A política da missão ou a missão da política?
Quando Jesus envia os setenta discípulos (Lc 10.1-12), sua ordem é direta: não perder tempo, não carregar peso desnecessário, não se deter em saudações longas. A missão exige foco e propósito. O detalhe mais surpreendente, porém, é que esses setenta permanecem anônimos. Nenhum nome é registrado, nenhuma biografia preservada. O que importa não é quem…
Quando Jesus envia os setenta discípulos (Lc 10.1-12), sua ordem é direta: não perder tempo, não carregar peso desnecessário, não se deter em saudações longas. A missão exige foco e propósito. O detalhe mais surpreendente, porém, é que esses setenta permanecem anônimos. Nenhum nome é registrado, nenhuma biografia preservada. O que importa não é quem são, mas o que anunciam. Esse anonimato não é acaso: revela a urgência de um Reino que não pode esperar por grandes nomes. Jesus escolhe pessoas comuns para mostrar que a força da missão está na mensagem — não no mensageiro.
1. A política da missão
A palavra “política” não se refere aqui a partidos, mas à disciplina e ao método. Jesus dá instruções claras: viajar com simplicidade, anunciar a paz, aceitar a hospitalidade, não se distrair com convenções sociais. A missão não é improviso, mas obediência organizada. A missão exige clareza de objetivos, uso sábio do tempo e fidelidade ao conteúdo.
Esse aspecto revela que Jesus não apenas envia, mas instrui. Ele molda uma disciplina espiritual que organiza sem engessar, que dá ordem sem burocratizar. A teologia aqui é clara: a missão é sustentada pela obediência e pela simplicidade, não pela sofisticação humana. Assim como os setenta permaneceram anônimos, também a mulher samaritana (Jo 4) ou os cristãos sem nome que espalharam o evangelho em Antioquia (At 11.19-21) mostram que o Reino avança por meio de pessoas comuns, cuja força está na mensagem, não na fama.
2. O risco da missão virar política
O risco surge quando a missão se transforma em palco de poder. A história da Igreja mostra momentos em que a evangelização foi confundida com conquista territorial — como nas Cruzadas —, interesses econômicos — como na colonização das Américas — ou disputas ideológicas em regimes autoritários. Hoje, o risco permanece quando comunidades de fé se tornam palcos de autopromoção ou instrumentos de poder político-partidário. No Brasil, vemos igrejas midiáticas que confundem púlpito com palanque, líderes que usam a fé como plataforma eleitoral e comunidades que se tornam mais conhecidas por disputas ideológicas do que pela proclamação do evangelho.
Transformar missão em política é inverter prioridades: servir se transforma em ser servido; Cristo dá lugar à autopromoção. O anonimato dos setenta é pedagógico: eles não são lembrados por quem eram, mas pelo que anunciaram. A missão não se sustenta em nomes famosos, mas na fidelidade ao evangelho. Assim como os discípulos discutiam quem seria o maior (Lc 22.24), também nós corremos o risco de transformar a missão em palco de poder.
3. A urgência da mensagem
O envio dos setenta revela a urgência da proclamação: o tempo é escasso e a mensagem não pode ser atrasada. As saudações demoradas, comuns na cultura judaica, poderiam comprometer a missão. Jesus ensina: anunciar o Reino é prioridade. Nada pode atrasar a mensagem. Nem convenções sociais, nem agendas sobrecarregadas. Em tempos de redes sociais, quando a fé muitas vezes é reduzida a slogans ou curtidas, a Igreja precisa redescobrir a urgência da mensagem que não se mede por engajamento digital, mas por transformação de vidas.
Essa urgência permanece atual. Em um mundo marcado por distrações, burocracias e agendas sobrecarregadas, a Igreja precisa discernir o que é essencial. A política da missão é separar o essencial do acessório. Política da missão é separar o essencial do acessório.
4. A política própria da missão
Toda missão possui sua própria política: agir com diligência, manter simplicidade, ser fiel ao evangelho, glorificar a Deus e servir ao próximo. Essa política não é burocrática, mas espiritual; organiza sem engessar, disciplina sem sufocar. É a política do Reino, expressa em serviço humilde e testemunho fiel. A missão não depende de quem somos, mas de quem nos envia. Assim como pescadores da Galileia foram chamados sem preparo rabínico, como a mulher samaritana se tornou missionária em sua cidade, e como Mateus, cobrador de impostos, foi transformado em evangelista, a política da missão mostra que Deus escolhe os improváveis para realizar o essencial.
5. A missão acima da política
A missão cristã não se reduz à lógica da política humana. Não busca poder, mas testemunho; não se mede por conquistas, mas por fidelidade; não aponta para benefícios imediatos, mas para a esperança eterna.
A política da missão é necessária para dar ordem e direção. Mas a missão da política — isto é, a tentativa de usar o evangelho como instrumento de poder — é uma distorção perigosa. A Igreja é chamada a viver a política da missão, organizada e disciplinada, mas sempre submissa ao Senhor da missão. O anonimato dos setenta nos lembra de que o Reino não se constrói com celebridades, mas com servos fiéis — e é justamente na obediência silenciosa que a grandeza de Cristo se torna visível.
Considerações finais
A ordem de Jesus aos setenta discípulos nos lembra de que a missão exige foco, método e propósito. A verdadeira política da missão é fidelidade ao evangelho, urgência na proclamação e serviço humilde que aponta para Cristo ressuscitado. Num cenário global em que a religião é frequentemente instrumentalizada por partidos, governos ou influenciadores, a Igreja é chamada a resistir à tentação da visibilidade e permanecer fiel ao anonimato dos servos que anunciam Cristo. O Reino avança também nos bastidores, por meio de servos invisíveis, cuja obediência silenciosa revela a grandeza de Cristo. A missão não busca poder, não exalta nomes — proclama Cristo.
O Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa, colunista do BP, é pastor-auxiliar da 1ª IP São Bernardo do Campo, São Paulo, SP, Coordenador Acadêmico e professor de teologia no JMC; é membro do CECEP e do Conselho Editorial do Brasil Presbiteriano

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