Apesar da guerra, a vida continua para os ucranianos
Quase todos os dias, Anna Ulanovska ouve o zumbido dos drones russos que passam sobre a sua casa, na zona rural da Ucrânia, nos arredores de Sumy, uma cidade do nordeste que fica a apenas uns 20 quilômetros da linha de frente da guerra. Seu filho de 7 anos se lembra pouco de como era…
Quase todos os dias, Anna Ulanovska ouve o zumbido dos drones russos que passam sobre a sua casa, na zona rural da Ucrânia, nos arredores de Sumy, uma cidade do nordeste que fica a apenas uns 20 quilômetros da linha de frente da guerra.
Seu filho de 7 anos se lembra pouco de como era a vida antes que os drones enviados por Moscou — os quadricópteros menores a controle remoto e os drones Shahed maiores, de fabricação iraniana — se tornassem uma ameaça constante em sua região. Ataques de mísseis atingiram repetidamente a cidade de Sumy, contribuindo para o aumento do número de mortes de civis.
“Estamos sob pressão constante aqui. Essa é a nossa realidade agora”, disse Ulanovska. “Mas não podemos simplesmente pausar a nossa vida”.
Vivendo em meio a estresse e trauma contínuos, muitos ucranianos têm tentado preservar um senso de normalidade, desde que a guerra em larga escala começou, em 24 de fevereiro de 2022. Apesar das preocupações com a segurança, Ulanovska viajou para Kiev, em meados de fevereiro, para uma conferência de dois dias para mulheres cristãs.
Ela e mais sete mulheres de sua igreja pentecostal, Cristo para Todos, viajaram de ônibus — evitando o sistema ferroviário de sua região, que tem sido alvo de constantes ataques por Moscou. Elas se reuniram com cerca de 120 mulheres, vindas de todos os cantos do país, para ouvir ensinamentos bíblicos ministrados por esposas de pastores e por outras mulheres cristãs. “Foi um tempo de refrigério para mim”, disse ela.
De volta para casa, Ulanovska vê resquícios da vida comum que teimam em persistir, em meio ao luto e ao medo da guerra. Salões de beleza continuam abertos. Mercearias funcionam a todo vapor e estão bem abastecidas. Crianças se divertem andando de trenó na neve fresca. No ano passado, sua filha adolescente convidou dez amigos para comemorar seu aniversário com boliche e patinação.
Courtesia Steven MooreAnna Shvetsova, diretora de operações da organização sem fins lucrativos Ukraine Freedom Project [Projeto de Libertação da Ucrânia], também tem testemunhado esforços similares das pessoas para levar uma vida comum. Sua avó de 89 anos — que vive em uma pequena cidade na região de Sumy — tem dificuldade para andar, mas ainda assim frequenta a igreja todos os domingos, mesmo quando a rede elétrica é desligada e as temperaturas despencam. A avó lhe disse que, para chegar à igreja, ela “apenas precisa caminhar 100 metros e, então, já consegue pegar um ônibus”.
Para Shvetsova, há outros exemplos de momentos de vida comum durante a guerra que carregam um certo tom de comédia, são surreais. Em seu retorno a Kiev, depois de uma viagem de trabalho ao exterior, no início deste mês, uma das assistentes de sua organização descreveu como os ataques russos à rede de energia afetaram a vida diária.
“Ela começou a me contar como eles ficaram quatro dias sem eletricidade, sem água etc. e, enquanto descrevia a situação toda, percebi que em meio ao caos ela tinha tido tempo de ir à manicure!”, disse Shvetsova. Em Kiev, ela acrescentou, a maioria dos negócios locais, como cafeterias, restaurantes e salões de beleza, continua funcionando, mesmo durante os apagões.
Apesar de toda a resiliência, os ucranianos estão cansados da guerra. Muitos deles, incluindo Ulanovska e Shvetsova, estão céticos em relação às negociações em curso, as quais, na visão deles, a Rússia está usando como mero expediente para ganhar tempo. Os Estados Unidos mediaram a terceira rodada de negociações de paz em Genebra, na semana passada. Ambos os lados descreveram as negociações como “difíceis”. Kiev e Moscou permanecem divididos sobre desacordos fundamentais, entre os quais estão concessões territoriais e garantias de segurança.
O presidente russo Vladimir Putin exigiu que a Ucrânia entregue território que ainda controla, uma área com cerca de 6.500 km2, na região leste de Donetsk. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky sugeriu, em vez disso, a criação de uma zona desmilitarizada e pediu garantias de segurança ocidentais, para assegurar que Moscou não possa voltar a se armar e tomar mais [território] da Ucrânia no futuro.
Alguns analistas argumentam que a aplicação de sanções eficazes pode pressionar a Rússia a fazer concessões. “A Rússia é um posto de gasolina com um exército”, disse Steven Moore, fundador do Ukraine Freedom Project [Projeto de Libertação da Ucrânia], um cristão estadunidense que vive em Kiev. “Se você cortar o dinheiro que eles ganham com a gasolina, o exército ficará à mingua”.
A Rússia ocupa cerca de 20% do território da Ucrânia. Desde 2024, obteve apenas ganhos marginais de menos de 1,5% das terras ucranianas. No entanto, desde que a invasão em larga escala começou, há quatro anos, Moscou sofreu entre 275.000 e 325.000 mortes no campo de batalha, mais perdas do que qualquer nação, em qualquer guerra, desde a Segunda Guerra Mundial.
Os ucranianos têm sofrido imensamente; há relatos de civis que descrevem crimes de guerra russos, sequestros e tortura. De acordo com as Nações Unidas, 2025 foi o ano mais letal para os civis ucranianos, desde 2022. A Rússia disparou mais de 54.000 drones e perto de 2.000 mísseis contra cidades ucranianas, matando mais de 2.500 civis.
Moscou também está usando o inverno como arma de guerra, atingindo as redes de energia da Ucrânia, no mês passado, quando as temperaturas despencaram para o nível mais baixo em 16 anos.
“Em janeiro e fevereiro, a Rússia lançou os piores ataques à rede elétrica ucraniana, e os sistemas de aquecimento colapsaram, porque o aquecimento não pode funcionar sem eletricidade”, disse Ulanovska.
No final de janeiro, o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, disse que 5.600 prédios de apartamentos ficaram sem aquecimento, e pediu para que, se possível, os moradores deixem a cidade. Mais de 600.000 dos 3 milhões de habitantes da capital tiveram de se realocar temporariamente. Alguns dos que ficaram montaram tendas dentro das próprias casas e se agasalharam com camadas e camadas de roupas [para se proteger do frio].
Alguns moradores combateram o desespero organizando festas de rua noturnas em seus bairros, se reunindo em volta de churrasqueiras de acampamento para cozinhar, se aquecer e conversar. Festas com dança pipocaram espontaneamente por toda a cidade, e crianças se agasalharam para aproveitar o trenó.
Shvetsova disse que deixou a cidade no dia primeiro de fevereiro, e foi para a casa de seus pais, na região de Sumy, onde eles têm um fogão a lenha para se manterem aquecidos. Ainda assim, ela disse que eles tinham eletricidade apenas por duas horas ao dia — tempo insuficiente para carregar o sistema de bateria que ela havia comprado para eles. Muitos ucranianos estão resolvendo esse problema instalando painéis solares e carregando as baterias com geradores, acrescentou ela.
No dia 9 de fevereiro, enquanto viajava de volta para Kiev, seus vizinhos ligaram para informar que o frio havia feito o radiador do apartamento dela estourar, inundando sua varanda e a rua. Ela precisou se mudar para um hotel por vários dias.
Apesar da série de desafios, os ucranianos seguem em frente. Muitos amigos de Shvetsova compraram baterias de alta tecnologia e permaneceram em Kiev. À medida que caminha pelas calçadas da cidade, ela ouve o zumbido dos geradores — absolutamente essenciais para a sobrevivência de moradores e empresas locais.
Seus amigos que servem nas forças armadas enfatizam a importância dessa normalidade da vida comum, quando retornam para casa nos períodos de licença. Frequentemente eles dão festas em restaurantes. “Se desistirmos de celebrações, de aniversários e da igreja, não haverá razão para lutar”, observou Shvetsova. “[Afinal], pelo que estamos lutando?”.
Ulanovska relembrou o primeiro dia da guerra, em 24 de fevereiro de 2022. De sua casa, perto de Sumy, ela podia ver os tanques russos. “Se alguém tivesse me dito que isso duraria tanto tempo — quatro anos, e ainda não terminou — eu não acreditaria que seríamos capazes de sobreviver a todas essas provações, tribulações e ataques, dias e noites terríveis, e tantas perdas”, disse ela.
Hoje, ela olha para trás e acredita que Deus tem estado com sua família, ensinando-os a confiar nele, mesmo enquanto drones voam sobre suas cabeças. “Começamos a viver de acordo com as Escrituras — não nos preocupamos com o amanhã”, disse Ulanovska. “A cada dia basta o seu próprio mal”.
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