Somos um povo que celebra na alegria e na tristeza
Precisamos dar mais festas. Pelo menos, foi isso que eu e meu marido decidimos no ano passado, em uma tentativa de afastar a nuvem de desânimo que havia se abatido sobre nós. Muitas das festas que organizamos foram pequenas reuniões, algumas foram médias e duas delas, grandes. Mas todas foram esplêndidas. Receba nossas atualizações diretamente…
Precisamos dar mais festas.
Pelo menos, foi isso que eu e meu marido decidimos no ano passado, em uma tentativa de afastar a nuvem de desânimo que havia se abatido sobre nós. Muitas das festas que organizamos foram pequenas reuniões, algumas foram médias e duas delas, grandes. Mas todas foram esplêndidas.
Nossas festas foram esplêndidas pelo simples fato de acontecerem. Se fôssemos colocar tudo no papel, vejam bem, não tínhamos sequer motivos para celebrar: na verdade, estávamos nas trincheiras, enfrentando problemas sérios enquanto tentávamos cuidar de nossos filhos. Todos os três vieram para nós por meio do acolhimento familiar e da adoção. Eles são preciosos e talentosos — e têm sérios problemas de saúde. Passávamos horas, todas as semanas, em tratamentos e ajustando medicações. As pilhas de contas só cresciam. Estávamos no meio de processos judiciais para entrar com um recurso contra a seguradora. Enquanto isso, nossos filhos estavam piorando. Nossas orações eram, em sua maioria, lamentos. Nossa casa dificilmente tinha clima para festas.
No entanto, nossa convicção só crescia: precisávamos celebrar.
Fomos inspirados por vários amigos que demonstraram um doce carinho ao nos convidar para suas festas. Minhas favoritas eram as reuniões improvisadas. Um amigo nos pediu, no dia do seu aniversário, para irmos à casa dele celebrar aquela noite. Ele não se planejou com antecedência e estava com vontade de comer croque-monsieur, um sanduíche que sua esposa se oferecera para fazer. Nunca tínhamos ouvido falar desse prato e ficamos encantados. Fomos até a casa deles, onde nos receberam com calorosas boas-vindas, bebidas borbulhantes e petiscos com molho. Por mais cansados e sem brilho que nós parecêssemos, ainda vislumbramos um lampejo de esperança. Éramos amados, não estávamos perdidos, esquecidos; celebrar ainda era possível e estava ao nosso alcance.
A celebração, no entanto, é algo raro. Hoje, nos Estados Unidos, as pessoas frequentam cerca de metade do número de festas que frequentavam em 2003. Apenas cerca de 4% de nós têm algum encontro marcado no calendário para um dos próximos fins de semana. Quase três quartos das pessoas não têm planos para festejar o próprio aniversário. Com quem nos reuniríamos?
Nossos círculos de amigos são pequenos — apenas 64% das pessoas dizem ter mais de um bom amigo —, e expandir nossos círculos é difícil, uma vez que hesitamos em falar com pessoas desconhecidas.
Precisamos de mais festas, e rápido. Quando meu marido e eu chegamos a essa conclusão para nossas próprias vidas, minha irmã sugeriu que eu lesse o maravilhoso livro de Priya Parker, The Art of Gathering [A Arte dos Encontros].
Qualquer reunião, declara Parker, pode fortalecer nossos laços uns com os outros. Quando entendemos por que estamos nos reunindo, nos tornamos líderes em conexão humana. As pessoas que convidamos, as conversas que temos e o espaço que arrumamos são todos uma forma de arte que transmite amor e significado.
Em outras palavras, celebrar é ministério — um ministério de alegria, tanto para o anfitrião quanto para os convidados.
Sempre amei as linhas de abertura das cerimônias de casamento no Livro de Oração Comum: “Jesus Cristo adornou este modo de viver com sua presença e seu primeiro milagre em um casamento, em Caná da Galileia”. O que me chama a atenção é que Jesus também estava contribuindo para festas. Sua contribuição para os preparativos, afinal, foi mais vinho — e o melhor de todos. Ele poderia ter feito um sermão ou dado um presente prático, mas, em vez disso, reabasteceu “o vinho, que alegra o coração do homem” (Salmos 104.15).
A lealdade sóbria de Jesus aos propósitos de seu Pai é clara em cada cena do Novo Testamento. No entanto, as celebrações foram uma parte importante de seu ministério, e muitas de suas parábolas do reino se passam em banquetes suntuosos. Ele descreve Deus como alguém que se regozija, celebra e é um anfitrião extraordinário de festas. Jesus também esteve presente em tantos jantares que seus críticos o chamaram de “glutão e beberrão” (Mateus 11.19). Muitos dos convidados que estavam com ele eram cobradores de impostos e pecadores, traidores e marginalizados, pessoas que talvez também não tivessem motivo para celebrar, exceto por uma razão: Cristo havia chegado.
Cristo havia chegado. E trazendo uma salvação que o profeta Isaías igualou a um banquete magnífico:
Neste monte o Senhor dos Exércitos preparará um farto banquete para todos os povos, um banquete de vinho envelhecido, com carnes suculentas e o melhor vinho. Neste monte ele destruirá o véu que envolve todos os povos, a cortina que cobre todas as nações. Ele tragará a morte para sempre. (Isaías 25.6-8)
Nossas orações de lamento são uma resposta importante à realidade do pecado e da morte, e o jejum nos impulsiona a confiar em Deus. Mas as festas também têm seu lugar, pois nos falam de uma realidade correspondente, a poderosa salvação de Deus. Reunir-se e alegrar-se, vestir nossas melhores roupas, dançar, cantar e celebrar é dar testemunho da esperança que temos em Jesus Cristo. Quando fomos trazidos para a família de Deus, nós nos tornamos um povo que festeja.
Minha família tinha muito o que comemorar, mesmo enquanto lutávamos com litígios contra a seguradora e problemas de saúde. Tínhamos amigos para convidar, comida para compartilhar, uma casa para abrir, uma família que nos ama e um Deus que toma nossa dor nas suas mãos e a transforma em cânticos de alegria (Salmos 10.14; 126.6). Nossas próprias festas imitam, à nossa pequena maneira, a graça e a generosidade do Rei que está formando para si um povo que ama a Deus e ama uns aos outros.
Planejamos nossa primeira grande festa para depois da Páscoa.
Nossos amigos do croque-monsieur nos emprestaram um livrinho prático chamado The 2-Hour Cocktail Party [A festa de coquetel de 2 horas], de Nick Gray, um guia para dar festas simples e agradáveis. Seguimos os passos recomendados no livro: imprimimos convites e os entregamos a amigos, conhecidos e ao maior número possível de vizinhos. Dissemos às pessoas para usarem roupas festivas. Compramos mantimentos, copos extras e uma toalha de mesa nova. Afastamos as cadeiras para abrir espaço e enviamos lembretes entusiasmados.
Na manhã da festa, porém, minha filha acordou com uma dor severa na lateral do corpo. Ao meio-dia, ela estava na sala de emergência.
Enquanto eu estava sentada com ela no colo, e a porta do quarto do hospital abria e fechava — primeiro, para a enfermeira da triagem, depois, para o médico assistente, o recepcionista, o médico, a enfermeira novamente, os enfermeiros que auxiliavam no transporte, o médico de novo e a senhora do lanche, em uma sucessão lenta —, eu me alternava entre orar e me inquietar. Talvez isso fosse um sinal de que realmente não tínhamos que ficar tentando dar festas. Olhem bem para nós! A tarde que precisávamos para preparar tudo foi engolida. Nossos convidados poderiam chegar e nos encontrar despreparados, nervosos, ainda limpando a casa e providenciando gelo para as bebidas.
Seria falta de fé cancelar a festa? Seria tolice não realizar a festa?
Pensei em Jesus, nos seus jantares com amigos e estranhos, sempre tranquilo e atento àqueles que se reuniam com ele para comer e beber. E uma calma sobrenatural se abateu sobre mim. Uma longa visita ao pronto-socorro era praticamente uma caricatura desanimadora, mas também era uma forma de vermos o amor de Deus em ação. Ele poderia ter algo maravilhoso reservado para nós.
E ele tinha mesmo.
Fui para casa algumas vezes, para falar com meu marido, arrumar algumas coisas e fazer uma lista de coisas a fazer. Coloquei minha roupa de festa e voltei para o pronto-socorro, para esperar.
Nossa festa estava marcada para começar às 19h. Às 18h15, a equipe do hospital parecia estar se encaminhando para dar alta à minha filha. Às 18h35, recebemos toda a papelada e a autorização para deixar o hospital. Chegamos em casa 15 minutos antes do horário de início da festa. Rapidamente arrumei o gelo e os pratinhos.
Uma grande amiga foi uma das primeiras a chegar — ela trouxe lindas travessas com legumes fatiados, discos de legumes translúcidos vermelhos, brancos e dourados dispostos em torno de molhos cremosos. Ela os levou para a cozinha, para desembrulhá-los. Eu comecei a falar sobre o que havia acontecido.
“Adivinha onde passamos o dia todo”, desabafei.
“Onde?”, ela perguntou.
“No pronto-socorro”, eu disse, piscando e sorrindo entre lágrimas.
“Ah, Wendy”, disse ela. Ela me olhou nos olhos e apertou meu ombro.
Levamos as travessas para a mesa com as outras comidas, e então nos dirigimos para a sala, onde se ouvia um murmúrio agradável dos convidados que chegavam, tiravam seus casacos e entravam, trajando roupas elegantes. Servimos as bebidas e brindamos. Foi esplêndido.
Um mês depois, o tempo esquentou. Minha família e eu fomos convidados para um churrasco na casa do vizinho. Estávamos no quintal, conversando com um recém-chegado, quando nosso amigo do croque-monsieur se aproximou.
Fui cumprimentá-lo. “Bom te ver por aqui”, eu disse. “Como você conheceu os anfitriões?”
Ele me lançou um olhar estranho. “Eu os conheci na sua festa”, disse ele. “Trocamos nossos contatos”.
Então eu me lembrei: eles haviam começado a conversar em nossa sala de jantar, depois que todos tinham dito seus nomes e respondido à pergunta para quebrar o gelo. Ambos tinham bebês pequenos, gostavam de ouvir podcasts e, pelo visto, agora também eram amigos.
Dar festas é exercitar a esperança, uma frase de Esau McCaulley que amo. Por causa de nossa esperança em Cristo, nós, como sua igreja, podemos ser um povo que festeja. Podemos arrumar a mesa e observar o mestre do banquete adorná-la. Nós e nossos convidados podemos celebrar juntos, mesmo em meio às tristezas da vida, porque somos amados e não estamos perdidos. Que presente esplêndido!
Wendy Kiyomi é ensaísta e escreve sobre as provações da fé, as complexidades da adoção e as alegrias da amizade. Ela mora em Tacoma com sua família e é vencedora do Prêmio Zenger de 2023 por excelência jornalística.
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