Rei e Pastor: O Senhor na visão e vivência dos salmistas (40)

4. Palavra límpida A Palavra de Deus, como expressão do caráter santo de Deus, é absolutamente pura e límpida (Sl 12.6; Hc 1.13). Ela não oculta nem dissimula a realidade, mas a apresenta com verdade e retidão. Por isso, é uma verdade cristalina para todos os que, pela graça de Deus, desejam conhecê-lo e obedecê-lo….

4. Palavra límpida

A Palavra de Deus, como expressão do caráter santo de Deus, é absolutamente pura e límpida (Sl 12.6; Hc 1.13). Ela não oculta nem dissimula a realidade, mas a apresenta com verdade e retidão. Por isso, é uma verdade cristalina para todos os que, pela graça de Deus, desejam conhecê-lo e obedecê-lo. Nela não há engano ou dissimulação; ela nos revela as coisas como realmente são, pois somente Deus conhece plenamente a realidade e, em sua soberania, a conduz segundo o seu santo propósito.

O salmista declara:  “As palavras do SENHOR são palavras puras (rAhj’) (tahor) (límpida, não contaminada, não misturada, aprazível[1]), prata refinada em cadinho de barro, depurada sete vezes” (Sl 12.6).
 

A percepção corrompida pelo pecado

O problema é que nossa percepção do que é agradável também foi profundamente contaminada pelo pecado. Assim, aquilo que é puro pode não nos parecer agradável, e aquilo que é agradável aos nossos sentidos e desejos pode estar longe de ser puro. Desse modo, a pureza da Palavra, inclusive em sua agradabilidade, pode nos soar estranha, pois, em nosso pecado, tendemos a considerar-nos puros. É o que Agur denuncia ao referir-se àqueles que “são puros  (rAhj’) (tahor) aos próprios olhos e que jamais foram lavados da sua imundícia” (Pv 30.12).

Tais pessoas já têm seus valores estéticos e morais profundamente maculados pelo pecado. Por isso, o que é verdadeiramente puro pode lhes parecer estranho, anormal, ultrapassado ou desconectado da realidade.

Na verdade, estamos profundamente aclimatados aos valores e às práticas de nossa época; eles nos parecem naturais, normais e até desejáveis. O pecado não apenas nos leva a praticar o que é contrário à vontade de Deus; ele também afeta nossa percepção, fazendo-nos chamar de normal aquilo que Deus chama de pecado e, por vezes, considerar estranho aquilo que Ele declara ser santo.

Entretanto, essa coerência nem sempre permanece quando nossos próprios interesses estão em jogo. Por vezes, estamos dispostos a praticar aquilo que condenamos nos outros, apenas atribuindo nomes mais suaves às mesmas atitudes ou às suas consequências indesejadas. Assim, o pecado não apenas contamina nossas ações, mas também nossa capacidade de reconhecer e apreciar aquilo que é verdadeiramente puro.

 

Ambiguidades 

Quando assinamos um contrato − seja para utilizar um aplicativo ou programa, contratar um seguro ou adquirir algum serviço − ou quando nos deparamos com uma promoção em uma vitrine ou gôndola de supermercado, muitas vezes descobrimos depois que as coisas não eram exatamente como pareciam.

Penso com meus botões que, em alguns casos, isso talvez seja feito de propósito.

Você compra uma passagem aérea e, na etapa seguinte da tela, aparece assinalada a aquisição de determinado “privilégio” que você não percebeu e sequer deseja. Na pressa, aceita sem se dar conta de que está pagando mais por um pacote de que não precisa.

Em outra ocasião, encontra uma camisa com 50% de desconto. Quando olha com mais atenção, descobre que o preço promocional só vale se comprar duas.

O leite condensado está muito barato… Desde que você leve dez unidades.

O frete é gratuito na livraria… Desde que a compra ultrapasse trezentos reais, você more na região Sudeste e, ainda assim, esteja em uma área atendida pelas condições da promoção.

O sapato feminino está com 80% de desconto… Contudo, só há os tamanhos 33 e 39. Se for masculino, talvez encontremos os tamanhos 37 e 46.

Poderíamos multiplicar os exemplos. Certamente, em situações assim, já nos sentimos lesados. Com o tempo, porém, aprendemos a ser mais cautelosos: passamos a ler com atenção as letras miúdas, muitas vezes em cores pouco nítidas e estrategicamente discretas. Até que, de tanto forçar a vista, descobrimos que precisamos trocar de óculos.

Mas vejam só: há uma promoção fantástica na Ótica Bartimeu! As lentes são de graça… Só é preciso comprar a armação por um “precinho camarada”. Isso nos parece pura armação ilimitada.

O problema, portanto, não está apenas naquilo que vemos, mas também naquilo que, por diferentes razões, não percebemos à primeira vista.

 

Absolutamente clara e límpida

A Palavra de Deus não nos engana nem procura nos surpreender com aquilo que deliberadamente não percebemos. Ela é clara e límpida quanto ao que Deus requer de nós para a fé e a vida, e quanto aos seus santos propósitos. Deus não age conosco por meio de subterfúgios ou ambiguidades; suas orientações são verdadeiras, retas e dignas de inteira confiança. Por isso, podemos descansar na certeza de que sua Palavra nos revela fielmente a sua vontade.

Calvino escreveu com propriedade:

É peremptoriamente necessário que cortemos ocasião à nossa desconfiança; e sempre que alguma dúvida sobre a fidelidade das promessas de Deus nos assaltar, devemos empunhar contra ela esta arma: as palavras do Senhor são puras![2]

Não há obscuridade no mandamento de Deus quanto àquilo que Ele requer de nós, embora nosso coração pecaminoso muitas vezes resista à sua clareza e tenha dificuldade em acolhê-lo. O problema não está na Palavra, mas em nós.

Davi, confrontado com a Palavra de Deus por intermédio do profeta Natã, reconheceu o seu pecado e se arrependeu. Então, suplica ao Senhor: “Cria em mim, ó Deus, um coração puro  (rAhj’) (tahor) e renova dentro de mim um espírito inabalável” (Sl 51.10).

Somente um coração regenerado e purificado pela graça pode verdadeiramente apreciar a pureza da Palavra, submeter-se à sua autoridade e reconhecer a necessidade de uma vida cada vez mais santa diante de Deus.

Por intermédio do profeta Ezequiel, Deus promete resgatar o seu povo da idolatria, purificá-lo de suas impurezas e conceder-lhe um novo coração. A iniciativa é inteiramente divina: Deus mesmo purifica, Deus mesmo concede um novo coração e Deus mesmo põe o seu Espírito no interior do seu povo:

23 Vindicarei a santidade do meu grande nome, que foi profanado entre as nações, o qual profanastes no meio delas; as nações saberão que eu sou o SENHOR, diz o SENHOR Deus, quando eu vindicar a minha santidade perante elas.  24 Tomar-vos-ei de entre as nações, e vos congregarei de todos os países, e vos trarei para a vossa terra.  25 Então, aspergirei água pura (rAhj’) (tahor) sobre vós, e ficareis purificados (rhej’) (taher); de todas as vossas imundícias e de todos os vossos ídolos vos purificarei.  26 Dar-vos-ei coração novo e porei dentro de vós espírito novo; tirarei de vós o coração de pedra e vos darei coração de carne.  27 Porei dentro de vós o meu Espírito e farei que andeis nos meus estatutos, guardeis os meus juízos e os observeis. (Ez 36.23-27).

 

Limpos pela Palavra

 No Novo Testamento, o Senhor Jesus declara aos seus discípulos que eles já estavam limpos pela Palavra que lhes havia anunciado. Essa realidade se estende a todo verdadeiro cristão: fomos purificados pela Palavra e regenerados pela ação soberana do Espírito Santo, mediante a Palavra de Deus, que permanece para sempre.

A Palavra não apenas nos revela a pureza de Deus; ela é também o instrumento pelo qual o Espírito Santo opera em nós, conduzindo-nos à fé, à vida nova e à santificação.

O próprio Senhor Jesus declara: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” (Jo 3.3).

Esse novo nascimento não procede de nossas obras nem de nossa capacidade autônoma, mas da misericórdia soberana de Deus e da ação regeneradora do Espírito Santo: “Não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).

Tiago explicita a relação entre a regeneração e a Palavra: 18Pois, segundo o seu querer, ele nos gerou pela palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas. […] 21 Portanto, despojando-vos de toda impureza e acúmulo de maldade, acolhei, com mansidão, a palavra em vós implantada, a qual é poderosa para salvar a vossa alma” (Tg 1.18,21).

Pedro afirma igualmente que fomos regenerados “mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente” (1Pe 1.23).

Agora, pela graça de Deus, podemos compreender e discernir a Palavra em sua pureza. O Espírito Santo, por meio dela, nos conduz à fé, nos alimenta espiritualmente, nos santifica e nos guia em segurança pelos caminhos do nosso Pastor. Assim, aquilo que antes nos parecia estranho ou desagradável passa a ser reconhecido, pela graça, como santo, bom e digno de ser amado.
 

São Paulo, 25 de agosto de 2026.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


 

[1]“Abomináveis são para o SENHOR os desígnios do mau, mas as palavras bondosas lhe são aprazíveis (rAhj’) (tahor)” (Pv 15.26).

[2]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 12.6), p. 256.

Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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