A Cruz: Escândalo para o mundo, glória para os crentes
Onde justiça e amor se abraçam para nossa salvação A cruz de Cristo é o coração da fé cristã. Não é apenas um símbolo, mas o fundamento de toda a teologia e da vida espiritual; “a cruz não é um aspecto individual da teologia, mas é em si mesma o fundamento dessa teologia” (Alister E….
Onde justiça e amor se abraçam para nossa salvação
A cruz de Cristo é o coração da fé cristã. Não é apenas um símbolo, mas o fundamento de toda a teologia e da vida espiritual; “a cruz não é um aspecto individual da teologia, mas é em si mesma o fundamento dessa teologia” (Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade, São Paulo: Shedd, 2007, p. 36). Ela permeia toda a teologia cristã, pois nela se revela a gravidade do pecado, a santidade de Deus, a justiça que não pode ser ignorada e o amor que não pode ser medido. Para o mundo, a cruz é escândalo e loucura; para os crentes, é glória e poder. É o lugar onde justiça e amor se abraçam, onde a ira de Deus contra o pecado e sua misericórdia para com os pecadores se encontram.
A gravidade do pecado e a rudeza da cruz
O pano de fundo essencial da cruz é a gravidade do pecado e a majestade de Deus. O pecado não é apenas uma falha moral; é rebelião contra o Deus santo. Sua santidade é tão absoluta que nada menos que a morte terrível de Cristo poderia tornar possível o perdão. A rudeza da cruz romana − instrumento de humilhação e suplício − expõe a seriedade do juízo divino. Era o auge da vergonha e da dor, reservado para criminosos e inimigos do Estado. Para os judeus, um Messias crucificado era uma contradição de termos; para os gregos, uma loucura. Mas para os que creem, é o poder de Deus para salvação.
Calvino lembra que toda a vida de Cristo foi uma “espécie de cruz perpétua”, marcada por sofrimento e humilhação, culminando no Calvário (As Institutas, III.8.1). Ali, o pecado foi condenado, a ira de Deus derramada, e a salvação restaurada.
Justiça e amor de Deus
Na cruz, justiça e amor se encontraram de modo perfeito e harmonioso. Ali, a misericórdia e a justiça divina foram igualmente expressas e eternamente reconciliadas. Deus não ignorou o pecado, mas derramou sua ira sobre o Filho, nosso substituto. Ao mesmo tempo, revelou seu amor incomparável: “A cruz não é algo que influencia o amor de Deus; não, o amor de Deus a produziu” (D.M. Lloyd-Jones, Deus o Pai, Deus o Filho, São Paulo: PES, 1997 p. 426). O Pai entregou o Filho, e o Filho, em obediência perfeita, aceitou a cruz para glorificar o Pai. Na cruz, os atributos divinos − justiça, santidade, amor e misericórdia − resplandecem plenamente. A justiça exigia punição; o amor providenciou o substituto. O Filho bebeu o cálice da ira para que nós pudéssemos beber o cálice da salvação.
A cruz como centro da teologia e da história
A cruz é o centro da história e a reconciliação de todas as antíteses humanas. Desde o nascimento de Jesus, a cruz lançava sua sombra sobre sua missão.
Ali, Cristo enfrentou Satanás face a face, derrotando-o e cumprindo a promessa feita no Éden: a semente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. O poder do diabo foi esmagado, e o cálice da ira que estava reservado desde Adão foi bebido pelo Filho. Quando Cristo terminou seu cálice, não sobrou nenhuma gota para os que creem.
A cruz é o centro da História porque nela convergem todas as promessas do Antigo Testamento e dela fluem todas as bênçãos do Novo. É o ponto de encontro entre juízo e graça, entre morte e vida, entre vergonha e glória.
A salvação conquistada
Na cruz, Cristo assumiu nossa identidade e suportou o julgamento retribuidor destinado a nós. Seu sangue tem valor infinito por causa da dignidade gloriosa de quem o derramou.
A cruz elimina toda confiança na carne e triunfa sobre o diabo, o pecado e a morte quando os crentes contemplam o poder da ressurreição. Não foi acidente, mas obra de Deus: “Foi Deus quem o manifestou ali” (David M. Lloyd-Jones, A Cruz: A Justificação de Deus, São Paulo: PES, 1980, p. 3). Por meio da cruz, o perdão não é apenas anunciado, mas efetivamente realizado. O Calvário não é apenas proclamação do amor de Deus, mas o lugar onde ele realizou o meio pelo qual pode nos reconciliar consigo. A cruz teve efeito propiciatório: Cristo assumiu nossa identidade e suportou o julgamento que nos era destinado.
Gratidão em fé e obediência
A cruz humilha o homem, despoja-o de sua justiça própria e exalta a graça imerecida de Deus. Paulo se gloriava somente na cruz, pois nela foi crucificado para o mundo e encontrou sua verdadeira liberdade.
Nossa resposta é fé, arrependimento e obediência. “O que mais se pode desejar além de nosso retorno a Deus em plena obediência? Tal coisa não pode suceder a não ser por meio da cruz” (João Calvino, Exposição de Hebreus,São Paulo: Paracletos, 1997 (Hb 5.8), p. 137).
A cruz consagra a verdadeira glória do crente, transformando o instrumento de execução em monumento de vitória. A gratidão da multidão salva é parte da glória do Filho e do Pai. A vida cristã é marcada pela cruz: não apenas como evento histórico, mas como experiência diária. “Toda a sua vida foi uma cruz perpétua”. Assim também, nossa vida deve ser marcada pela obediência humilde, pela renúncia ao pecado e pela gratidão constante.
Considerações finais
A cruz é rude e escandalosa porque revela a gravidade do pecado e a justiça de Deus. Mas é também gloriosa, porque manifesta o amor incompreensível do Pai e a obediência perfeita do Filho.
Ela é o centro da História, o fundamento da teologia, o triunfo sobre Satanás e a reconciliação entre justiça e misericórdia. Nela encontramos salvação, e dela brota nossa gratidão expressa em fé e obediência.
Para o mundo, a cruz é loucura e escândalo. Para os crentes, é glória e poder. É o lugar onde justiça e amor se abraçam para nossa salvação. Glória somente a Deus. Amém.
O Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, colunista do BP, é pastor-auxiliar da 1ª IP São Bernardo do Campo, São Paulo, SP, Coordenador Acadêmico e professor de teologia no JMC; é membro do CECEP e do Conselho Editorial do Brasil Presbiteriano

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