Reforma31 – Dia 06 de 31

Reforma31 – Dia 06 de 31

QUEM TEM A ÚLTIMA PALAVRA SOBRE AQUILO EM QUE VOCÊ CRÊ? Pregação, comunidade, conflito e reforma nos primeiros anos do ministério de Calvino Quando se fala em sola Scriptura, é possível imaginar que estamos diante de uma questão pertencente ao século 16. Afinal, foi naquele contexto que os reformadores se levantaram contra Roma e insistiram…

QUEM TEM A ÚLTIMA PALAVRA SOBRE AQUILO EM QUE VOCÊ CRÊ?

Pregação, comunidade, conflito e reforma nos primeiros anos do ministério de Calvino

Quando se fala em sola Scriptura, é possível imaginar que estamos diante de uma questão pertencente ao século 16. Afinal, foi naquele contexto que os reformadores se levantaram contra Roma e insistiram na autoridade da Escritura. Contudo, o assunto permanece tão importante hoje quanto era na Reforma. O problema é uma questão de autoridade.

No século 16, Roma havia elevado a Tradição e o magisterium[1] ao nível da Bíblia. Nos séculos seguintes, porém, outras vozes foram elevadas ao nível da Escritura, e até mesmo acima dela. O Iluminismo, o liberalismo e, posteriormente, o pós-modernismo produziram novas transferências de autoridade. Ao mesmo tempo, a inspiração, a inerrância e a confiabilidade das Escrituras passaram a ser questionadas até mesmo dentro da igreja.

Diante disso, perguntar quem tem a última palavra não é apenas perguntar o que aconteceu durante a Reforma. É perguntar o que significa sola Scriptura.

A autoridade final

Somente a Escritura não significa que a Bíblia seja a única autoridade que existe. Matthew Barrett chama atenção para essa distinção porque sola Scriptura pode ser facilmente confundida com nuda Scriptura: a ideia de que credos, confissões, tradição e autoridades eclesiásticas não possuem autoridade alguma. Essa não era a posição dos reformadores.

A doutrina de sola Scriptura reconhece outras autoridades importantes para o cristão. Elas devem ser ouvidas e seguidas. Contudo, somente a Bíblia é a autoridade final. Ela rege e governa todas as outras autoridades. Todas as demais precisam estar alinhadas com ela, submeter-se a ela e permanecer subordinadas a ela.

A razão disso está na própria natureza da Escritura. A Bíblia é autoridade porque Deus é seu autor. Sua autoridade não depende do testemunho de um homem ou de uma igreja. Sendo Palavra inspirada de Deus, ela ocupa uma posição que nenhuma autoridade humana pode ocupar.

É precisamente aí que a controvérsia do século 16 se torna tão importante.

A pergunta que Lutero não podia evitar

No início da Reforma, a discussão sobre indulgências conduziu Lutero a uma questão muito maior.

Quando foi confrontado pelo cardeal dominicano Cajetan, Lutero se viu diante da alegação de que o papa possuía autoridade para interpretar a Bíblia e estava acima não apenas dos concílios, mas da própria Escritura. Lutero recusou essa conclusão. Quanto mais a infalibilidade do papado era afirmada, mais ele se apoiava na autoridade da Bíblia.

A questão tornou-se ainda mais clara no debate de Leipzig, em 1519. Ali, Johannes von Eck colocou diante de Lutero o problema decisivo: quem possui autoridade definitiva, a Palavra de Deus ou o papa?

Lutero sustentou que a Bíblia possui autoridade sobre papas, Pais da igreja e concílios, porque todos eles haviam cometido erros. Para ele, somente a Escritura não erra. Assim, a controvérsia sobre autoridade estava diretamente ligada à natureza da própria Bíblia. Se homens e instituições podem errar, mas a Escritura é a Palavra de Deus, nenhuma autoridade humana pode ocupar o mesmo lugar que ela.

Depois de Leipzig, Lutero saiu ainda mais convencido de que a Escritura, e não o papa, era a autoridade última do cristão. Se o papa tivesse autoridade sobre a Bíblia, uma reforma da igreja segundo a Palavra de Deus seria impossível: a palavra do papa poderia sempre prevalecer sobre a Palavra de Deus.

O conflito chegava, portanto, ao seu verdadeiro centro.

Escritura ou tradição?

Seria um erro concluir que os reformadores simplesmente rejeitaram a tradição. Lutero atribuía grande valor aos Pais da igreja e aos concílios quando estes permaneciam de acordo com a Escritura. O problema não era a existência da tradição, mas sua elevação à condição de uma fonte infalível de revelação ao lado da Bíblia. Essa distinção é indispensável.

Os reformadores não estavam propondo um dilema segundo o qual seria necessário escolher entre Escritura ou tradição. Eles sustentavam a supremacia da Escritura sobre a tradição. Pais, concílios e autoridades eclesiásticas podiam e deveriam ser ouvidos; mas poderiam também ser corrigidos pela Palavra de Deus.

Foi exatamente por isso que os reformadores também se opuseram aos movimentos radicais que pretendiam descartar a tradição por completo. Isso já não era sola Scriptura, mas nuda Scriptura. A diferença é decisiva: a Bíblia não é nossa única autoridade; é nossa autoridade final.

Por que somente a Escritura?

Por que a Bíblia deve ocupar essa posição? Não simplesmente porque seja um guia melhor do que outros. Nem porque os reformadores decidiram conceder-lhe uma posição privilegiada. Para Barrett, a base da autoridade bíblica é sua inspiração divina.

A Bíblia é Palavra de Deus. E, porque Deus é verdadeiro e não engana, sua Palavra é verdadeira e confiável. É por isso que inspiração, autoridade e inerrância não podem ser separadas. Se a Escritura pudesse ser colocada no mesmo nível das autoridades humanas, sola Scriptura perderia justamente aquilo que a distingue.

Essa convicção aparece repetidamente na Reforma. Lutero podia reconhecer o valor dos Pais e ainda afirmar que eles poderiam errar. Podia respeitar concílios e, ao mesmo tempo, submetê-los à Escritura. Podia reconhecer autoridades na igreja sem transformá-las em autoridades infalíveis.

A questão, portanto, não é se tradição, igreja ou razão têm algo a dizer. A questão é outra: quando as autoridades entram em conflito, quem tem a última palavra?

Para os reformadores, a resposta estava no coração da própria Reforma. Somente a Escritura, porque somente ela é a Palavra inspirada de Deus, pode ocupar o lugar de autoridade suprema e definitiva para a igreja. Todas as demais autoridades permanecem debaixo dela.

E é justamente por isso que a pergunta do século 16 continua diante de nós.

Quem tem a última palavra sobre aquilo em que você crê?

Para continuar a reflexão

Em Somente a Escritura, Matthew Barrett mostra que sola Scriptura não significa rejeitar toda autoridade além da Bíblia. Significa reconhecer que, por ser a Palavra inspirada de Deus, somente a Escritura possui autoridade final, diante da qual tradição, igreja e todas as demais autoridades devem permanecer subordinadas. Ao longo da obra, Barrett recupera a controvérsia da Reforma e acompanha os desafios posteriores à autoridade, à inerrância, à clareza e à suficiência das Escrituras.

Livro do Dia 6 — REFORMA 31

Somente a Escritura
A autoridade da Palavra de Deus

Nota editorial: Este artigo foi adaptado de Somente a Escritura, de Matthew Barrett, publicado pela Editora Cultura Cristã.


[1] O Magistério da Igreja Católica (em latim: Magisterium) refere-se à função de ensinar que é própria da autoridade da Igreja e que, por isso, deve ser obedecido e seguido pelos demais católicos. (N. do T.)

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Autor

  • Cativo à Palavra

    Projeto Missionário Teológico e Pastoral.

    Para um coração cativo e dedicado ao Senhor.

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