No Brasil, psicólogos cristãos lutam para expressar sua fé
Após anos de frustração, Larissa Lima escreveu uma postagem no X, em abril. “No Brasil, um psicólogo pode se denominar de esquerda, feminista, decolonial, menos cristão”, escreveu ela. A publicação alcançou 2 milhões de visualizações, com 1.700 curtidas e perto de 675 comentários. Inicialmente, alguns questionaram como essa afirmação poderia ser verdadeira, visto que o Brasil é…
Após anos de frustração, Larissa Lima escreveu uma postagem no X, em abril. “No Brasil, um psicólogo pode se denominar de esquerda, feminista, decolonial, menos cristão”, escreveu ela.
A publicação alcançou 2 milhões de visualizações, com 1.700 curtidas e perto de 675 comentários. Inicialmente, alguns questionaram como essa afirmação poderia ser verdadeira, visto que o Brasil é um país de maioria cristã. À medida que ela acrescentava publicações detalhando casos específicos — dela e de outros colegas que enfrentam processos éticos por se identificarem online como cristãos, de uma amiga que foi humilhada publicamente em uma universidade, após terem revelado que ela era crente —, o ceticismo dos comentaristas se transformou em hostilidade.
O ponto de virada ocorreu quando um seguidor compartilhou uma captura de tela de um comentário que Lima havia feito no Instagram, respondendo a uma mulher cristã que havia expressado preocupação com a homossexualidade e os direitos humanos. Lima escreveu que um cristão que tem atração por pessoas do mesmo sexo e escolhe o celibato, por motivos de fé, merece que seu terapeuta respeite essa escolha. Os seguidores a acusaram de praticar terapia de conversão — acusação que ela rejeita veementemente.
“Não acredito que exista perseguição religiosa no Brasil”, disse Lima. No entanto, ela nota uma clara intolerância ao cristianismo no campo da psicologia.
O Conselho Federal de Psicologia (CFP), órgão máximo de regulamentação da profissão no país, publicou uma resolução, em 2023, que estabelece a laicidade da área, argumento que utiliza como defesa legal em processos contra psicólogos cristãos. O Supremo Tribunal Federal está debatendo a constitucionalidade da resolução, uma vez que alguns parlamentares buscam fiscalizar entidades profissionais que restringem a expressão religiosa.
Lima já sentiu na própria pele os efeitos dessa resolução.
A Resolução nº 7 proíbe psicólogos de usarem seus títulos profissionais juntamente com quaisquer rótulos religiosos, por exemplo, autodenominando-se publicamente psicólogos cristãos. Eles também não podem mencionar crenças religiosas em anúncios, coagir pacientes a se converterem a outras religiões durante sessões de aconselhamento, nem reforçar preconceitos contra outras religiões.
O CFP afirma que a resolução não impede os psicólogos de expressarem sua fé. “Todo psicólogo, como cidadão, tem plena liberdade para expressar sua fé, sua religiosidade ou sua espiritualidade em sua vida privada e em mídias sociais estritamente pessoais, desde que tais expressões não estejam associadas à promoção de serviços profissionais sob o título de psicólogo”, declarou o conselho em um comunicado à CT. O que a resolução proíbe, segundo argumenta o CFP, não é a crença pessoal, mas sim a publicidade profissional que vincula a psicologia a uma religião.
Embora Lima concorde com partes da resolução, ela acredita que esta vai longe demais, limitando a visibilidade dos cristãos na profissão.
“Se não pudermos nos identificar como cristãos, nos tornaremos menos visíveis. Isso torna tudo ainda mais difícil para os pacientes que desejam se consultar com um psicólogo cristão”, disse Lima. “Alguns cristãos só se sentem à vontade com psicólogos que respeitam sua fé, e eles têm o direito de buscar isso”.
Lima observou que há casos em que pacientes cristãos sentiram seus valores serem ridicularizados no consultório, mesmo quando foram claros quanto à sua moral, como quando psicólogos os aconselham a buscar parceiros sexuais fora do casamento ou a se masturbarem. “Muitos psicólogos acham que é aceitável pressionar a pessoa a ir além de seus valores”, disse ela.
A censura a Lima não se deu por algo que ela tenha feito no consultório, mas sim por causa de suas redes sociais. Em março de 2023, Lima primeiro recebeu uma queixa, registrada no Conselho Regional de Psicologia (CRP), por falar abertamente sobre sua fé no Instagram. O CRP emitiu uma advertência, pedindo que ela apagasse todo o conteúdo religioso de seu perfil na rede social. Ela se recusou a fazê-lo.
“É um perfil pessoal”, disse Lima. “Eu teria que apagar tudo”. Em vez disso, ela negociou: criaria uma conta profissional separada no Instagram, e manteria a conta pessoal intacta. O conselho aceitou.
Mas, então, o CFP emitiu a Resolução nº 7. Lima enfrentou uma nova onda de queixas e, desta vez, o CRP pediu que ela apagasse de seu perfil pessoal uma publicação específica, na qual aconselhava pacientes cristãos sobre como escolher uma abordagem psicológica sem deixar de permanecer fiéis aos seus valores.
Ela se recusou novamente a apagar, observando que a publicação estava em seu perfil pessoal, que ela não a estava usando para atrair pacientes e que não incluíra um link para agendamento. “Se eu apagar essa publicação”, disse ela, “estarei dizendo ao CRP que eles têm o poder de regular minha vida pessoal, minhas redes sociais pessoais. O que acontecerá depois?”
O CRP considerou seu argumento, mas ainda assim pediu que ela assinasse um documento declarando que apagaria a publicação, disse Lima. Novamente, ela não assinou. O próximo passo é um processo formal de ética, que pode levar à perda de sua licença. “Estou esperando o e-mail chegar”, disse ela. “Sei que vai chegar.”
Para lidar com essa preocupação, o senador Magno Malta, pastor evangélico, apresentou em março uma proposta para criar uma iniciativa multipartidária e sem fins lucrativos no Senado, com o objetivo de monitorar e contestar regulamentações de órgãos de supervisão profissional, em particular o CFP, que restrinjam indevidamente a liberdade de psicólogos expressarem sua fé.
Malta argumenta que, embora o Brasil seja um Estado laico, segundo sua Constituição federal, isso não o torna um Estado antirreligioso. Ele acredita que dizer a profissionais para separarem completamente sua fé de seu trabalho é algo que mina sua identidade e não condiz com o preceito da dignidade humana.
Em 2023, o Partido Novo e o Instituto Brasileiro de Direito e Religião argumentaram perante o Supremo Tribunal Federal que a Resolução nº 7 era inconstitucional. O tribunal iniciou o julgamento do caso em sessão virtual, em março de 2026. O único ministro, dentre os 11, a votar até o momento, o relator Alexandre de Moraes, alinhou-se com o CFP, argumentando que a resolução protege os pacientes, e não restringe a liberdade religiosa dos psicólogos. O caso, então, passou para sessão presencial, ainda sem data definida, para chegar a uma decisão final.
O psicólogo clínico, teólogo e pesquisador Aender Borba afirmou em um vídeo nas redes sociais que vê um padrão: “O que o conselho está fazendo não se baseia apenas em fundamentos científicos. É um abuso de poder e a construção de uma narrativa de ódio, especialmente contra os cristãos”.
Borba afirma que existem três problemas com as ações do CFP. Primeiro, o governo não deveria ditar a identidade pessoal de um psicólogo: “A Constituição protege a crença e a expressão. O código de ética proíbe a imposição de crenças aos pacientes, o que é correto, mas não proíbe os psicólogos de terem fé ou de serem crentes fora do trabalho.” Segundo, a resolução cria um estereótipo negativo dos cristãos: “Em vez de julgar apenas aqueles que violam os códigos de ética, o discurso do CFP torna todos os cristãos suspeitos.” Terceiro, a resolução usa a ciência como desculpa para suas ações: “A verdadeira ciência precisa de dados e debate. O sistema falha quando tenta controlar crenças, e não apenas ações.”
O Conselho Federal de Psicologia refutou a acusação de perseguição religiosa institucional. “O sistema do CFP não realiza qualquer monitoramento, perseguição ideológica ou vigilância seletiva de crenças”, declarou o conselho à CT. Acrescentou que as queixas só prosseguem quando há evidências substanciais de violações éticas cometidas na prática profissional — como o uso de técnicas da psicologia sem embasamento científico, o proselitismo de pacientes ou a publicidade de serviços vinculados a preceitos religiosos: “A existência de uma queixa não implica, por si só, em violação ética”.
Como os psicólogos não podem divulgar sua religião em ambientes profissionais, os cristãos podem ter mais dificuldade em encontrar terapeutas que compartilhem de sua fé, o que os impede de obter a ajuda de que precisam.
Laís Cristina, cineasta de 33 anos, vivenciou em primeira mão o apoio que um terapeuta cristão pode oferecer. Criada em um lar evangélico, Cristina teve dificuldades para admitir que precisava de ajuda quando, ainda jovem, começou a sofrer com crises de ansiedade.
“Até eu entender que estava enfrentando problemas emocionais foi um desafio. Como minha fé poderia não ser suficiente?”, ela se lembra de ter pensado. “Fracassar não era aceitável. Quer se tratasse de escolher um curso, uma faculdade ou um marido, havia pressão para ser perfeita. A terapia me trouxe a perspectiva de que essa expectativa era algo diferente da minha fé.”
Sua terapia, que ela chama de “trabalho lento e constante”, não substituiu sua fé, mas a complementou. Quando enfrenta crises de ansiedade, Laís recorre a um sistema de apoio composto de três partes: terapia para seus pensamentos, devocionais para manter a esperança e exercícios para o corpo. “Eu dirigia até a faculdade recitando versículos gravados no meu carro. Eu não teria superado [minha ansiedade] sem a fé. Sem ela, a terapia sozinha não era suficiente.”
A psicóloga de Laís também é cristã e usou sua fé como uma bússola. “Ela não chegou com as respostas, mas me ajudou a entender no que eu acreditava. Ela dizia: ‘Vamos conectar suas decisões à sua fé’”.
Lima concorda que é vital que os pacientes tenham psicólogos que compartilhem de sua fé: “Quando o paciente é cristão, temos a liberdade de trabalhar com seus valores, e isso aumenta muito as chances de sucesso do processo.”
No entanto, psicólogos cristãos também enfrentam críticas dentro da própria comunidade evangélica, disse Lima. Ela observou que alguns evangélicos chegaram a afirmar que a Bíblia é o conselho de Deus, enquanto a psicologia é o conselho de Satanás.
Estudos mostram que cristãos evangélicos são mais propensos a resistir à ajuda psiquiátrica formal, e pesquisas com cristãos que tiveram algum tipo de sofrimento mental revelam que aproximadamente um terço deles recebeu ensinamentos que enquadravam o sofrimento emocional como algo exclusivamente espiritual. Nenhuma grande denominação brasileira jamais emitiu alguma declaração formal contrária à psicologia, mas a resistência tende a ser de caráter pastoral e cultural, e não doutrinário.
Alexandre Sacha, pastor e membro da diretoria da Associação Brasileira de Conselheiros Bíblicos, observou que sua questão não é com a ciência da psicologia em si, mas com a autoridade filosófica que a psicologia reivindica ter para definir os seres humanos, o sofrimento e sua cura.
Enquanto a psicologia analisa o sofrimento humano através de suas causas biológicas, psicológicas e ambientais, o aconselhamento bíblico reivindica uma dimensão espiritual, disse ele. Por exemplo, ele observa que “a depressão e a ansiedade não são meramente entidades biológicas. Você as experimenta no corpo, mas essas experiências têm uma dimensão de sentido em relação a Deus, de resposta ao sofrimento, de esperança. Essas são dimensões que a ciência, desprovida da perspectiva do Criador, não pode abordar com seus próprios recursos”.
A psicologia tem uma visão diferente não só do que é um ser humano, mas também do propósito ou do télos de uma pessoa. A frase “estou melhorando”, um refrão comum na linguagem terapêutica, revela um horizonte limitado, na opinião dele: ela toma como referência o eu de ontem, e não quem a pessoa é chamada a ser. “Todo sistema terapêutico tem uma visão implícita do que são o florescimento humano, a saúde e uma boa vida. A Palavra de Deus estabelece um objetivo diferente: a glória de Deus.”
Ele também discorda daquilo que os psicólogos acreditam ser o agente de mudança. No aconselhamento bíblico, a transformação não vem de uma percepção ou de um mecanismo cognitivo, mas da ação do Espírito Santo, por meio da Palavra.
Lima disse que entende o medo e as críticas contra a psicologia moderna. No entanto, ela acredita que a graça comum, no âmbito da área, pode nos ajudar “a lidar com os efeitos da Queda no mundo. A psicologia possui ferramentas úteis que, se usadas com sabedoria, podem ajudar. É simplista demais descartá-la por completo”.
Enquanto continua a exercer a profissão, Lima não pretende parar de falar abertamente sobre sua fé. Ela disse que, mesmo como estudante de pós-graduação, “já estava disposta a pagar esse preço”. E reconheceu que perder sua licença seria um golpe significativo para seu sustento, mas diz: “acredito que Deus é soberano e proverá”.
Para Lima, essa luta, em última análise, não é sobre ela. É sobre os pacientes cristãos que não conseguem encontrar psicólogos que compartilhem de sua visão de mundo e que acabam ou sem receber atendimento ou se consultando com terapeutas que desconsideram seus valores cristãos.
“Se a preocupação no Brasil é a saúde mental, eu deveria ser apoiada, não perseguida”, disse ela. “Nosso país tem altos índices de depressão e ansiedade. E também tem um número muito grande de cristãos. Algo me diz que essa população não está sendo alcançada.”
The post No Brasil, psicólogos cristãos lutam para expressar sua fé appeared first on Christianity Today em português | Cristianismo Hoje.
