A eleição passa. O vizinho fica.
Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira Quem transforma a fé do vizinho em ameaça eleitoral deixa uma conta que não será paga no palanque. Será paga dentro das famílias, nas relações de trabalho, nas amizades e nas comunidades que continuarão existindo quando os candidatos já estiverem discutindo a próxima eleição. Uma campanha termina em…
Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira
Quem transforma a fé do vizinho em ameaça eleitoral deixa uma conta que não será paga no palanque. Será paga dentro das famílias, nas relações de trabalho, nas amizades e nas comunidades que continuarão existindo quando os candidatos já estiverem discutindo a próxima eleição. Uma campanha termina em data conhecida. A desconfiança que ela semeia pode atravessar gerações.
Há uma irresponsabilidade particular em explorar diferenças religiosas para conquistar poder. A fé alcança lugares da experiência humana aos quais a propaganda política dificilmente chegaria sozinha: a memória dos pais, a educação dos filhos, o amparo diante da morte, a esperança que sustenta uma pessoa quando tudo mais parece faltar. Apresentar esse universo como ameaçado pelo pertencimento religioso de outro brasileiro é atingir vínculos profundos para obter uma vantagem passageira.
Por isso, nossa resposta precisa ir além do desmentido de cada falsidade. Precisamos defender as condições que permitem discordar em matéria de fé e continuar vivendo juntos. Nenhuma eleição autoriza a destruição dessas condições.
O passado não explica tudo
Parte do problema está na facilidade com que se transporta um antigo ambiente de hostilidade para o presente, como se as relações entre católicos e evangélicos estivessem congeladas no tempo.
Na década de 1990, setores neopentecostais conferiram grande visibilidade à linguagem da batalha espiritual. A expansão televisiva levou ao espaço doméstico pregações nas quais imagens, objetos e práticas religiosas apareciam como sinais de uma vida que o convertido deveria abandonar. A ruptura ganhava forma pública: palavras, gestos e símbolos demarcavam a distância entre a comunidade de origem e a nova identidade religiosa.
Esse ambiente produziu feridas. Não há razão para disfarçá-las. Também seria historicamente inadequado tratar aquele repertório como expressão de todo o protestantismo ou como descrição suficiente das relações entre cristãos no Brasil atual.
Décadas de convivência, amadurecimento institucional e participação na vida pública produziram outras experiências. Persistem antagonismos, mas existem também encontros que já não se organizam em torno da necessidade de derrotar a confissão alheia. Católicos e evangélicos passaram a compartilhar espaços de defesa da liberdade religiosa, iniciativas educacionais, obras assistenciais e debates sobre as responsabilidades da família, da sociedade e do Estado.
Mudaram, nesses espaços, a linguagem e o significado dos encontros. Uma fotografia de lideranças de diferentes confissões reunidas pode expressar um compromisso público sem representar comunhão doutrinária. A defesa de um templo ameaçado pode reunir pessoas que jamais participariam juntas de um culto. A diferença permanece visível, mas deixa de impedir o reconhecimento de um dever comum.
O que podemos proteger juntos
Essa transformação costuma ser mal compreendida por quem só consegue enxergar a religião através da aritmética eleitoral. Diante da aproximação entre católicos e evangélicos, procura-se imediatamente o candidato beneficiado, a bancada fortalecida ou a vantagem negociada. Essas perguntas podem ser legítimas, mas não esgotam o que está acontecendo.
Há pessoas que cooperam porque reconhecem um bem que têm a obrigação de proteger. Sua responsabilidade não foi criada por uma campanha e não depende dela para continuar existindo.
A experiência que compartilhamos no Instituto Brasileiro de Direito e Religião permite afirmar isso com segurança. Trabalhar ao lado de alguém de outra confissão não exige desconhecer as divergências. Exige saber quais questões estão em discussão e o que aquele trabalho conjunto pretende realizar.
Jean Marques Regina e Thiago Rafael Vieira com o professor Ives Gandra da Silva Martins, presidente de honra do IBDR. Entre católicos e evangélicos, diferenças de confissão convivem com amizade, diálogo e compromissos comuns em defesa da liberdade religiosa.
Um católico pode defender a liberdade de pregação de um protestante sem aceitar sua compreensão da Igreja. Um protestante pode defender a liberdade de devoção de um católico sem aderir a ela. Em ambos os casos, a defesa é mais exigente precisamente porque existe discordância: reconhece-se uma liberdade cujo exercício pode conduzir a conclusões que julgamos equivocadas.
É nesse terreno que se torna possível uma unidade prática. Ela não depende de um acordo sobre todas as razões últimas, mas de compromissos suficientemente claros para orientar a ação comum. Jacques Maritain ajuda a compreender essa possibilidade ao examinar o acordo em torno de direitos entre pessoas com fundamentos filosóficos distintos.
Entre cristãos, a cooperação pode encontrar também razões compartilhadas. A dignidade humana não está à disposição do governante. A consciência não pertence ao Estado. O exercício da autoridade implica responsabilidade moral. A vida familiar, a educação e o cuidado com os vulneráveis envolvem deveres que antecedem e ultrapassam os programas de governo.
A teologia pública contribui para compreender as consequências dessas convicções na vida em sociedade. Também nos obriga a examinar criticamente nossas próprias escolhas. Invocar princípios cristãos não torna uma proposta política infalível, nem transforma um candidato em representante exclusivo da fé.
Essa distinção é decisiva. A cooperação entre católicos e evangélicos precisa ter liberdade para comportar divergências eleitorais. Se depender de todos votarem da mesma maneira, será incapaz de sustentar a convivência justamente quando ela for mais necessária.
Também precisa ultrapassar a defesa dos próprios participantes. Na laicidade colaborativa que defendemos, o Estado imparcial assegura a liberdade de todas as confissões e de quem não professa religião. A proteção de uma comunidade não pode depender de seu tamanho, de sua influência ou da simpatia que desperta no governante.
Esse compromisso impede que a cooperação cristã se transforme em pretensão de domínio. A liberdade que reivindicamos estabelece limites também para nós. Quem quer preservar o direito de ensinar suas convicções deve reconhecer esse mesmo direito ao outro, inclusive quando a discordância é profunda.
Nada disso exige complacência diante da violência. Ataques a pessoas, imagens e espaços religiosos devem receber resposta firme e contínua. A proteção não pode adquirir importância apenas quando um episódio entra na disputa eleitoral. Tampouco a responsabilidade por uma agressão pode ser transferida de seus autores para uma comunidade inteira.
A convivência que precisamos preservar
Há, nesse ponto, uma contribuição da própria convivência brasileira que merece ser preservada. Não somos uma sociedade imune à intolerância. Conhecemos conflitos e injustiças que não podem ser encobertos por uma imagem agradável de nós mesmos. Mas também conhecemos a conversa que atravessa diferenças, a amizade entre pessoas de igrejas distintas e a família que permanece unida sem resolver suas divergências religiosas.
A mãe católica e o filho evangélico que cuidam um do outro não precisam de uma teoria completa da tolerância para reconhecer esse dever. Sua convivência contém um aprendizado moral que a política deveria respeitar. Não lhes cabe pagar com hostilidade doméstica pela conveniência de uma estratégia eleitoral.
Preservar esse patrimônio exige atitude. Lideranças religiosas precisam conter a injustiça praticada em nome da própria comunidade. Agentes públicos devem proteger com igual seriedade quem lhes é próximo e quem lhes é distante. Cada pessoa que recebe uma acusação contra outra religião tem a responsabilidade de não converter sua indignação em licença para espalhá-la.
Temos diferenças reais, e elas continuarão existindo. A maturidade de nossa vida pública será medida também pela capacidade de impedir que essas diferenças sejam transformadas em medo, culpa coletiva e hostilidade.
Depois da eleição, continuaremos encontrando as mesmas pessoas na rua, no trabalho e à mesa. Nossos filhos aprenderão conosco se a convicção religiosa pode conviver com a amizade ou se toda diferença deve produzir um inimigo.
Nenhum projeto de poder merece que lhes ensinemos a segunda opção.
Faça parte dessa construção
No IBDR, a cooperação entre pessoas de diferentes confissões se transforma em trabalho pela liberdade religiosa e pela laicidade colaborativa.
Se você compartilha desse compromisso, venha fazer parte do Instituto Brasileiro de Direito e Religião.

