submeter: “….Se deixarmos de fixar o nosso olhar só numa cidade e observarmos o mundo inteiro ou alguns países, por certo veremos que não é sem a ação da providência de Deus que diversas regiões sejam governadas por formas diversas de governo. Porque, assim como não se podem manter os elementos senão com uma proporção e uma temperatura desiguais, assim também não se pode manter os governos senão por meio de uma certa desigualdade. Contudo não há necessidade de demonstrar todos os aspectos disto para aqueles para os quais a vontade de Deus é argumento suficiente. Porque, se é da vontade de Deus constituir reis sobre os reinos, e outras formas de autoridade sobre povos não sujeitos à monarquia, a nós compete sujeitar-nos e obedecer às autoridades que nos dominarem onde vivermos” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, (IV.16), v. 4. p. 152-153). “(Os governantes) encontram amplíssima consolação ao verificarem que a sua vocação não é algo profano nem alheio a um servo de Deus, mas um cargo sacratíssimo, já que, ao exercê-lo, eles fazem as vezes de Deus e executam o Seu ofício” (João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, (IV.16), v. 4. p. 151). “Ele (Davi) prescreve uma norma aos reis terrenos, a saber: que, devotando-se ao bem público, seu único desejo para que sejam preservados é o bem de seu povo. Quão longe a realidade se acha disto, nem é preciso dizer. Cegados de soberba e presunção, desprezam o resto do mundo, como se sua pompa e dignidade os elevassem totalmente acima do estado comum do homem. Nem é para se admirar que a humanidade seja tão insolente e habitualmente pisoteada pelos pés dos reis, já que a maioria rejeita e desdenha carregar a cruz de Cristo” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 28.9), p. 610). Comentando o Salmo 45, faz uma crítica aos reis de sua época que governam pela força e não pela persuasão dos argumentos: “Quão manifestamente isso reprova a pobreza de espírito dos reis de nossos dias, por quem é considerado como derrogatório de sua dignidade dialogar com seus súditos e empregar a censura a fim de assegurar sua submissão; mas qual? exibem um espírito de bárbara tirania, buscando antes compeli-los pela força do que persuadi-los com humanidade; e em preferir antes abusar deles, como se fossem escravos, do que governá-los por leis e com justiça como pessoas tratáveis e obedientes” (João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 2, (Sl 45.2), p. 307). Ver: John T. McNeill, Los Forjadores del Cristianismo, , Buenos Aires: La Aurora; Casa Unida de Publicaciones, [1956], v. 2, p. 210.
[16]Cf. W. Stanford Reid, Calvin and the Founding of the Academy of Geneva: In: Westminster Theological Journal, 18, (1955), p. 4.
