Querem uma fé celebrada na Páscoa, mas calada no resto do ano

Querem uma fé celebrada na Páscoa, mas calada no resto do ano

Na noite em que Cristo foi entregue, o poder civil e o poder religioso fizeram um pacto de conveniência contra a verdade. A Quinta-Feira Santa nos lembra disso. A fé cristã nunca foi apenas consolo íntimo. Ela sempre foi presença visível, palavra pública, culto, memória, comunidade, ensino e testemunho. E é exatamente por isso que…

Na noite em que Cristo foi entregue, o poder civil e o poder religioso fizeram um pacto de conveniência contra a verdade.

A Quinta-Feira Santa nos lembra disso. A fé cristã nunca foi apenas consolo íntimo. Ela sempre foi presença visível, palavra pública, culto, memória, comunidade, ensino e testemunho. E é exatamente por isso que ela continua incomodando.

O problema nunca foi uma fé que existe, mas a que insiste em permanecer sem pedir licença ao poder político.

Querem uma religião emotiva no feriado, decorativa na Semana Santa e silenciosa no resto do ano. Uma fé que console, mas não confronte. Que celebre a Páscoa, mas não fale em praça pública. Que permaneça no coração, desde que não apareça na linguagem, na profissão, nas instituições, na educação, na cultura e na vida comum.

É aqui que o debate atual deixa de ser técnico e se torna civilizacional.

Quando um profissional – como o caso de psicólogos hoje – passa a correr risco por se apresentar publicamente a partir de sua identidade cristã, o que está em jogo não é apenas uma questão corporativa. É algo mais profundo: o direito de a pessoa humana existir inteira.

Quando expressões de fé passam a ser vigiadas, constrangidas ou tratadas como problema, o recado é claro: a religião até pode sobreviver, desde que permaneça confinada. Desde que não organize a vida. Desde que não oriente escolhas. Desde que não apareça demais.

Querem nos enquadrar.

A mesma lógica reaparece quando se tenta reduzir a liberdade religiosa a um fenômeno puramente interior, como se a fé pudesse ser respeitada na consciência e amputada na prática. Mas religião não vive apenas dentro da cabeça do crente. Ela precisa de corpo, culto, comunidade, rito, linguagem, transmissão, organização e proteção.

Uma religião que não pode se expressar no mundo real já não está livre; apenas sendo suportada.

É por isso que as disputas deste momento importam tanto. Por trás de debates jurídicos, institucionais e legislativos, a pergunta real é sempre a mesma: a fé poderá existir em público como convicção legítima ou será tratada como algo que precisa ser tolerado à distância?

Durante muito tempo, no Brasil, repetiu-se “o Estado é laico” como se isso resolvesse tudo. Não resolve. Porque a questão nunca foi apenas saber se o Estado é laico. A questão decisiva é saber qual laicidade está sendo defendida.

Há uma laicidade que protege a liberdade. E há uma laicidade militante, ressentida, que usa a separação entre as ordens como pretexto para hostilizar o religioso. Uma limita o Estado. A outra tenta limitar a fé.

O modelo constitucional brasileiro não foi desenhado para ridicularizar a transcendência nem para empurrar convicções religiosas para a clandestinidade social. A tradição constitucional séria aponta em outra direção: separação entre Estado e religião, sim, mas sem hostilidade; autonomia entre as ordens, sim, mas sem silenciamento da presença pública da fé.

É necessário coerência.

Porque ninguém é verdadeiramente livre quando precisa esconder a dimensão mais profunda da própria consciência para continuar existindo socialmente sem atrito. Ninguém está plenamente protegido quando a espiritualidade é tolerada apenas como assunto íntimo, nunca como força formadora de identidade, linguagem e ação.

A Páscoa torna tudo isso ainda mais visível.

Cristo foi rejeitado porque sua presença desorganizou pactos de poder, expôs hipocrisias e lembrou aos homens que existe uma autoridade diante da qual César não é absoluto.

É por isso que a velha distinção continua tão poderosa: há coisas que pertencem a César, mas há coisas que pertencem a Deus. E quando o Estado, suas burocracias ou seus intérpretes tentam atravessar essa fronteira, o que se inaugura não é ordem. É abuso.

César pode governar. Mas não pode se tornar senhor da consciência.

No fundo, é esta a disputa do nosso tempo.

Não querem apenas regular excessos. Querem, muitas vezes, redefinir o lugar legítimo da fé na vida comum. E o lugar que certos setores parecem aceitar para ela é sempre o mesmo: privado, controlado, discreto, higienizado e impotente.

Uma fé celebrada no calendário, mas expulsa da cultura. Respeitada no discurso, mas constrangida na prática. Admitida como lembrança, mas recusada como presença.

A Quinta-Feira Santa nos chama a não aceitar essa fraude.

Porque o cristianismo não nasceu para ser uma experiência clandestina da alma. Nasceu como verdade anunciada, vivida, ensinada, celebrada e testemunhada diante dos homens.

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A cruz sempre incomodou o poder.

E continua incomodando porque continua lembrando que o poder não é Deus.


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P.S.: Se este texto ecoou em você, compartilhe com alguém que ainda não percebeu que a disputa atual não é apenas jurídica. É sobre o lugar da fé no mundo.

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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