A Igreja precisa recuperar a primazia da Palavra de Deus
As leituras de ficção científica que fiz para as aulas de inglês, no ensino médio, deveriam ter me preparado para uma cultura pós-letrada [na qual a comunicação é dominada por meios visuais e auditivos (vídeos, redes sociais), em vez de textos]. Tínhamos como tarefa ler Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e Um Cântico para Leibowitz,…
As leituras de ficção científica que fiz para as aulas de inglês, no ensino médio, deveriam ter me preparado para uma cultura pós-letrada [na qual a comunicação é dominada por meios visuais e auditivos (vídeos, redes sociais), em vez de textos].
Tínhamos como tarefa ler Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e Um Cântico para Leibowitz, de Walter M. Miller Jr., obra que retratam um futuro distópico em que não há mais a palavra escrita. Nesses retratos, o fogo é o inimigo dos livros e da leitura. Fahrenheit nos apresenta um regime autoritário que emprega “bombeiros” para encontrar livros clandestinos e queimá-los, na tentativa de manter a população dócil. Leibowitz imagina um holocausto nuclear que incinera o conhecimento humano, deixando apenas um pequeno grupo de monges para preservar fragmentos da civilização.
Hoje, os bombeiros estão aqui [no mundo online].
É claro que essa revolta contra a leitura aconteceu de uma forma diferente da que Bradbury imaginou — não foi imposta de cima para baixo, mas sim abraçada de baixo para cima, impulsionada não por censores do governo, mas por algoritmos invisíveis. Clicamos em vídeos curtos, resumos de chatbots e doses ininterruptas de dopamina, e cada um deles nos promete uma nova distração a cada 29 segundos. Nenhum governo precisa proibir a obra Fahrenheit 451 nas escolas secundárias, se os alunos se satisfizerem apenas com a sinopse do livro, encontrada no YouTube ou no ChatGPT. Nossa cultura está cheia não de livros queimados, mas de livros não lidos.
Os cristãos que forem típicos leitores desta revista provavelmente verão isso como uma perda. O perigo, porém, é simplesmente suspirarmos e dizer: “Bem, o que se há de fazer?” — da mesma forma como nos resignamos a ter nosso próprio span de atenção prejudicado pelo uso de smartphones. Muitos nos instigam a aceitar sem julgamento esse cenário e o estado mental e emocional das pessoas, mesmo que isso signifique um mundo sem a narrativa sustentada dos livros. Certamente, há sabedoria em se fazer presente em cada Areópago, seja ele virtual ou não, do Twitch ao TikTok. Mas não reagir a essa realidade que vivemos seria um erro.
Certa vez, Richard Mouw comparou denominações e tradições cristãs a ordens monásticas, nas quais cada devoto faz um voto para enfatizar algum aspecto da fé. Os luteranos se comprometem com a justificação somente pela fé; os pentecostais, com o poder do Espírito. Entre estes, o voto do evangelicalismo é guardar a ênfase do evangelho no aspecto pessoal.
Não basta que a igreja seja santa, costumamos dizer — cada cristão deve nascer de novo. Deus ama o mundo, sim, mas também é verdade que “Jesus me ama”. As Escrituras ancoram toda a igreja, mas também moldam o coração de cada pessoa.
Mesmo que todos os outros esqueçam, os evangélicos deveriam ser aqueles que formam geração após geração de pessoas que estarão “examinando todos os dias as Escrituras, para ver se era verdade o que eles anunciavam” (Atos 17.11). Esse tipo de discipulado exige mais do que saber como procurar em um aplicativo da Bíblia um versículo sobre ansiedade ou culpa. Exige imersão na linha narrativa das Escrituras — como Jesus no deserto, que usou Deuteronômio de uma forma que mostrava que ele sabia precisamente que lugar ocupava na história.
Tal familiaridade interior acontece apenas quando as pessoas aprendem a se sentar e ficar quietas por tempo suficiente para ler, refletir e internalizar o que leram. Sem esse encontro interior, o cristianismo degenera em uma ladainha tribal de slogans, o que é precisamente aquilo que o evangelho veio interromper.
Em uma cultura oral ou digital e oral, a verdade frequentemente é coletiva e performada. Mas o evangelho nos pressiona a ir mais fundo. Ele não pede apenas o assentimento da multidão, mas o reconhecimento da consciência. Quando Jesus perguntou “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mateus 16.15), ele não estava fazendo uma pesquisa por toda a Galileia. Ele estava convocando Pedro. A leitura pessoal da Bíblia não é apenas uma questão de devoção — é o próprio solo no qual essa pergunta pode ser ouvida e respondida.
Paulo disse a Timóteo: “Quanto a você, porém, permaneça nas coisas que aprendeu […] Porque desde criança você conhece as Sagradas Escrituras, que são capazes de torná‑lo sábio para a salvação por meio da fé em Cristo Jesus.” (2Timóteo 3.14-15). Essa sabedoria não era conhecimento tribal, mas sim a Escritura gravada na mente e no coração dele. A mudança para a leitura — um fechar-se para os ruídos, a fim de poder ouvir interiormente, dentro de si — é o que torna possível uma fé que não é herdada como folclore, mas encontrada como Palavra.
Diante disso, o que deve ser feito?
Na geração anterior, Wendell Berry já observou que a linguagem estava sendo esvaziada por aqueles que confundiam o prático com o imediato. “Para tais pessoas, uma mina a céu aberto deixa de existir assim que o carvão é extraído”, escreveu ele em seu ensaio Em Defesa da Educação. “Praticidade de curto prazo é idiotice de longo prazo.”
E essa idiotice é estimulada, segundo ele, pela linguagem que é reduzida a marketing e propaganda. “Qual é a nossa defesa contra esse tipo de linguagem — essa “linguagem como arma”? Há apenas uma [defesa]. Devemos conhecer uma linguagem que seja melhor.”
Sou um conservador bíblico, o que significa que acredito que a Bíblia é verdadeira não apenas em seus temas amplos, mas em suas próprias palavras. Muitos de nós definiram corretamente tal conservadorismo em termos de autoridade, infalibilidade e inerrância das Escrituras. Mas não somos conservadores bíblicos se preservamos conceitos sobre a Bíblia, mas não cultivamos o tempo e a atenção de que precisamos para lê-la.
Os bombeiros já estiveram por aqui antes. Quando o rei Jeoaquim ficou irado com os alertas de Jeremias, ele pegou o rolo do profeta e o lançou no fogo. A resposta de Deus foi simples: “Pegue outro rolo e escreva nele todas as palavras que estavam no primeiro, que Jeoaquim, rei de Judá, queimou” (Jr 36.23, 28). O ato de resistência subsequente não foi dramático:
Então, Jeremias pegou outro rolo e o deu ao escriba Baruque, filho de Nerias, para que escrevesse nele, conforme Jeremias ditava, todas as palavras do livro que Jeoaquim, rei de Judá, tinha queimado, além de muitas outras palavras semelhantes que foram acrescentadas. (v.32)
Ao final do livro Fahrenheit 451, o protagonista, um ex-bombeiro, encontra um grupo de resistência, no qual cada um dos integrantes tinha memorizado um livro — a República de Platão, os poemas de Lord Byron, Eclesiastes etc. Eles encarnaram aquelas palavras na própria mente, prontos para transmiti-las, na esperança de que o mundo as ouviria. “Se não [as ouvirem], teremos apenas que esperar”, disse um deles, “e fazer com que nossos filhos, por sua vez, esperem, por outras pessoas… E quando a guerra acabar, algum dia, em algum ano, esses livros poderão ser escritos novamente”.
É assim também conosco. Podemos estudar e encarnar o que significa conhecer e amar a Bíblia. Podemos reaprender hábitos como aquietar a mente, abrir a página e perguntar: “O que o Senhor está dizendo?”. Podemos escrever as palavras novamente, para nossos filhos e para os filhos deles, mesmo que a cultura em geral boceje de tédio.
O próprio conceito de livro está sendo consumido pelas chamas ao nosso redor. Mas este livro sem igual, o nosso Livro, é uma história habitada pelo próprio Deus. Mesmo que queime, ele não se consome. E do meio do fogo, se você prestar bastante atenção, ainda poderá ouvir uma voz.
Russell Moore é editor sênior e colunista na Christianity Today e lidera o Projeto de Teologia Pública.
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