Cristãos quenianos combatem a epidemia de violência doméstica
Em novembro de 2023, numa manhã de domingo, em Embu, no centro do Quênia, o templo de uma igreja ganhou vida com os sons de vozes femininas cantando em harmonia e da percussão ritmada e constante de tambores. Para Mary, a sensação era de estar num túmulo. Mary, cujo sobrenome a CT concordou em omitir…
Em novembro de 2023, numa manhã de domingo, em Embu, no centro do Quênia, o templo de uma igreja ganhou vida com os sons de vozes femininas cantando em harmonia e da percussão ritmada e constante de tambores. Para Mary, a sensação era de estar num túmulo.
Mary, cujo sobrenome a CT concordou em omitir por questões de segurança, contou que seu marido, um membro respeitado dessa congregação, que trabalhava no grupo que recepcionava pessoas no templo, a agredia verbal e fisicamente há anos, enquanto liderava orações na igreja, aconselhava famílias e pregava — às vezes de púlpito — sobre ordem no lar e fidelidade no casamento.
Em casa, discussões por coisas corriqueiras — dinheiro, a comida ou o jeito como ela falava ou se vestia — terminavam em humilhação ou violência. Mary se lembrou de uma noite em que tentou acalmar um conflito ajoelhando-se para orar. Ela contou que o marido agarrou um colar de contas com um crucifixo, que ela usava em volta do pescoço, e apertou com tanta força que ela pensou que ia sufocar, e lhe perguntou: “Você acha mesmo que orar pelos seus próprios erros vai te levar a algum lugar?”.
Por fim, o colar se rompeu, e Mary ouviu as contas caírem e se espalharem pelo chão. “Aquele som ficou gravado na minha memória”, disse ela. “Foi como se a minha fé estivesse se desfazendo junto com aquelas contas.”
O Quênia enfrenta uma crise contínua de violência contra mulheres, alimentada por crenças culturais e pela precariedade da infraestrutura social para auxiliar as vítimas. Sobreviventes como Mary e também líderes religiosos fazem parte de um movimento crescente para enfrentar essa crise.
De acordo com um estudo de 2024, 45% das mulheres quenianas entre 15 e 49 anos relataram já ter sofrido algum tipo de violência física. Mais de 40% das mulheres quenianas e da África Oriental relataram ter sofrido violência por parte de seus parceiros íntimos, em comparação com cerca de 33% das mulheres nos Estados Unidos, por exemplo.
A prevalência da violência baseada em gênero (VBG) — um termo frequentemente usado na África para descrever crimes como violência física, casamento infantil e abuso sexual contra mulheres — é atribuída por acadêmicos à ineficiente aplicação da lei, à subnotificação dos crimes, a visões que a sociedade tem das mulheres e ao acesso limitado a apoio jurídico.
Apesar do aumento de leis que criminalizam a violência doméstica e outros tipos de abuso contra mulheres, as Nações Unidas afirmam que os países da África Oriental continuam a apresentar altas taxas desses crimes. Em Uganda, 95% das mulheres relataram ter sofrido violência física ou sexual antes dos 15 anos, em parte motivada por normas sociais e casamentos precoces. Países com conflitos geopolíticos recentes, como o Sudão, frequentemente apresentam taxas de VBG mais elevadas do que outros países, mas a violência doméstica permanece alta em todo o continente.
Emily Onyango, a primeira bispa anglicana do Quênia, afirmou que as crenças culturais sobre masculinidade e feminilidade alimentam a violência contra as mulheres, reforçada por interpretações equivocadas das Escrituras e por práticas como o casamento forçado e o casamento de levirato [uma antiga prática cultural e religiosa em que o irmão de um homem falecido deve se casar com a viúva]. Ela identificou ensinamentos que são contrários ao divórcio, seja qual for a circunstância, como um fator que reforça os ciclos de abuso.
Para muitas mulheres, o estigma cultural dificulta a denúncia, especialmente se seus maridos ocupam posições de destaque ou têm uma sólida imagem social. As autoridades policiais e membros da comunidade podem duvidar do abuso ou simplesmente não fazer absolutamente nada.
Uma pesquisa revelou que 70% dos quenianos consideram a violência doméstica uma questão privada, e não criminal, e 60% acreditam que as mulheres provavelmente enfrentariam críticas, assédio ou vergonha, se denunciassem o caso às autoridades.
Mary disse que não denunciou o abuso do marido por medo do estigma de sua comunidade religiosa, que é extremamente unida. Ela pensou que, como uma boa esposa cristã, deveria apenas ficar casada e orar com mais fervor.
“Pensei que talvez Deus quisesse que eu suportasse aquilo”, disse Mary. “Quando todos esperam que você suporte, você começa a acreditar que sofrer é normal.”
Quando ela finalmente procurou um setor de atendimento para vítimas de violência doméstica, em uma delegacia local, para denunciar o abuso do marido, ela disse que a policial questionou se ela tinha certeza de que o marido a havia agredido, uma vez que ele parecia ser uma “pessoa importante”. Mary saiu da delegacia sem concluir o registro da ocorrência.
Embora 8 em cada 10 quenianos considerem “um tanto provável” ou “muito provável” que a polícia trate esses casos com seriedade, menos da metade das mulheres buscou ajuda para acabar com a violência doméstica.
Líderes religiosos da África Oriental estão se manifestando com mais frequência sobre a prevalência da violência contra mulheres, inclusive em igrejas, e estão tomando medidas para combatê-la. Algumas congregações estão oferecendo treinamento para pastores, a fim de que reconheçam sinais de violência e encaminhem as sobreviventes para ajuda profissional. Outras estão firmando parcerias com grupos de defesa dos direitos humanos para criar canais seguros de denúncia dentro das comunidades religiosas.
Eva Karimi, fundadora do Mulheres de Amor e Oração (WOLAP, em inglês), um ministério cristão de combate à violência de gênero, e esposa do bispo John Waweru, do Centro Compartilhe o Amor, em Murang’a, cidade que fica uma hora e meia ao norte de Nairóbi, teme que os índices de violência doméstica nas igrejas quenianas possam chegar a 70%, pois muitas mulheres que frequentam a igreja se calam por medo de serem ostracizadas.
Como líder do ministério e esposa de bispo, Karimi afirma ter conversado com muitas mulheres desesperadas, que sofrem violência doméstica em segredo. Ela conta que, muitas vezes, elas interpretam sermões sobre perdão e perseverança como uma orientação para suportar o sofrimento: “Elas vivem em silêncio, em parte também por medo do estigma”.
Karimi disse à CT que muitas mulheres também temem ficar desempregadas, após deixarem casamentos violentos: “Se uma mulher não conseguir alimentar seus filhos, depois de ter saído de casa, ela voltará [para o agressor]”.
Como as mulheres que saem de casamentos violentos podem sofrer com traumas ou por não ter qualificação profissional, o WOLAP oferece soluções práticas, incluindo aconselhamento, encaminhamento para hospitais parceiros que oferecem atendimento psicológico e acesso a fundos de poupança e microcrédito.
“A igreja deve ser um centro de acolhimento, não apenas um lugar para se alimentar da Palavra de Deus”, disse Karimi.
O WOLAP também interage com os maridos abusivos, caso as mulheres concordem. Nos casos em que a violência decorre do abuso de álcool ou de drogas, Karimi afirmou que procuram confrontar as raízes da violência dentro das famílias.
“Às vezes, os homens nunca foram informados de que o que estão fazendo é abuso”, disse ela. “Quando são confrontados e apoiados para mudar, alguns mudam.”
Muitas mulheres cristãs no Quênia, como Mary, não acreditam que o divórcio seja permitido, mas alguns líderes evangélicos estão tentando corrigir essa percepção.
Após a morte da cantora gospel nigeriana Osinachi Nwachukwu, em 2022, em decorrência dos ferimentos sofridos devido à violência constante por parte do marido, Confex Makhalira, um pastor do Malawi, escreveu um artigo para a The Gospel Coalition Africa aconselhando pastores e anciãos a recomendarem o divórcio sem hesitação, mesmo que “com lágrimas e tristeza”, caso o parceiro abusivo continue sem se arrepender, após uma separação temporária inicial, e não responda à disciplina da igreja.
Mary levou quase duas décadas para chegar a essa conclusão. Quando finalmente deixou o marido, em dezembro de 2023, levou consigo apenas uma pequena mala com pertences pessoais e sua Bíblia. Sem ter para onde ir, deixou seus dois filhos pequenos para trás, até poder voltar para buscá-los.
Um ano depois, ela encontrou, em Nairóbi, um grupo de mulheres sobreviventes de violência doméstica e conseguiu se reunir com seus filhos — então com 5 e 6 anos — trazendo-os para morar com ela, pouco tempo depois. Ela ainda está se escondendo do marido.
Seu grupo de mulheres se reúne semanalmente para jantar, orar, encorajar umas às outras e oferecer apoio prático. O grupo acabou lhe concedendo um microcrédito, para que ela pudesse se formar como maquiadora profissional e abrir seu próprio negócio, em vez de depender de trabalhos ocasionais lavando roupa para fora.
“Foi a primeira vez que alguém disse que minha vida importa”, disse Mary. Ela começou a reconstruir sua fé cantando músicas de louvor com seu grupo de mulheres, lendo a Bíblia e conversando sobre ela com outras mulheres.
Mary disse que o conteúdo de suas orações mudou.
“Antes, eu orava para que meu casamento sobrevivesse”, disse ela. “Agora, eu oro por coragem — para mim mesma e para as mulheres que ainda estão sentadas na igreja, sorrindo em meio ao silêncio, fingindo que está tudo bem.”
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