Ideologias não salvam ninguém, mas agimos como se salvassem
Em A Cidade de Deus, Agostinho define povo ou tribo como “uma multidão de seres racionais associados por um acordo comum sobre os objetos de seu amor”. Agostinho tinha em vista a tendência inevitável dos seres humanos de elevar algo à condição de objeto de adoração — e, a tal ponto, que isso molda a…
Em A Cidade de Deus, Agostinho define povo ou tribo como “uma multidão de seres racionais associados por um acordo comum sobre os objetos de seu amor”.
Agostinho tinha em vista a tendência inevitável dos seres humanos de elevar algo à condição de objeto de adoração — e, a tal ponto, que isso molda a forma como entendem o mundo e define seu senso de identidade comum.
Essa tendência nos ajuda a compreender as divisões aparentemente intransponíveis e frequentemente conflituosas que vemos em nossa própria cultura, tantos séculos depois, especialmente ao longo de linhas ideológicas. O que separa um grupo de povos dos demais — e distingue comunidades, facções e até nações — não são meramente suas crenças compartilhadas, suas instituições ou suas normas culturais. Fundamentalmente, são os objetos de seu amor comum: onde eles depositam coletivamente suas esperanças, aspirações, confiança e fé. É aquilo que eles adoram, no sentido mais profundo.
Nem todos os objetos de adoração são iguais. O que as Escrituras identificam como idolatria é fixar nosso coração em coisas criadas, e não no Criador. Estamos mais familiarizados com formas antigas de idolatria, nas quais os adoradores esculpiam ídolos de madeira ou de pedra, que frequentemente representavam elementos da criação, como o sol, a fertilidade ou a beleza. Mas os ídolos também podem assumir formas mais sutis e abstratas — como o sucesso financeiro, o prestígio social, as posses materiais ou o poder político — cada qual enraizando-se em algum aspecto da ordem criada por Deus.
Como sugere David Koyzis, professor de ciência política de longa data, em seu livro, Political Visions and Illusions: A Survey and Christian Critique of Contemporary Ideologies [publicado no Brasil sob o título Visões e Ilusões Políticas: Uma Análise e Crítica Cristã das Ideologias Contemporâneas], esta última forma de idolatria é “tão oblíqua e menos explicitamente vivenciada como tal” que muitas vezes não é reconhecida pelo que realmente é.
É precisamente esse tipo de idolatria que está na raiz de muitos dos conflitos ideológicos que dominam a cultura moderna. As ideologias contemporâneas, como argumenta Koyzis, são “manifestações modernas daquele antigo fenômeno chamado idolatria, completas em suas próprias histórias de pecado e redenção”. Assim como seus equivalentes históricos, essas ideologias pegam algo na criação e o elevam à condição de objeto de adoração, atribuindo-lhe qualidades salvíficas e redentoras. Em vez de contar a história bíblica da criação, Queda, redenção e restauração, as ideologias oferecem narrativas rivais sobre o que deu errado com o mundo e como ele pode finalmente ser consertado.
As ideologias liberais clássica e social, por exemplo, tendem a elevar o indivíduo autônomo à condição de bem supremo, definindo o caminho para o florescimento humano como a libertação de qualquer força que restrinja a busca progressiva do autointeresse individual.
As tradições socialistas colocam a igualdade no centro, como o objetivo supremo da sociedade, enquanto definem a injustiça principalmente em termos de disparidade social e econômica. Movimentos nacionalistas situam a ameaça fundamental na erosão das fronteiras culturais ou políticas, pela incursão de estrangeiros, e buscam salvação através da soberania nacional e do protecionismo. Tradições conservadoras frequentemente priorizam instituições herdadas e práticas sociais, acreditando que a preservação de normas e valores tradicionais é a única coisa que pode salvar a sociedade.
Não é difícil entender por que os adeptos dessas ideologias colidem com tanta frequência. Eles partem de diagnósticos diferentes sobre o que há de mais errado com o mundo, imaginam fontes diferentes de salvação e vislumbram narrativas fundamentalmente diferentes de como deveria ser uma sociedade restaurada.
Reconhecer que as ideologias funcionam como objetos rivais de devoção não é o mesmo que sugerir que todas elas sejam igualmente justas, prejudiciais ou destrutivas em suas consequências sociais, especialmente em suas formas de manifestação mais extremas. A própria Escritura reconhece diferentes graus de mal e de dano. Mas significa que mesmo os objetivos sociais mais nobres se tornam distorções espirituais, quando os tratamos como algo absoluto, supremo.
A fraqueza mais profunda que todas as ideologias têm em comum é o seu reducionismo inerente. Todo ídolo faz uma simplificação da vida humana, para garantir uma devoção irrestrita. Os ídolos convencem seus adeptos a depositar todas as suas esperanças em visões de mundo limitadas, desprovidas de qualquer nuance ou de complexidade. Eles reduzem a condição caída do mundo a conjuntos limitados de problemas e elevam verdades parciais ao status de soluções abrangentes. No fim, as ideologias fazem promessas que suas visões morais estreitas não conseguem cumprir.
Ainda assim, o apelo das ideologias reside na oferta de simplificação e de um caminho claro para redenção a um custo perceptível mínimo — desde que abracemos totalmente sua visão de mundo. Tal como acontecia com os ídolos do mundo antigo, a devoção a uma ideologia sempre cobra um preço. Falsos deuses sempre exigem algum sacrifício. Eles exigem que exaltemos um aspecto da criação, enquanto desvalorizamos outros e, ao fazê-lo, sacrificamos algo essencial sobre nossa humanidade compartilhada.
Por exemplo, quando idolatramos a liberdade individual, as obrigações para com os outros parecem ameaças. Quando a igualdade se torna um valor absoluto, vemos a particularidade e a distribuição meritocrática como manifestações de injustiça.
Como o falecido pastor Tim Keller frequentemente observava, os ídolos em geral não são inerentemente maus: são coisas boas que acabam sendo distorcidas como coisas supremas. A liberdade individual, a igualdade, a tradição e o pertencimento nacional são coisas genuinamente boas. Fazem parte da ordem criada por Deus e merecem séria atenção moral. Mas é uma distorção acreditar que qualquer uma delas, se exaltada acima de todas as outras, é capaz de curar o que há de mais profundamente quebrado na condição humana. Nenhuma delas pode — nem de longe.
Koyzis vai além. Com seus respectivos objetos de devoção, histórias redentoras, profetas carismáticos e seguidores leais que concorrem entre si, as ideologias modernas, na visão de Koyzis, assemelham-se cada vez mais a religiões rivais. Comprometer-nos totalmente com uma visão ideológica — e assim permitir que sua narrativa se torne a lente primária através da qual interpretamos os problemas e as soluções da sociedade — não é apenas adotar um conjunto de convicções sociais. É tornar-se devoto do ídolo que está no centro dessa visão. Assim, as batalhas ideológicas de nossa cultura agem menos como um conflito sobre ideias concorrentes e mais como uma guerra entre adoradores de ídolos conflitantes.
As exortações das Escrituras contra a idolatria estão entre seus temas mais persistentes e urgentes. Do mandamento dado a Israel de “não terás outros deuses diante de mim” (Êxodo 20.3) até a exortação final do apóstolo João — “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1João 5.21) — a preocupação bíblica é inabalável.
Os profetas de Deus alertaram Israel que viver entre as nações vizinhas lhes traria uma pressão constante para que adotassem os deuses dessas nações. A igreja, vivendo em uma cultura cada vez mais pluralista e ideologicamente saturada, enfrenta um perigo notavelmente semelhante: a tentação de adotar os ídolos dominantes da época, sob o pretexto da conveniência política ou da urgência moral.
O cristianismo é incompatível com a absorção e a cooptação ideológicas porque o coração cristão não pode pertencer a nenhum amor ou objeto de adoração que não seja o Deus vivo e verdadeiro. O evangelho insiste que o problema mais profundo que a humanidade enfrenta não é meramente a perda de liberdade, a persistência da desigualdade ou a erosão da tradição — por mais sérias que sejam essas realidades. O problema fundamental é o pecado, do qual a idolatria é tanto um sintoma quanto uma fonte. E o remédio definitivo não é encontrado em nenhuma parte da ordem criada, seja na engenhosidade humana, seja na reforma ideológica ou seja em uma política social de favorecimento. Ele é encontrado em um Salvador que veio ao mundo por causa da nossa fraqueza e que, por si só, pode restaurar a criação aos propósitos de Deus.
Isso não significa que as ideologias não tenham seu valor na vida pública. Significa que o valor delas é maior quando não as tratamos como coisas supremas. Elas têm seu lugar — mas não é o primeiro lugar.
Isso também não significa que os cristãos devam se contentar apenas em se alinhar com o “mal menor”, quando se tratar de ideologias. O mal menor ainda é um mal. Ainda é idolatria; ainda fica aquém do reino de Deus.
Quando abordam o mundo, os cristãos têm a responsabilidade de subordinar cada narrativa ideológica à verdade encontrada no evangelho. Fazer isso não afasta os crentes do engajamento cívico; liberta-os para se engajarem na vida pública sem assumir uma lealdade servil a qualquer agenda política, sem confundir prescrições políticas com o reino de Deus. Precisamente por não estar vinculado a uma única visão ideológica, o cristianismo pode construir pontes entre divisões, em vez de se tornar apenas mais uma facção dentre elas.
Quando o apóstolo Paulo se dirigiu aos filósofos epicureus e estoicos em Atenas, em Atos 17, ele começou reconhecendo o que era verdadeiro no pensamento deles, antes de expor seus limites. Os cristãos são chamados a ter uma postura semelhante hoje. Podemos afirmar as percepções morais genuínas embutidas nas tradições ideológicas — liberdade, igualdade, tradição e soberania nacional —, e, ao mesmo tempo, nos recusarmos a fazer de qualquer uma delas algo supremo.
Ao fazer isso, os cristãos podem apoiar objetivos políticos e soluções práticas sem se submeterem a narrativas mais profundas de salvação que essas ideologias prometem. Podemos nos tornar tanto uma ponte entre visões de mundo concorrentes quanto uma repreensão amorosa ao impulso de tratar respostas parciais como verdades absolutas. Tal ambiente cria um terreno comum, onde o diálogo sensato e o compromisso são possíveis. É assim que a política e a reforma social funcionam melhor.
O cristianismo exerce sua maior influência na vida pública quando resiste a ser capturado pela visão de mundo limitada das formas modernas de idolatria. Somente a partir dessa perspectiva os crentes podem manter a clareza de que precisam para abordar os desafios reais que nossas sociedades enfrentam — enquanto esperam com esperança pela restauração que somente Cristo pode trazer e que nenhuma ideologia pode, em última instância, entregar.
Domonic D. Purviance é pastor na Cornerstone Church, em Atlanta. É cofundador da King Culture [Cultura do Rei], uma organização sem fins lucrativos que capacita homens a refletirem a liderança altruísta de Cristo.
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