Chamado e vocação em tempos de IA

Este texto foi adaptado da newsletter de Russell Moore. Inscreva-se aqui. Você não precisa mais buscar a vontade de Deus para sua carreira. Estou brincando, é claro, embora haja nisso alguma verdade. É evidente que devemos sempre buscar a vontade de Deus. Mas o que entendemos por isso, a maior parte da nossa vida, está…

Este texto foi adaptado da newsletter de Russell Moore. Inscreva-se aqui.

Você não precisa mais buscar a vontade de Deus para sua carreira.

Estou brincando, é claro, embora haja nisso alguma verdade. É evidente que devemos sempre buscar a vontade de Deus. Mas o que entendemos por isso, a maior parte da nossa vida, está prestes a mudar drasticamente. O que está mudando não é Deus nem a vontade dele, mas sim o mundo como o conhecemos — e, com ele, está mudando também a forma ultrapassada como pensamos sobre “carreira”.

Minha adolescência trouxe consigo uma série de decisões, enquanto eu lutava com perguntas como “O que vou fazer da minha vida?” e “Qual é a vontade de Deus para mim?”. Como acontece com a maioria de nós, o anseio para descobrir qual era o meu chamado representava grande parte desta minha inquietação. E, para mim, a resposta foi um chamado para o ministério. Mas, como muitos de nós enfatizamos e reenfatizamos nos últimos 30 anos, quando falamos de chamado não estamos falando apenas de ocupações para o serviço cristão em tempo integral, mas, de forma mais geral, falamos de uma vocação. O peso para descobrir precisamente qual era esse chamado era bastante angustiante, pois determinava uma cascata de outras perguntas: devo fazer uma faculdade, um curso técnico, alistar-me no exército ou fazer outra coisa? Se optasse pela faculdade, qual curso fazer? Se optasse por um curso técnico, em que área? Se optasse por alistar-me no exército, em que local?

Essas decisões determinavam o escopo da sua vida — mesmo que você mudasse de rumo e escolhesse fazer outra coisa mais tarde. Você sentia que, se errasse nisso, estaria desperdiçando sua vida ou arruinando seu futuro. É muita pressão para colocar sobre um jovem de 17 ou 18 anos. Esse era o mundo em que todos nós vivíamos, assim como viveram nossos pais e avós. Mas estamos entrando em um mundo diferente agora.

Na semana passada, o ensaio “Something Big Is Happening” [Algo grande está acontecendo] atingiu 60 milhões de visualizações no X, em questão de dias, e com a mesma rapidez tornou-se foco de controvérsia. O ensaio, escrito pelo pesquisador da indústria de inteligência artificial Matt Shumer, argumenta que estamos vivendo algo equivalente a fevereiro de 2020, prestando pouca atenção ao vírus que as notícias nos diziam estar se espalhando pela China. O mundo, escreveu Shumer, está prestes a mudar drasticamente — com uma mudança radical na perda de postos de trabalho e desemprego em massa, especialmente em cargos de nível inicial e entre os “trabalhadores do conhecimento”, de colarinho branco.

Muitos desqualificaram as palavras de Shumer, chamando-o de “profeta do apocalipse”, um alarmista, ou encontraram problemas legítimos em algumas de suas previsões. Mas deixemos tudo isso de lado. O que deve chamar nossa atenção não é aquilo que foi contestado no texto de Shumer, mas sim o que não foi. Dario Amodei, CEO da empresa de IA Anthropic, escreveu recentemente um memorando alertando o mundo sobre o que está por vir, incluindo, como o site Axios resumiu após entrevistá-lo, sua crença de que “a IA pode eliminar metade de todos os empregos de colarinho branco de nível inicial — e elevar o desemprego para 10 a 20% nos próximos cinco anos”.

Note que quem está falando não é Paul Kingsnorth ou algum outro cético da tecnologia. Trata-se de alguém que articulou uma das visões mais esperançosas sobre as possibilidades da IA para um futuro melhor para todos nós — e até escreveu um manifesto chamado “Machines of Loving Grace” [Máquinas de Graça Amorosa]. Amodei ainda acredita na promessa da IA — afinal, ele está à frente de uma das empresas de IA mais importantes do mundo. Em uma entrevista a Ross Douthat, Amodei explorou ainda mais profundamente o que vê pela frente. Ele acredita que, a longo prazo, valerá a pena, mas a reviravolta será imensa.

Ao mesmo tempo, um pesquisador de segurança da Anthropic publicou uma carta aberta dizendo ao mundo que estava se demitindo — e indo para o Reino Unido escrever poesia. A carta não terminava com “Boa noite e boa sorte”, mas é essa a sensação que dá.

Como sabem, tenho uma visão definida sobre para onde acho que isso está caminhando, e tenho expressado repetidamente minha preocupação de que a igreja (bem como os ministérios e as mídias cristãs) parecem relutantes ou incapazes de se preparar. Mas, dentre todas as formas como a IA está mudando o mundo, aqui está um aspecto que definitivamente se concretizará, independentemente de os pessimistas da IA, os entusiastas da IA ou aqueles de nós que estão no meio, entre uns e outros, estarem certos: o antigo padrão de escolher uma carreira e passar a vida inteira perseguindo-a está prestes a acabar.

De certa forma, é claro, já acabou. Meu pai trabalhou essencialmente em dois lugares, durante toda a sua vida — o FBI e a Ford Motor Company — e ele teve uma carreira mais variada do que muitos de seus colegas, que começaram em uma empresa e se aposentaram no mesmo lugar. Isso já mudou. Praticamente ninguém espera hoje ter uma carreira tão estável a ponto de ficar com o mesmo empregador por toda a vida.

A maioria das pessoas, porém, pensava que, mesmo que o emprego não seja mais algo tão estável, o senso de vocação ainda é e sempre será. Se você é um programador, pode encontrar um emprego em locais diversos; se antes trabalhava em um hospital, agora pode trabalhar em um escritório de advocacia. Se você é contador, pode um dia estar trabalhando em uma fábrica de papel e, no outro, trabalhar para a prefeitura de sua cidade.

As coisas estão muito menos fixas e estáveis hoje — mesmo para os profissionais mais instruídos e especializados. Afinal, um cirurgião em 2026 pode muito bem ter um conjunto de habilidades irreconhecível, quando comparado a um cirurgião em 2046. Um professor competente em 2026 pode precisar do equivalente a uma educação inteiramente diferente para fazer o seu trabalho em 2056. E ainda há aqueles cujos campos inteiros acabarão “arrebatados” no que parece ser um piscar de olhos.

Existem muitos perigos, dificuldades e ciladas aqui, e não vou ignorá-los. Mas há pelo menos uma maneira pela qual toda essa revolução em que estamos entrando pode ser boa para você. Não quero dizer boa no sentido de que a medicina ou a qualidade de vida serão melhores (embora eu não tenha motivos para duvidar disso). Eu me refiro à incerteza em si. Nossa própria incerteza pode nos ajudar a nos livrar de certas suposições que nos prejudicam.

Costumamos pensar na vocação como algo definido. Essa mentalidade pode até estar por trás de grande parte da angústia que temos em discernir a vontade de Deus para uma carreira. Pensamos que, uma vez que isso esteja decidido, o mapa está traçado e, agora, apenas nos guiamos por ele. É claro que isso nunca foi realmente verdade. As vocações nunca seguem o caminho que planejamos. E isso é verdade quer a pessoa permaneça na mesma função por toda a vida, quer mude de emprego diversas vezes.

Um caminhoneiro pode fazer a mesma coisa que fazia aos 25 anos, mas manter a atenção e a habilidade [para dirigir, com o passar do tempo] é algo inteiramente diferente de apenas ter escolhido a profissão. Alguém pode pensar que sabe o que é ser médico de pronto-socorro, depois de conversar com alguém que tenha essa profissão; mas não sabe de fato como é ser um médico de pronto-socorro que passa por um divórcio ou se recupera de um vício.

Como disse Frederick Buechner em sua frase notória: “O lugar para onde Deus te chama é o lugar onde a sua profunda alegria e a profunda fome do mundo se encontram”. Isso continua sendo verdade. Mas os meios e modos de unir sua alegria a essa fome mudarão — provavelmente repetidas vezes. A imprevisibilidade sempre esteve lá. Agora ela apenas está reconhecível e sem disfarces.

Talvez esteja preocupado em descobrir para o que Deus está chamando você. Talvez esteja preocupado em saber por quanto tempo ainda poderá continuar trabalhando no chamado que escolheu anos atrás. Em qualquer desses casos, tenho uma boa notícia: você não pode fazer nada a respeito das mudanças que acontecem à sua volta; mas pode fazer algo sobre si mesmo.

E aqui está o que eu quero dizer. Talvez você escreva códigos e seu emprego esteja prestes a ser substituído por um modelo de IA que foi criado por outro modelo de IA. Mas você ainda será o tipo de pessoa que sabe prestar atenção aos detalhes necessários para fazer o que faz, que sabe se disciplinar para focar na tarefa à sua frente. Você ainda é a pessoa que poderia fazer tudo isso enquanto enfrenta todos os obstáculos pessoais que estão à sua frente, naquele momento.

Talvez essas habilidades sejam inteiramente reaproveitadas, de maneiras que você nunca imaginou, mas você ainda as possui. Talvez seja hora de parar de pensar em si mesmo como um engenheiro de software e começar a pensar em si mesmo como uma pessoa que tem o tipo de mente capaz de aprender e fazer engenharia de software — mesmo que você a aplique a algo que jamais imaginou. Você pode ensinar outra pessoa a fazer isso — mesmo que seja para que essa pessoa possa fazer coisas que você nunca na vida cogitou.

Eu estou nessa mesma situação com você. Modelos de IA podem escrever mais rápido do que eu, e tenho certeza de que podem produzir um artigo ou um sermão mais impactante do que os meus. Talvez todo o propósito do meu chamado não fosse escrever nem ensinar, mas estar preparado para, em algum momento específico no futuro, conversar com meu colega de quarto no asilo, quando ele disser que foi ferido por alguma religião e que tem medo de morrer. Talvez todo o meu chamado — depois de todos esses anos lutando com o que dizer em meus sermões ou me esforçando toda semana para saber se valia a pena escrever aqui sobre alguma atrocidade que apareceu nas notícias — tenha sido apenas me preparar uma vida inteira para que eu pudesse saber o que preciso dizer, nesse dia futuro, para esse meu colega de quarto: “Jesus te ama. E sei disso porque a Bíblia me diz”. Quem pode dizer que isso não é verdade? E se for, será que eu conseguiria conviver com essa verdade? Será que tudo teria valido a pena? Sim. O mesmo vale para você, seja o que for que faça.

Mas esse contentamento exige uma certa mentalidade. Ao descrever a fé de Abraão em resposta ao chamado de Deus, a Bíblia diz que ele obedeceu, embora não soubesse para onde estava indo (Hebreus 11.8). Isso exigiu que Abraão, Sara e todos os outros herdeiros daquela promessa reconhecessem “que eram estrangeiros e peregrinos na terra” (v. 13). Ora, você não sabe o que estará fazendo em dez anos. Mas, a grande verdade é que você nunca soube.

Você não pode prever com certeza de quais empregos o mundo precisará em dez anos — e certamente não pode encontrar um emprego e congelá-lo no espaço e no tempo. Mas, daqui a 10 anos, o mundo ainda precisará de sabedoria, integridade, criatividade e cuidado. À medida que você aprende e pratica um ofício, pode prestar atenção a quais disciplinas o capacitam a fazê-lo. Os que prosperarão serão os que se adaptarem — os que conseguirem aprender, recalibrar e ver sua vocação como uma vida de servir aos outros com seus dons, e não apenas como a descrição de um cargo. Talvez assim possamos nos libertar dessa identificação com o nosso chamado e perceber que ele sempre teve o propósito de nos libertar para doar e servir.

E, nessa liberdade, pode ser que recuperemos algo que perdemos. Jesus disse a seus discípulos: “Sigam-me”. E, depois, disse isso novamente. E novamente. E novamente. Em cada vez, ele reaproveitou antigas habilidades para alguma nova tarefa para a qual seus discípulos nem imaginavam que estavam sendo preparados.

O chamado de Jesus para a nossa vocação nunca foi sobre algum planejamento detalhado. Sempre foi sobre um Caminho. Nunca foi sobre o seu chamado. Ele é sobre Quem está chamando você.

Russell Moore é editor-chefe e colunista da Christianity Today e lidera o seu Projeto de Teologia Pública.

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  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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