A geração que não quer envelhecer: quem poderá salvá-la?
Já adianto: o filme deste mês não é lançamento. Aliás, nem desta década ele é. Mas lembrei dele recentemente enquanto lia uma newsletter sobre tendências de marketing e comunicação. Entre os temas abordados na edição estava Bryan Johnson, empresário que se tornou símbolo do movimento da longevidade extrema e se autodenomina um rejuvenation athlete. Seu…

Já adianto: o filme deste mês não é lançamento. Aliás, nem desta década ele é. Mas lembrei dele recentemente enquanto lia uma newsletter sobre tendências de marketing e comunicação.
Entre os temas abordados na edição estava Bryan Johnson, empresário que se tornou símbolo do movimento da longevidade extrema e se autodenomina um rejuvenation athlete. Seu objetivo declarado é simples (por favor, leia com ironia): não morrer.
Para isso, além de criar uma empresa que busca facilitar o acesso a tratamentos antienvelhecimento, Bryan investe milhões de dólares por ano em exames, protocolos de saúde, monitoramento constante e experimentos corporais que têm como único propósito retardar ao máximo o envelhecimento.
Enquanto lia sobre isso, imediatamente me veio à mente O Preço do Amanhã. Inclusive, esse filme já apareceu por aqui anos atrás em uma conversa sobre como lidamos com o tempo, dinheiro e poder. Só que, desta vez, o que mais me chamou a atenção não foi o sistema econômico baseado em tempo que o filme apresenta, mas um detalhe que passa quase despercebido: as pessoas param de envelhecer aos 25 anos.
Em um primeiro momento, isso parece um sonho. Corpos jovens, saúde preservada, energia constante. Mas, conforme a história avança, percebemos que a juventude eterna não resolveu os problemas daquela sociedade. Ela apenas os reorganizou.
Foi aí que tive uma espécie de epifania (e me desculpe se você já tinha percebido isso antes): O Preço do Amanhã parece menos ficção científica e mais uma parábola contemporânea, e nos lembra que prolongar a existência não significa necessariamente resolver o problema fundamental da condição humana. E tudo isso é exemplificado por Bryan Johnson, que mais do que uma curiosidade tecnológica, representa um fenômeno cultural.
Vivemos em uma época fascinada pela otimização. Queremos otimizar nossa produtividade, nossa alimentação, nosso sono, nossos relacionamentos e, agora, nossa própria biologia. A pergunta já não é apenas como viver melhor, mas como viver mais.
E aí, voltando para a Bíblia, encontramos uma perspectiva singular sobre esse desejo. Desde Gênesis, o ser humano foi criado para viver eternamente em comunhão com Deus. O anseio pela vida sem fim não é um acidente evolutivo; é um reflexo daquilo para o que fomos originalmente criados. Como aponta Eclesiastes, Deus “pôs a eternidade no coração do homem” (Ec 3.11).
Ao mesmo tempo, a Bíblia ensina que a morte entrou no mundo como consequência da Queda. Por isso, nossa resistência à morte é, em certo sentido, natural. Não fomos feitos para ela. A morte continua sendo, nas palavras do apóstolo Paulo, “o último inimigo” a ser destruído.
E mais. A tradição reformada nunca enxergou o cuidado com o corpo ou o desenvolvimento científico como algo negativo. Pelo contrário. O mandato cultural dado por Deus em Gênesis inclui cultivar, desenvolver, pesquisar e explorar as potencialidades da criação. Avanços médicos, tratamentos mais eficazes e descobertas que aliviam o sofrimento humano podem ser entendidos como expressões legítimas dessa vocação.
O problema surge quando a ciência deixa de ser instrumento e passa a ser vista como salvação. Quando a longevidade ocupa o lugar da esperança e o corpo se transforma em um projeto de redenção.
É justamente aqui que o filme e a realidade se encontram. Tanto no universo de Bryan Johnson quanto em O Preço do Amanhã, vemos uma humanidade tentando resolver os problemas da morte e do tempo por seus próprios meios. Coitados. Alguém avisa?!
Mas a questão principal permanece sem resposta: o que faremos com uma vida infinitamente mais longa se continuarmos carregando os mesmos pecados, egoísmos e idolatrias?
A alternativa (considerada radical por muitos) é apresentada pelo evangelho. A esperança cristã não é simplesmente viver mais tempo, mas viver para sempre reconciliados com Deus por meio de Cristo. Não se trata da preservação indefinida de um corpo caído, mas da promessa da ressurreição e da nova criação.
Talvez seja por isso que a busca obsessiva pela juventude eterna produza tanta ansiedade e destruição. Não por acaso, filmes tão diferentes quanto O Preço do Amanhã e A substância (2024) orbitam a mesma pergunta: até onde estamos dispostos a ir para escapar dos limites do tempo? No fundo, essa busca tenta satisfazer um desejo legítimo com uma solução insuficiente. Queremos eternidade, mas procuramos encontrá-la em apenas mais alguns anos de vida.
O Preço do Amanhã nos lembra de que a humanidade sonha em vencer a morte. O cristianismo afirma algo ainda mais impactante e revolucionário: a morte já foi vencida. Não por protocolos, algoritmos ou bilhões de dólares, mas pela obra de Cristo na cruz e em sua ressurreição.
E essa continua sendo a única forma de eternidade que não depende do saldo disponível no relógio (Quem já viu o filme pegou essa referência. Quem ainda não viu, está esperando o quê?).
Gabriela Cesario é jornalista do Brasil Presbiteriano e Coordenadora de Marketing e Eventos da Editora Cultura Cristã
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